Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

Mostrando postagens com marcador Unicamp. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Unicamp. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de março de 2013

INÍCIO DE INCÊNDIO PÕEM EM RISCO TRABALHADORES, ESTUDANTES E PROFESSORES DO IFCH!



por Gabriel Biro

Na sexta feira da semana passada, mais uma vez a revolta tomou conta do IFCH. Um início de incêndio, devido a um curto-circuito na sala de equipamentos do prédio da pós-graduação, colocou em risco, não só todo o prédio, mas a vida de trabalhadores, professores e estudantes.
Não há duvida para ninguém dos problemas trazidos pela precarização do trabalhado e a terceirização dos serviços em nossa universidade. Não é a primeira vez que nos deparamos com situações catastróficas aqui na Unicamp. Pelo contrario, tem sido cada vez mais recorrente nos últimos anos. Fazendo uma breve retrospectiva temos: incêndio da biblioteca do IEL semanas atrás, alagamento da biblioteca do IEL no final do ano passado, alagamento da biblioteca do IFCH em 2010, destruição de arquivos do AEL em 2009, a biblioteca do IFCH, recém-inaugurada, já tem problemas de vazamento. .
Todos estes aparentes “acidentes” têm responsáveis, nomes e endereços. E o principal deles se chama REItoria, que agora será representado pela “figura carismática” de Tadeu Jorge! Esta REItoria que recebeu milhões com os “super salários”, um fraudulento escândalo de corrupção descoberto ano passado, é a mesma que congelou a contratação de funcionários e passou a terceirizar seus postos de trabalho. Esta política nefasta, unida com o completo descaso, é a causa primeira de cada uma das catástrofes que vem, cada dia piores, assolando a Unicamp, agora colocando vidas em risco, principalmente as faculdades mais precarizadas, como são as de humanas.
No caso do IFCH, por exemplo, restou um, apenas um(!), trabalhador responsável pela manutenção de todo e supervisão de todos os prédios, enquanto todos os serviços de limpeza, que inclusive é uma parte da manutenção, foi terceirizado. Ou seja, uma política direta de precarização do trabalho, onde um trabalhador deve cumprir o papel de uma dúzia, enquanto as trabalhadoras terceirizadas recebem salários miseráveis e sem nenhum direito básico, consideradas uma parte “alheia” a universidade, além de serem submetidas jornadas desumanas de trabalho, nas piores condições que se possa imaginar. Por outro lado as empresas terceirizadas contratadas nas construções não tem a menor responsabilidade com o patrimônio e o dinheiro público, seu objetivo exclusivo é o lucro. Isto para não falar das inúmeras vezes que as empresas terceirizadas falem deixando obras abandonadas e trabalhadores sem salário e emprego por todo o campus, como aconteceu inúmeras vezes aqui no IFCH; ou então dos problemas de saúde e acidentes de trabalho que sofrem cotidianamente os trabalhadores destas empresas. A destruição dos acervos e a ruína da saúde física dos trabalhadores deixam evidente que essas trabalhadoras terceirizadas tem de receber os mesmos direitos de um trabalhador da Unicamp, e ser incorporadas ao quadro de funcionários efetivos da universidade, acabando com a divisão e a precarização do trabalho.
Cada uma dessas catástrofes que vem acontecendo na Unicamp, de inundação a incêndio, não são acidentais, são criminosos! Crimes de uma REItoria corrupta que enche os bolsos dos donos das empresas terceirizadas e precariza o trabalho e as estruturas da universidade.
Quantos incêndios mais serão necessários? Quantas inundações? Quantas vidas em risco? O movimento estudantil precisa levantar uma campanha urgente contra esta política nefasta de REItoria, dando uma solução de uma vez por todas para isto! Junto aos trabalhadores efetivos e terceirizados podemos impor a contratação de novos funcionários, a expulsão das empresas terceirizadas, e a incorporação imediata dos trabalhadores terceirizados,  sem a necessidade de concurso publico!
Convocamos os estudantes do IFCH e o CACH a construir, assim como fizemos em 2010, uma ampla campanha unificada contra a precarização das estruturas e do trabalho no IFCH!

quarta-feira, 20 de março de 2013

Panfleto sobre os casos de homofobia na festa do Babado de Verão no IFCH





CONTRA TODA FORMA DE OPRESSÃO! AUTO-ORGANIZAÇÃO!



“We are the Stonewall Girls.                     “Nós somos as meninas de Stonewall.
We wear our hair in curls                        Nós usamos nosso cabelo em cachos.
We wear no underwear                    Nós não usamos nenhuma roupa íntima
We show our pubic hair                        Nós mostramos nosso pelos pubianos
We wear our dungarees                                       Nós usamos nossos macacões
Above our nelly knees!”                                  Acima dos nossos joelhos nus!”
 

