Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Na Filosofia-UFMG os estudantes votaram pela continuidade de uma entidade militante

Francisco L. - Coordenador do CAFCA

A Chapa Outros Junhos Virão (independentes + Pão e Rosas + Juventude às Ruas) venceu as eleições do CAFCA e será no próximo ano a gestão do Centro Acadêmico de Filosofia da UFMG. O resultado (63 votos na chapa x 4 brancos) mostra o que a burocracia estudantil petista, que hoje paralisa a maior parte dos C.A.s, D.A.s e o D.C.E., quer esconder: os estudantes apoiaram a gestão do último ano e disseram "Queremos entidades militantes e democráticas!". Nas eleições do último ano havíamos derrotado, com a Chapa Jornadas de Junho, a chapa opositora (PT e independentes), que abandonou o espaço que lhe cabia na gestão proporcional e democrática que implementamos. O abandono deste espaço por parte da chapa governista desmoralizou essa corrente frente aos estudantes, e neste ano não formaram uma chapa.
Se fortaleceu um projeto de Movimento Estudantil independente dos governos e da reitoria, que junto aos trabalhadores e à juventude de fora da universidade pública procura questionar o caráter de classe desta instituição que serve aos empresários, contra o projeto de educação de Dilma e do PT, lutando pelo fim do vestibular, pelo fim da terceirização (e a efetivação de todos trabalhadores terceirizados), pela derrubada da atual estrutura de poder e para colocar a universidade e seu conhecimento a serviço dos trabalhadores e do povo explorado e oprimido. Ao contrário do que dizem as correntes de esquerda como PSOL e PSTU, que se adaptam ao regime universitário e à despolitização construída pela burocracia estudantil governista, no último ano mostramos como é possível construir esta ferramenta (uma entidade militante), como os estudantes entendem estas ideias e as tomam pra si. Ao longo do ano fomos certamente a entidade estudantil mais ativa da UFMG (desde um pequeno CA), organizando blocos dos estudantes do curso para ir às manifestações contra o aumento das passagens (onde levantamos a necessidade da estatização do sistema de transportes sob controle dos trabalhadores e usuários), questionando a utilização do campus público para a Copa do Mundo da FIFA e a presença da PM (com uma paralisação e aula pública na rua, com a presença de mais de 150 estudantes), prestando solidariedade às greves de BH e do país (por meio de um comitê de solidariedade aos trabalhadores votado em assembleia estudantil do curso) e organizando diversas atividades contra as opressões, pelo direito ao aborto, contra a homofobia e contra o racismo.

Na próxima gestão levaremos à frente uma campanha pela abertura de todas informações sobre matrícula e currículo para nos apoiarmos nisto e exigirmos democracia (cada cabeça um voto, estudantes, funcionários e professores) nas decisões sobre o curso, uma demanda que sabemos que a burocracia do departamento não concederá com facilidade e exigirá dos estudantes mobilização e combate a ela. Também buscaremos fazer com que as secretarias se tornem referências militantes (como foi a Secretaria de Mulheres e LGBT na gestão passada), gerando ativismo de base em torno a cada uma delas. Na nossa campanha mostramos como o questionamento de cada problema que vivem os estudantes na sala de aula, seja por más condições na infraestrutura, pelo produtivismo do curso ou a pela falta de assistência estudantil que reproduz e se aproveita das opressões da sociedade (como a falta de assistência aos estudantes negros ou a falta de creches para as mães) se liga ao projeto que implementa a burocracia universitária privilegiada, que “tapa os poros” da universidade e a coloca a serviço dos empresários e dos governos. Organizar os estudantes desde a base para questionar profundamente o caráter destas universidades que têm regimentos herdeiros da ditadura, é o caminho para colocar o movimento estudantil como ator nacional que possa se ligar aos trabalhadores e ao povo oprimido, para revolucionar a universidade e lutar pelas demandas de toda população, que emergiram em junho de 2013 e nas grandes greves deste ano, e que Dilma, aliada à direita e a diversos setores reacionários, já garantiu desde a campanha – e agora mostra nas ações – que não concederá.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Na UFRJ, é preciso avançar para ter um movimento estudantil democrático, combativo e pela base

Encerraram na última quinta-feira (06) as eleições para o Diretório Central dos Estudantes – Mario Prata da UFRJ, entidade máxima de uma das maiores universidades do país, em um universo de mais de 40 mil estudantes.

Ganhou a chapa da esquerda “Quero me livrar desta Situação Precária”, composta por Nós Não Vamos Pagar Nada (RUA-PSOL e independentes), Correnteza (PCR) e UJC (PCB),que eram parte da última gestão, somados ao Coletivo Marxista e Não Vou me Adaptar (PSTU e independentes), com mais de 1000[1] integrantes, saiu com um saldo de 74% dos votos válidos (7612 votos), barrando a chapa branca da UNE (Kizomba e UJS).

A chapa da esquerda  focou sua campanha na assistência estudantil e permanência. O apelo, e por isso, a alta votação se deve à realidade da universidade hoje. Sem vagas para o Alojamento, que por sua vez está caindo aos pedaços, sem a possibilidade de se alimentar em restaurantes universitários e com o transporte caro, faz com que estudar, mesmo em uma universidade pública, continue sendo um privilégio para poucos, aumentando as evasões.

Um estudante de baixa renda ou filho de um trabalhador, como é a maioria da população, depois de passar pelo ENEM e SISU tem que passar por outro teste, manter-se dentro da universidade por conta própria, sem contar com apoio da instituição.

Governo perde novamente

A Chapa 1, uma correia de transmissão da política educacional do governo Dilma, cumpriu seu papel empurrando goela abaixo a versão fantasiosa da política educacional do governo PT como a “grande democratização do ensino superior”. De fato, aumentou parcialmente o acesso ao ensino superior público, mas o que a chapa do governo não diz é que esta política está subordinada à condição seguir defendendo os interesses capitalistas.

