Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Queremos justiça para João Antônio Donati, e também queremos outra sociedade

texto escrito por Bruno Portela publicado originalmente no blog: 
http://minhavidaealutadeclasses.blogspot.com/2014/09/queremos-justica-para-joao-antonio.html
em homenagem aos familiares e amigos de João
 
   
João Antônio Donati, jovem de família humilde, de 18 anos, foi encontrado morto nessa quarta-feira (10 de setembro) com a boca cheia de sacos plásticos e papeis, num terreno baldio da região metropolitana de Goiânia. Segundo a polícia, ele apresentava hematomas nos olhos e nariz, além de aparentemente estar com o pescoço  e pernas quebradas. A polícia nega que em um dos papeis da sua boca havia um bilhete escrito "vamos acabar com essa praga".[1] Não importa. João era assumidamente gay, e ainda que a polícia não queira afirmar (como geralmente faz) que é um crime de homofobia, nós sabemos que foi, porque não foi a primeira vez que aconteceu algo desse tipo, inclusive dessa forma: homicídio carregado com tanta crueldade. O corpo de João foi enterrado nessa manhã, mas a tristeza de sua morte continua, assim como o ódio contra essa sociedade miserável em que vivemos. Sinto que com João, nós morremos um pouco, mas que por ele e por tantos outrxs violentadxs por essa sociedade, devemos seguir buscando justiça. Coloco aqui toda a minha solidariedade aos familiares e amigos de João, aos quais também dedico esse texto.
   O assassinato de João acontece em meio a um cenário contraditório, mas que é fundamental que seja analisado para que se consiga dar uma resposta, não somente a esse caso, mas a todos os outros casos que vêm acontecendo. 
Nesse ano, a Anistia Internacional divulgou o resultado de um estudo que mostra que há um grande aumento de casos de homofobia em nível internacional, no entanto, o assessor de Direitos Humanos desta afirma que o Brasil melhorou muito em termos de leis no que diz respeito à comunidade LGBT[2]. Ao mesmo tempo que esse tipo de lei “avança”, vemos contraditoriamente um grande aumento nos registros de homicídios e agressões por motivação de homo/lesbo/transfobia. É importante também visualizarmos a relação cada vez mais ampla e intrínseca de setores religiosos e conservadores ao estado, como aumento da bancada evangélica, financiamento milionário para garantir a vinda do Papa Francisco I ao país na JMJ, acordos entre candidatos e seus partidos com setores religiosos e etc. Esse é o plano de fundo em que acontece não só o caso de João, mas também o de Kaique (que a polícia encerrou o caso dizendo que foi um suicídio) e de diversos outros casos, evidenciando que nem as “melhorias” pequenas, alcançadas aqui e ali questionam de fato não somente a homo/lesbo/transfobia, mas toda a estrutura que a mantém com uma razão de ser. 
   Devemos entender que não é a toa que o PLC 122/06 que visa criminalizar a homofobia[3] tramita há tantos anos na justiça e que o mesmo motivo que faz com que ele não seja aprovado é o motivo pelo qual poderá leva-lo a ser “apenas” uma lei no papel, caso ele seja aprovado em algum momento: o estado e suas instituições servem para manter “as coisas como estão”, ainda que com discursos diferentes, “quem paga a banda escolhe a música”, ou seja, os políticos e seus partidos, para se manter no poder, fazem compromissos políticos com os setores conservadores e religiosos em troca de financiamento para suas campanhas e projetos, logo, os mesmos nunca irão afrontar os setores que os financiam, aliás, ao contrário, vão agir conforme os interesses dos seus patrocinadores. Para além disso, a autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas, em diversos sentidos (seja com o direito de escolha da mulher sobre a gravidez, a livre construção da identidade de gênero do indivíduo, a liberdade para exercer sua orientação sexual etc), confronta diretamente o princípio da família e da moral, essas que por sua vez são ferramentas fundamentais para a manutenção da propriedade privada, uma das bases da sociedade capitalista. O que quero dizer com tudo isso, é que não basta lutarmos pela aprovação de leis que nos reconheçam esse ou aquele direito, aliás, é perigoso que tenhamos ilusões no estado capitalista e suas instituições (legislativo, executivo e judiciário, para além é claro da racista, machista e homofóbica polícia), temos mesmo é que nos organizar conjuntamente e entender que só através de uma luta incansável conseguiremos acabar com tudo que nos oprime. O mesmo estado que nos nega nossos direitos, como no caso da criminalização da homofobia, é o estado homofóbico que é conivente com as agressões que sofremos, por exemplo, como quando muitxs de nós vão à delegacias registrar B.O. e os policiais (civis e militares) fazem o possível para que desistam das denúncias e nunca acham muito menos punem os agressores.
   Os debates que vêm sendo abertos agora nesse momento pré-eleições também nos coloca questões para se pensar em relação à “comunidade LGBT”, no sentido de pensar qual resposta e com qual estratégia podemos seguir na luta contra a homo/lesbo/transfobia. Os três candidatos “principais” (Dilma, Aécio e Marina) são financiados por empresas, empreiteiras e todos os três têm relações afinadas com comunidades religiosas e setores dos mais conservadores, ligados por exemplo à ditadura militar. A única coisa que os três podem oferecer a nós é a certeza de que os nossos direitos serão rifados, retirados e reprimidos sempre que for necessário, basta vermos como tem acontecido em diversos países da europa, onde os direitos das mulheres, LGBTs e outros setores (como imigrantes) vêm sofrendo duros ataques pelos partidos que assim como os de cá, são financiados pela burguesia. Mas para além desses três candidatos, entendendo que o próprio regime e suas estruturas estão fundamentados no que há de mais conservador e reacionário, não podemos nos iludir que por meio desse regime, ou seja, da sociedade capitalista e "democracia", poderemos conseguir nossa liberdade de construção da sexualidade e de gênero.
A nossa miséria sexual anda de mãos dadas com a sociedade capitalista, a sociedade dos exploradores e dos opressores, portanto, não há alternativa ou estratégia para a nossa luta que não passe pela nossa união enquanto oprimidxs, se aliando com tantos outros setores oprimidos que sofrem com a miséria da nossa sociedade, mas principalmente se aliando com a classe que justamente é a única que pode se colocar radicalmente contra os exploradores e opressores porque é a única que têm interesses inconciliáveis com os mesmos: a classe trabalhadora. É essa a resposta que podemos e devemos dar, para que consigamos avançar na luta para que não haja mais casos como os de João.
 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem foi João para os professores da Rede Estadual de Ensino de São Paulo



Por Guilherme Soares, professor da rede pública estadual de ensino da Zona Norte de São Paulo

Para quem é professor da Rede Pública do Estado de São Paulo, a morte do João deveria ter tido um pouco mais de atenção.  A ideologia dominante educou os dominados a naturalizarem a pobreza, ou seja, se tornou algo banal para muitos passar na rua e ver um morador de rua deitado e nem minimante se perguntar: Por que este ser humano está na rua? Ou até mesmo: qual é a historia deste individuo que está nas ruas?