Esse foi o grito que ecoou quando drag queens, transgêneros, lésbicas e gays se levantaram contra a polícia, que xs agredia diariamente; contra o limite, a repressão a opressão de gênero, contra a sociedade patriarcal e heteronormativa, na revolta de Stonewall, em 1979.
A festa do babado? Uma forma de resistência, de uma luta pela libertação, uma noite na qual as sexualidades e os gêneros dançam, cantam, se beijam. Mas o que vivenciamos foi o ataque de grupos homofóbicos organizados, um ataque ao setor LGTTBI e ao movimento estudantil, que culminou no fim da festa e várias pessoas agredidas física e moralmente. A presença de grupos como esse não é por acaso em um sistema no qual Feliciano, declaradamente racista, machista e homofóbico, assume a Secretaria de Direitos Humanos e Minorias, onde Dilma na presidência usa a legalização do aborto como moeda de troca e condena a morte milhares de mulheres, onde na Grécia o Aurora Dourada, partido neo-nazista e terceira força política, direcionado aos homossexuais se pronuncia “depois dos imigrantes, vocês são os próximos”, onde na França 800 mil pessoas vão as ruas contra o casamento igualitário, onde a vida das mulheres e dos LGTTBI é precarizada pela terceirização do trabalho e onde a polícia, braço armado do estado burguês, assassina a população negra e as travestis.
A ação destes grupos homofóbicos, cada ato de violência aos indivíduos que estavam naquela festa, é mais do que uma violência individual, é um ataque a todas as lésbicas, gays, transexuais e travestis, é um ataque a todo jovem que quer expressar sua sexualidade livremente. Mais que isso, é um ataque a todo o movimento LGTTBI de conjunto e seus distintos grupos políticos, e assim, um ataque também ao movimento estudantil, em particular do IFCH.
Não podemos permitir que nenhum jovem seja agredido por querer expressar sua sexualidade livremente. Só podemos barrar esses ataques a partir de nossa auto-organização. Não podemos confiar na REItoria, já que ela se cala frente ao acontecido, e torce para que fiquemos acuados e não realizemos mais festas dentro do campus, uma vez que essas vão contra o projeto de universidade elitista, racista, machista e homofóbica defendida por eles. A mesma reitoria que se cala frente aos casos de machismo e a violência homofóbica, mantém e colabora com isso na medida em que fomenta a terceirização, que é uma forma de trabalho majoritariamente feminino que superexplora e violenta; na medida em que permite que setores como o “Pró –Vida” façam uma campanha reacionária chamando de assassinas e nazistas todas aquelas que lutam pela liberdade sexual das mulheres, pela legalização do aborto e contra a morte de milhares por ano por fazê-lo clandestinamente. Reitoria que se cala frente à opressão é a mesma que esta punindo estudantes por se manifestarem contra ela. E que terá um de seus quatro agentes-candidatos eleitos este mês para continuar o trabalho sujo do governo e da patronal homofóbica dentro da Unicamp.
Essas festas são o único momento no qual a universidade se abre, se abre para os 96% da juventude que está fora dela, cujo direito a uma educação pública e de qualidade é retirada pelo filtro social que é o vestibular, oferecendo minimamente cultura, arte e lazer em um espaço público. Uma vez que os governos tem uma política consciente de acabar com os espaços de socialização da juventude para que esta fique restrita ao trabalho, sem desenvolver suas capacidades culturais.
Nesse sentido, total confiança nas nossas próprias forças, o movimento estudantil independente precisa se organizar para lutar contra a opressão com uma política de abrir a universidade para a população, pelo fim do vestibular, que nos unindo com os jovens e trabalhadores que estão de fora, para impedirmos mais agressões, impedirmos que esses grupos homofóbicos tenham a liberdade de acabar com as festas, de proliferar a poeira de sua ideologia machista e homofóbica. Sem nenhum ceticismo nas nossas próprias forças auto-organizadas. É necessário levantarmos esse debate de maneira ofensiva nos espaços do movimento estudantil para que mais estudantes se somem as nossas vozes criando assim uma politização que contribua para não permitirmos qualquer manifestação opressiva.
Nós estávamos na festa e fizemos parte de um grupo tirado para a autodefesa, mas é preciso que muito mais pessoas se incluam, que as organizações de esquerda se prontifiquem para impedir esses agressores, chamamos a todos nessa luta. Com a autodefesa, não haverá nenhum agredido mais! Retomemos o exemplo de Stonewall, se levantando contra a violência com a moral do oprimido subverto que nunca mais vai aceitar que alguém o cale, o agrida e o oprima!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

JUVENTUDE ÀS RUAS CONVIDA PARA GRUPO DE ESTUDOS "IDEIAS DA REBELIÃO"!

Por Juventude  Às Ruas - UNICAMP

LIVRO: "IMPERIALISMO, FASE SUPERIOR DO CAPITALISMO", de Lênin, um dos dirigentes, junto a Trotsky, da Revolução Russa de 1917.

Chegando próximo ao quinto ano da crise mundial, o capitalismo prova que não é capaz de superar essa crise, criada e cavada com seus próprios pés, a não ser que a descarregue nas costas dos trabalhadores. Os trabalhadores de vários lugares do mundo, porém, começam a se levantar e deixar claro que não permitirão mais ataques, não pagarão por essa crise, como os mineiros da Espanha que saem às ruas contra os ataques de Rajoy, ou os mineiros africanos que continuam em luta mesmo após serem acusados pelo assassinato de seus próprios companheiros, mortos pela polícia. Nacionalmente, atravessamos uma longa greve das universidades federais, vários setores do funcionalismo público também pararam, além das ameaças de demissão em massa nos metalúrgicos e possíveis greves e paralisações para esse segundo semestre, o que mostra que o Brasil não está blindado contra esta crise.

Frente à essa conjuntura nacional e internacional, se faz imprescindível que retomemos os clássicos do marxismo revolucionário, tendo em vista que a atualidade de suas lições mostram ser ele a única resposta e saída revolucionária dessa crise. Estudar o imperialismo, essa fase do capitalismo em que vivemos, a fase dos monopólios e capital financeiro, é essencial para que entendamos as raízes da crise mundial e para compreendermos e avançarmos para superação desse sistema de miséria e exploração que vivemos!

QUE OS CAPITALISTAS PAGUEM PELA CRISE!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Direto de Madri, notícias de "La Marcha Negra" dos mineiros de todo Estado Espanhol que lutam corajosa e firmemente por suas reivindicações

Por Danilo Magrão - estudante de Ciências Sociais da Unicamp, militante da Juventude ÀS RUAS e da LER-QI



Agora são 3 hrs da manha em Madri. Acabo de chegar da Plaza del Sol. Hoje vi os mineiros do Estado Espanhol entrarem pelo arco do triunfo em Madri, com dezenas de milhares de vozes cantando seu belíssimo hino de proteção, Santa Barbara. Percorreram 400 km a pé, saindo de varias partes do pais para se encontrar na capital espanhola. A luz do Palácio de Calão era feita por centenas de pequenas lâmpada acopladas em capacetes. Fogos, bandeiras, cantos por toda parte. A cidade não dormiu para receber aqueles que são, segundo eles próprios, seus verdadeiros campeões. As pequenas luzes, a frente da cabeça, se multiplicaram, iluminaram desafiando a noite que pretende perpetuar Rajoy e toda a banca européia. Muitos choravam e a cada passo o grupo dos mineiros, com o rosto marcado pelo cansaço, era aplaudido com o mais profundo entusiasmo, e esses tiravam seus capacetes iluminados como quem agradece a receptividade do anfitrião. Mais lágrimas, mais fogos. La Marcha Negra, como foram chamados, entrou e desfilou sob Madri, com suas bandeiras de cada província levantadas receberam uma homenagem que sem dúvida ficará marcada no tempo. Em cantos chamam os inimigos à guerra, estão dispostos a fazer de tudo para vencer. Passaram ao meu lado com punhos cerrados e estendidos, e eu, espectador desse momento particular, também em lágrimas, mais do que nunca na minha curta vida, me convenci que faremos história ao seu lado.