Aumentaram as privatizações dentro das universidades, abrindo espaço para as fundações e investindo em cursos pagos, destinando quantias milionárias aos grandes monopólios da educação como Kroton-Anhaguera. Ao centrar todos os seus esforços para esconder estes fatos, os governistas estão em oposição à realidade de milhões de jovens, filhos de trabalhadores, de baixa renda, negros, que ainda não tem acesso à educação pública, ou que tem que pagar por este direito, ou que, quando conseguem ter acesso, não tem condições materiais para se manter dentro da universidade.

A caricatura desta mesma política se repete ao defenderem os royalties do pré-sal para a educação, omitindo para os estudantes que estes royalties vêm de uma das maiores privatizações da nossa história recente, com o PT batendo o recorde dos tucanos em número de áreas que foram leiloadas, inclusive a maior de todas, o campo de Libra. Ainda assim, conseguiram se aproveitar do desgaste do DCE, arrancando alguns votos contra uma gestão que dura 7 anos, terminando com 26% dos votos e reavendo uma das quatro cadeiras que haviam perdido no conselho universitário em 2013. Pesa nesta conta o fato de que a maioria dos votantes não viveu a experiência de ter um DCE funcionando como pau mandado do Governo Federal e da Reitoria, como é a UNE hoje.

Nem nas jornadas de junho este DCE saiu do imobilismo, construir um movimento pelas reivindicações dos estudantes!

Em uma das cidades mais caras do país, a parte da burocracia universitária responsável, entre outras coisas, pelas bolsas de acesso e permanência (que sempre atrasam, às vezes meses), aconselha em nota oficial para os que fizeram ENEM, que se, caso dependessem da assistência, deveriam tentar outras universidades, para conseguir manter os estudos.

Em 7 anos de gestão, ou durante a efervescência de junho, as correntes que compõe esta chapa não usaram a entidade para impulsionar assembléias nos cursos, se abstendo do combate contra o imobilismo do Movimento Estudantil. Este imobilismo continuou durante as greves que atravessaram o primeiro semestre em nossa cidade, e mesmo na defesa de interesses estritamente estudantis como as bolsas e alojamentos. Para nada disto vimos o DCE se movimentar e buscar organizar assembleias, movimento estudantil.Defendemos que, para barrar os ataques, como enfrentam os estudantes do Alojamento, não basta que se mobilize uma somatória dos CAs para pressionar alguma reunião de conselho universitário. As entidades devem servir de ferramenta para organizar a luta, através de assembléias nos cursos, espaços de deliberação mais amplos, necessários para forjar uma nova tradição de movimento, democrático, e pela base, que busque a massificação de suas demandas.
Para sermos consequente em barrar os ataques, os estudantes que votaram e militaram pela Chapa 2, os coletivos e os 1000 integrantes que compuseram a chapa, devem se colocar o desafio de forjar um movimento estudantil que cerre fileiras, ombro a ombro com os trabalhadores dentro e fora da universidade, como nós da Juventude às Ruas fizemos fomos parte de uma pequena fração do movimento estudantil junto aos trabalhadores na greve vitoriosa da USP. Este pequeno exemplo ilustra o que o movimento estudantil, sob outra concepção pode fazer.

Por isso defendemos que os CAs e o DCE, junto ao lado dos 1000[1] integrantes da chapa 2 devem ter a ambição de ampliar o movimento estudantil e organizar a luta a partir de assembléias nos cursos, aonde a base seja sujeito ativo na tomada de decisões e nas ações que decididas democraticamente nestes espaços. Para que o programa de assistência e a permanência seja aplicado integralmente, e não à conta-gotas e à depender da boa vontade da burocracia universitária. Força para isto existe. Agora resta saber se esta vitória contra o governismo será um passo adiante para colocar um novo movimento estudantil em ação ou será a continuidade de mais um ano destes 7 anos de uma gestão apática. O primeiro e elementar passo é a realização de assembleia e reuniões por unidade!




domingo, 19 de outubro de 2014

Um amplo movimento democrático toma as ruas mexicanas!

A crescente mobilização e a ampla indignação popular com o massacre de Ayotzinapa, recria o que vimos em outros momentos da história recente: frente aos ataque às liberdades democráticas, surge um profundo movimento na ruas.

Artigo de Pablo Oprinari em La Izquierda Diario


Existe no México uma grande tradição de luta contra as atrocidades perpetradas pela democracia dos ricos e poderosos. Em 1994, a ofensiva militar contra a revolta indígena-campesina de Chiapas, despertou importantes ações nas cidades, que rodearam de solidariedade o movimento encabeçado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). O ano de 1994 deixou uma profunda marca, e nos anos seguintes se forjou uma nova geração de jovens.

Em fevereiro de 2000, o governo acabou com uma greve de mais de 9 meses na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México), com uma ocupação policial-militar. Isso provocou uma mobilização que obrigou o Partido da Revolução Institucional (PRI) a libertar os estudantes presos [1].

Mais recentemente, no ano de 2006, ante a fraude que levou o conservador Felipe Calderón a presidência, milhões se mobilizaram em todo o país durante semanas. Isso fazia lembrar os massivos protestos que em 1988 surgiram com outra fraude, naquele momento contra o candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD), Cuauhtémoc Cárdenas. Além disso, a repressão selvagem aos professores de Oaxaca em Junho desse ano abriu caminho para uma heroica luta de todo o povo desse estado e ao surgimento da Comuna de Oaxaca.

Se as décadas recentes do México estão marcadas pelos ataques às liberdades e direitos mais elementares, também é um fato que vez ou outra emergem impetuosos movimentos democráticos.

