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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Greve da USP: Algumas Lições de uma “escola de guerra”



por Mateus Pinho e André Bof

Aos operários, a classe de quem um novo futuro depende, a História não negou as ferramentas para a superação da burguesia, que hoje, como classe, leva a sociedade à catástrofe.

A cada combate e greve se coloca a possibilidade de constituir uma verdadeira “Escola de guerra”, capaz de ensinar como vencer e ligar a história de cada luta com a história de todas as lutas dos trabalhadores, apontando o caminho para uma nova sociedade.

É neste espírito que devemos encarar as lições deixadas a todos os trabalhadores pela Greve da USP e seus heroicos exemplos operários.


Uma estratégia para vencer!

A greve dos trabalhadores da USP durou 116 dias conseguindo importantes conquistas como o reajuste salarial de 5,2%, contra os 0% que a REItoria buscava impor; abono de 28,6% referente ao reajuste desde maio, início da greve; nenhuma punição ou corte de salários e uma conquista de que não pagarão o total de horas paradas; a libertação do delegado do comando de greve, Fabio Hideki; além de adiar o ataque da REItoria em desvincular o Hospital Universitário.

Além disto, no plano da “consciência”, se consolida uma tradição de “combate de classe” que já era marca dos trabalhadores da USP os quais, saindo de greve com os gritos de “Não teve arrego”, após todas as experiências pelas quais passaram, são agora a principal “pedra no sapato” contra os planos do PSDB e seu REItor Zago de imporem seus projetos de privatização, como querem com a desvinculação do HU (Hospital Universitário da USP) e HRAC (hospital de anomalias craniofaciais de Bauru/USP).

Isto não se conquistou por acaso. Os trabalhadores da USP, lado a lado de seus companheiros na UNESP e Unicamp, cruzaram uma conjuntura dificílima, batendo de frente com a suposta crise orçamentária que, segundo a REItoria, seria culpa de seus salários.

Durante quatro meses, se enfrentaram com o difícil momento da Copa do Mundo, as mentiras da imprensa, a intransigência da REItoria, os ataques do governo Alckmin, a sabotagem dos fura-greves, a repressão da Polícia, os desalojamentos de piquetes…
Ainda mais difícil se tornou sua situação frente ao duro ataque que o Governo Alckmin desferiu contra os metroviários, em junho, demitindo 42 para dar um exemplo de que em SP, diferente de como impuseram os garis do RJ, ia “ter arrego”.

Em nenhum momento, no entanto, perderam de vista sua estratégia para vencer: lutar, sim, por seus direitos mais “sentidos” – salários, reajustes e benefícios – mas, sobretudo, tornar a sua greve um verdadeiro “combate de classe”, que oponha os interesses dos trabalhadores – não apenas da USP, mas de toda a cidade – aos interesses dos empresários, donos de fundações, em suma, dos magnatas capitalistas.


Aliança com o povo trabalhador

Em sua greve, os trabalhadores da USP buscaram demonstrar que os seus interesses são os mesmos de todos os trabalhadores, não apenas levantando em suas pautas a construção de hospitais na região do Butantã; a efetivação dos milhares de trabalhadores terceirizados aos quadros da USP, fazendo atos contra as demissões destes, etc. [1]

Deram, também, exemplos concretos desta estratégia quando marcharam por horas até o hospital das Clínicas de SP e doaram sangue, as centenas, ao escasso banco sanguíneo; organizaram cortes de avenidas e atos de centenas no Metrô em solidariedade a Greve de metroviários que ocorria às vésperas da Copa; percorreram com seu carro de som a Zona Oeste e a favela São Remo exigindo mais UBS (unidades básicas de saúde) para a região; denunciaram a hipocrisia do governo que aumenta o salário do governador e parlamentares, enquanto o povo não tem água, frente à crise hídrica em SP; ou quando, com o dinheiro arduamente arrecadado para o fundo de greve doaram cestas básicas para os moradores da favela do Piolho, vitimas de um incêndio criminoso.

Esta busca incessante pela hegemonia operária, que atenda às demandas de todo o povo explorado na sociedade não é um mero detalhe, em que as direções sindicais “podem ou não” buscar para alcançar a vitória: esta busca é, pelo contrário, um movimento essencial para que as greves vençam e extrapolem sua demanda “coorporativa”, lutando pelas “causas populares” contra os exploradores, a fim de expressar que são os trabalhadores, que tudo produzem, os únicos que podem responder às demandas dos oprimidos.


Aliança com os estudantes

Os trabalhadores buscaram, também, uma ofensiva aliança com os estudantes.

Apesar de toda a passividade e ceticismo das correntes que dirigem o movimento estudantil – PSOL, PSTU e correntes ligadas ao PT e Consulta Popular – que, nesta greve, praticamente viram o “bonde da história” passar e não colocaram nela um décimo da energia que colocam para suas eleições estudantis e parlamentares, ainda assim, a aliança operária-estudantil mostrou sua importância.

Segundo pesquisa recente, realizada por estudantes de engenharia, cerca de 77% dos estudantes apoiavam a luta dos trabalhadores. Isto, igualmente, não é por acaso.
Ao longo de duas décadas, desde a ditadura, diversos são os exemplos das vitórias e combates construídos por trabalhadores e estudantes. Os trabalhadores, nesta greve, tornaram esta história escrita em panfletos distribuídos aos milhares aos estudantes, demonstrando as conquistas de contratação de professores, moradia, contra os decretos privatizantes de Serra, por mais verbas a educação etc.

Buscaram a unidade de ação com atos, cortes de rua, criando o “cantinho das crianças”, mantido por estudantes e fundamental para que as trabalhadoras mães pudessem ser sujeitas da greve, piquetes e debates buscando ligar o conteúdo aprendido pelos estudantes com a realidade dos trabalhadores.

Demonstraram, assim, como se dava a unidade contra o corte de verbas, que atinge tanto os salários dos trabalhadores quanto as bolsas dos estudantes; contra os processos de desvinculação dos hospitais e também contra as propostas de desvinculação da permanência estudantil (moradia, bolsas auxilio, restaurantes universitários), demonstrando como nos unificamos contra o projeto privatista para a universidade. [2]

Para essa unidade se efetivar, os trabalhadores contaram com a participação de grupos como a Juventude Às Ruas e o Pão E Rosas, que, ainda que pequenos, demonstraram como se organiza uma aliança na base da Universidade entre trabalhadores e estudantes.