terça-feira, 12 de junho de 2012

As eleições do CAECO e a necessidade de construção de um novo Movimento Estudantil

Intervenção da Juventude Às Ruas! para as eleições do Centro Acadêmico de Economia da Unicamp, no qual propomos abrir uma reflexão política com o conjunto dos estudantes sobre  projeto de universidade burguês e o papel da juventude em aliança com os trabalhadores de subverte-lo. Quais são as tarefas colocadas para uma gestão de CA na Unicamp, umas das universidades de excelência para a burguesia? É necessário um novo tipo de movimento estudantil diante do cenário nacional de greve das federais, e os diversos processos de repressão e punições aos lutadores nas estaduais paulistas.




No Brasil onde apenas 14% dos jovens de 18 a 24 anos cursam o ensino superior e 75% desses estão nas faculdades privadas. Para quê servem as universidades públicas brasileiras? Universidades de “excelência” e de “democratização do acesso ao ensino superior” ou de precarização?


Dois acontecimentos recentes marcaram o movimento estudantil brasileiro: a greve ainda em curso das universidades federais – a maior mobilização conjunta das universidades em cerca de 30 anos, são 49 de 57 universidades mobilizadas- e a greve contra a repressão na USP no ano passado. Mobilizações que se enfrentam com as duas faces do ensino superior público brasileiro. Os exemplos da díade da educação para os capitalistas: bolsões de formação de mão-de-obra barata de um lado, e de outro, um polo de excelência elitizado.
 De um lado está a faceta do REUNI, de expansão e “democratização do acesso” ao ensino superior, com o surgimento de novas universidades federais e novos campi, mas com a contradição de uma expansão baseada na precarização e na terceirização do trabalho, propulsor do que estamos observando hoje nas greves: universidades sem infraestrutura mínima para as aulas e sem projeto de permanência estudantil, sem bibliotecas, sem moradias e restaurantes universitários gratuitos, com precarização da atividade docente – o governo criou uma categoria de professor associado que o piso salarial é de 923 reais, os salários da categoria de professores tem grandes discrepâncias regionais e os funcionários efetivos também com salários desvalorizados. Do outro, a USP enquanto um projeto de universidade de excelência, cada vez mais privada e elitista, entrando para os rankings internacionais de melhores universidades e estabelecendo relações com grandes empresas multinacionais, assim como na UNICAMP, a contrapartida da "excelência" na USP é o avanço na terceirização que se mostra hoje como um dos pilares desse projeto de universidade num país semi-colonial e dependente dos grandes monopólios imperialistas como o Brasil.
Nesse sentido, a universidade pública, é reflexo da estrutura atrasada de um país de capitalismo tardio e servil, incapaz (fundamentalmente na atual época histórica do capitalismo, o imperialismo), de completar o processo de democratização plena do acesso a educação pública, gratuita e de qualidade da creche ao ensino superior; o filtro do vestibular e a profunda exclusão dos negros e pobres da universidade pública escancaram o seu caráter estrutural elitista, racista e excludente. Porém esse caráter entra em contradição com um Projeto de País Lulista/Dilmista que impõe, para atender aos interesses dos grandes monopólios imperialistas (e de setores da burguesia nacional – FIESP, CNI), a necessidade de expansão radical da formação de mão de obra especializada e barata, ao mesmo tempo em que um “país potência” e que “avança” para os interesses privados, exige que se desenvolvam novos projetos inovativos para a grande indústria nacional (em especial a Petrobras – Pré-Sal) e para atrair investimento estrangeiro em tecnologia de ponta a que levaria ao “desenvolvimento e autonomia” do país. Dessa forma, o “Brasil potência” está imbricado na universidade pública em todo o processo de expansão precarizada via REUNI, que cumpre o papel de uma formação mais ampla de mão de obra técnica, e nas universidades de excelência que são polos nacionais da inovação, a função de geração de mão de obra altamente capacitada para as grandes transnacionais e órgãos do governo.
Ambos os projetos, também possuem como um de seus pilares, a privatização da universidade que se evidencia nos cursos pagos em universidades como a USP e UNICAMP, em cortes de vagas para os cursos “menos produtivos” e com menor “demanda do mercado”, estruturas pedagógicas voltadas à formação especializada direcionada às necessidades do “mercado de trabalho”, o que ideologicamente se reverte para os interesses privados e não para as necessidades dos trabalhadores e oprimidos, na perspectiva de resolver  os problemas brasileiros. O REUNI e as universidades de excelência não podem ser concebidas sem combinarem precarização do trabalho, cuja terceirização que divide e semiescraviza a classe trabalhadora (tanto na construção civil quanto nos serviços básicos da universidade como limpeza, segurança, alimentação) é a face mais bárbara, com uma série de demais ataques aos trabalhadores da universidade, como as punições e demissões políticas aos lutadores, repressão ao movimento estudantil, desvalorização salarial e quebra de isonomia, além da precarização do trabalho docente.

A Unicamp entre as 100 melhores do mundo localizada no Vale do Silício brasileiro