João foi um morador de rua que morreu na última semana de agosto e que viveu o resto de sua vida na Cidade Universitária. Ele, nos anos 70,  se formou na USP em Letras e começou a lecionar na rede pública de ensino do Estado de São Paulo.  Esteve à frente da greve de 2000 contra Mário Covas, do PSDB, onde ele e vários outros professores foram  demitidos pela greve e seus métodos de luta, como o acampamento em frente à Secretaria de Educação Estadual. A partir de então, a vida de João se degradou e, infelizmente, levou o fim que levou.

Primeiramente a sua vida se materializa, antes de mais nada, nas estatísticas de pessoas que não conseguem arrumar um emprego para poderem minimamente sobreviver neste sistema capitalista. Ao mesmo tempo, se materializa na ofensiva neoliberal que atacou os salários dos trabalhadores, as condições de trabalho e os direitos trabalhistas e sociais, mas também, por muitos anos, na subjetividade dos trabalhadores em que perderam confiança nas suas próprias forças. João se materializa também na política neoliberal em favorecimento dos setores privados em detrimento do setor público.

A morte do João é apenas um ponto para entendermos a educação pública do Estado de São Paulo, mas ao mesmo tempo a educação pública de todo o país.  Falta professores na rede pública por conta dos  baixos salários, os que estão na rede trabalham mais de duas escolas para poderem ter um salário minimamente digno e sobreviver. Para além disso, professores que têm de trabalhar com salas superlotadas e sem equipamento e com número insuficiente de escolas para cobrir a demanda.

A morte do João é um reflexo de uma política que fez milhares de pessoas abandonarem a rede pública do Estado de São Paulo. Como resposta à tal falta de professores, o Estado implementa a política que criou o professor categoria O. Este não consegue suprir a carência de professores da rede pública, ao mesmo tempo não possui direito à falta, usar o hospital público (IAMSPE) e no final do ano é abandonado pelo Estado para, no ano seguinte, enfrentar novamente as filas da atribuição (que na Zona Norte foram das 10 horas da manhã até as 5 da madrugada) para conseguir o seu ganha pão do ano.

Falta de direitos, baixos salários, desemprego, péssimas condições de trabalho é o receituário neoliberal para a educação, que foi aplicado à risca pelos Estados. E uma das coisas que não podem faltar nesse receituário é a política de divisão da classe, a qual se refletiu em nossa categoria. O governo dividiu os professores entre os efetivos, os estáveis e os professores categoria O, e com as derrotas da categoria, provocadas pela burocracia sindical da Articulação, que desmoralizou a categoria docente estadual.

     A morte do João questiona a burocracia da APEOESP

João foi demitido, assim como outros professores que perderam seus empregos e aposentadorias. APEOESP, o maior sindicato da América Latina, fez absolutamente nada para tais professores demitidos, mas antes de que caiamos numa lógica antissindical (onde o senso comum prega que "o sindicato bota o trabalhador na linha de frente, mas na hora do vamos ver o deixa sozinho’’) temos que discutir o que é a burocratização dentro do sindicato.

A primeira reunião da diretoria estadual da APEOESP, após eleições sindicais, foi meramente para discutir os privilégios dos diretores. A APEOESP virou uma máquina de privilégios em que grande parte dos diretores têm uma vida totalmente distinta da que vive a categoria.  E quando existem privilégios, é bem comum cairmos na lógica do ‘’deixa cuidar do que é meu’’. E foi isso que aconteceu no caso de João, enquanto Bebel, o Felício e toda a burocracia estão cuidando "do que é seu", um professor que fazia parte da categoria e da classe trabalhadora morreu.

Tal burocratização do sindicato se deve ao atrelamento do sindicato ao Estado burguês, onde os "dirigentes da categoria" recebem inúmeros privilégios para servirem de correia de transmissão da burguesia dentro em meio aos trabalhadores. As reformas dentro da época imperialista só podem vir através de migalhas para os trabalhadores, prova disso é a política de bônus para a categoria.

A categoria dos professores protagonizou uma importante greve em 2000 e o seu principal obstáculo foi a direção da APEOESP. A partir de então, aconteceu uma imensa desmoralização dentro da categoria, e os professores passaram a não ter o mesmo poder de reação como tiveram naquela greve. É preciso que nossa categoria ande em conjunto com o espírito de junho e dos garis do Rio de Janeiro, o qual mostrou que a luta é a saída para as mazelas do capitalismo. Mas para isso é preciso que os professores recuperem a APEOESP e retomem seus métodos de auto-organização. Assim, conquistaremos nossas demandas e reverteremos essa situação.

A morte de mais um joão-ninguém


Por Fernando Pardal

Ontem a greve da USP completou cem dias.[1] Cem dias de uma luta heroica, contra a polícia, o governo e a mídia. Uma luta que começa motivada por um arrocho salarial, ou seja, um ataque às condições de trabalho na universidade, mas que em seu decorrer transcendeu em muito essa luta, mostrando que o arrocho salarial era apenas a ponta do iceberg. O ataque à universidade, por mais que ela seja hoje uma ilha de elitismo, é um ataque à população de conjunto, pois essas "reformas" irão elitizá-la cada vez mais e tirar o que ela ainda tem de público, como o atendimento no Hospital Universitário, que a reitoria pretende desvincular da universidade para, logo, passar às mãos de alguma empresa privada disfarçada de OS (organização social).

Para continuar a luta, os trabalhadores da USP e das estaduais paulistas fizeram um enorme ato, que foi até a porta da reunião de negociação com o Cruesp (Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) cantar a plenos pulmões aquilo que se tornou o lema dessa greve, tomado dos garis do Rio: Não tem arrego!

Mas esse texto não é sobre nada disso. É sobre algo que acontecia paralelamente, enquanto essa luta ocorre. É sobre um cadáver encontrado ao lado do bloco F do Crusp, virando logo uma "fofoca do dia" na universidade. Ou, mais precisamente, sobre a pessoa que se tornou, naquela madrugada fria, um cadáver que ficou ali estendido, por horas, tomando chuva, até que fosse encontrado.

A pessoa por trás desse corpo era João. Eu nunca conversei com ele, mas sempre o via por aí. As últimas vezes que em que o encontrei foi no acampamento que os trabalhadores da USP ergueram diante da imponente reitoria da universidade, como um marco de sua luta. João aparecia lá. A história dele eu não sabia. Como todo mundo que anda pela USP sabe, ali é um lugar em que circula uma grande quantidade de "loucos": Gautiê, Piauí, João...