Esses são motivados pelas aspirações de milhões cansados do autoritarismo. Mostram a irrupção de novos setores populares, de trabalhadores e jovens, que rapidamente os partidos do regime político tratam de conter.

Nos anos recentes, a degradação das instituições chamadas “democráticas” se expressou em uma “guerra às drogas”. A mesma gerou cerca de 200 mil mortos e desaparecidos, a maioria trabalhadores, camponeses e estudantes, enquanto que o Estado e as distintas facções de traficantes se mostraram em conluio de múltiplas formas.

O movimento atual se concentra em repúdio a esta “guerra às drogas” e a indignação frente a um massacre cujas vítimas são reconhecidos ativistas sociais: os estudantes normalistas, crucificados pelos meios de comunicação e pelos poderosos. Mais uma vez, a luta democrática é a forma que assume, no México, o descontentamento com as instituições responsáveis pela repressão e pelas reformas estruturais.

Os estudantes no centro do palco

Novamente, nada cai do céu. Em 2012, o movimento ‪#‎YoSoy132 (‪#‎EuSou132) irrompeu no céu calmo e sinalizou que a juventude estudantil mexicana se colocava em sintonia com o que se passava em outros lugares do mundo, desde o mundo árabe até as ruas de Santiago no Chile. Surgiu em uma Universidade Privada, como parte do repúdio a candidatura de Enrique Peña Nieto por parte do PRI, e se estendeu às casas de estudo mais politizadas. O ano passado, depois de uma selvagem repressão contra um acampamento de professores, milhares de estudantes se organizaram em assembleias e se mobilizaram, abraçando com sua solidariedade os professores reprimidos.

Atualmente, milhares receberam os normalistas na Cidade Universitária e protagonizaram ocupações e paralisações de suas escolas com uma demanda unificada [2]: que apareçam já, com vida, os 43 normalistas desaparecidos de Ayotzinapa. Muitos desses foram protagonistas das lutas mencionadas, outros tantos, “meninos” e “meninas” de recente ingresso, que participam de sua primeira paralisação, sua primeira ocupação, sua primeira mobilização. Isso, enquanto a Politécnica, casa de estudo governada com mão de ferro pelo PRI e suas tropas de choque, está parada por seus estudantes, um fato impensável meses atrás.

Uma nova geração estudantil está emergindo no calor da luta contra os aspectos mais bárbaros deste regime político. E o fazem com uma onda ao fundo de ampla e profunda indignação que percorre o México e que está fazendo tremer os de cima.

A primeira grande crise

Esta é, sem dúvida, a primeira grande crise do governo de Enrique Peña Nieto [3], que enfrenta a indignação popular frente uma “democracia” baseada na militarização e na repressão aos opositores.

O governo tentará evitar a escalada, buscando, possivelmente, que a culpa recaia sobre o PRD, que governa o estado de Guerrero. No entanto, para além da dinâmica imediata, o descrédito e a perda de legitimidade “democrática” do governo e do regime político aparecem como algo difícil de superar, e requererá toda a “engenharia política” de um governo que não atingiu nem dois anos.

Certamente, as mobilizações atuais se potencializariam e a luta de classes se expressaria em um nível superior se as organizações sindicais participassem das mesmas. O movimento operário vem de duras derrotas prévias [4]; sem ir mais longe, a reforma energética passou sem uma paralisação nacional e nem uma mobilização unificada das principais organizações operárias. E enquanto as direções sindicais majoritárias não participaram das recentes ações por Ayotzinapa, setores de professores e outros sindicatos começaram a juntar-se.

Enquanto as organizações de trabalhadores não estão presentes, o movimento democrático e os estudantes ocupam o proscênio, o centro do palco, repetindo a história de outros episódios como os mencionados acima.


Há um antes e um depois de Ayotzinapa. Cabe perguntar-se se este amplo movimento conseguirá impactar e abrir o caminho para que setores importantes da classe operária irrompam, com seus métodos de luta. Há que se apostar que irrompa em toda sua potência, forte e profundo, o México.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Greve da USP: Algumas Lições de uma “escola de guerra”



por Mateus Pinho e André Bof

Aos operários, a classe de quem um novo futuro depende, a História não negou as ferramentas para a superação da burguesia, que hoje, como classe, leva a sociedade à catástrofe.

A cada combate e greve se coloca a possibilidade de constituir uma verdadeira “Escola de guerra”, capaz de ensinar como vencer e ligar a história de cada luta com a história de todas as lutas dos trabalhadores, apontando o caminho para uma nova sociedade.

É neste espírito que devemos encarar as lições deixadas a todos os trabalhadores pela Greve da USP e seus heroicos exemplos operários.


Uma estratégia para vencer!

A greve dos trabalhadores da USP durou 116 dias conseguindo importantes conquistas como o reajuste salarial de 5,2%, contra os 0% que a REItoria buscava impor; abono de 28,6% referente ao reajuste desde maio, início da greve; nenhuma punição ou corte de salários e uma conquista de que não pagarão o total de horas paradas; a libertação do delegado do comando de greve, Fabio Hideki; além de adiar o ataque da REItoria em desvincular o Hospital Universitário.

Além disto, no plano da “consciência”, se consolida uma tradição de “combate de classe” que já era marca dos trabalhadores da USP os quais, saindo de greve com os gritos de “Não teve arrego”, após todas as experiências pelas quais passaram, são agora a principal “pedra no sapato” contra os planos do PSDB e seu REItor Zago de imporem seus projetos de privatização, como querem com a desvinculação do HU (Hospital Universitário da USP) e HRAC (hospital de anomalias craniofaciais de Bauru/USP).

Isto não se conquistou por acaso. Os trabalhadores da USP, lado a lado de seus companheiros na UNESP e Unicamp, cruzaram uma conjuntura dificílima, batendo de frente com a suposta crise orçamentária que, segundo a REItoria, seria culpa de seus salários.

