Virginia Guitzel e
Eduardo Goes
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Beijo de Félix e Nico, personagens de Amor à Vida. |
Na última sexta-feira, reprisado
no sábado, pela primeira vez a emissora Rede Globo exibiu, e em horário nobre,
um beijo homoafetivo entre dois homens. A esquerda, os movimentos de direitos
humanos e LGBTTIs e muitos LGBTTIs comemoram-no como uma vitória. Para
entrarmos nesse debate é fundamental expressar que Félix e Nico, personagens da
telenovela Amor à Vida,
representados, respectivamente, por Mateus Solano e Thiago Fragoso, são a
expressão de um romance que conserva os valores burgueses: o casamento, a
constituição de uma família monogâmica e a propriedade. A televisão, como uma
das ferramentas de massas fundamentais para a dominação da burguesia, só pode
transmitir seus valores e, nesse sentido, garantir a perpetuação da ideologia
das classes dominantes. Assim, tal beijo é uma declaração aberta de que na
democracia dos ricos, sob o capitalismo, a burguesia nacional pode conviver com
parte, grifo proposital, dos LGBTTIs, incluindo o nicho de mercado que
trazem consigo (o que chamamos de Pink
Money).
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Manifestantes em ato exigindo justiça por Kaique Augusto. |
Muitos homossexuais assistiram ao
último capítulo da novela emocionados, o que não poderia ser diferente diante
de tamanha homofobia existente em nosso país. O Brasil é reconhecido como o
país mais homofóbico do mundo (superando países que têm legislação específica
para criminalização da homossexualidade, alguns com pena de morte aos
homossexuais), e aqui, aos 18 dias de 2014, já somavam-se mais de 23 LGBTTIs
assassinados. A morte de Kaique Augusto, no dia 11 de janeiro, segue impune e
silenciada pelo malabarismo organizado pelas polícias e seus comparsas, que
forjaram um suicídio, o qual segue sem explicações elementares. Os pactos do
governo do PT com a bancada evangélica e a histórica relação amorosa desse
partido com o Vaticano foram os responsáveis pela tentativa de retomar a “cura
gay”, extinta a mais de 23 anos, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS)
retirou a homossexualidade (antes com o sufixo -ismo) da classificação internacional de doenças. Nesse contexto,
como poderiam os homossexuais, estando acostumados a sua inexistência política
ou a não serem representados nos programas de massa e nos debates abertos nos
mais diversos âmbitos da sociedade, não se emocionarem?
No entanto, ao compreendermos que
os LGBTTIs sintam-se representados ao verem um beijo gay – afinal, sempre foi
cena proibida e isso é parte de reconhecermos a homofobia vigente –, precisamos
abrir um debate profundo não sobre o beijo em si e todas as polêmicas que vêm
se desenvolvendo, que acabam caindo em ataques, calúnias e questões mínimas que
nada contribuem para os revolucionários e os setores oprimidos avançarem na
conquista de suas demandas. É preciso debater os limites da visibilidade
(LGBTTI, que impulsiona a ordem dessa sigla inclusive) como estratégia do
movimento LGBTTI em particular, mas dos movimentos de setores oprimidos em
geral.
O papel da luta por
visibilidade e os limites dessa estratégia
A influência do pensamento
pós-moderno como orientador da organização LGBTTI, hoje, é marco fundamental do
retrocesso da reflexão estratégica na luta pela livre expressão das
sexualidades e construção de gênero. O momento em que foi elaborada – em meio à
restauração capitalista nos países do leste Europeu e ex-URSS, com a profunda
vitória subjetiva disseminada por muitos ideólogos burgueses como “fim da
história” e “vitória do capitalismo”, bases que solidificaram as democracias
burguesas dos países imperialistas que conquistavam o “bem estar social” como
as máximas do desenvolvimento humano – diz muito sobre essa linha do
pensamento. Linha muito refletida em Focault e atualmente centrada em Judith
Butler (uma das principais referências das transfeministas e do conjunto do
movimento Queer), teóricos que, ainda
que ofereçam avanços no pensamento subjetivo sobre a sexualidade,
demonstrando-as a partir de desconstrui-las em formas da construção social –
desnaturalizando a heterossexualidade como algo divino ou biológico –
contrapondo-se ao determinismo biológico (que determina o gênero e a
sexualidade a partir do nascimento) e concluindo pela total desconstrução de
perfis eternos de sexualidade e de identidade de gênero (sempre um, em
contraposição ao outro, isso é, constrói-se a partir da exclusão do outro),
esbarram no limite – não tão menor, ou desconsiderável – de como criar
condições para que todas essas potencialidades corretamente apontadas possam
ser realmente exercidas pelos indivíduos.
Ao abandonarem as contribuições de
Marx e Engels, e de todo o legado marxista também produzido por Lenin, Trotski e Rosa
Luxemburgo, tais autores que abertamente retomam Hegel e outros idealistas
avançam na concepção de que o “discurso tem poder por si”, de que a “fala
constrói” e, a partir disso, se propõem a constituir uma contracultura paralela
e pacífica com os marcos do sistema capitalista. Ignorando que, acima do discurso
utilizado, existem bases sólidas e materiais que determinam a realidade de
nossa sociedade dividida em classes.