Eles são gente que não tem lugar nessa sociedade. Não vendem seu trabalho, não geram mais-valia e, portanto, nessa sociedade não têm valor algum. São jogados à rua, jogados à sua própria sorte. São olhados de canto, com medo, pelas "pessoas de bem". Ficam na USP porque sabem que ali é, de certa forma, um lugar um pouco menos hostil, que ali existem muitos trabalhadores e estudantes que repudiam a presença da polícia, que para eles sempre representa um perigo. Que ali, muitas vezes encontrarão alguém disposto a conversar, a ceder uma bebida, uma ponta de um baseado, alguma coisa que os lembre que eles também são gente, como os outros.

Essas pessoas não nasceram na condição de párias sociais. É esse mundo, de um jeito ou de outro, que os joga, pelas piores formas possíveis, nessa situação. Nossa sociedade fecha os olhos para isso, finge que não é com ela. É o "liberalismo aplicado à vida": cada um cuida do seu, e foda-se os problemas do vizinho. João é mais um destes, que não nasceu como um sujeito maltrapilho que andava pela USP. Eu não sei quase nada da sua vida. Mas sei que ele foi um professor da rede pública de ensino do estado de São Paulo, e que, como muitos outros, foi perseguido por lutar em defesa da educação pública. Na histórica greve de 2000, o governo de Mario Covas do PSDB, muitíssimo bem auxiliado pela burocracia sindical do PT que dirige o sindicato dos professores, conseguiu consolidar a correlação de forças que até hoje persiste nessa categoria: o governo os massacra, impõe novos ataques a cada dia, precariza impiedosamente todas as suas condições de trabalho.

Nenhuma categoria de trabalhadores é derrotada sem resistência. E os professores, hoje uma categoria que é marcada por muitas derrotas, resistiram bravamente. Essa resistência foi feita, como hoje a luta da USP, contra a polícia, o governo, a mídia. E tinham ainda um outro obstáculo, que era seu próprio sindicato. Os protagonistas dessa luta foram milhares de homens e mulheres que estavam - ao contrário dos diretores do sindicato - sofrendo a cada dia nas salas de aula a precarização de seu trabalho. Entre eles estava João. Para que o governo vencesse, ele precisou derrotar essas pessoas. E na greve de 2000 vieram muitas demissões. Caçaram a aposentadoria de Tonhão, um lutador que conheci também nas greves da USP, nas quais participa levando seu apoio. Exoneraram João.

O que aconteceu com João depois disso? Eu não sei. Não era seu amigo, nunca conversei com ele. Mas sei do que esse mundo é capaz para derrotar um peão que ousa levantar a cabeça para enfrentar seus patrões. E, o que quer que tenha passado pela vida de João depois de sua demissão por lutar, foi o que o levou a virar um peregrino da USP, andando maltrapilho por aí. Das pessoas que conversavam com ele, ouvi muitas coisas: que ele tinha momentos de lucidez, em que contava as histórias de sua luta, e outros de embriaguez - é muito provável que tenha se tornado alcóolatra. Sobre esses outros momentos, há histórias nada bonitas de João: que assediava as meninas, que ameaçava.

Dou crédito a essas histórias porque as ouvi de muitas pessoas, inclusive pessoas em que confio. Mas não atribuo apenas a essas histórias o "mérito" por ter ouvido comentários como esse sobre a morte de João: "Sinceramente? Ainda bem que morreu. Foi tarde. Só metia medo nas pessoas. Não sei como permitiam uma pessoa dessas ficar solta pela USP e colocar medo nas estudantes."

Os comentários como esse devem ser feitos às dezenas nas conversas da USP. Quando não são públicas, como no caso acima, devem ser ainda piores. Não defendo em nenhuma instância a atitude de João de assediar as meninas, independente da forma como o fizesse. É uma dessas monstruosidades que ocorrem mil vezes por segundo em nosso mundo, um testemunho inequívoco da podridão de nossa sociedade. Isso, no entanto, está muito longe de ser tudo o que João era ou fez. A mesma sociedade que o ensinou a assediar as mulheres foi a que lhe tomou seu trabalho, seu sustento, lhe impôs uma vida de andarilho e alcoolatra. Sobre isso, essas vozes "revoltadas" calam. A mesma sociedade que ensinou João a assediar as mulheres é a que ensina cada estudante endinheirado da USP a fazer a mesma coisa; mas eles não são barbudos maltrapilhos que não tomam banho: são garotos perfumados, com roupas caras, malhados da academia, que o fazem em festas open bar promovidas pelas suas atléticas, onde eles se embebedam sem o olhar condenador de sua  sociedade, e onde podem tratar as mulheres como objetos sexuais sob a conivência de todos, inclusive de grande parte dos que se revoltavam com a forma como João assustava as estudantes.

Quando João deu o melhor de si para o mundo, que foi colocar em jogo o seu ganha-pão para defender uma escola digna para os filhos dos trabalhadores, ele foi punido com todo o "rigor da lei". Quando ele passou a ser um "vagabundo" andando pela USP, nenhuma instituição dessa sociedade se preocupou com isso. Quando ele morreu, largado, possivelmente de frio, no mesmo lugar em que estuda a elite desse país, que vai ali se formar para garantir a continuidade desse mundo tal como ele é, e de tudo o que fizeram com João durante sua vida, nesse momento muita gente lembra que João existiu. Não do que ele fez para transformar esse mundo; lembram-se da sua aparência assustadora. Comemoram sua morte. E, amanhã, já terão esquecido dele para sempre, embriagando-se com as possibilidades que a vida lhes oferece. As possibilidades que foram arrancadas brutalmente de João e de tantos bilhões de outros todos os dias.


Por todos esses, seguimos lutando. Para que ninguém mais morra, após ser derrotado em uma luta pelo mundo, largado no relento, tratado como alguém que não merece o melhor que a humanidade é capaz de criar. A greve da USP e tantas outras lutas que travamos, sem desistir, é por isso. E, se amanhã, algum lutador entre nós tiver o mesmo destino que João, que continuemos lutando, incansavelmente, para que isso nunca mais aconteça, e que às mortes de todos esses seja feita justiça.

[1] Texto publicado dia 04/09/2014 em Entropia Dialética - A morte de mais um joão-ninguém

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Maio de ’68 e as tendências da juventude: como voltar a desafiar o poder?


por Fernanda Montagner


“Aqueles que fazem revoluções pela metade cavam uma cova”, frase do maio de ’68

“Estudantes em apoio aos trabalhadores de Lear”, esta frase esteve estampada pela manha desta quarta-feira (27/08) nos jornais da Argentina. Mais do que uma frase de impacto para a mídia, essa frase consegue expressar o que há de mais profundo nas experiências históricas de luta dos estudantes.