Uma organização democrática: O comando de greve e as assembleias

Na contramão a toda tradição sindical brasileira, consolidada pelo PT e sua CUT e reproduzida até por setores da esquerda como PSOL e PSTU, uma das lições mais importantes desta greve se refere a forma como os trabalhadores se organizaram para seguir sua luta.

Nesta greve, os trabalhadores mantiveram vivo o melhor da democracia operária, para que todo trabalhador expressasse suas opiniões e se tornasse sujeito ativo dos rumos da greve.

Todas as decisões eram tomadas pelas reuniões de unidade e, sobretudo, pela assembleia geral, órgão máximo de deliberação política da greve, nas quais qualquer trabalhador podia propor e dizer o que quisesse.
Para colocar a direção da greve nas mãos de seus trabalhadores, foi criado o Comando de Greve dos Trabalhadores, com centenas de delegados, revogáveis a qualquer momento, eleitos pelas assembleias de base.

Ao se formar o comando de greve, a direção do SINTUSP – da qual a LER-QI faz parte como ala minoritária e revolucionária – se “dilui” dentro do comando, igualando seus membros da direção sindical aos delegados de greve e alçando o Comando como direção da greve.

Este tipo de “auto-organização” dos trabalhadores tem um sentido estratégico pois possibilita seu desenvolvimento como sujeitos críticos e ativos da greve refletindo os melhores passos, decidindo como responder rapidamente aos ataques, propondo atividades, pensando os problemas da greve e levando-os para a base nas unidades.

Em resumo, o Comando consolida um espaço de formação e ação desta “escola de guerra”, possibilitando surgirem novas camadas de dirigentes e ativistas no calor da luta e plantando o “embrião” de uma nova sociedade, na qual os trabalhadores pensam a grande política e são sujeitos de sua vida.

Salta aos olhos a diferença com práticas sindicais das mafiosas Força Sindical e UGT, que disputa eleições “na bala” e no espancamento, com as da CUT ou CTB, baseadas em impor “figuras de burocratas”, que praticamente dão as ordens para as bases “ignorantes” cumprirem passivamente ou, até mesmo, com a tradição expressa por PSOL e PSTU, que restringe debates e falas, impede a formação de comandos de greve impedindo a iniciativa da base e se mantém, no fundamental, baseada em “figuras”- como é o caso de Altino dos metroviários- que ensinarão aos trabalhadores, que “não gostam muito de discutir”, os caminhos a seguir.


Os trabalhadores em ação: “todas as armas são boas na luta de classes”!

Esta greve trouxe momentos históricos para a classe trabalhadora brasileira. Ao fechar os três portões da Cidade Universitária por um dia todo, exigindo a libertação de Fábio Hideki e confrontando a REItoria de Zago, os trabalhadores fizeram algo que não acorria há anos, tendo Fábio Hideki sido liberado no mesmo dia depois de meses preso e muitos atos em sua defesa.

Este tipo de ação direta, para pressionar a burguesia, foi uma das armas mais eficazes de luta dos trabalhadores, no entanto, não a única neste “combate de classe”.

Ao longo da greve, estes entenderam que na luta de classes “todas as armas são boas”. Apesar de também lutar através da justiça (burguesa) para, por meio de suas brechas, colocarmos a REItoria, o governo e os patrões contra a parede e desmascarar suas intenções, não incorreram no erro de acreditar que apenas por este meio, ou por qualquer outra medida por dentro desta “democracia dos ricos”, venceriam.

Lutando “com inteligência”, aproveitando as declarações contraditórias dos membros da Burocracia universitária, jogando-as contra a REItoria e aproveitando a divisão no “campo do inimigo” (como o racha que a discussão do HU causou na burocracia acadêmica), utilizando-se das ferramentas jurídicas e espaços parlamentares, sem em nenhum momento enfraquecer a mobilização nas unidades, os piquetes, atos de rua, a “ação direta” e debates na base, desnortearam a REItoria e venceram.

Isto, no entanto, também não foi por acaso. Só foi possível graças a uma combinação entre os “novos e velhos lutadores”, na direção deste combate.


Uma tradição combativa e uma direção revolucionária: os velhos e jovens lutadores!

Estes exemplos só se tornaram realidade graças a um elemento fundamental em toda greve, combate e, até mesmo, revolução. O papel da tradição e da direção.

Toda uma camada de dirigentes, resistindo aos “anos de cão” do Neoliberalismo e, posteriormente, aos “anos de submissão”, dos movimentos e sindicatos, ao PT no governo, consolidou, ao longo dos anos, uma tradição que foi capaz de imprimir nos trabalhadores a “força moral” que mostrou que , quando se luta, independentemente dos patrões, é possível vencer.

Companheiros como Brandão, Magno e Neli personificam esta tradição que alarma a burguesia, assustada frente aos 380 dias de greve feitos em 10 anos. Estes, fundidos com o melhor de uma camada surgida no calor da luta e organizada ao redor do Comando de Greve, são como uma “espada forjada em brasa”, que continuará a tradição exemplar dos operários da USP, combinando a tradição e ousadia.

Para vencer, no entanto, não basta a “força moral”; é necessária, também, uma compreensão estratégica de porque se luta, com quem se luta e com que meios se deve lutar.

Neste sentido, cumpriu um papel central a intervenção revolucionária, como ala minoritária do SINTUSP, dos militantes da LER-QI que, a cada passo, buscaram ligar a luta mais imediata dos trabalhadores com a compreensão da necessidade de uma nova sociedade e de uma ação plenamente independente dos trabalhadores.

Quando muitos teriam desistido, insistiram que era possível vencer, desde que usassem todas as armas disponíveis, reconhecessem os aliados e os inimigos e, acima de tudo, confiassem apenas em suas próprias forças.

Recusando-se a iludir os trabalhadores em busca de “atalhos”, não “embelezaram inimigos”, não confundiram aliados, disseram apenas a verdade e fortaleceram a idéia de que todo e cada operário pode dirigir sua greve, sua vida e até mesmo uma sociedade a serviço de seus interesses.

Isto demonstrou a diferença que faz um grupo que busca ligar o mais avançado da vanguarda com a base, fazendo sua luta se chocar contra os patrões e o capitalismo de conjunto.

Por isso, também, impulsionaram o Movimento Nossa Classe, junto de dezenas de trabalhadores, para cumprir este papel de forjar uma nova camada de direção revolucionária na USP.

