Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Juventude às Ruas participa de debate sobre terceirização na música da USP


No último dia 30 de Maio, sexta feira, os estudantes da música em conjunto com nós, militantes da Juventude às Ruas e militantes do grupo de mulheres Pão e Rosas, organizaram um debate sobre a terceirização dentro e fora da Universidade. Essa atividade foi impulsionada principalmente depois de um infeliz acontecimento: um funcionário terceirizado vigilante, em saída do trabalho, foi atropelado e morto na avenida politécnica na cidade universitária. Esse trabalhador, contrariando a tendência do isolamento e invisibilidade dessa categoria, possuía uma profunda relação com os alunos, além disso era um sambista intérprete, o que gerou a uma identificação desse trabalhador com os estudantes  da música. Entretanto, depois de sua morte o departamento e a empresa contratante apenas substituíram o funcionário por outro, sem nenhuma notificação do ocorrido o que impediu os alunos de, inclusive, irem ao seu enterro ou declararem um luto em sua homenagem. Tal atitude causou profunda indignação nos alunos e uma mobilização de denuncia do caso que por fim se deu na atividade onde estiveram presentes diversos terceirizados, amigos do Gelsão (como chamava o trabalhador falecido), intervindo nas falas com depoimentos pessoais de precarização que a terceirização impõem. Na mesa do debate estiveram militantes do Pão e Rosas e uma trabalhadora de fábrica que narraram suas experiências de luta no trabalho. 



A atividade teve fundamental papel na organização e politização dos estudantes que estão em greve em conjunto com os trabalhadores da USP contra o não reajuste salarial. A luta contra a terceirização agora é uma das principais bandeiras dos estudantes da música nessa greve, que sob a memória do nosso camarada Gelsão, se colocam a frente na aliança operário-estudantil contra a precarização do trabalho.

Companheiro Gelsão, presente! Agora e sempre!
Pela efetivação de todos os terceirizados sem concurso público!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Suplemento Especial LGBT (parte 2) - AVANÇOS E CONTRADIÇÕES NA LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DE NOSSA SEXUALIDADE

A partir do estourar da crise mundial em 2008, temos presenciado cada vez maiores embates entre um ou outro direito obtido pelxs homo e TRANS* e a virulência com a qual os setores mais reacionários da sociedade respondem. Essa situação tem evidenciado o engodo propagado por vários anos de que a nossa emancipação se daria pela via de conquistas progressivas e acumulativas de direitos com a “ampliação da cidadania” dentro dos marcos do atual Estado capitalista. O aumento dos índices de assassinatos de homo e TRANS*, a situação de vida miserável na qual são lançadxs xs LGBT e as mobilizações de massas organizadas pelas Igrejas e políticos conservadores contra projetos de legalização do matrimônio igualitário escancaram que, dentro desse sistema social, econômico e político, os pequenos direitos conquistados estarão sujeitos aos cortes e ajustes que os governos e instituições financeiras internacionais imponham como também aos vai-e-vens das relações de forças sociais. O governo Dilma, do PT, já não consegue mais esconder que por trás de discursos supostamente “progressistas” se encobrem compromissos com setores direitistas e concessões às bancadas moralistas que visam reforçar o controle social à custa da retirada de liberdades democráticas.

Para compreendermos as tarefas atuais que o movimento LGBT deve se dar é necessário retomarmos os processos de luta que o movimento passou nos últimos anos desde o seu início e as mudanças sociais, estruturais e conjunturais que influenciaram e colocaram à prova as estratégias do próprio movimento, apontando os avanços que elas tiveram na luta contra a ditadura, dentro do Estado democrático, contra a moral burguesa, assim como também os seus limites e discutirmos as origens do ceticismo com a transformação radical da sociedade que hoje percorre o movimento LGBT. 

A primavera do movimento sexual.
Anos 60 e 70, os primórdios da luta pela libertação sexual.

Encontrando-se nos limites do crescimento econômico parcial proporcionado pelo fim da Segunda Guerra Mundial e desiludida com as perspectivas de futuro em um mundo polarizado entre um capitalismo que não apresentava qualquer nova esperança e um socialismo degenerado pelo stalinismo em uma ditadura burocrática contra xstrabalhadorxs e setores oprimidos, a juventude se radicaliza internacionalmente nos finais da década de 60 e toma as ruas contra a crise econômica, contra a guerra do Vietnã, contra o arrocho de vida, contra a moral e os costumes conservadores e contra a ordem social e cultural vigente.