Com muita originalidade, os estudantes da UBA (Universidade de Buenos Aires) fizeram mais uma ação de solidariedade e luta pela reincorporarão dos trabalhadores demitidos da empresa Lear, parando uma das principais rodovias da Zona Norte de Buenos Aires, a Panamericana, no quilômetro que fica em frente a empresa. Desde o início da luta, a policia vem tentando impedir ações dos estudantes e trabalhadores, chegando em momentos a prender trabalhadores e reprimir as manifestações Estes estudantes junto aos trabalhadores vêm de forma cada vez mais original resistindo e burlando a tentativa do governo de calar essa luta. Chegaram a por em marcha as “caravanas solidárias”, paralisando com uma frota de veículos o trânsito, deixando a polícia impotente para impedir o engarrafamento. Em novo exemplo, desta vez vieram em ônibus escolares insuspeitos, parando de supetão na via e iniciando o ato. O interessante foi que em mais uma tentativa de repressão policial (dando 10 minutos para que saíssem da via, mesmo com os estudantes e trabalhadores propondo deixar 2 vias abertas para os carros), a policia teve que engolir seco suas ameaças e recuar, não porque ela tenha refletido ou diminuído sua truculência, mas porque a atuação organizada dos estudantes levantando demandas populares (“Famílias na rua, nunca mais!”, dialogando com as demissões em todo o país), num momento onde o governo argentino se vê fragilizado em meio a pressão das empresas imperialistas por um lado.

Essa foi mais uma ação no conjunto de muitas outras que mostram que os estudantes podem cumprir um papel fundamental de ser um sujeito que pauta as discussões nacionais, ao passo que se unifiquem e levantem as demandas populares e dos trabalhadores.

Se os “de cima” nos forçam a ignorância, nós pelo contrário queremos reeditar a história daqueles que ousaram desafiar o poder.

As classes dominantes fazem questão de apagar da história, ou mesmo suavizar os fatos segundos seus interesses, para que não existam novos “escravos insurretos que se apoderando da história, utilizando-a como arma”. Nessa lógica transformaram o marxismo num método de análise estética, e grandes acontecimentos que questionaram o regime de dominação de classes, como o Maio francês de 1968, quase um romance de jovens que queriam mais amor e paz. Estes eventos na Argentina nos movem a tentar recuperar “conteúdo e métodos” com os quais a juventude foi protagonista destes grandes acontecimentos, querendo reeditar alguns aspectos desta experiência de ’68 que mostram como os estudantes e trabalhadores juntos puderam desafiar o poder (considerando com cuidado a analogia, já que a etapa de processos revolucionários aberta em ’68 não tem paralelo hoje, e a politização e radicalização à esquerda de setores estudantis citados no exemplo argentino se liga a uma clara estratégia revolucionária, como em boa parte inexistia na França).

Passadas duas décadas após o final da Segunda Guerra o movimento desatado em ‘68 foi capaz de questionar a ordem estabelecida após os acordos de Yalta e Potsdam. Essa força passa pela unidade entre trabalhadores e estudantes no sentido de estes últimos entenderem a necessidade de se ligarem aos trabalhadores como sujeitos capazes de fazer a revolução, levantando as demandas operárias e populares. E os trabalhadores verem que para lutarem contra a exploração do trabalho é necessário se ligar aos setores populares.

Essa ligação foi fundamental na época, e continua sendo hoje. Um segundo ponto fundamental era, e continua sendo hoje, forjar um movimento estudantil que rompa o corporativismo e seja um ator nacional. Em ‘68 os estudantes foram os precursores das grandes ondas de greve que se desenrolaram, porque conseguiram expressar boa parte dos descontentamentos populares que haviam nas camadas populares da época, e elevando a um patamar político: a luta anti imperialista com o rechaço ao Estados Unidos na guerra do Vietnam (contemporâneo a isso ocorria no Oriente Médio a Guerra dos Seis Dias, em que os países árabes se voltaram contra o estado colonialista de Israel); o questionamento ao aparato contrarrevolucionário stalinista (que buscava enterrar processos revolucionários na França e em todo o mundo) e por fim um questionamento mais amplo do capitalismo como sistema em putrefação.


“Por um lado o Maio Francês se baseava na ‘critica artística’ e em uma ‘critica social’ do capitalismo, quer dizer em uma crítica à alienação e ao fetichismo que gera o sistema de exploração capitalista tanto como uma crítica às injustiças sociais e às desigualdades profundas nas quais se baseia o mesmo sistema [...] o maio francês estava vinculado a um tripé de questionamento: um questionamento aos mecanismos de exploração capitalista partindo da ordem fabril; um questionamento da sangrenta dominação imperialista começando por uma oposição ao intervencionismo norteamericano no Vietnã; um questionamento dos agentes da burguesia no seio do movimento operário que advogavam a favor do reformismo e da conciliação de classes, começando pelo aparato stalinista” (p. 38)


Esses três pontos levantavam boa parte de demandas populares (devido ao primeiro ascenso operário do pós-Segunda Guerra), que tocava também o questionamento da Universidade, com a histórica consigna “questionando a universidade de classes para questionar a sociedade de classes”, o movimento estudantil organizado conseguiu a partir dos seus métodos despertar a sociedade e causar uma crise política. Esse processo nos deixou importantes lições como a necessidade de um movimento estudantil ligado aos trabalhadores e que levante as demandas de toda a população. Contudo, ocorria numa época em que as revoluções ainda eram vivas no imaginário[1], em que a idéia de comunismo ainda era presente (ainda que deformada pela noção de que a URSS “vivia o comunismo”), e a luta anti burocrática clara para combater o enorme aparato stalinista, que atuou durante todo o processo para dividir os estudantes dos trabalhadores (e que já vinha de um desgaste com a repressão duríssima a revolução Húngara e a coexistência pacifica com o imperialismo). Mesmo depois desta grande energia por parte da juventude e dos trabalhadores, sem uma organização revolucionária que reunisse essas forças no caminho de uma estratégia pela tomada do poder, este levante acabou sendo traído e derrotado. Sem entrar nas polêmicas e/ou debilidades do processo, hoje vivemos outro momento histórico, onde queremos resgatar os melhores fios de continuidade dessa luta, assimilando seus acertos e superando esta experiência.