Um exemplo emblemático está expresso no exemplo de democracia operária quando, num ato em que aliados levaram uma bandeira pedindo a liberdade de José Dirceu e outros “mensaleiros do PT”, abriu-se um importante debate sobre qual posição os trabalhadores teriam frente aqueles corruptos burgueses. Neste caso, a pressão fez com que se abaixasse a bandeira e os trabalhadores tiveram a clareza de que não é de seu interesse prestar apoio aos patrões ou agentes destes.

Salta aos olhos aqui também, as enormes diferenças com organizações de esquerda como o PSTU que, utilizando o mesmo lema “Não tem arrego”, durante a greve do metrô, na qual eram direção do sindicato, deram um sentido completamente distinto ao “lema”.

Colocando membros da UGT, CUT, CTB, NCST e outras siglas sindicais ligadas aos patrões na negociação com o Metrô; prometendo que, caso houvesse demissões, estas centrais fariam uma greve geral; construindo a retirada quando a greve poderia impedir as demissões; após as demissões, deixando tudo a cargo do “jurídico” e, durante a greve construindo uma pauta e prática restrita aos interesses salariais e embelezando a Justiça e tribunais, levaram a um setor importante da classe operária a confusão sobre quem são seus aliados, como vencer e a ficar isolado frente aos enormes recursos de repressão e intimidação que o Governo do PSDB tem em mãos.

A greve da USP deste ano já ficou para a história do movimento operário brasileiro pelas vitórias que obteve frente à dura intransigência e, principalmente, pelas lições que deixa para todos os trabalhadores do país.

sábado, 27 de setembro de 2014

Nota unificada de repúdio ao ataque racista feito pelo professor Edson Leite e seus advogados à estudante da EACH-USP


Manifestamos aqui nosso completo repúdio ao ataque racista que o professor Dr. Edson Roberto Leite, ex-vice diretor da EACH-USP, cometeu contra uma estudante ativista da EACH após a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) “das áreas contaminadas”, nessa terça-feira (23/09) na Câmara Municipal de Vereadores de São Paulo.

Edson Leite havia sido intimado judicialmente para prestar esclarecimentos e em seu depoimento afirmou cinicamente mais uma vez que não teve relação com as decisões do aterro ilegal no campus, o que minimamente já evidencia sua negligência perante a comunidade universitária. Leite também tem um histórico de autoritarismo: foi o responsável pela entrada da Tropa de Choque no campus da USP Leste em 2013, que foi acionada para reprimir os estudantes que legitimamente ocupavam a diretoria exigindo, entre outras coisas, seu afastamento.

Justamente por isso, após a sessão, estudantes foram questioná-lo e Leite, junto aos seus advogados, se direcionou a uma estudante negra (linha de frente nessa e em outras lutas, sendo uma ativista reconhecida no movimento estudantil da EACH) e numa clara tentativa de desmoralizá-la disseram: “Vá se lavar”. A estudante respondeu questionando se eles diziam isso pelo fato de ela ser negra e eles apenas repetiram: “Vá se lavar”. Imediatamente os outros estudantes que ali estavam pegaram câmeras digitais e outros dispositivos que pudesse gravar essa declaração racista, mas dessa vez Leite e seus advogados se calaram.

Sabemos que o racismo segue presente em nossa sociedade e na universidade não é diferente. Ao contrário, como é gritante nesse caso, o racismo é uma questão que permeia todos os debates sobre educação superior. Sabemos por exemplo que apesar de serem a maioria da população brasileira, são justamente os negros os que menos têm acesso às universidades. Esse número despenca assustadoramente quando se trata das universidades públicas. O caso da Universidade de São Paulo é ainda mais agravante, pois sua estrutura de poder, que está intrinsecamente ligada a ditadura militar, se nega a debater medidas de democratização no acesso, como as cotas raciais e sociais e o fim do vestibular e também medidas de permanência estudantil, que são as que garantiriam o direito ao estudo àqueles poucos pobres e negros que conseguem entrar na USP. Nessa universidade, a maioria dos negros está na categoria de trabalhadores e, dentro dela, geralmente assumindo os postos de trabalho mais precarizados, como é o caso dos trabalhadores terceirizados. Na reunião do Conselho Universitário que pautou a discussão sobre cotas, por exemplo, alguns diretores afirmaram que o índice de violência na universidade aumentaria caso aumentasse o número de estudantes negros e/ou oriundos de escola pública. Outro exemplo é a brutal agressão racista que estudantes da Escola Politécnica cometeram contra um estudante negro dentro do Centro de Práticas Esportivas (CEPE) também no ano passado.

Por entendermos por um lado que Leite não é o único racista frente à direção da universidade e sim que é mais um dos que estão – apoiados na estrutura de poder autoritária – servindo a um projeto de universidade cada vez mais racista e elitista e que sirva inclusive aos próprios interesses desse setor e, por outro lado, justamente pouco depois de uma vitoriosa greve da categoria de trabalhadores e professores, que mostrou a força dos que realmente constroem a universidade pública e de qualidade, por vermos como o debate entorno do racismo e seu combate volta a surgir no cenário nacional, mas também internacional, não podemos tolerar que criminosos como esse sigam impunes, fazendo da universidade que deveria ser para todos, um balcão de negócios dos seus interesses.

Colocamos aqui toda nossa solidariedade a estudante e reafirmamos que não nos calaremos diante de crimes de racismo dentro da nossa universidade. Seguiremos junto com ela na luta pela punição a estes criminosos, mas também na luta por um projeto de universidade não racista e não elitista que sirva aos interesses da população que a financia.

“Minha cor não é sujeira! Sujeira é a contaminação da EACH!”
“Fora Edson Leite e toda essa corja corrupta e racista da EACH e da USP!”