Durante quatro meses, se enfrentaram com o difícil momento da Copa do Mundo, as mentiras da imprensa, a intransigência da REItoria, os ataques do governo Alckmin, a sabotagem dos fura-greves, a repressão da Polícia, os desalojamentos de piquetes…
Ainda mais difícil se tornou sua situação frente ao duro ataque que o Governo Alckmin desferiu contra os metroviários, em junho, demitindo 42 para dar um exemplo de que em SP, diferente de como impuseram os garis do RJ, ia “ter arrego”.

Em nenhum momento, no entanto, perderam de vista sua estratégia para vencer: lutar, sim, por seus direitos mais “sentidos” – salários, reajustes e benefícios – mas, sobretudo, tornar a sua greve um verdadeiro “combate de classe”, que oponha os interesses dos trabalhadores – não apenas da USP, mas de toda a cidade – aos interesses dos empresários, donos de fundações, em suma, dos magnatas capitalistas.


Aliança com o povo trabalhador

Em sua greve, os trabalhadores da USP buscaram demonstrar que os seus interesses são os mesmos de todos os trabalhadores, não apenas levantando em suas pautas a construção de hospitais na região do Butantã; a efetivação dos milhares de trabalhadores terceirizados aos quadros da USP, fazendo atos contra as demissões destes, etc. [1]

Deram, também, exemplos concretos desta estratégia quando marcharam por horas até o hospital das Clínicas de SP e doaram sangue, as centenas, ao escasso banco sanguíneo; organizaram cortes de avenidas e atos de centenas no Metrô em solidariedade a Greve de metroviários que ocorria às vésperas da Copa; percorreram com seu carro de som a Zona Oeste e a favela São Remo exigindo mais UBS (unidades básicas de saúde) para a região; denunciaram a hipocrisia do governo que aumenta o salário do governador e parlamentares, enquanto o povo não tem água, frente à crise hídrica em SP; ou quando, com o dinheiro arduamente arrecadado para o fundo de greve doaram cestas básicas para os moradores da favela do Piolho, vitimas de um incêndio criminoso.

Esta busca incessante pela hegemonia operária, que atenda às demandas de todo o povo explorado na sociedade não é um mero detalhe, em que as direções sindicais “podem ou não” buscar para alcançar a vitória: esta busca é, pelo contrário, um movimento essencial para que as greves vençam e extrapolem sua demanda “coorporativa”, lutando pelas “causas populares” contra os exploradores, a fim de expressar que são os trabalhadores, que tudo produzem, os únicos que podem responder às demandas dos oprimidos.


Aliança com os estudantes

Os trabalhadores buscaram, também, uma ofensiva aliança com os estudantes.

Apesar de toda a passividade e ceticismo das correntes que dirigem o movimento estudantil – PSOL, PSTU e correntes ligadas ao PT e Consulta Popular – que, nesta greve, praticamente viram o “bonde da história” passar e não colocaram nela um décimo da energia que colocam para suas eleições estudantis e parlamentares, ainda assim, a aliança operária-estudantil mostrou sua importância.

Segundo pesquisa recente, realizada por estudantes de engenharia, cerca de 77% dos estudantes apoiavam a luta dos trabalhadores. Isto, igualmente, não é por acaso.
Ao longo de duas décadas, desde a ditadura, diversos são os exemplos das vitórias e combates construídos por trabalhadores e estudantes. Os trabalhadores, nesta greve, tornaram esta história escrita em panfletos distribuídos aos milhares aos estudantes, demonstrando as conquistas de contratação de professores, moradia, contra os decretos privatizantes de Serra, por mais verbas a educação etc.

Buscaram a unidade de ação com atos, cortes de rua, criando o “cantinho das crianças”, mantido por estudantes e fundamental para que as trabalhadoras mães pudessem ser sujeitas da greve, piquetes e debates buscando ligar o conteúdo aprendido pelos estudantes com a realidade dos trabalhadores.

Demonstraram, assim, como se dava a unidade contra o corte de verbas, que atinge tanto os salários dos trabalhadores quanto as bolsas dos estudantes; contra os processos de desvinculação dos hospitais e também contra as propostas de desvinculação da permanência estudantil (moradia, bolsas auxilio, restaurantes universitários), demonstrando como nos unificamos contra o projeto privatista para a universidade. [2]

Para essa unidade se efetivar, os trabalhadores contaram com a participação de grupos como a Juventude Às Ruas e o Pão E Rosas, que, ainda que pequenos, demonstraram como se organiza uma aliança na base da Universidade entre trabalhadores e estudantes.


Uma organização democrática: O comando de greve e as assembleias

Na contramão a toda tradição sindical brasileira, consolidada pelo PT e sua CUT e reproduzida até por setores da esquerda como PSOL e PSTU, uma das lições mais importantes desta greve se refere a forma como os trabalhadores se organizaram para seguir sua luta.

Nesta greve, os trabalhadores mantiveram vivo o melhor da democracia operária, para que todo trabalhador expressasse suas opiniões e se tornasse sujeito ativo dos rumos da greve.

Todas as decisões eram tomadas pelas reuniões de unidade e, sobretudo, pela assembleia geral, órgão máximo de deliberação política da greve, nas quais qualquer trabalhador podia propor e dizer o que quisesse.
Para colocar a direção da greve nas mãos de seus trabalhadores, foi criado o Comando de Greve dos Trabalhadores, com centenas de delegados, revogáveis a qualquer momento, eleitos pelas assembleias de base.

Ao se formar o comando de greve, a direção do SINTUSP – da qual a LER-QI faz parte como ala minoritária e revolucionária – se “dilui” dentro do comando, igualando seus membros da direção sindical aos delegados de greve e alçando o Comando como direção da greve.