O novo despertar da juventude

Se atualmente o comunismo não é presente na mente da pessoas, vivemos desde 2010 um estourar de movimentos de juventude pelo mundo que se assemelharam, no sentido da extensão, ao maio de ‘68 francês (quanto ao conteúdo, assemelha-se mais ao movimento “no-global” inaugurado em 1999 em Seattle, em oposição ao capital financeiro e banhado na ideologia autonomista, do que ao maio francês). Estes movimentos foram inspirados no impulso da chamada “primavera árabe” de 2011, que do ponto de vista da luta de classes poderíamos considerar como o “fim de ciclo” da recuperação capitalista depois da derrota dos processos de 1968. E novamente quem esta prenunciando e expressando os descontentamentos populares é a juventude, nos movimentos YoSoy132 (México), Ocuppy Wall Street (EUA), 15M (Espanha), estudantes chilenos e junho no Brasil. Esses movimentos, para além de suas distinções, carregam todos as pressões de mais de 30 anos de democracia burguesa e ofensiva neoliberal, fruto da derrota das maiores conquistas dos trabalhadores como a queda da URSS, e da campanha do imperialismo “triunfante” acerca da centralidade do indivíduo em contraposição ao social (demonizando as organizações e partidos de esquerda como “filhos do totalitarismo”, e reservando os instintos de organização para os partidos tradicionais do regime burguês), em que se decretava o suposto fim da classe operária e da organização do movimento operário e estudantil para a luta de classes – o que se projetou na esfera ideológica, com o protagonismo das ideias autonomistas (absolutamente incapazes de responder aos desafios da crise, como no Estado espanhol, na Grécia e inúmeros exemplos).

É desta tradição “produto da derrota” que devemos livrar a mentalidade da juventude. Os exemplos que vimos essa semana do movimento estudantil na Argentina tem muito da atuação do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas, organização irmã da LER-QI na Argentina) dentro das entidades estudantis, buscando forjar uma nova concepção de entidades. Este último ponto é fundamental para pensar a organização da juventude atualmente, ligado aos dois pontos retomados de ’68: a necessidade de tomar as entidades para que sejam instrumentos democráticos e de luta dos estudantes. Na Argentina, viemos organizando ações desde assembleias estudantis para organizar os estudantes a se solidarizarem com o conflito das demissões de Lear e Donnelley, como na luta por colocar o conhecimento da Universidade a serviço dos trabalhadores, mostrar solidariedade ativa organizando os estudantes de diversos cursos para colocar seu conhecimento a serviço de uma das principais lutas do país, a ocupação de Donnelley.

De maio a junho

Esses exemplos fazem parte de uma nova concepção de atuação nas entidades e de organização da juventude. No Brasil após Junho um dos principais balanços foi a falta de organização dos que saiam as ruas, e a separação da concepção autonomista de qualquer intervenção em comum na luta de classes dos trabalhadores (em que os organismos aparecidos em junho auxiliaram as grandes greves nacionais, para citar duas, dos metroviários de SP, e das universidades estaduais paulistas, levantando novamente junto aos trabalhadores as demandas da educação e do transporte público?). Os instrumentos de organização como entidades estudantis, estão ou nas mãos de direções governistas, ou da esquerda reformista/centrista, que não consegue cumprir um papel que fuja a luta de script, ou seja, alguns movimentos que se adaptam ao regime universitário se restringindo a demandas no marco corporativista, educando um movimento estudantil passivo e rotineiro que não busca ser sujeito político que pauta as grandes questões nacionais, que junto as trabalhadores seja um empecilho para as políticas dos governos (os aparatos “autonomistas” não estão por fora desta lógica burocrática e reformista da política, basta ver o MPL, que se negou a participar das mobilizações dos metroviários, e dirigia-se a público em junho de 2013 dizendo representar pessoas que nunca os tinham eleito ou mandatado). Essa concepção que em ultima instância visa as eleições, ou seja, uma esquerda que se guia a ganhar aparatos, espaços dentro do regime e onde cada vez mais são pressionadas pelos limites da democracia burguesa, mostrou sua impotência para atuar em Junho, e mesmo no maio operário vimos que o movimento estudantil não conseguiu de conjunto ser um aliado estratégico dos trabalhadores em luta.

Dentro dessa greve das três principais Universidades do estado de São Paulo, que já dura quase 100 dias, a principal entidade que organizou estudantes desde comandos e assembleias de base a se solidarizar e a atuar junto aos trabalhadores foi o Centro Acadêmico de Ciências Humanas (CACH), de cuja direção a Juventude Às Ruas faz parte junto a estudantes independentes. Infelizmente outras entidades importantes como DCE da USP e UNICAMP pouco fizeram além de notas e do rotineirismo de sempre, sem organizar ampla solidariedade ativa entre os estudantes.

O CACH vem atuando junto aos trabalhadores, organizando ônibus para os atos, como o do dia 14/08; organizou debates como o repúdio ao título referendado pelo Conselho Universitário da Unicamp ao ministro da Educação da ditadura, Jarbas Passarinho, no sentido de combater a reitoria e emergir como um setor do movimento estudantil que quer discutir e atuar frente as grandes questões, usar da entidade como uma contra política à ideologia da reitoria, disputar o conhecimento produzido na Universidade para colocá-lo a serviço dos trabalhadores e da população, espelhando-se no “conteúdo e métodos” de maio de ’68.

Por trás destes exemplos existe a concretização da atividade de uma entidade militante.ara responder as demandas de junho da crise de representatividade que se abriu, a necessidade de resgatar os métodos democráticos de base, lutando por entidades proporcionais nos centros estudantis é fundamental nesse momento onde a juventude no Brasil precisa se testar na pratica com as diversas concepções de direção que e existem e a partir disso tirar suas próprias lições. Nesse sentido que atuamos, para fazer um movimento estudantil democrático que levante as questões mais sentidas da sociedade como acesso radical, onde todos os trabalhadores, os negros possam estar na Universidade, onde seu conhecimento esteja a serviço da população. A classe dominante deve novamente sentir que sob seus pés a terra treme.

[1] A União Soviética, ainda que enfraquecida e monstruosamente deformada pelo stalinismo, permanecia de pé como uma grande conquista social do proletariado mundial; as revoluções chinesa e cubana seguiam-se, respectivamente, em 1949 e 1959, mesmo que dirigidas por setores da pequena burguesia e do stalinismo que bloqueavam o caráter internacional destes processos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Uma lata contra o Estado




Na madrugada do dia 31 de julho a polícia fez mais duas vítimas em nome da ordem, assassinou Alex Dalla Vecchia Costa e Aílton dos Santos. Jovens trabalhadores do ABC de São Paulo, um marmorista e outro organizador de eventos, por praticarem a pichação.