Assinam: 
Juventude Às Ruas
Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional
Movimento NOSSA CLASSE
Grupo de Mulheres Pão e Rosas
CAELL - Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários da USP
CASI - Centro Acadêmico de Sistemas de Informação - UFRA/PA
Levante Popular da Juventude 
DCE - Diretório Central dos Estudantes (UFRA/PA).




sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Queremos justiça para João Antônio Donati, e também queremos outra sociedade

texto escrito por Bruno Portela publicado originalmente no blog: 
http://minhavidaealutadeclasses.blogspot.com/2014/09/queremos-justica-para-joao-antonio.html
em homenagem aos familiares e amigos de João
 
   
João Antônio Donati, jovem de família humilde, de 18 anos, foi encontrado morto nessa quarta-feira (10 de setembro) com a boca cheia de sacos plásticos e papeis, num terreno baldio da região metropolitana de Goiânia. Segundo a polícia, ele apresentava hematomas nos olhos e nariz, além de aparentemente estar com o pescoço  e pernas quebradas. A polícia nega que em um dos papeis da sua boca havia um bilhete escrito "vamos acabar com essa praga".[1] Não importa. João era assumidamente gay, e ainda que a polícia não queira afirmar (como geralmente faz) que é um crime de homofobia, nós sabemos que foi, porque não foi a primeira vez que aconteceu algo desse tipo, inclusive dessa forma: homicídio carregado com tanta crueldade. O corpo de João foi enterrado nessa manhã, mas a tristeza de sua morte continua, assim como o ódio contra essa sociedade miserável em que vivemos. Sinto que com João, nós morremos um pouco, mas que por ele e por tantos outrxs violentadxs por essa sociedade, devemos seguir buscando justiça. Coloco aqui toda a minha solidariedade aos familiares e amigos de João, aos quais também dedico esse texto.
   O assassinato de João acontece em meio a um cenário contraditório, mas que é fundamental que seja analisado para que se consiga dar uma resposta, não somente a esse caso, mas a todos os outros casos que vêm acontecendo. 
Nesse ano, a Anistia Internacional divulgou o resultado de um estudo que mostra que há um grande aumento de casos de homofobia em nível internacional, no entanto, o assessor de Direitos Humanos desta afirma que o Brasil melhorou muito em termos de leis no que diz respeito à comunidade LGBT[2]. Ao mesmo tempo que esse tipo de lei “avança”, vemos contraditoriamente um grande aumento nos registros de homicídios e agressões por motivação de homo/lesbo/transfobia. É importante também visualizarmos a relação cada vez mais ampla e intrínseca de setores religiosos e conservadores ao estado, como aumento da bancada evangélica, financiamento milionário para garantir a vinda do Papa Francisco I ao país na JMJ, acordos entre candidatos e seus partidos com setores religiosos e etc. Esse é o plano de fundo em que acontece não só o caso de João, mas também o de Kaique (que a polícia encerrou o caso dizendo que foi um suicídio) e de diversos outros casos, evidenciando que nem as “melhorias” pequenas, alcançadas aqui e ali questionam de fato não somente a homo/lesbo/transfobia, mas toda a estrutura que a mantém com uma razão de ser. 
   Devemos entender que não é a toa que o PLC 122/06 que visa criminalizar a homofobia[3] tramita há tantos anos na justiça e que o mesmo motivo que faz com que ele não seja aprovado é o motivo pelo qual poderá leva-lo a ser “apenas” uma lei no papel, caso ele seja aprovado em algum momento: o estado e suas instituições servem para manter “as coisas como estão”, ainda que com discursos diferentes, “quem paga a banda escolhe a música”, ou seja, os políticos e seus partidos, para se manter no poder, fazem compromissos políticos com os setores conservadores e religiosos em troca de financiamento para suas campanhas e projetos, logo, os mesmos nunca irão afrontar os setores que os financiam, aliás, ao contrário, vão agir conforme os interesses dos seus patrocinadores. Para além disso, a autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas, em diversos sentidos (seja com o direito de escolha da mulher sobre a gravidez, a livre construção da identidade de gênero do indivíduo, a liberdade para exercer sua orientação sexual etc), confronta diretamente o princípio da família e da moral, essas que por sua vez são ferramentas fundamentais para a manutenção da propriedade privada, uma das bases da sociedade capitalista. O que quero dizer com tudo isso, é que não basta lutarmos pela aprovação de leis que nos reconheçam esse ou aquele direito, aliás, é perigoso que tenhamos ilusões no estado capitalista e suas instituições (legislativo, executivo e judiciário, para além é claro da racista, machista e homofóbica polícia), temos mesmo é que nos organizar conjuntamente e entender que só através de uma luta incansável conseguiremos acabar com tudo que nos oprime. O mesmo estado que nos nega nossos direitos, como no caso da criminalização da homofobia, é o estado homofóbico que é conivente com as agressões que sofremos, por exemplo, como quando muitxs de nós vão à delegacias registrar B.O. e os policiais (civis e militares) fazem o possível para que desistam das denúncias e nunca acham muito menos punem os agressores.
   Os debates que vêm sendo abertos agora nesse momento pré-eleições também nos coloca questões para se pensar em relação à “comunidade LGBT”, no sentido de pensar qual resposta e com qual estratégia podemos seguir na luta contra a homo/lesbo/transfobia. Os três candidatos “principais” (Dilma, Aécio e Marina) são financiados por empresas, empreiteiras e todos os três têm relações afinadas com comunidades religiosas e setores dos mais conservadores, ligados por exemplo à ditadura militar. A única coisa que os três podem oferecer a nós é a certeza de que os nossos direitos serão rifados, retirados e reprimidos sempre que for necessário, basta vermos como tem acontecido em diversos países da europa, onde os direitos das mulheres, LGBTs e outros setores (como imigrantes) vêm sofrendo duros ataques pelos partidos que assim como os de cá, são financiados pela burguesia. Mas para além desses três candidatos, entendendo que o próprio regime e suas estruturas estão fundamentados no que há de mais conservador e reacionário, não podemos nos iludir que por meio desse regime, ou seja, da sociedade capitalista e "democracia", poderemos conseguir nossa liberdade de construção da sexualidade e de gênero.
A nossa miséria sexual anda de mãos dadas com a sociedade capitalista, a sociedade dos exploradores e dos opressores, portanto, não há alternativa ou estratégia para a nossa luta que não passe pela nossa união enquanto oprimidxs, se aliando com tantos outros setores oprimidos que sofrem com a miséria da nossa sociedade, mas principalmente se aliando com a classe que justamente é a única que pode se colocar radicalmente contra os exploradores e opressores porque é a única que têm interesses inconciliáveis com os mesmos: a classe trabalhadora. É essa a resposta que podemos e devemos dar, para que consigamos avançar na luta para que não haja mais casos como os de João.
 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem foi João para os professores da Rede Estadual de Ensino de São Paulo



Por Guilherme Soares, professor da rede pública estadual de ensino da Zona Norte de São Paulo

Para quem é professor da Rede Pública do Estado de São Paulo, a morte do João deveria ter tido um pouco mais de atenção.  A ideologia dominante educou os dominados a naturalizarem a pobreza, ou seja, se tornou algo banal para muitos passar na rua e ver um morador de rua deitado e nem minimante se perguntar: Por que este ser humano está na rua? Ou até mesmo: qual é a historia deste individuo que está nas ruas?