Este tipo de “auto-organização” dos trabalhadores tem um sentido estratégico pois possibilita seu desenvolvimento como sujeitos críticos e ativos da greve refletindo os melhores passos, decidindo como responder rapidamente aos ataques, propondo atividades, pensando os problemas da greve e levando-os para a base nas unidades.

Em resumo, o Comando consolida um espaço de formação e ação desta “escola de guerra”, possibilitando surgirem novas camadas de dirigentes e ativistas no calor da luta e plantando o “embrião” de uma nova sociedade, na qual os trabalhadores pensam a grande política e são sujeitos de sua vida.

Salta aos olhos a diferença com práticas sindicais das mafiosas Força Sindical e UGT, que disputa eleições “na bala” e no espancamento, com as da CUT ou CTB, baseadas em impor “figuras de burocratas”, que praticamente dão as ordens para as bases “ignorantes” cumprirem passivamente ou, até mesmo, com a tradição expressa por PSOL e PSTU, que restringe debates e falas, impede a formação de comandos de greve impedindo a iniciativa da base e se mantém, no fundamental, baseada em “figuras”- como é o caso de Altino dos metroviários- que ensinarão aos trabalhadores, que “não gostam muito de discutir”, os caminhos a seguir.


Os trabalhadores em ação: “todas as armas são boas na luta de classes”!

Esta greve trouxe momentos históricos para a classe trabalhadora brasileira. Ao fechar os três portões da Cidade Universitária por um dia todo, exigindo a libertação de Fábio Hideki e confrontando a REItoria de Zago, os trabalhadores fizeram algo que não acorria há anos, tendo Fábio Hideki sido liberado no mesmo dia depois de meses preso e muitos atos em sua defesa.

Este tipo de ação direta, para pressionar a burguesia, foi uma das armas mais eficazes de luta dos trabalhadores, no entanto, não a única neste “combate de classe”.

Ao longo da greve, estes entenderam que na luta de classes “todas as armas são boas”. Apesar de também lutar através da justiça (burguesa) para, por meio de suas brechas, colocarmos a REItoria, o governo e os patrões contra a parede e desmascarar suas intenções, não incorreram no erro de acreditar que apenas por este meio, ou por qualquer outra medida por dentro desta “democracia dos ricos”, venceriam.

Lutando “com inteligência”, aproveitando as declarações contraditórias dos membros da Burocracia universitária, jogando-as contra a REItoria e aproveitando a divisão no “campo do inimigo” (como o racha que a discussão do HU causou na burocracia acadêmica), utilizando-se das ferramentas jurídicas e espaços parlamentares, sem em nenhum momento enfraquecer a mobilização nas unidades, os piquetes, atos de rua, a “ação direta” e debates na base, desnortearam a REItoria e venceram.

Isto, no entanto, também não foi por acaso. Só foi possível graças a uma combinação entre os “novos e velhos lutadores”, na direção deste combate.


Uma tradição combativa e uma direção revolucionária: os velhos e jovens lutadores!

Estes exemplos só se tornaram realidade graças a um elemento fundamental em toda greve, combate e, até mesmo, revolução. O papel da tradição e da direção.

Toda uma camada de dirigentes, resistindo aos “anos de cão” do Neoliberalismo e, posteriormente, aos “anos de submissão”, dos movimentos e sindicatos, ao PT no governo, consolidou, ao longo dos anos, uma tradição que foi capaz de imprimir nos trabalhadores a “força moral” que mostrou que , quando se luta, independentemente dos patrões, é possível vencer.

Companheiros como Brandão, Magno e Neli personificam esta tradição que alarma a burguesia, assustada frente aos 380 dias de greve feitos em 10 anos. Estes, fundidos com o melhor de uma camada surgida no calor da luta e organizada ao redor do Comando de Greve, são como uma “espada forjada em brasa”, que continuará a tradição exemplar dos operários da USP, combinando a tradição e ousadia.

Para vencer, no entanto, não basta a “força moral”; é necessária, também, uma compreensão estratégica de porque se luta, com quem se luta e com que meios se deve lutar.

Neste sentido, cumpriu um papel central a intervenção revolucionária, como ala minoritária do SINTUSP, dos militantes da LER-QI que, a cada passo, buscaram ligar a luta mais imediata dos trabalhadores com a compreensão da necessidade de uma nova sociedade e de uma ação plenamente independente dos trabalhadores.

Quando muitos teriam desistido, insistiram que era possível vencer, desde que usassem todas as armas disponíveis, reconhecessem os aliados e os inimigos e, acima de tudo, confiassem apenas em suas próprias forças.

Recusando-se a iludir os trabalhadores em busca de “atalhos”, não “embelezaram inimigos”, não confundiram aliados, disseram apenas a verdade e fortaleceram a idéia de que todo e cada operário pode dirigir sua greve, sua vida e até mesmo uma sociedade a serviço de seus interesses.

Isto demonstrou a diferença que faz um grupo que busca ligar o mais avançado da vanguarda com a base, fazendo sua luta se chocar contra os patrões e o capitalismo de conjunto.

Por isso, também, impulsionaram o Movimento Nossa Classe, junto de dezenas de trabalhadores, para cumprir este papel de forjar uma nova camada de direção revolucionária na USP.

Um exemplo emblemático está expresso no exemplo de democracia operária quando, num ato em que aliados levaram uma bandeira pedindo a liberdade de José Dirceu e outros “mensaleiros do PT”, abriu-se um importante debate sobre qual posição os trabalhadores teriam frente aqueles corruptos burgueses. Neste caso, a pressão fez com que se abaixasse a bandeira e os trabalhadores tiveram a clareza de que não é de seu interesse prestar apoio aos patrões ou agentes destes.