Muitos dizem que “antes de lutar
por nossos direitos, é preciso existir”. Em última instância, estamos de acordo
que os mortos não podem lutar, nem mesmo por suas vida – porque já não as
possuem. Mas é a visibilidade que nos faz “existir”? Enquanto o tal beijo era
televisionado – com todos os limites claros de conservadorismo naquela cena –,
enquanto o casal homoafetivo dava uns selinhos frouxos, Edith – outra
personagem da novela – saía pela rua seminua com seu namorado/amante sem
camisa, beijando-se e dançando sensualmente, insinuando cenas sexuais.
É importante ver que essa
estratégia da visibilidade, organizada pelos movimentos LGBTTIs e adotada por
certa esquerda centrista muito influenciável que executa claramente a separação
entre “movimento de oprimidos” e “movimento revolucionário”, reivindica o beijo
gay como uma vitória ou conquista ensimesmada, colocando como ponto de partida
a necessidade de sermos assimilados pelo sistema capitalista e a ideia de que
os LGBTTIs seguem sem direitos e oprimidos por uma “ignorância” (quase que
inocente) das população em entender esses valores. Tal estratégia acaba por
ignorar variadas formas de dominação burguesa, e que a própria homofobia se
aplica à divisão das fileiras operárias para facilmente superexplorá-las, e
também que, aqueles que agora nos permitem sermos vistos, impõe-nos o papel
ideológico de que não se pode decidir sobre nosso próprio corpo, nossos gostos,
nossa sexualidade e nosso futuro.
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Selinho do jogador Emerson Sheik, do Corinthians, em amigo. |
Parece-nos muito mais importante,
nessa perspectiva, do que os selinhos emitidos pela Globo o papel do jogador
Emerson quando abriu grande discussão, a partir de um dos lugares mais
homofóbicos de nosso país, o futebol brasileiro, ao postar foto sua dando
selinho em um amigo. Logo depois, teve de retroceder, é verdade. Mas o papel
político sincero que aparecia naquele momento foi, sem dúvidas, muito mais de
enfrentamento com a real opressão do que qualquer tentativa de cooptação como a
que então propõe a rede Globo – o de sermos os gays aceitos pelo capitalismo.
Não nos basta aparecer! Não
queremos apenas sermos vistos, e pelos limites das lentes da reacionária classe
dominante brasileira. Existimos e temos disposição à luta. As barreiras impostas
aos LGBTTIs são muito mais altas e sólidas que as dos dramas familiares
representados! Que faremos agora? É necessário de uma vez por todas, e, sim,
aproveitando o espaço aberto pelo debate em torno do aclamado beijo, desde
nossos locais de trabalho, entidades estudantis e sindicatos, superando o freio
das burocracias, avançarmos na luta por direitos que esbarram nos muros do
próprio capitalismo. A homofobia, o machismo e o racismo, e mesmo a luta de
determinados setores em um suposto combate a essa formas de opressão,
dividem-nos e nos enfraquecem.
Organizar os sindicatos e as entidades que a
esquerda conquistou nos últimos anos para fazer um sério debate, no seio do
movimento operário, sobre a necessidade de se colocar ombro a ombro nessa luta com os setores oprimidos está no horizonte dessa esquerda? Organizar comissões de
investigação, independentes do Estado e de seu aparato jurídico comprometido
com os interesses da burguesia nacional, no caso de agressões e assassinatos,
fortalecendo junto a entidades estudantis, organizações de direitos humanos e
sindicatos a única aliança revolucionária, entre oprimidos e trabalhadores,
capaz de colocar em cheque todas as expressões da miséria imposta pelo capitalismo está no horizonte dos
movimentos LGBTTIs? Podemos tomar a tarefa de utilizar o espaço aberto pelo "beijo gay" para discussões em todos os locais, demonstrando que somente os LGBTTIs ricos podem adotar, ter uma casa na praia,
serem felizes e respeitados, segundo a Globo e os que ela representa? E quanto aos outros setores LGBTTIs? Nossa auto-organização, a superação da homofobia, de todas as opressões e do presente regime de exploração, podem ser conquistadas porque "agora fomos vistos"?
Por um Estado verdadeiramente
laico! Pela separação efetiva da Igreja do Estado! Fim do acordo
Brasil-Vaticano!
Pelo direito a nossos corpos, à
livre construção e manifestação de nossas sexualidades e gênero!
Criminalização da homofobia já!
Comissões independentes do Estado, compostas por familiares das vítimas de
homolesbotransfobia e organizações de direitos humanos, entidades estudantis e operárias para investigação e
debate sobre a punição dos agressores!
Que todas as entidades estudantis
e sindicatos tomem para si a luta dos setores oprimidos! Pela união de nossas
fileiras e real conquista de direitos!!!
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