João foi um morador de rua que morreu na última semana de agosto e que viveu o resto de sua vida na Cidade Universitária. Ele, nos anos 70,  se formou na USP em Letras e começou a lecionar na rede pública de ensino do Estado de São Paulo.  Esteve à frente da greve de 2000 contra Mário Covas, do PSDB, onde ele e vários outros professores foram  demitidos pela greve e seus métodos de luta, como o acampamento em frente à Secretaria de Educação Estadual. A partir de então, a vida de João se degradou e, infelizmente, levou o fim que levou.

Primeiramente a sua vida se materializa, antes de mais nada, nas estatísticas de pessoas que não conseguem arrumar um emprego para poderem minimamente sobreviver neste sistema capitalista. Ao mesmo tempo, se materializa na ofensiva neoliberal que atacou os salários dos trabalhadores, as condições de trabalho e os direitos trabalhistas e sociais, mas também, por muitos anos, na subjetividade dos trabalhadores em que perderam confiança nas suas próprias forças. João se materializa também na política neoliberal em favorecimento dos setores privados em detrimento do setor público.

A morte do João é apenas um ponto para entendermos a educação pública do Estado de São Paulo, mas ao mesmo tempo a educação pública de todo o país.  Falta professores na rede pública por conta dos  baixos salários, os que estão na rede trabalham mais de duas escolas para poderem ter um salário minimamente digno e sobreviver. Para além disso, professores que têm de trabalhar com salas superlotadas e sem equipamento e com número insuficiente de escolas para cobrir a demanda.

A morte do João é um reflexo de uma política que fez milhares de pessoas abandonarem a rede pública do Estado de São Paulo. Como resposta à tal falta de professores, o Estado implementa a política que criou o professor categoria O. Este não consegue suprir a carência de professores da rede pública, ao mesmo tempo não possui direito à falta, usar o hospital público (IAMSPE) e no final do ano é abandonado pelo Estado para, no ano seguinte, enfrentar novamente as filas da atribuição (que na Zona Norte foram das 10 horas da manhã até as 5 da madrugada) para conseguir o seu ganha pão do ano.

Falta de direitos, baixos salários, desemprego, péssimas condições de trabalho é o receituário neoliberal para a educação, que foi aplicado à risca pelos Estados. E uma das coisas que não podem faltar nesse receituário é a política de divisão da classe, a qual se refletiu em nossa categoria. O governo dividiu os professores entre os efetivos, os estáveis e os professores categoria O, e com as derrotas da categoria, provocadas pela burocracia sindical da Articulação, que desmoralizou a categoria docente estadual.

     A morte do João questiona a burocracia da APEOESP

João foi demitido, assim como outros professores que perderam seus empregos e aposentadorias. APEOESP, o maior sindicato da América Latina, fez absolutamente nada para tais professores demitidos, mas antes de que caiamos numa lógica antissindical (onde o senso comum prega que "o sindicato bota o trabalhador na linha de frente, mas na hora do vamos ver o deixa sozinho’’) temos que discutir o que é a burocratização dentro do sindicato.

A primeira reunião da diretoria estadual da APEOESP, após eleições sindicais, foi meramente para discutir os privilégios dos diretores. A APEOESP virou uma máquina de privilégios em que grande parte dos diretores têm uma vida totalmente distinta da que vive a categoria.  E quando existem privilégios, é bem comum cairmos na lógica do ‘’deixa cuidar do que é meu’’. E foi isso que aconteceu no caso de João, enquanto Bebel, o Felício e toda a burocracia estão cuidando "do que é seu", um professor que fazia parte da categoria e da classe trabalhadora morreu.

Tal burocratização do sindicato se deve ao atrelamento do sindicato ao Estado burguês, onde os "dirigentes da categoria" recebem inúmeros privilégios para servirem de correia de transmissão da burguesia dentro em meio aos trabalhadores. As reformas dentro da época imperialista só podem vir através de migalhas para os trabalhadores, prova disso é a política de bônus para a categoria.

A categoria dos professores protagonizou uma importante greve em 2000 e o seu principal obstáculo foi a direção da APEOESP. A partir de então, aconteceu uma imensa desmoralização dentro da categoria, e os professores passaram a não ter o mesmo poder de reação como tiveram naquela greve. É preciso que nossa categoria ande em conjunto com o espírito de junho e dos garis do Rio de Janeiro, o qual mostrou que a luta é a saída para as mazelas do capitalismo. Mas para isso é preciso que os professores recuperem a APEOESP e retomem seus métodos de auto-organização. Assim, conquistaremos nossas demandas e reverteremos essa situação.

A morte de mais um joão-ninguém


Por Fernando Pardal

Ontem a greve da USP completou cem dias.[1] Cem dias de uma luta heroica, contra a polícia, o governo e a mídia. Uma luta que começa motivada por um arrocho salarial, ou seja, um ataque às condições de trabalho na universidade, mas que em seu decorrer transcendeu em muito essa luta, mostrando que o arrocho salarial era apenas a ponta do iceberg. O ataque à universidade, por mais que ela seja hoje uma ilha de elitismo, é um ataque à população de conjunto, pois essas "reformas" irão elitizá-la cada vez mais e tirar o que ela ainda tem de público, como o atendimento no Hospital Universitário, que a reitoria pretende desvincular da universidade para, logo, passar às mãos de alguma empresa privada disfarçada de OS (organização social).

Para continuar a luta, os trabalhadores da USP e das estaduais paulistas fizeram um enorme ato, que foi até a porta da reunião de negociação com o Cruesp (Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) cantar a plenos pulmões aquilo que se tornou o lema dessa greve, tomado dos garis do Rio: Não tem arrego!

Mas esse texto não é sobre nada disso. É sobre algo que acontecia paralelamente, enquanto essa luta ocorre. É sobre um cadáver encontrado ao lado do bloco F do Crusp, virando logo uma "fofoca do dia" na universidade. Ou, mais precisamente, sobre a pessoa que se tornou, naquela madrugada fria, um cadáver que ficou ali estendido, por horas, tomando chuva, até que fosse encontrado.

A pessoa por trás desse corpo era João. Eu nunca conversei com ele, mas sempre o via por aí. As últimas vezes que em que o encontrei foi no acampamento que os trabalhadores da USP ergueram diante da imponente reitoria da universidade, como um marco de sua luta. João aparecia lá. A história dele eu não sabia. Como todo mundo que anda pela USP sabe, ali é um lugar em que circula uma grande quantidade de "loucos": Gautiê, Piauí, João...