Salta aos olhos aqui também, as enormes diferenças com organizações de esquerda como o PSTU que, utilizando o mesmo lema “Não tem arrego”, durante a greve do metrô, na qual eram direção do sindicato, deram um sentido completamente distinto ao “lema”.

Colocando membros da UGT, CUT, CTB, NCST e outras siglas sindicais ligadas aos patrões na negociação com o Metrô; prometendo que, caso houvesse demissões, estas centrais fariam uma greve geral; construindo a retirada quando a greve poderia impedir as demissões; após as demissões, deixando tudo a cargo do “jurídico” e, durante a greve construindo uma pauta e prática restrita aos interesses salariais e embelezando a Justiça e tribunais, levaram a um setor importante da classe operária a confusão sobre quem são seus aliados, como vencer e a ficar isolado frente aos enormes recursos de repressão e intimidação que o Governo do PSDB tem em mãos.

A greve da USP deste ano já ficou para a história do movimento operário brasileiro pelas vitórias que obteve frente à dura intransigência e, principalmente, pelas lições que deixa para todos os trabalhadores do país.

sábado, 27 de setembro de 2014

Nota unificada de repúdio ao ataque racista feito pelo professor Edson Leite e seus advogados à estudante da EACH-USP


Manifestamos aqui nosso completo repúdio ao ataque racista que o professor Dr. Edson Roberto Leite, ex-vice diretor da EACH-USP, cometeu contra uma estudante ativista da EACH após a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) “das áreas contaminadas”, nessa terça-feira (23/09) na Câmara Municipal de Vereadores de São Paulo.

Edson Leite havia sido intimado judicialmente para prestar esclarecimentos e em seu depoimento afirmou cinicamente mais uma vez que não teve relação com as decisões do aterro ilegal no campus, o que minimamente já evidencia sua negligência perante a comunidade universitária. Leite também tem um histórico de autoritarismo: foi o responsável pela entrada da Tropa de Choque no campus da USP Leste em 2013, que foi acionada para reprimir os estudantes que legitimamente ocupavam a diretoria exigindo, entre outras coisas, seu afastamento.

Justamente por isso, após a sessão, estudantes foram questioná-lo e Leite, junto aos seus advogados, se direcionou a uma estudante negra (linha de frente nessa e em outras lutas, sendo uma ativista reconhecida no movimento estudantil da EACH) e numa clara tentativa de desmoralizá-la disseram: “Vá se lavar”. A estudante respondeu questionando se eles diziam isso pelo fato de ela ser negra e eles apenas repetiram: “Vá se lavar”. Imediatamente os outros estudantes que ali estavam pegaram câmeras digitais e outros dispositivos que pudesse gravar essa declaração racista, mas dessa vez Leite e seus advogados se calaram.

Sabemos que o racismo segue presente em nossa sociedade e na universidade não é diferente. Ao contrário, como é gritante nesse caso, o racismo é uma questão que permeia todos os debates sobre educação superior. Sabemos por exemplo que apesar de serem a maioria da população brasileira, são justamente os negros os que menos têm acesso às universidades. Esse número despenca assustadoramente quando se trata das universidades públicas. O caso da Universidade de São Paulo é ainda mais agravante, pois sua estrutura de poder, que está intrinsecamente ligada a ditadura militar, se nega a debater medidas de democratização no acesso, como as cotas raciais e sociais e o fim do vestibular e também medidas de permanência estudantil, que são as que garantiriam o direito ao estudo àqueles poucos pobres e negros que conseguem entrar na USP. Nessa universidade, a maioria dos negros está na categoria de trabalhadores e, dentro dela, geralmente assumindo os postos de trabalho mais precarizados, como é o caso dos trabalhadores terceirizados. Na reunião do Conselho Universitário que pautou a discussão sobre cotas, por exemplo, alguns diretores afirmaram que o índice de violência na universidade aumentaria caso aumentasse o número de estudantes negros e/ou oriundos de escola pública. Outro exemplo é a brutal agressão racista que estudantes da Escola Politécnica cometeram contra um estudante negro dentro do Centro de Práticas Esportivas (CEPE) também no ano passado.

Por entendermos por um lado que Leite não é o único racista frente à direção da universidade e sim que é mais um dos que estão – apoiados na estrutura de poder autoritária – servindo a um projeto de universidade cada vez mais racista e elitista e que sirva inclusive aos próprios interesses desse setor e, por outro lado, justamente pouco depois de uma vitoriosa greve da categoria de trabalhadores e professores, que mostrou a força dos que realmente constroem a universidade pública e de qualidade, por vermos como o debate entorno do racismo e seu combate volta a surgir no cenário nacional, mas também internacional, não podemos tolerar que criminosos como esse sigam impunes, fazendo da universidade que deveria ser para todos, um balcão de negócios dos seus interesses.

Colocamos aqui toda nossa solidariedade a estudante e reafirmamos que não nos calaremos diante de crimes de racismo dentro da nossa universidade. Seguiremos junto com ela na luta pela punição a estes criminosos, mas também na luta por um projeto de universidade não racista e não elitista que sirva aos interesses da população que a financia.

“Minha cor não é sujeira! Sujeira é a contaminação da EACH!”
“Fora Edson Leite e toda essa corja corrupta e racista da EACH e da USP!”