A pichação é um misto de arte e entretenimento. Ao mesmo tempo em que é a expressão dos sentimentos e aspirações de um artista, é também encarado como simples diversão. Para suprir a necessidade de se expressar e se entreter, essenciais de todo ser humano, muitos jovens decidem pichar. Por ser muito popular entre a juventude da periferia acabou por ser um dos pilares do movimento hip-hop.

Ao subirem em um prédio da Mooca para escrever JETS e ANORMAL (suas marcas), Alex e Aílton foram surpreendidos pela PM, que os matou a tiros. Contra as armas tinham apenas latas de spray. Os policiais forjaram uma cena de assalto, escondendo as latas e "achando" duas armas de fogo.

Essa polícia que matou Douglas Rodrigues na ZN, reprime a greve da USP, prende ativistas e impede os metroviários de lutar, foi montada durante a Ditadura Militar para o controle populacional da juventude negra e disciplinamento da classe trabalhadora. Como a "democracia" conservou intacta a estrutura repressiva dos militares, a polícia continua impune.

O Estado garante, no máximo, algum período de cela para os policiais e a infinidade do caixão para a juventude. Por isso não podemos confiar na justiça burguesa, que prendeu os dois policiais no dia seis de agosto até a poeira baixar. Exigimos que todos os policiais envolvidos nos assassinatos sejam punidos e que cesse a repressão aos trabalhadores.

Alexandre Costa
Professor da rede pública

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um Chamado pela Libertação de Fábio Hideki e todos os presos por lutar, fim dos processos contra os lutadores, readmissão dos 40 metroviários demitidos.


Chamado a construir uma semana nacional de atos, ações e cortes de rua:


Pela Libertação de Fábio Hideki e todos os presos por lutar, fim dos processos contra os lutadores, readmissão dos 40 metroviários demitidos e nenhum corte de ponto a greve das universidades estaduais paulistas!

O Brasil não é mais o mesmo desde as enormes jornadas que varreram o país em junho de 2013. Em cada canto do país, há um ano, a juventude relembra e discute a grande vitória e repercussão das maiores mobilizações em décadas, que não apenas derrotaram, impondo a redução das tarifas do transporte, os governos estaduais e acuaram o governo federal, como trouxeram à tona, para massas de milhões de jovens, a ideia de que é possível vencer e é necessário lutar.

Tal onda não passaria sem influenciar profundamente a classe trabalhadora que, se em Junho de 2013 atuou de maneira diluída no processo de milhões, em maio e junho de 2014 trouxe aquilo que começamos a chamar de “meses operários” com diversas mobilizações e greves nas portas da Copa do mundo, lutando por melhoria de direitos, salários e condições e escancarando a precarização estrutural que segue no país da “Copa das copas”.

 O ponto mais agudo, um pouco antes disto, no carnaval, foi a enorme vitória e luta dos garis do RJ que, gritando alto “Não tem arrego”, derrotou exemplarmente os Governos e prefeitura do RJ, conquistaram quase todas suas demandas e impuseram a obtenção de um reajuste salarial de 37%, demonstrando que, com decisão, organização e firmeza, a classe operária pode obter enormes vitórias!

Este exemplo, seguindo o processo de junho, desferiu um golpe profundo nos interesses dos capitalistas e empresários que, interessados na organização da Copa, que militarizou cidades e bairros em todo o país, buscaram endurecer sua linha, arriscando o que fosse necessário para frear a ofensiva de luta da juventude e dos trabalhadores.

Como parte deste processo, realizou-se uma greve no Metrô de SP que, do ponto de vista de sua importância e métodos, pode ser considerada histórica.
Piquetes combativos, atos de rua, mobilização de quase toda a categoria ao redor da paralisação e uma greve de 5 dias no maior metrô do Brasil, tudo isto foi conseguido com muita disposição da categoria dos metroviários que, lembrando-se do exemplo dos garis espontaneamente avançava aos cantos de “Não tem arrego”.

O governo do Estado de SP, encampado pelo PSDB, encarando este combate como estratégico para os interesses dos empresários e da Copa, não apenas manteve uma linha intransigente desde o início como, frente a disposição de luta dos metroviários e a pressão de seus mandantes empresariais, adotou a linha de terror, descontando os dias parados dos grevistas e demitindo 42 metroviários,  tudo isto num país aonde, em tese, se garante o direito de greve aos trabalhadores.
O objetivo do governo, em confluência com os partidos nacionalmente hegemônicos, como PT que segue calado frente as demissões, era simples: mandar um recado a Juventude e aos trabalhadores de que não haverá mais “Garis”; de que Junho e toda a esperança que trouxe devem acabar.

Além disto, numa operação arquitetada pelo DEIC e a PM de SP, foi preso num dos atos contra a copa, Fábio Hideki, trabalhador em greve da USP, acusado dentre outras coisas de ser um líder dos “blackblocs” e portar artefatos explosivos. Testemunhas próximas gravaram o momento da prisão e provam que as acusações são forjadas numa operação dos governos que claramente visa criminalizar as lutas e fazer as mobilizações de juventude recuarem. O mesmo se dá no RJ, aonde 23 ativistas seguem perseguidos, com ameaça de prisão e tendo a divulgação de escutas telefônicas, numa maquinação digna da espionagem da ditadura militar.
Como parte desta Juventude e trabalhadores que se levantou em junho e neste um ano de lutas, consideramos que é uma tarefa fundamental defender cada um dos lutadores que participou e atua lutando por direitos básicos, sejam os grevistas que buscam melhores salários ou a juventude que foi as ruas exigindo acesso e melhores serviços básicos como saúde, educação e transporte.
Fabio, estudante, trabalhador da USP e membro do comado de greve é um símbolo de nossa luta, que mostra como o governo buscam formas ilegais para criminalizar os movimentos sociais e prender ativistas.
Não toleramos a demissão de Adailson, rodoviário de Porto Alegre que foi linha e frente na greve do começo do ano que dizia que os ônibus só estavam parados porque os prefeitos não queriam ceder o passa livre para a população. Para nós é combate  estratégico defender os 42 demitidos do metrô , buscando sua readmissão como parte da luta para impedir que os governantes e empresários, os mesmos que diziam pouco antes de serem derrotados em 2013 que era impossível reduzir a tarifa e de que aquele movimento era “utópico”, retirem da Juventude e dos trabalhadores este sonho de mudança, esta ideia perigosa de que é possível vencer e necessário lutar.
Assim como repudiamos a ameaça de corte do ponto das universidades estaduais paulistas que seguem em greve a mais de 50 dias, defendendo que as universidades mais elitistas do país fossem não apenas abertas a população, mas que estivessem a serviço de responder as demandas do povo, dos trabalhadores e da juventude.