Eles são gente que não tem lugar nessa sociedade. Não vendem seu trabalho, não geram mais-valia e, portanto, nessa sociedade não têm valor algum. São jogados à rua, jogados à sua própria sorte. São olhados de canto, com medo, pelas "pessoas de bem". Ficam na USP porque sabem que ali é, de certa forma, um lugar um pouco menos hostil, que ali existem muitos trabalhadores e estudantes que repudiam a presença da polícia, que para eles sempre representa um perigo. Que ali, muitas vezes encontrarão alguém disposto a conversar, a ceder uma bebida, uma ponta de um baseado, alguma coisa que os lembre que eles também são gente, como os outros.

Essas pessoas não nasceram na condição de párias sociais. É esse mundo, de um jeito ou de outro, que os joga, pelas piores formas possíveis, nessa situação. Nossa sociedade fecha os olhos para isso, finge que não é com ela. É o "liberalismo aplicado à vida": cada um cuida do seu, e foda-se os problemas do vizinho. João é mais um destes, que não nasceu como um sujeito maltrapilho que andava pela USP. Eu não sei quase nada da sua vida. Mas sei que ele foi um professor da rede pública de ensino do estado de São Paulo, e que, como muitos outros, foi perseguido por lutar em defesa da educação pública. Na histórica greve de 2000, o governo de Mario Covas do PSDB, muitíssimo bem auxiliado pela burocracia sindical do PT que dirige o sindicato dos professores, conseguiu consolidar a correlação de forças que até hoje persiste nessa categoria: o governo os massacra, impõe novos ataques a cada dia, precariza impiedosamente todas as suas condições de trabalho.

Nenhuma categoria de trabalhadores é derrotada sem resistência. E os professores, hoje uma categoria que é marcada por muitas derrotas, resistiram bravamente. Essa resistência foi feita, como hoje a luta da USP, contra a polícia, o governo, a mídia. E tinham ainda um outro obstáculo, que era seu próprio sindicato. Os protagonistas dessa luta foram milhares de homens e mulheres que estavam - ao contrário dos diretores do sindicato - sofrendo a cada dia nas salas de aula a precarização de seu trabalho. Entre eles estava João. Para que o governo vencesse, ele precisou derrotar essas pessoas. E na greve de 2000 vieram muitas demissões. Caçaram a aposentadoria de Tonhão, um lutador que conheci também nas greves da USP, nas quais participa levando seu apoio. Exoneraram João.

O que aconteceu com João depois disso? Eu não sei. Não era seu amigo, nunca conversei com ele. Mas sei do que esse mundo é capaz para derrotar um peão que ousa levantar a cabeça para enfrentar seus patrões. E, o que quer que tenha passado pela vida de João depois de sua demissão por lutar, foi o que o levou a virar um peregrino da USP, andando maltrapilho por aí. Das pessoas que conversavam com ele, ouvi muitas coisas: que ele tinha momentos de lucidez, em que contava as histórias de sua luta, e outros de embriaguez - é muito provável que tenha se tornado alcóolatra. Sobre esses outros momentos, há histórias nada bonitas de João: que assediava as meninas, que ameaçava.

Dou crédito a essas histórias porque as ouvi de muitas pessoas, inclusive pessoas em que confio. Mas não atribuo apenas a essas histórias o "mérito" por ter ouvido comentários como esse sobre a morte de João: "Sinceramente? Ainda bem que morreu. Foi tarde. Só metia medo nas pessoas. Não sei como permitiam uma pessoa dessas ficar solta pela USP e colocar medo nas estudantes."

Os comentários como esse devem ser feitos às dezenas nas conversas da USP. Quando não são públicas, como no caso acima, devem ser ainda piores. Não defendo em nenhuma instância a atitude de João de assediar as meninas, independente da forma como o fizesse. É uma dessas monstruosidades que ocorrem mil vezes por segundo em nosso mundo, um testemunho inequívoco da podridão de nossa sociedade. Isso, no entanto, está muito longe de ser tudo o que João era ou fez. A mesma sociedade que o ensinou a assediar as mulheres foi a que lhe tomou seu trabalho, seu sustento, lhe impôs uma vida de andarilho e alcoolatra. Sobre isso, essas vozes "revoltadas" calam. A mesma sociedade que ensinou João a assediar as mulheres é a que ensina cada estudante endinheirado da USP a fazer a mesma coisa; mas eles não são barbudos maltrapilhos que não tomam banho: são garotos perfumados, com roupas caras, malhados da academia, que o fazem em festas open bar promovidas pelas suas atléticas, onde eles se embebedam sem o olhar condenador de sua  sociedade, e onde podem tratar as mulheres como objetos sexuais sob a conivência de todos, inclusive de grande parte dos que se revoltavam com a forma como João assustava as estudantes.

Quando João deu o melhor de si para o mundo, que foi colocar em jogo o seu ganha-pão para defender uma escola digna para os filhos dos trabalhadores, ele foi punido com todo o "rigor da lei". Quando ele passou a ser um "vagabundo" andando pela USP, nenhuma instituição dessa sociedade se preocupou com isso. Quando ele morreu, largado, possivelmente de frio, no mesmo lugar em que estuda a elite desse país, que vai ali se formar para garantir a continuidade desse mundo tal como ele é, e de tudo o que fizeram com João durante sua vida, nesse momento muita gente lembra que João existiu. Não do que ele fez para transformar esse mundo; lembram-se da sua aparência assustadora. Comemoram sua morte. E, amanhã, já terão esquecido dele para sempre, embriagando-se com as possibilidades que a vida lhes oferece. As possibilidades que foram arrancadas brutalmente de João e de tantos bilhões de outros todos os dias.


Por todos esses, seguimos lutando. Para que ninguém mais morra, após ser derrotado em uma luta pelo mundo, largado no relento, tratado como alguém que não merece o melhor que a humanidade é capaz de criar. A greve da USP e tantas outras lutas que travamos, sem desistir, é por isso. E, se amanhã, algum lutador entre nós tiver o mesmo destino que João, que continuemos lutando, incansavelmente, para que isso nunca mais aconteça, e que às mortes de todos esses seja feita justiça.

[1] Texto publicado dia 04/09/2014 em Entropia Dialética - A morte de mais um joão-ninguém

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Maio de ’68 e as tendências da juventude: como voltar a desafiar o poder?


por Fernanda Montagner


“Aqueles que fazem revoluções pela metade cavam uma cova”, frase do maio de ’68

“Estudantes em apoio aos trabalhadores de Lear”, esta frase esteve estampada pela manha desta quarta-feira (27/08) nos jornais da Argentina. Mais do que uma frase de impacto para a mídia, essa frase consegue expressar o que há de mais profundo nas experiências históricas de luta dos estudantes.