O site da Unicamp de quinze dias atrás trazia como destaque duas matérias: a primeira que de acordo com a agência londrina Times Higher Education a Unicamp se localiza entre as 100 melhores universidades do mundo, em 44º lugar; a segunda de uma matéria no jornal Folha de São Paulo de um executivo estadunidense dizendo que pela concentração de indústria, conhecimento e pelo potencial inovador dos pesquisadores da Unicamp, esta seria comparada ao Vale do Silício nos EUA.
Nos últimos anos temos visto o aprofundamento do projeto de universidade de “excelência” da Unicamp que no seu entorno terá dois parques tecnológicos com empresas e multinacionais instaladas, tais como P&G, Santander, entre outras; agências de inovação como a INOVAUnicamp e pesquisas sendo patrocinadas por empresas estrangeiras e nacionais, no IE, dentre muitos outros. Sabemos que a Vale S.A. encomendou uma pesquisa em 2010 ao NEIT. Outro aspecto, da privatização do espaço público da universidade além do conhecimento gerado por ela, se mostra na Unicamp, pelo aluguel de salas de aula para cursos de extensão pagos, como ocorre no IE, para cursos voltados às finanças corporativas. É conhecimento gerado com um esforço social, mas com uma apropriação privada. A prioridade destes projetos se reverte em precariedade para os trabalhadores e estudantes e em maior controle, repressão e punição a estas categorias que se coloquem contra este projeto: com o sucateamento das políticas de permanência estudantil – moradia estudantil e bandejão-, com precarização que significa a falta de funcionários nos diversos institutos que são substituídos por estagiários (o IE não está fora desse processo), e a terceirização de serviços de limpeza, alimentação, segurança e construção civil. Este último, já foi alvo de denúncias pelas péssimas condições de trabalho impostas aos trabalhadores que não possuem locais adequados para descansarem e almoçarem que fazem coro com a precariedade que envolve o processo de terceirização em geral.
A UNICAMP está se tornando um verdadeiro canteiro de obras, cuja principal construtora, a Delta, é uma das principais envolvidas no escândalo de corrupção “Cachoeira” que revela ligações espúrias da reitoria, governo do estado e prefeitura de Campinas com a lama da corrupção da burguesia brasileira. É preciso desmascarar o verdadeiro caráter dessas obras, dentro do projeto de “Unicamp de excelência” que visa projetar a universidade internacionalmente e incentivar pesquisas com novos laboratórios, visando investimentos privados das transnacionais que buscam na região Metropolitana de Campinas, altos lucros e uma mão de obra especializada e de alto nível técnico.

E o IE nesse projeto?

O IE é um dos institutos mais importantes da Unicamp dentro da função de uma universidade para a burguesia do ponto de vista de peso em decisões políticas, de geração de pesquisa e conhecimento e de formação de dirigentes da burguesia a nível federal e estadual e pesquisadores cujas análises são  fundamento para as políticas públicas adotadas a nível municipal, estadual ou federal. Dilma Rousseff, José Serra, Aloizio Mercadante, Mariano Laplane, Marcio Pochmann, professor e pesquisador do CESIT, ex-presidente do IPEA, hoje é o atual candidato à prefeitura de Campinas pelo PT, partido que já se envolveu em escândalos de corrupção na cidade.
 Dessa forma vemos a ligação estreita entre a teoria econômica e as políticas pensadas para as grandes empresas estrangeiras (por meio dos parques tecnológicos) e para o Estado burguês brasileiro. Projeto este defendido por uma parcela de professores do IE, os mesmos que elaboram e/ou assessoram as políticas sociais, industriais e de inovação e tecnologia do governo Lula/Dilma e que defendem o projeto de país da terceirização e do alinhamento com os interesses dos grandes monopólios imperialistas.

As marcas da universidade do Brasil potência: resquícios da ditadura e profunda precarização do trabalho

A implementação de um projeto de “universidade de excelência” atendendo a níveis internacionais num país dependente como o Brasil só pode vir com ataques, repressão e punição “com mãos de ferro” ao movimento dos trabalhadores e ao movimento estudantil que se colocam numa perspectiva contrária a privatização, a precarização do trabalho e das condições de estudo e a elitização da universidade. Nesse sentido a estrutura anti-democrática herdada da ditadura tanto no que tange ao código que pune os estudantes – na Unicamp temos um artigo do regimento sempre utilizado pela reitoria em punições que é cópia do AI-5- quanto às estruturas de decisão da universidade – seja numa instância mais próxima com as congregações de institutos e faculdades; seja a nível da universidade como um todo, com o CONSU (Conselho Universitário órgão de deliberação máxima com  70% de representação para professores e o restante divido igualmente entre funcionários e estudantes)- é a garantia de que os ataques com privatizações, reestruturação de carreira, acordos com a burguesia internacional e nacional sejam decididos pela maioria da burocracia acadêmica, cujos interesses estão estreitamente atrelados ao de empresas e governos – a já citada relação da Delta com as construções e compras de terrenos pela Unicamp são exemplos disso.
Na USP, por exemplo, um comitê de estudantes, professores, trabalhadores e parentes de mortos e presos políticos da ditadura está organizando uma Comissão da Verdade da USP para investigar as ligações da USP e de sua reitoria com a ditadura, questão que levanta a necessidade de uma ampla campanha contra a repressão e por democracia na universidade.
Os resquícios da ditadura vão mais além, a implantação de uma base da polícia militar na USP, a presença de policiais militares fazendo ronda tanto na USP como na Unicamp e entrando no campus para reprimir mobilizações estudantis e de trabalhadores, nomeando ex-coronéis para fazerem um plano de segurança para a USP. A polícia cumpre um papel central e estrutural num país onde a desigualdade social é gigantesca e a luta de classes está latente, inclusive na universidade.

As mobilizações internacionais e a crise econômica: cenário que nos coloca desafios e reflexões

Embora o epicentro da crise seja na Europa, os ventos de todas as manifestações europeias e da juventude árabe tem atingido a América. Com a mobilização da juventude chilena por uma educação pública e gratuita, com o movimento Ocuppy WallStreet nos EUA, a juventude em Quebéc no Canadá fazendo mobilizações que chegaram a 300 mil pessoas contra o aumento de 82% que o governo queria aplicar na mensalidade das universidades e no México, onde todo descontentamento com a situação nacional e as relações dos presidenciáveis com a mídia fez com que explodisse uma grande mobilização da juventude.
A juventude e o movimento estudantil vem adquirindo uma grande importância no cenário internacional, ao contrário do que se dizia, de uma juventude perdida, mas o que se vê é uma juventude que se mostra como um importante ator político, se colocando numa perspectiva de mudança. Nesse cenário, qualquer discurso acerca da passividade, neutralidade e impotência da juventude não pode resistir à prova. No Chile e no Canadá – considerado um país de primeiro mundo e países exemplo para o Brasil - as mobilizações estudantis colocam um cenário de crise para o padrão de educação neoliberal, de sucateamento e privatização completa da educação, transformando-a em mercadoria, se colocando por uma educação pública e gratuita e contra aos aumentos abusivos nas mensalidades estudantis. No México, o que está colocado é um cenário de crise nacional na campanha presidencial ainda em curso, a relação de um dos candidatos com a mídia burguesa do país foi o estopim para a mobilização juvenil e estudantil contra um projeto de país completamente dependente, com elevado número de desempregados, de trabalhos precários, combinada com a brutalidade da polícia, dos feminicídios – os assassinatos brutais às mulheres são comuns nas cidades mexicanas- e do narcotráfico.
Em todas essas mobilizações o Estado não falhou, reprimindo exemplarmente, prendendo estudantes, inclusive assassinando-os (no México, um estudante foi morto numa outra mobilização) inclusive em país tidos como exemplos de “desenvolvimento” como no Canadá, onde 700 estudantes foram presos no final de abril desse ano. A polícia aparelho repressivo do Estado burguês e pilar de sustentação deste, mostra toda a sua necessidade em momentos de acirramento de lutas de classes internacionalmente.