Assinam: 
Juventude Às Ruas
Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional
Movimento NOSSA CLASSE
Grupo de Mulheres Pão e Rosas
CAELL - Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários - USP
CASI - Centro Acadêmico de Sistemas de Informação - UFRA
Levante Popular da Juventude 
DCE - Diretório Central dos Estudantes - UFRA
Território Livre
CEAGRO - Centro dos Estudantes de Agronomia - UFRA
Reconquistar a UNE
ANEL - Assembleia Nacional dos Estudantes Livre 
FEAB  
SINTUSP



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Queremos justiça para João Antônio Donati, e também queremos outra sociedade

texto escrito por Bruno Portela publicado originalmente no blog: 
http://minhavidaealutadeclasses.blogspot.com/2014/09/queremos-justica-para-joao-antonio.html
em homenagem aos familiares e amigos de João
 
   
João Antônio Donati, jovem de família humilde, de 18 anos, foi encontrado morto nessa quarta-feira (10 de setembro) com a boca cheia de sacos plásticos e papeis, num terreno baldio da região metropolitana de Goiânia. Segundo a polícia, ele apresentava hematomas nos olhos e nariz, além de aparentemente estar com o pescoço  e pernas quebradas. A polícia nega que em um dos papeis da sua boca havia um bilhete escrito "vamos acabar com essa praga".[1] Não importa. João era assumidamente gay, e ainda que a polícia não queira afirmar (como geralmente faz) que é um crime de homofobia, nós sabemos que foi, porque não foi a primeira vez que aconteceu algo desse tipo, inclusive dessa forma: homicídio carregado com tanta crueldade. O corpo de João foi enterrado nessa manhã, mas a tristeza de sua morte continua, assim como o ódio contra essa sociedade miserável em que vivemos. Sinto que com João, nós morremos um pouco, mas que por ele e por tantos outrxs violentadxs por essa sociedade, devemos seguir buscando justiça. Coloco aqui toda a minha solidariedade aos familiares e amigos de João, aos quais também dedico esse texto.
   O assassinato de João acontece em meio a um cenário contraditório, mas que é fundamental que seja analisado para que se consiga dar uma resposta, não somente a esse caso, mas a todos os outros casos que vêm acontecendo. 
Nesse ano, a Anistia Internacional divulgou o resultado de um estudo que mostra que há um grande aumento de casos de homofobia em nível internacional, no entanto, o assessor de Direitos Humanos desta afirma que o Brasil melhorou muito em termos de leis no que diz respeito à comunidade LGBT[2]. Ao mesmo tempo que esse tipo de lei “avança”, vemos contraditoriamente um grande aumento nos registros de homicídios e agressões por motivação de homo/lesbo/transfobia. É importante também visualizarmos a relação cada vez mais ampla e intrínseca de setores religiosos e conservadores ao estado, como aumento da bancada evangélica, financiamento milionário para garantir a vinda do Papa Francisco I ao país na JMJ, acordos entre candidatos e seus partidos com setores religiosos e etc. Esse é o plano de fundo em que acontece não só o caso de João, mas também o de Kaique (que a polícia encerrou o caso dizendo que foi um suicídio) e de diversos outros casos, evidenciando que nem as “melhorias” pequenas, alcançadas aqui e ali questionam de fato não somente a homo/lesbo/transfobia, mas toda a estrutura que a mantém com uma razão de ser. 
   Devemos entender que não é a toa que o PLC 122/06 que visa criminalizar a homofobia[3] tramita há tantos anos na justiça e que o mesmo motivo que faz com que ele não seja aprovado é o motivo pelo qual poderá leva-lo a ser “apenas” uma lei no papel, caso ele seja aprovado em algum momento: o estado e suas instituições servem para manter “as coisas como estão”, ainda que com discursos diferentes, “quem paga a banda escolhe a música”, ou seja, os políticos e seus partidos, para se manter no poder, fazem compromissos políticos com os setores conservadores e religiosos em troca de financiamento para suas campanhas e projetos, logo, os mesmos nunca irão afrontar os setores que os financiam, aliás, ao contrário, vão agir conforme os interesses dos seus patrocinadores. Para além disso, a autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas, em diversos sentidos (seja com o direito de escolha da mulher sobre a gravidez, a livre construção da identidade de gênero do indivíduo, a liberdade para exercer sua orientação sexual etc), confronta diretamente o princípio da família e da moral, essas que por sua vez são ferramentas fundamentais para a manutenção da propriedade privada, uma das bases da sociedade capitalista. O que quero dizer com tudo isso, é que não basta lutarmos pela aprovação de leis que nos reconheçam esse ou aquele direito, aliás, é perigoso que tenhamos ilusões no estado capitalista e suas instituições (legislativo, executivo e judiciário, para além é claro da racista, machista e homofóbica polícia), temos mesmo é que nos organizar conjuntamente e entender que só através de uma luta incansável conseguiremos acabar com tudo que nos oprime. O mesmo estado que nos nega nossos direitos, como no caso da criminalização da homofobia, é o estado homofóbico que é conivente com as agressões que sofremos, por exemplo, como quando muitxs de nós vão à delegacias registrar B.O. e os policiais (civis e militares) fazem o possível para que desistam das denúncias e nunca acham muito menos punem os agressores.
   Os debates que vêm sendo abertos agora nesse momento pré-eleições também nos coloca questões para se pensar em relação à “comunidade LGBT”, no sentido de pensar qual resposta e com qual estratégia podemos seguir na luta contra a homo/lesbo/transfobia. Os três candidatos “principais” (Dilma, Aécio e Marina) são financiados por empresas, empreiteiras e todos os três têm relações afinadas com comunidades religiosas e setores dos mais conservadores, ligados por exemplo à ditadura militar. A única coisa que os três podem oferecer a nós é a certeza de que os nossos direitos serão rifados, retirados e reprimidos sempre que for necessário, basta vermos como tem acontecido em diversos países da europa, onde os direitos das mulheres, LGBTs e outros setores (como imigrantes) vêm sofrendo duros ataques pelos partidos que assim como os de cá, são financiados pela burguesia. Mas para além desses três candidatos, entendendo que o próprio regime e suas estruturas estão fundamentados no que há de mais conservador e reacionário, não podemos nos iludir que por meio desse regime, ou seja, da sociedade capitalista e "democracia", poderemos conseguir nossa liberdade de construção da sexualidade e de gênero.
A nossa miséria sexual anda de mãos dadas com a sociedade capitalista, a sociedade dos exploradores e dos opressores, portanto, não há alternativa ou estratégia para a nossa luta que não passe pela nossa união enquanto oprimidxs, se aliando com tantos outros setores oprimidos que sofrem com a miséria da nossa sociedade, mas principalmente se aliando com a classe que justamente é a única que pode se colocar radicalmente contra os exploradores e opressores porque é a única que têm interesses inconciliáveis com os mesmos: a classe trabalhadora. É essa a resposta que podemos e devemos dar, para que consigamos avançar na luta para que não haja mais casos como os de João.
 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem foi João para os professores da Rede Estadual de Ensino de São Paulo