Com muita originalidade, os estudantes da UBA (Universidade de Buenos Aires) fizeram mais uma ação de solidariedade e luta pela reincorporarão dos trabalhadores demitidos da empresa Lear, parando uma das principais rodovias da Zona Norte de Buenos Aires, a Panamericana, no quilômetro que fica em frente a empresa. Desde o início da luta, a policia vem tentando impedir ações dos estudantes e trabalhadores, chegando em momentos a prender trabalhadores e reprimir as manifestações Estes estudantes junto aos trabalhadores vêm de forma cada vez mais original resistindo e burlando a tentativa do governo de calar essa luta. Chegaram a por em marcha as “caravanas solidárias”, paralisando com uma frota de veículos o trânsito, deixando a polícia impotente para impedir o engarrafamento. Em novo exemplo, desta vez vieram em ônibus escolares insuspeitos, parando de supetão na via e iniciando o ato. O interessante foi que em mais uma tentativa de repressão policial (dando 10 minutos para que saíssem da via, mesmo com os estudantes e trabalhadores propondo deixar 2 vias abertas para os carros), a policia teve que engolir seco suas ameaças e recuar, não porque ela tenha refletido ou diminuído sua truculência, mas porque a atuação organizada dos estudantes levantando demandas populares (“Famílias na rua, nunca mais!”, dialogando com as demissões em todo o país), num momento onde o governo argentino se vê fragilizado em meio a pressão das empresas imperialistas por um lado.

Essa foi mais uma ação no conjunto de muitas outras que mostram que os estudantes podem cumprir um papel fundamental de ser um sujeito que pauta as discussões nacionais, ao passo que se unifiquem e levantem as demandas populares e dos trabalhadores.

Se os “de cima” nos forçam a ignorância, nós pelo contrário queremos reeditar a história daqueles que ousaram desafiar o poder.

As classes dominantes fazem questão de apagar da história, ou mesmo suavizar os fatos segundos seus interesses, para que não existam novos “escravos insurretos que se apoderando da história, utilizando-a como arma”. Nessa lógica transformaram o marxismo num método de análise estética, e grandes acontecimentos que questionaram o regime de dominação de classes, como o Maio francês de 1968, quase um romance de jovens que queriam mais amor e paz. Estes eventos na Argentina nos movem a tentar recuperar “conteúdo e métodos” com os quais a juventude foi protagonista destes grandes acontecimentos, querendo reeditar alguns aspectos desta experiência de ’68 que mostram como os estudantes e trabalhadores juntos puderam desafiar o poder (considerando com cuidado a analogia, já que a etapa de processos revolucionários aberta em ’68 não tem paralelo hoje, e a politização e radicalização à esquerda de setores estudantis citados no exemplo argentino se liga a uma clara estratégia revolucionária, como em boa parte inexistia na França).

Passadas duas décadas após o final da Segunda Guerra o movimento desatado em ‘68 foi capaz de questionar a ordem estabelecida após os acordos de Yalta e Potsdam. Essa força passa pela unidade entre trabalhadores e estudantes no sentido de estes últimos entenderem a necessidade de se ligarem aos trabalhadores como sujeitos capazes de fazer a revolução, levantando as demandas operárias e populares. E os trabalhadores verem que para lutarem contra a exploração do trabalho é necessário se ligar aos setores populares.

Essa ligação foi fundamental na época, e continua sendo hoje. Um segundo ponto fundamental era, e continua sendo hoje, forjar um movimento estudantil que rompa o corporativismo e seja um ator nacional. Em ‘68 os estudantes foram os precursores das grandes ondas de greve que se desenrolaram, porque conseguiram expressar boa parte dos descontentamentos populares que haviam nas camadas populares da época, e elevando a um patamar político: a luta anti imperialista com o rechaço ao Estados Unidos na guerra do Vietnam (contemporâneo a isso ocorria no Oriente Médio a Guerra dos Seis Dias, em que os países árabes se voltaram contra o estado colonialista de Israel); o questionamento ao aparato contrarrevolucionário stalinista (que buscava enterrar processos revolucionários na França e em todo o mundo) e por fim um questionamento mais amplo do capitalismo como sistema em putrefação.


“Por um lado o Maio Francês se baseava na ‘critica artística’ e em uma ‘critica social’ do capitalismo, quer dizer em uma crítica à alienação e ao fetichismo que gera o sistema de exploração capitalista tanto como uma crítica às injustiças sociais e às desigualdades profundas nas quais se baseia o mesmo sistema [...] o maio francês estava vinculado a um tripé de questionamento: um questionamento aos mecanismos de exploração capitalista partindo da ordem fabril; um questionamento da sangrenta dominação imperialista começando por uma oposição ao intervencionismo norteamericano no Vietnã; um questionamento dos agentes da burguesia no seio do movimento operário que advogavam a favor do reformismo e da conciliação de classes, começando pelo aparato stalinista” (p. 38)


Esses três pontos levantavam boa parte de demandas populares (devido ao primeiro ascenso operário do pós-Segunda Guerra), que tocava também o questionamento da Universidade, com a histórica consigna “questionando a universidade de classes para questionar a sociedade de classes”, o movimento estudantil organizado conseguiu a partir dos seus métodos despertar a sociedade e causar uma crise política. Esse processo nos deixou importantes lições como a necessidade de um movimento estudantil ligado aos trabalhadores e que levante as demandas de toda a população. Contudo, ocorria numa época em que as revoluções ainda eram vivas no imaginário[1], em que a idéia de comunismo ainda era presente (ainda que deformada pela noção de que a URSS “vivia o comunismo”), e a luta anti burocrática clara para combater o enorme aparato stalinista, que atuou durante todo o processo para dividir os estudantes dos trabalhadores (e que já vinha de um desgaste com a repressão duríssima a revolução Húngara e a coexistência pacifica com o imperialismo). Mesmo depois desta grande energia por parte da juventude e dos trabalhadores, sem uma organização revolucionária que reunisse essas forças no caminho de uma estratégia pela tomada do poder, este levante acabou sendo traído e derrotado. Sem entrar nas polêmicas e/ou debilidades do processo, hoje vivemos outro momento histórico, onde queremos resgatar os melhores fios de continuidade dessa luta, assimilando seus acertos e superando esta experiência.