Qual é então, diante desse cenário, o projeto e a função da gestão um centro acadêmico?

Nesse sentido, partindo daquilo que temos como cenário internacional e nacional e de projeto de universidade, para nós da Juventude às Ruas o CAECO deve sim se colocar e ser a contracorrente de todo esse projeto, propondo e discutindo junto aos estudantes e trabalhadores uma alternativa que se contraponha a esse projeto visando, nesse cenário cada vez maior de polarização, que não há mais espaço para o discurso do “apolítico” e do “apartidário”: há que defender a democratização radical da universidade, e não aquela feita nos moldes do REUNI, para que todos possam ter acesso a um ensino superior de qualidade, para que a juventude pobre não tenha que se endividar para pagar por uma educação completamente precarizada nos grandes monopólios como Anhanguera, lutando pelo fim do vestibular e pela estatização das universidades privadas, e ajudando, com clareza política, que toda a juventude que está fora da universidade seja sujeito estratégico para a garantia do direito elementar de cursar o ensino superior, ligando-nos à juventude secundarista e dos colégios técnicos.
Democratização não apenas do acesso, mas também da estrutura de funcionamento da universidade. O corpo de burocratas parasitas das Reitorias e Conselhos Universitários, que governam a universidade para a burguesia com os regimentos de 1972 da ditadura militar, tem de ser eliminado. A gestão da universidade deve ser realizada por professores, trabalhadores e estudantes num governo tripartite e de maioria estudantil, deve ser de fato democrática, como uma conquista elementar da democracia burguesa: cada cabeça um voto é condição necessária para se voltar o conhecimento gerado na universidade e seu espaço de fato para os interesses da maioria da população, do conjunto da classe trabalhadora, dos negros, pobres e oprimidos.
Nesse sentido, o CAECO deve se colocar firmemente contra a punição e repressão aos trabalhadores e estudantes em luta, como no caso dos processados da USP e da Unicamp e em defesa e solidariedade ativa a esses lutadores, mostrando ao conjunto dos estudantes essa necessidade urgente.
Diante do cenário de precarização e de ataques aos trabalhadores e estudantes, de terceirização do trabalho, acreditamos que o centro acadêmico tenha que dar a resposta apoiando ativamente os trabalhadores, suas mobilizações, se colocando contra a terceirização do trabalho e pela efetivação dos terceirizados sem concurso público porque esses trabalhadores já mostram que são capazes de cumprir suas funções diariamente.
Como mostram as mobilizações internacionais desde o Egito onde a juventude desempregada e faminta junto aos trabalhadores saiu às ruas por democracia derrubando a ditadura de Mubarak, assim como em maio de 1968 e no Cordobazo* na Argentina que já faz 43 anos, nos quais a juventude se colocou firmemente ao lado dos trabalhadores para responder aos ataques dos governos numa aliança combativa que deve ser exemplo de como a juventude deve se colocar em luta, tento em perspectiva que seus interesses não podem se descolar do conjunto da sociedade partindo de um questionamento profundo da opressão do sistema capitalista. No Chile, a juventude percebeu que era preciso ir por mais, chegando até o questionamento da herança da ditadura pinochetista e toda a sua estrutura repressiva, em Quebéc e no México, a repressão do estado burguês neoliberal não é diferente e impõe aos jovens desafios ainda maiores. No Brasil, que ainda carrega as marcas de sangue da ditadura em suas instituições e na Universidade pública, estes desafios só podem ser respondidos por meio da aliança operário-estudantil e com o povo pobre. É nessa perspectiva e  inflamados pelas mobilizações internacionais e no Brasil, nas greves dos trabalhadores da construção civil e nas greves dos professores e estudantes das federais contra a precarização, que a Juventude às Ruas atua na universidade, e que convidamos os estudantes do IE a uma profunda reflexão sobre o papel da Universidade e fundamentalmente, do potencial da juventude de transformação junto a classe trabalhadora.

É fundamental que os estudantes do IE tenham expressado em seu C.A. o ímpeto de colocar seu conhecimento, e todo aquele que é produzido neste instituto, não a favor dos grandes monopólios e seus governos fantoches, como propõe os diretores e burocratas acadêmicos, mas sim a serviço da população e da juventude, dos trabalhadores e estudantes, para que encontrem em suas próprias forças uma saída independente e revolucionária para a crise do capitalismo.

*Veja mais sobre o Cordobazo na Argentina nos links: http://www.pts.org.ar/spip.php?article17846; http://www.tvpts.tv/Giro-a-la-Izquierda-Especial-sobre-El-Cordobazo

sábado, 9 de junho de 2012

Moção de Solidariedade aos Estudantes em Luta da UNIFESP


A Juventude Às Ruas vem através desta moção expressar sua total solidariedade a luta do movimento estudantil da UNISFEP e nosso total repúdio a reintegração de posse da reitoria ocupada desta universidade, executada pela policia militar.
Os estudantes da UNIFESP que já estavam em greve por reivindicações legítimas agora se encontram com uma greve generalizada das universidades federais, que lutam também por melhores condições de estudo em suas universidades. Enquanto isto as universidades estaduais paulistas encaram uma brutal repressão do governo estadual, com estudantes e trabalhadores presos e processados por travarem suas lutas contra o atual projeto de universidade burguês que avança a cada dia.
No estado de São Paulo, seja na USP, na Unicamp, na Unesp e agora, na UNIFESP, o governo estadual vem utilizando da repressão dura e violenta, restringindo a já esqueça democracia nas universidades, para aplicar seus ataques de precarização e privatização. A entrada da policia dentro dos campos universitários tem se tornado uma pratica cada vez mais recorrente. Policia esta que reprime cotidianamente os jovens negros da periferia, expulsam moradores de suas e casas e reprimem greves e mobilizações de trabalhadores em todo o país.
Nossa solidariedade e nosso repudio vão no sentido de unificar nossas lutas contra repressão e contra os ataques a universidade. A atual estrutura de poder baseado na burocracia acadêmica, no conselho universitário e nos órgãos de deliberação antidemocráticos – 70%, 15% e 15% - é um pilar de sustentação dos interesses da burguesia dentro de nossas universidades, garantindo a exclusão social, a repressão e adequação da educação aos seus interesses de classe. Nossa luta pela transformação da universidade e da educação no Brasil deve questionar a atual estrutura de poder para construir uma gestão democrática que garanta os interesses da juventude e dos trabalhadores.