Sabemos que é por lutar por uma educação de qualidade para todos, que os governos atacam e prendem lutadores. Igualmente, defender os presos é uma questão de vida ou morte para o futuro do direito de lutar da juventude e dos trabalhadores e um princípio que não devemos jamais esquecer. 

Este combate cumpre, neste momento de conjuntura pré-eleitoral, na qual os governos e capitalistas querem tranqüilidade, um papel crucial para impedir que a estratégia de isolamento dos lutadores e trabalhadores triunfe.

Nestas semanas, temos construído uma verdadeira aliança com os trabalhadores da USP, UNICAMP e UNESP, colocando nossos aprendizados à serviço da luta, seja construindo um “cantinho para as crianças” que garanta que mais mulheres trabalhadoras possam participar ativamente da greve, seja debatendo as doenças causadas pelo trabalho repetitivo, entre outros. Construímos diversos atos em frente única pela libertação de Fabio Hideki, e participamos de todas as iniciativas pela readmissão dos 42 e libertação dos presos. 

Acreditamos que, como parte dos objetivos de “frear” a ofensiva dos trabalhadores e da juventude, o governo de SP e federal, tem a estratégia de “diluir” as demissões e prisões na conjuntura das eleições. É por isto que, neste momento, ganha enorme importância a ação unitária da Juventude em defesa e ao lado dos trabalhadores.

Neste chamado, chamamos em especial aos companheiros da ANEL, com os quais construímos a entidade, tivemos um companheiro torturado pela polícia e temos diversos pontos de acordo, mas também ao PSTU, Juntos, RUA, MPL, MNN, RIZOMA, UJC, POR, independentes e demais agrupamentos a assinarem a nota proposta pelo CACH da Unicamp, já assinada por diversas entidades e a construir a articulação para uma Semana de atos, manifestações ou cortes de Rua pela readmissão dos 42 metroviários e libertação dos presos do RJ e SP, para que possamos, com esta medida inicial de frente única construir uma articulação de luta urgente e fechando estas vias, abrir caminho para a defesa de nossos atacados mantendo acesa a chama que nos incendeia desde Junho.

Igualmente, chamamos todos ao ato chamado para o dia 30 de Julho, pela libertação de Fábio e dos presos, como uma medida inicial para impulsionar esta frente única defensiva.
ÀS RUAS!







Para Além do 0%: As Condições de Trabalho e a Saúde do Trabalhador

por: Marcela


Nesses últimos dias fui convidada para participar de uma mesa, junto ao companheiro Pablito do SINTUSP e os companheiros do SESMT. Como estudante de Educação Física tive a oportunidade de socializar os meus conhecimentos com trabalhadores em greve da USP discutindo sobre saúde do trabalhador, foi uma grande experiência, pela primeira vez pude ver um pequeno germe de como poderia ser uma universidade que colocasse seu conhecimento a serviço da classe trabalhadora.
            Ouvimos vários casos de trabalhadores que perderam sua juventude e sua saúde na Universidade, companheiros que chegaram ao limite de tentar tirar suas próprias vidas pois não viam nada mais forte que o assédio moral das chefias.
            Acidentes de trabalho, restrições médicas e assédio moral fazem parte do cotidiano dos trabalhadores de uma das “melhores universidades da América Latina”, mas não só deles como de todos os trabalhadores de nosso país.
            Vivemos números de guerra, por ano são  2.503 mortes por acidentes de trabalho, ocupamos o quarto lugar no mundo nesse ranking, sem contar milhares de trabalhadores inválidos e até mesmo afastados por problemas mentais.


            Parto de uma concepção onde a Saúde não se refere só ao bom funcionamento do nosso corpo físico, mas também o psicológico e social. Vejo na verdade que devemos olhar para a saúde como um processo de saúde/doença onde existem vários fatores que vão determinar a sua situação, como moradia, alimentação, o trabalho, as relações sociais, a classe social, e etc.
            Sendo assim, é impossível fazer uma analise consequente sobre saúde do trabalhador por fora de colocá-la dentro da divisão social do trabalho de nossa sociedade, pois esse é o plano de fundo que determina muitos dos fatores que contribuem para essa relação Saúde/Doença.
            Nós fazemos parte de uma parcela da sociedade que só tem sua força de trabalho para sobreviver. Existe outra parte, os patrões e grandes empresários que se organizam para sugar a nossa força física no momento da vida onde temos melhor condição de produzir.
            Dentro dessa lógica todo o desenvolvimento tecnológico e de produção, ao contrário de estar a serviço do bem comum tem servido ao lucro. As máquinas não estão a serviço de auxiliar os trabalhadores para preservar sua força de trabalho, mas para conseguir retirar o máximo possível dela, aumentando a produção e o lucro.
            São os trabalhadores que pagam com sua saúde e sua vida pela ganancia dos patrões e quando entramos em uma crise, assim como a que a reitoria diz existir, pagamos dobrado para manter essas margens de lucro e de produção.
            Mesmo os trabalhadores da USP não estão fora dessa lógica, pois apesar de não existir a mesma lógica de LUCRO dos patões, reproduz a lógica de PRODUÇÃO em que todos os trabalhadores são mergulhados. Todas as medidas aprovadas pelo governo como o repasse de verba para educação, saúde, transporte e etc. Refletem no nosso cotidiano.
            Então para manter o funcionamento da universidade as reitorias jogam nas costas dos trabalhadores os prejuízos. E quando vemos um pequeno corte de orçamento, ou o congelamento de verbas para a educação, isso reflete não nas grandes pesquisas, financiadas por Fundações Privadas e grandes empresas, mas no cotidiano dos trabalhadores e no corte de serviços para a comunidade .
            Todas as medidas refletem no aumento da exploração real no nosso cotidiano, mais assédio moral para que trabalhemos ainda mais em situação cada vez mais precária, mais trabalho, menos contratações, mais terceirização e como consequência um grande prejuízo para a nossa saúde.            Para garantir resultados de produção nos rankings internacionais formamos dentro de nossa universidade um exercito de trabalhadores doentes.
            É preciso ficar bem claro que nenhum trabalhador é responsável pelos acidentes de trabalho nem pelas doenças adquiridas, tudo isso é culpa de uma divisão do trabalho desumana que pensa apenas na produção e não nas vidas que são responsáveis por produzir.
            Se a nossa força de trabalho é a única forma de garantir nosso sustento, é preciso levar uma forte luta por melhores condições de trabalho. Ou garantimos isso ou estaremos junto com milhares de trabalhadores que por perder sua condição física, não conseguem se quer vender a sua força de trabalho devido as suas restrições.