O novo despertar da juventude

Se atualmente o comunismo não é presente na mente da pessoas, vivemos desde 2010 um estourar de movimentos de juventude pelo mundo que se assemelharam, no sentido da extensão, ao maio de ‘68 francês (quanto ao conteúdo, assemelha-se mais ao movimento “no-global” inaugurado em 1999 em Seattle, em oposição ao capital financeiro e banhado na ideologia autonomista, do que ao maio francês). Estes movimentos foram inspirados no impulso da chamada “primavera árabe” de 2011, que do ponto de vista da luta de classes poderíamos considerar como o “fim de ciclo” da recuperação capitalista depois da derrota dos processos de 1968. E novamente quem esta prenunciando e expressando os descontentamentos populares é a juventude, nos movimentos YoSoy132 (México), Ocuppy Wall Street (EUA), 15M (Espanha), estudantes chilenos e junho no Brasil. Esses movimentos, para além de suas distinções, carregam todos as pressões de mais de 30 anos de democracia burguesa e ofensiva neoliberal, fruto da derrota das maiores conquistas dos trabalhadores como a queda da URSS, e da campanha do imperialismo “triunfante” acerca da centralidade do indivíduo em contraposição ao social (demonizando as organizações e partidos de esquerda como “filhos do totalitarismo”, e reservando os instintos de organização para os partidos tradicionais do regime burguês), em que se decretava o suposto fim da classe operária e da organização do movimento operário e estudantil para a luta de classes – o que se projetou na esfera ideológica, com o protagonismo das ideias autonomistas (absolutamente incapazes de responder aos desafios da crise, como no Estado espanhol, na Grécia e inúmeros exemplos).

É desta tradição “produto da derrota” que devemos livrar a mentalidade da juventude. Os exemplos que vimos essa semana do movimento estudantil na Argentina tem muito da atuação do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas, organização irmã da LER-QI na Argentina) dentro das entidades estudantis, buscando forjar uma nova concepção de entidades. Este último ponto é fundamental para pensar a organização da juventude atualmente, ligado aos dois pontos retomados de ’68: a necessidade de tomar as entidades para que sejam instrumentos democráticos e de luta dos estudantes. Na Argentina, viemos organizando ações desde assembleias estudantis para organizar os estudantes a se solidarizarem com o conflito das demissões de Lear e Donnelley, como na luta por colocar o conhecimento da Universidade a serviço dos trabalhadores, mostrar solidariedade ativa organizando os estudantes de diversos cursos para colocar seu conhecimento a serviço de uma das principais lutas do país, a ocupação de Donnelley.

De maio a junho

Esses exemplos fazem parte de uma nova concepção de atuação nas entidades e de organização da juventude. No Brasil após Junho um dos principais balanços foi a falta de organização dos que saiam as ruas, e a separação da concepção autonomista de qualquer intervenção em comum na luta de classes dos trabalhadores (em que os organismos aparecidos em junho auxiliaram as grandes greves nacionais, para citar duas, dos metroviários de SP, e das universidades estaduais paulistas, levantando novamente junto aos trabalhadores as demandas da educação e do transporte público?). Os instrumentos de organização como entidades estudantis, estão ou nas mãos de direções governistas, ou da esquerda reformista/centrista, que não consegue cumprir um papel que fuja a luta de script, ou seja, alguns movimentos que se adaptam ao regime universitário se restringindo a demandas no marco corporativista, educando um movimento estudantil passivo e rotineiro que não busca ser sujeito político que pauta as grandes questões nacionais, que junto as trabalhadores seja um empecilho para as políticas dos governos (os aparatos “autonomistas” não estão por fora desta lógica burocrática e reformista da política, basta ver o MPL, que se negou a participar das mobilizações dos metroviários, e dirigia-se a público em junho de 2013 dizendo representar pessoas que nunca os tinham eleito ou mandatado). Essa concepção que em ultima instância visa as eleições, ou seja, uma esquerda que se guia a ganhar aparatos, espaços dentro do regime e onde cada vez mais são pressionadas pelos limites da democracia burguesa, mostrou sua impotência para atuar em Junho, e mesmo no maio operário vimos que o movimento estudantil não conseguiu de conjunto ser um aliado estratégico dos trabalhadores em luta.

Dentro dessa greve das três principais Universidades do estado de São Paulo, que já dura quase 100 dias, a principal entidade que organizou estudantes desde comandos e assembleias de base a se solidarizar e a atuar junto aos trabalhadores foi o Centro Acadêmico de Ciências Humanas (CACH), de cuja direção a Juventude Às Ruas faz parte junto a estudantes independentes. Infelizmente outras entidades importantes como DCE da USP e UNICAMP pouco fizeram além de notas e do rotineirismo de sempre, sem organizar ampla solidariedade ativa entre os estudantes.

O CACH vem atuando junto aos trabalhadores, organizando ônibus para os atos, como o do dia 14/08; organizou debates como o repúdio ao título referendado pelo Conselho Universitário da Unicamp ao ministro da Educação da ditadura, Jarbas Passarinho, no sentido de combater a reitoria e emergir como um setor do movimento estudantil que quer discutir e atuar frente as grandes questões, usar da entidade como uma contra política à ideologia da reitoria, disputar o conhecimento produzido na Universidade para colocá-lo a serviço dos trabalhadores e da população, espelhando-se no “conteúdo e métodos” de maio de ’68.

Por trás destes exemplos existe a concretização da atividade de uma entidade militante.ara responder as demandas de junho da crise de representatividade que se abriu, a necessidade de resgatar os métodos democráticos de base, lutando por entidades proporcionais nos centros estudantis é fundamental nesse momento onde a juventude no Brasil precisa se testar na pratica com as diversas concepções de direção que e existem e a partir disso tirar suas próprias lições. Nesse sentido que atuamos, para fazer um movimento estudantil democrático que levante as questões mais sentidas da sociedade como acesso radical, onde todos os trabalhadores, os negros possam estar na Universidade, onde seu conhecimento esteja a serviço da população. A classe dominante deve novamente sentir que sob seus pés a terra treme.

[1] A União Soviética, ainda que enfraquecida e monstruosamente deformada pelo stalinismo, permanecia de pé como uma grande conquista social do proletariado mundial; as revoluções chinesa e cubana seguiam-se, respectivamente, em 1949 e 1959, mesmo que dirigidas por setores da pequena burguesia e do stalinismo que bloqueavam o caráter internacional destes processos.