-Todo apoio a luta dos estudantes da UNIFESP e de todas as federais!

-Fora policia da UNIFESP, das universidades, dos morros e favelas!

-Que as Universidades Estaduais Paulistas se unifiquem com a greve das Universidades Federais e a luta contra a repressão na UNIFESP.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A falácia do “combate” de Dilma aos bancos privados

Por Flávia Ferreira, estudante de economia da Unicamp e Iuri Tonelo, mestrando em sociologia da Unicamp – militantes da Ler-qi

                (Dilma e o empresário Eike Batista em evento no RJ)
Resposta de Dilma à crise é a “defesa da nossa indústria e do modelo de desenvolvimento aberto ao capital estrangeiro”, ou seja, avanço da precarização e da dependência do país ao capital financeiro e aos grandes monopólios.
O espectro de turbulências advindas da recessão sincronizada em curso no cenário internacional assombram, como um fantasma, o devaneio burguês de afirmação do Brasil como uma potência. Existem importantes contra-tendências ao “Brasil que avança” no plano externo e interno, que revelam a fragilidade do país, reforçando seu caráter atrasado e semicolonial, preso na rede financeira das grandes potências. Assim, os ritmos da economia brasileira são ditados pelo pulsar da economia mundial, dos países imperialistas e seus monopólios.
Os fluxos de capitais vindos dos países imperialistas os quais permitem a valorização do real e expansão da oferta de crédito, o ritmo das importações de matérias-primas pela China e a crise na Zona do Euro (com países como a Espanha com 24,4% de desemprego), além do ritmo lento de recuperação da economia norte-americana, são algumas das principais questões chave na conjuntura econômica internacional, que começou a impactar (ainda indiretamente) a economia brasileira.
É dentro desse contexto que devemos analisar as últimas medidas de Dilma e, tendo em vista a economia mundial como determinante de suas partes. Assim, podemos observar com profundidade quão insuficientes e débeis são as políticas do governo Dilma e do petismo, que esbarram em limitações estruturais do Brasil, e interesses de classe, já que servem à burguesia e ao capital financeiro e nem de longe respondem às necessidades mais profundas dos trabalhadores.
Assim, tendo em vista que a crise não atingiu o Brasil com a mesma intensidade dos países da Zona do Euro e os EUA, Dilma e seu governo podem assumir sua figuração petista (tão apreciada pela intelectualidade decadente de “esquerda”) de “choque com os bancos”. Essa postura, junto a um conjunto de medidas paliativas, mascaram os reais interesses do governo, com medidas preparatórias para um cenário mais Crítico, já inegável mesmo para o governo [1] – num marco de um país envolto a um mar de obras e construções para a realização da Copa do Mundo e as Olimpíadas, embasados no trabalho precário.
Estabidade lulista-dilmista é parteira de crises mais profundas
Se é verdade que a conjuntura econômica do Brasil não aponta evidências diretas de impactos da crise no país como vem ocorrendo nos países da Zona do Euro, também podemos inferir que é suficiente para mostrar alguns problemas cujas respostas e soluções não enfrentam as contradições estruturais do país e implicam em descarregar os custos da crise mais uma vez sobre as costas do povo explorado e oprimido. Apesar do discurso do governo Dilma e do PT de que estaríamos a caminho do “pleno emprego” (segundo a formulação keynesiana o “pleno emprego” é o nível de desemprego no qual só há desemprego conjuntural, em torno de 6%), – e de fato, o Brasil desde os anos 1980, nunca apresentou taxas tão baixas de desemprego -, é preciso discutir, qual a qualidade desses empregos e se estes não estariam fundados num vigoroso ataque aos direitos da classe operária, via aumento do número de postos de trabalho precarizados ligados ao crescimento econômico da Era Lula/Dilma. Isso se traduz no fato de que cerca de 70% dos novos postos de trabalho com registro em carteira, nos últimos anos, remuneram de 1 a 2 salários mínimos, segundo o CAGED.
A forte precarização no trabalho não é o único fator de vulnerabilidade. O recente desempenho favorável das exportações de produtos básicos [2] é impulsionado pela forte demanda por matérias-primas: insumos para o consumo e, fundamentalmente, para a produção industrial da China (“fábrica do mundo”) e do sudeste asiático. Demanda esta que provocou a valorização das commodities nos últimos dez anos.
Essa conjuntura internacional favorável aos grandes latifundiários da agroindústria nacional e estrangeira ocorre em detrimento das exportações de produtos manufaturados e reforça a tendência à concentração da pauta de exportações do país em produtos básicos (cerca de 65% – 2010 UNCTAD) e, ao mesmo tempo, encarece o preço dos alimentos no país, que se destinam preferencialmente para o mercado externo. Oscilações mais importantes nos preços das commodities, como já embrionariamente começa a se desenvolver [3] , diante da recente desaceleração da economia chinesa, podem produzir efeitos bastante críticos na economia brasileira.