Por Guilherme Soares, professor da rede pública estadual de ensino da Zona Norte de São Paulo

Para quem é professor da Rede Pública do Estado de São Paulo, a morte do João deveria ter tido um pouco mais de atenção.  A ideologia dominante educou os dominados a naturalizarem a pobreza, ou seja, se tornou algo banal para muitos passar na rua e ver um morador de rua deitado e nem minimante se perguntar: Por que este ser humano está na rua? Ou até mesmo: qual é a historia deste individuo que está nas ruas?

João foi um morador de rua que morreu na última semana de agosto e que viveu o resto de sua vida na Cidade Universitária. Ele, nos anos 70,  se formou na USP em Letras e começou a lecionar na rede pública de ensino do Estado de São Paulo.  Esteve à frente da greve de 2000 contra Mário Covas, do PSDB, onde ele e vários outros professores foram  demitidos pela greve e seus métodos de luta, como o acampamento em frente à Secretaria de Educação Estadual. A partir de então, a vida de João se degradou e, infelizmente, levou o fim que levou.

Primeiramente a sua vida se materializa, antes de mais nada, nas estatísticas de pessoas que não conseguem arrumar um emprego para poderem minimamente sobreviver neste sistema capitalista. Ao mesmo tempo, se materializa na ofensiva neoliberal que atacou os salários dos trabalhadores, as condições de trabalho e os direitos trabalhistas e sociais, mas também, por muitos anos, na subjetividade dos trabalhadores em que perderam confiança nas suas próprias forças. João se materializa também na política neoliberal em favorecimento dos setores privados em detrimento do setor público.

A morte do João é apenas um ponto para entendermos a educação pública do Estado de São Paulo, mas ao mesmo tempo a educação pública de todo o país.  Falta professores na rede pública por conta dos  baixos salários, os que estão na rede trabalham mais de duas escolas para poderem ter um salário minimamente digno e sobreviver. Para além disso, professores que têm de trabalhar com salas superlotadas e sem equipamento e com número insuficiente de escolas para cobrir a demanda.

A morte do João é um reflexo de uma política que fez milhares de pessoas abandonarem a rede pública do Estado de São Paulo. Como resposta à tal falta de professores, o Estado implementa a política que criou o professor categoria O. Este não consegue suprir a carência de professores da rede pública, ao mesmo tempo não possui direito à falta, usar o hospital público (IAMSPE) e no final do ano é abandonado pelo Estado para, no ano seguinte, enfrentar novamente as filas da atribuição (que na Zona Norte foram das 10 horas da manhã até as 5 da madrugada) para conseguir o seu ganha pão do ano.

Falta de direitos, baixos salários, desemprego, péssimas condições de trabalho é o receituário neoliberal para a educação, que foi aplicado à risca pelos Estados. E uma das coisas que não podem faltar nesse receituário é a política de divisão da classe, a qual se refletiu em nossa categoria. O governo dividiu os professores entre os efetivos, os estáveis e os professores categoria O, e com as derrotas da categoria, provocadas pela burocracia sindical da Articulação, que desmoralizou a categoria docente estadual.

     A morte do João questiona a burocracia da APEOESP

João foi demitido, assim como outros professores que perderam seus empregos e aposentadorias. APEOESP, o maior sindicato da América Latina, fez absolutamente nada para tais professores demitidos, mas antes de que caiamos numa lógica antissindical (onde o senso comum prega que "o sindicato bota o trabalhador na linha de frente, mas na hora do vamos ver o deixa sozinho’’) temos que discutir o que é a burocratização dentro do sindicato.

A primeira reunião da diretoria estadual da APEOESP, após eleições sindicais, foi meramente para discutir os privilégios dos diretores. A APEOESP virou uma máquina de privilégios em que grande parte dos diretores têm uma vida totalmente distinta da que vive a categoria.  E quando existem privilégios, é bem comum cairmos na lógica do ‘’deixa cuidar do que é meu’’. E foi isso que aconteceu no caso de João, enquanto Bebel, o Felício e toda a burocracia estão cuidando "do que é seu", um professor que fazia parte da categoria e da classe trabalhadora morreu.

Tal burocratização do sindicato se deve ao atrelamento do sindicato ao Estado burguês, onde os "dirigentes da categoria" recebem inúmeros privilégios para servirem de correia de transmissão da burguesia dentro em meio aos trabalhadores. As reformas dentro da época imperialista só podem vir através de migalhas para os trabalhadores, prova disso é a política de bônus para a categoria.

A categoria dos professores protagonizou uma importante greve em 2000 e o seu principal obstáculo foi a direção da APEOESP. A partir de então, aconteceu uma imensa desmoralização dentro da categoria, e os professores passaram a não ter o mesmo poder de reação como tiveram naquela greve. É preciso que nossa categoria ande em conjunto com o espírito de junho e dos garis do Rio de Janeiro, o qual mostrou que a luta é a saída para as mazelas do capitalismo. Mas para isso é preciso que os professores recuperem a APEOESP e retomem seus métodos de auto-organização. Assim, conquistaremos nossas demandas e reverteremos essa situação.