Terceirização

            Como observamos em todas as unidades as condições de trabalho são muito ruins para os efetivos, para os terceirizados a situação é muito pior. Com menos direitos, menores salários suas condições de vida são muito piores e pela sua vulnerabilidade são os primeiros a serem atacados com demissões e etc.
            Um exemplo disso é o José Ferreira, jovem negro, trabalhador terceirizado da Faculdade de Medicina morreu em acidente de trabalho.
            Silvana, trabalhadora terceirizada que dirigiu a primeira greve de terceirizadas dessa Universidade, depois de passar anos deixando toda a sua saúde para limpar os prédios, hoje não consegue arrumar emprego devido ao número de restrições que essa companheira adquiriu nesses anos de trabalho. Agora nem mesmo sua força de trabalho pode oferecer.
            Esses são pequenos exemplos do que sofrem esses companheiros e com a demissão de terceirizados em todas as unidades essa situação tende a piorar. Por isso também é nosso dever defender os postos de trabalho desses companheiros e avançar na luta para Efetivação de todos os terceirizados sem necessidade de concurso público.

As Mulheres Trabalhadoras

            Para as mulheres trabalhadoras, como se não bastassem as condições precárias no trabalho, ainda tem que aquentar a dupla jornada de trabalho. Chegam em casa, cuidam dos filhos, cozinham e lavam roupa, um segundo trabalho não remunerado que também gasta sua energia e sua força de trabalho.
            Esse trabalho essencial para garantir que os trabalhadores consigam estar todo os dias em seus postos de trabalho, por conta do machismo é feito quase que exclusivamente pelas mulheres. Isso significa que além do desgaste físico e psicológico no seu local de trabalho, as mulheres ao chegarem em casa ainda tem mais uma segunda jornada de trabalho que também interfere em sua saúde.
            É preciso lutar para que o Estado se responsabilize por esses trabalhos, que existam creches para que as mães possam deixar seus filhos para trabalhar, restaurantes e lavanderias públicos e isso só pode ser feito a partir da luta dos trabalhadores.
            Na USP temos vários exemplos de como a luta dos trabalhadores e trabalhadoras ajudaram a avançar também na luta pelo direito das mulheres. As creches na USP foram conquistadas pelos trabalhadores, nas greves do HU por muitas vezes direito elementares das mulheres foram conquistados e nessa greve não tem sido diferente, as companheiras do Centro Saúde Escola tem como uma de suas reivindicações nessa greve mais contratações de enfermeiras para conseguir dar conta das 800 mulheres que hoje estão na fila do papanicolau.

O Conhecimento

            Não podemos permitir que em uma universidade tão importante quanto a nossa o conhecimento continue servido para as grandes empresas, para pensar tratamento para os grandes craques do futebol enquanto centenas de trabalhadores apodrecem em suas máquinas de moer gente. É preciso uma universidade à serviço dos trabalhares, gerenciado não pelos burocratas donos das empresas terceirizadas, mas pelos que trabalham e estudam.
            Parte da luta acabar com as doenças criadas nos locais de trabalho da universidade é nos apropriar de todo o conhecimento produzido nas salas de aula e laboratórios dessa universidade para melhorar as condições de vida de cada trabalhador.
            Hoje o conhecimento da universidade está a serviço de acabar com a saúde de nossa classe, de nos explorar o máximo possível, de fazer mais lucro para as grandes empresas. Para nós esse tipo de conhecimento de nada serve, por isso a luta pela saúde dos trabalhadores deve abarcar também a luta por uma educação a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, para que possamos formar pessoas capazes de responder ao nosso problemas.

Como Avançar Nessa Luta, o Exemplo de Zanon

            A experiência dos trabalhadores nos mostram que é possível se organizar e dar um fim às maquinas de moer gente, mas que para isso não existe cooperação com a classe que quer nos tirar a saúde, nem mesmo com os seus representantes.
            Na Argentina, os trabalhadores de Zanon ocuparam a fábrica ceramista e a colocaram para funcionar sobre controle operário e sem patrões conseguiram a partir da auto-organização produzir. Lá praticamente inexistem acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.
            Nessa experiência estudantes se juntaram aos trabalhadores para junto pensarem quais as melhores formas de produzir sem serem guiados pelo lucro, mas pelas melhores condições de vida para cada um dos que trabalhavam ali. Contrataram mais trabalhadores e partir da sua experiência e do conhecimento dos estudantes construiu-se ali um grande exemplo para todos os trabalhadores.

Quem está afim de por o seu futuro na reta para tudo isso mudar?


            Por fim em meio ao debate uma trabalhadora abriu uma reflexão: “Quem está afim de por o seu futuro na reta para isso tudo mudar?”
            Fazemos parte de uma classe poderosa, que já derrubou patrões, governos e até mesmo os poderosos de países inteiros. Pode ter certeza que esses trabalhadores não fizeram isso sem medo, se por um lado entrar na luta pode significar sofrer derrotas, por outro, não lutar significa aceitar adoecer nos nosso locais de trabalho, aceitar que uma pequena camada de privilegiados é mais forte do que as massas que são oprimidas cotidianamente.
            A história nos mostra que só podemos confiar nas nossas próprias forças, que se existe uma classe capaz de mudar as rumos da história, de construir uma sociedade que não se balize na exploração, mas na socialização de toda a riqueza produzida, essa é a classe trabalhadora.
            Há pouco tempo atrás tivemos o grande exemplo dos Garis do Rio de Janeiro, que mesmo com a mídia, o governo contra eles não retrocederam, tentaram intimidar esses companheiro com a policia e a resposta que essa categoria deu a todos os que tentavam os atacas é que Não Tem Arrego! Esses trabalhadores acreditaram na força de sua classe e conseguiram apoio de várias categorias no mundo inteiro, quando seu ato passava pelas ruas do RJ viam papeis de apoio colado nas janelas, aplausos e até chuva de papel.
            Nesses anos de USP conheci grandes guerreiros, que não hesitaram em se organizar contra os ataques da reitoria e só governo, que já se enfrentaram com os chefes, com os diretores, com a reitoria e até mesmo com a policia. Estamos a mais de 40 dias em greve e não vão nos cansar, porque em nossa greve ainda ecoa o grito dos nossos companheiro de classe, os garis do RJ e para todos os que tentarem nos atacar responderemos: NÃO TEM ARREGO.
            Nossa luta é por melhores condições de trabalho e salário, mas também é a luta por uma universidade a serviço dos trabalhadores. Nossa vitória não é só da categoria, mas de toda a classe trabalhadora que poderá se fortalecer para novas lutas e é com muita garra e determinação que devemos avançar para que essa greve seja vitoriosa, mas também para que a luta pela vida dos trabalhadores avance a passos largos por todo o mundo!