A respeito do tão falado acesso ao crédito, como saída do petismo à crise e incentivo a indústria via consumo a prazo de bens duráveis, como veículos, eletrodomésticos e celulares, podemos identificar um ponto central da vulnerabilidade política da proposta por Dilma. A tendência de aumento no endividamento dos brasileiros, que contraíram grande volume de dívidas de curto e longo prazo, também é fator que preocupa a recuperação dos níveis de consumo e produção no país para os próximos períodos. As famílias estão com dívidas maiores de prazo mais longo, puxadas pelo financiamento imobiliário – programa Minha Casa Minha Vida – e compra de veículos pela via do crédito, que passou por um forte boom em 2010, mas hoje as empresas do setor acumulam altos níveis de estoque. Ou seja, pelo menos 42% das dívidas das famílias serão quitadas no longo prazo e o restante são dívidas de curto prazo, sendo que boa parte destas se destina à compra de produtos de necessidade básica (via cartão de crédito e crédito pessoal consignado principalmente), característica da precarização da vida e do trabalho que força os trabalhadores que ganham um salário de miséria a recorrerem ao crédito caro de curto prazo para comprar alimentos, roupas, entre outros produtos, os quais deveriam ser garantidos por um salário digno. Tais níveis de endividamento serão difíceis de serem sustentados, sem importantes contradições, diante do trabalho precário e da alta rotatividade do trabalho, num cenário de estagnação econômica e de alta no desemprego.
A política de juros de governo: a redução do spread [4] é uma guerra de Dilma contra os bancos?
Por que as taxas de juros no Brasil são as maiores do mundo? O Brasil para poder competir com países avançados, no que tange aos fluxos de capitais e investimentos financeiros, precisa “estruturalmente” elevar suas taxas para atrair capital e financiar sua enorme dívida pública, assim como a política de crédito ao consumidor. A taxa de juros real brasileira ainda é umas das mais elevadas do mundo, os bancos privados financiam os déficits do governo já que são remunerados por uma taxa de juros atrativa e com baixíssimo risco. Os bancos focam seus lucros nos títulos da dívida do governo constituindo os maiores detentores desses títulos, assim não tem interesse, grosso modo, num aumento no volume do “crédito barato”, contribuindo para o alto custo dos empréstimos (crédito) no Brasil, tendo em vista a característica fortemente oligopolizada do setor bancário no país (baixa concorrência, pouco incentivo à redução das taxas das transações bancárias e financeiras).
Quando Dilma anunciou o Plano Brasil Maior, também declarou que iniciaria uma “guerra ao spread” no país, o que poderia ser interpretado como uma política de enfrentamento aos altos lucros dos bancos privados e uma postura “progressista” do governo diante da crise na indústria. Porém é preciso desmascarar o discurso superficial do governo Dilma, já que a redução do spread bancário não implica necessariamente em redução nos lucros dos bancos, visto que essa redução deve se reverter em maior oferta de crédito barato e assim, um maior consumo, por meio de ganhos no volume financeiro, com a contrapartida de uma pequena redução da margem de lucro dos bancos privados.
A política econômica do governo, nesse sentido, estaria em tentar reduzir o spread, e supostamente “baratear” o custo do dinheiro para a indústria e para os trabalhadores, com o intuito de incentivar os bancos privados a reduzirem suas taxas de empréstimo e consequentemente o spread (sua margem de lucro bruta). Mas isso vem acompanhado da alteração nas regras da caderneta de poupança: o que supostamente seria um “incentivo” a essas quedas nos juros, em realidade, ao contrário do que afirmam as centrais sindicais governistas, prejudicam os rendimentos dos pequenos e médios poupadores, já que reduz seus ganhos naquela que é a principal possibilidade de poupar para os trabalhadores; e reafirmam o alinhamento, necessário para a burguesia, da política econômica do governo com os grandes monopólios do capital financeiro, já que os títulos de renda fixa [5] , detidos em grande parte pelo capital financeiro nacional e internacional, passarão a renderem mais que a poupança.
Isso se relaciona com outra suposta conquista para os trabalhadores, mas que tem em sua essência um outro ataque: o discurso ideológico do direito ao consumo [6] , aparece como outro aspecto político, com vistas à reeleição, que podem assumir as medidas de Dilma de redução dos juros e barateamento do crédito, como uma possível tentativa de dar fôlego ao equilíbrio social lulista que se apoia no gradualismo de uma frágil “ascensão social” em base ao consumismo. Estas medidas também representam uma tentativa contraditória do governo de deixar sua marca: o equilíbrio das taxas de juros do Brasil às do exterior para elevar a competitividade da indústria.
Entretanto, são parte das medidas contraditórias do governo para construir a falácia “nacional-desenvolvimentista” que o governo (e a burocracia sindical) tentam dar a essa política de juros, como defesa da indústria nacional: em verdade, tem no horizonte o gigantesco plano de especulação imobiliária e valorização do capital estrangeiro que se constituirá no país a partir dos eventos da Copa do Mundo e as Olimpíadas, que servirão ao alto lucro do próprio capital bancário (tendo em vista sua relação com o capital industrial) a partir dos grandes monopólios imperialistas.
Em vista disso, e de um ponto de vista mais geral, também não alteram uma só vírgula da estrutura do modelo neoliberal, mas se colocam, nos bastidores, a favor dos grandes monopólios bancários, pois nem arranham a manutenção de seus lucros (dos bancos), ainda estratosféricos, em que pese a redução da Selic e política de incentivo a diminuição do spread bancário, que também são engordados em cima do suor dos trabalhadores terceirizados e dos salários arrochados dos bancários. São medidas que, além de apresentarem uma base de sustentação frágil contribuem, pelas condições acima, para o aprofundamento do caráter dependente da economia, e buscam mitigar o desempenho pífio da indústria.
Política econômica como preparação de ataques mais profundos aos trabalhadores!
Em síntese, por que a política econômica de Dilma é um “combate” falacioso aos bancos privados? É preciso desmascarar o discurso “nacional-desenvolvimentista” do petismo e de setores da intelectualidade, uma vez que essa política é prudencial e tem o objetivo de enfrentar as ameaças que a crise capitalista coloca para as debilidades estruturais do país. Isso porque o aceleramento dos ritmos da época atual, imperialista – com a hegemonia do capital financeiro -, coloca, para um país semi-colonial de tipo especial como o Brasil, a impossibilidade estrutural para os governos burgueses de enfrentamento duradouro ao poder dos grandes monopólios financeiros. Estes últimos estão profundamente enraizados na estrutura financeira do país (desde o surgimento dos primeiros bancos no Brasil), são a base do financiamento público e privado e, por meio dos fluxos de investimento direto que inundam o país nos últimos anos, ainda viabilizam a expansão do crédito inclusive de bancos públicos como a Caixa e Banco do Brasil.
Ou seja, em base ao clima de euforia de um Brasil que alcança a sexta posição entre as maiores economias do mundo, que transparece uma imagem de ascensão no cenário internacional etc., os apologistas do governo vêem nessa medida dos juros de Dilma a expressão da nova localização do governo frente ao cenário internacional – que se traduziria numa suposta independência maior do governo em relação aos bancos (!). Entretanto, a combinação entre o forte endividamento público, dependência das commodities, baixos salários e endividamento para consumo mostram de fato, com clareza que a política econômica de Dilma não mantem nenhuma independência ao capital financeiro internacional, mas antes se baseia em outras formas de ataques aos trabalhadores, aprofundando a precarização do trabalho, as terceirizações e a intensificação da exploração, e criando as bases (com a expansão do crédito aos trabalhadores), para contradições ainda mais profundas num momento de crise econômica mais implacável.
Tendo por base o cenário internacional, que combina a desaceleração econômica dos EUA, a recessão sincronizada com fortes elementos de crises profundas (sociais e políticas) na Europa e os primeiros traços de vulnerabilidade da economia chinesa, podemos entender o conteúdo político das novas medidas, que de um ponto de vista mais preparatório, visam aprofundar a popularidade do governo, assentando ainda mais as bases da estabilidade advindas do ciclo lulista precedente. Estas medidas, nesse sentido, seriam necessárias para controlar o movimento operário brasileiro, num cenário de mais impacto da crise econômica no Brasil, que implicaria em fortes ataques como demissões, quedas salariais, etc. Cenário no qual política monetária, que longe de representar uma saída, como aponta a mídia burguesa, se traduz em golpes concretos aos trabalhadores, tanto por meio da desvalorização cambial em curso (em torno de 25%) que deve corroer o poder de compra dos salários, quanto pela valorização do real que provocaria a quebra da indústria e traria de volta a ameaça de elevados níveis de desemprego a exemplo do que ocorreu com a Argentina no início dos anos 2000.
Combater a burocracia sindical com uma política de independência de classe!
A burocracia sindical tem importante papel na manutenção do gradualismo da era Lula/Dilma e na passividade do movimento operário no país, desviando os processos de lutas e sua combatividade para uma adaptação ao reformismo lulista e ao governismo; na contramão da independência de classe, agem como representantes dos interesses da burguesia no seio da classe operária. Uma luta classista e consequente das classes oprimidas contra o poder dos monopólios bancários e o capital financeiro imperialista não deve de forma alguma passar pela aliança espúria com setores da CNI e FIESP, representantes de uma fração da burguesia nacional, como fez a CUT, a CTB, a Força Sindical e o Sindicato dos metalúrgicos do ABC filiado à CUT [É preciso que as centrais sindicais antigovernistas se coloquem numa perspectiva de independência de classe, de democracia operária e auto-organização, contra o burocratismo e o reformismo que alimentam a passividade e criam o terreno para que se passem mais ataques. Centrais sindicais governistas como a CUT cumprem um papel nefasto na luta contra a terceirização ao não levantarem um programa classista e independente, único capaz de irromper com o pilar lulista de “crescimento sustentado” e responder às necessidades dos trabalhadores e do povo pobre pela sua ação independente diante dos desafios que a crise irá nos impor. Ao invés da exigência da aprovação de um projeto de lei pela regulamentação do trabalho precário e/ou maior fiscalização como fazem estas centrais, a classe trabalhadora deve levantar um programa que responda à precarização do trabalho com efetivação de todos os trabalhadores em condições precárias, com iguais direitos e salários e a união das fileiras operárias entre efetivos e terceirizados – educar os trabalhadores a solidariedade de classe, única forma de fortalecer a luta de conjunto a partir de seus próprios métodos de ação. Também são incapazes de levantarem uma campanha nacional contra a Lei Anti-Greve (AI-5 da Copa) e em defesa dos lutadores, contra a repressão e a militarização dos canteiros de obras como em Jirau. Não é semeando ilusões na política econômica e no gradualismo de Dilma que será possível enfrentar e preparar as condições efetivas para reativar a economia num cenário de crise capitalista mundial no qual se colocam desafios para a classe trabalhadora, tendo em vista que qualquer solução que não seja outra forma de subordinação ao imperialismo só pode passar pela estatização de todo o sistema financeiro nacional e a constituição de um banco único, estatal e público sob controle dos trabalhadores. E para enfrentar a vulnerabilidade das exportações de commodities dependentes das oscilações internacionais de preço, dos fluxos de capitais e agravadas pela altíssima rentabilidade do agronegócio contra os interesses nacionais, é necessário lutar pelo monopólio do comércio exterior. Somente a partir desse programa classista e independente, é possível reordenar o sistema financeiro para que este seja orientado à planificação da economia a partir das necessidades dos trabalhadores e do povo pobre com investimentos em saúde, moradia e educação de qualidade e gratuitos, eliminando os lucros dos banqueiros, organizando e viabilizando a produção e consumo com garantia estatal de acesso ao crédito, juntamente com o não pagamento da dívida.
[1] “Para o Copom, acumulam-se evidências que apoiam a visão de que a transmissão dos desenvolvimentos externos para a economia brasileira se materializa por intermédio de diversos canais, entre outros, moderação da corrente de comércio, moderação do fluxo de investimentos e condições de crédito mais restritivas” (Ata da reunião do Copom, abril/2012)
[2] Cerca da metade do total exportado pelo país se concentra em apenas cinco commodities: minério de ferro, petróleo em bruto, complexo soja, açúcar bruto e refinado e complexo carnes.
[3] Preços de commodities recuam 12,7% em 12 meses.
[4] Segundo o Banco Central, spread é um termo em inglês usado para expressar a diferença entre o que o banco paga ao aplicador (fornecedor de recurso ao banco) para captar um recurso e quanto cobra para emprestar esse mesmo dinheiro.
[5] Títulos mais lucrativos e de menores riscos, associados a necessidade de financiamento da dívida pública nacional.
[6] Pronunciamento de Dilma no 1o de Maio.
[7] Matéria completa disponível no link: http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=29061&id_SUB=80
(Para mais artigos, acesse  http://desmanchanoar.wordpress.com/, blog de economia marxista)