Em várias partes do mundo essa explosão de indignação e questionamento da juventude se liga com as demandas econômicas e políticas da classe operária e da maioria da população, originando ascensos revolucionários de massas. Esse processo invade a vida privada e revira as roupas de cama, mesa e banho da família nuclear burguesa, entorna os vinhos e champanhes no chão da sala de jantar e enfia as mãos até os cotovelos nos cestos de peças íntimas retirando, fétidas, peça por peça de toda a moral cristã apodrecida e de sexualidade conservadora e miserável da família tradicional.

É nesse contexto que o movimento pela libertação sexual sai do “armário” imposto pela repressão, irrompendo na cena mundial com as barricadas de Stonewall e a visibilidade “orgulhosa”. Entre a defesa intransigente das travestis, trans e homossexuais do espaço do bar Stonewall contra as violentas e cotidianas batidas policiais e as passeatas e organização em torno da afirmação identitária e sexual sobre ser “gay” e “lésbica”, xs homo e TRANS* travavam um combate à família tradicional, ao par heterossexual monogâmico e a todas as relações intersubjetivas que eles engendravam, marchando em defesa do amor livre e da vida comunitária. Colocavam a luta pela livre expressão da sexualidade como parte da luta em defesa do direito à mente e ao corpo, pela defesa do direito à maternidade e ao aborto.

Compreendiam a família tradicional como uma reprodução em menor escala do Estado capitalista, fonte da educação e reprodução dos valores da sociedade patriarcal e normativa, combatiam na linha-de-frente a miséria sexual que assolava a humanidade de conjunto e por isso mesmo faziam de sua luta uma luta política contra as bases do sistema capitalista. A luta pela liberdade social era vista dentro do movimento pela libertação sexual como condição primordial para a conquista dessa libertação. Nessa perspectiva xs homo e TRANS* se organizavam para combater tanto a ordem capitalista quanto o controle férreo da burocracia stalinista nos Estados Operários.

Em 28 de junho de 1969, em Nova York, no bar StonewallInn, xs homo e TRANS* afro-americanos e porto-riquenhos resistiram às investidas repressoras da polícia se organizando para defender seu espaço e em 1970 a organização "Frente de Liberação Gay (GFL)" surgida nesse processo participava da Convenção Revolucionária organizada pelos Panteras Negras. Antes, em 1º de novembro de 1968, durante a ditadura militar na Argentina, surgia no subúrbio operário de Buenos Aires o primeiro grupo político-sexual da América Latina, “Nuestro Mundo”. Dirigido por um sindicalista comunista expulso do PC por ser homossexual, este grupo atuou na clandestinidade até se fundir com outros grupos em 1971 na “Frente de LiberaciónHomosexual (FLH)” lançando o Manifesto “Sexo y Revolución”. Na sequência dos processos que em maio de 1968 sacudiram a França, no qual xs estudantes universitárixs foram até as fábricas se ligar com xsoperárixs em greve para paralisar o país, surgiria a "Frente Homossexual de Ação Revolucionária (FHAR)", com o objetivo de organizar xstrabalhadorxs e xs homo e TRANS* para uma revolução política, social e sexual. Em 1º e maio de 1971, no Dia do Trabalhador, a FHAR desfilava ao lado dxsoperárixs com uma faixa “Abaixo a ditadura dos normais!” e buscava se ligar com as organizações partidárias da extrema-esquerda, como as trotskystas, na perspectiva da revolução:

“Para nós, a luta de classes passa também pelo corpo. O que significa que nossa recusa em suportar a ditadura da burguesia está libertando o corpo dessa prisão, que durante 2 mil anos de repressão sexual, de trabalho alienado e de opressão econômica foi sistematicamente fechado. Então, não existe nenhuma possibilidade de separar nossa luta sexual e nosso combate cotidiano pela realização de nossos desejos, de nossa luta anticapitalista, de nossa luta por uma sociedade sem classes, sem mestre, nem escravo.”



Dezesseis grupos de dez países irão formar a Internacional Homossexual Revolucionária (IHR). Pela primeira vez na história, o questionamento da repressão sexual buscava a superação da sociedade do capital, se ligando com a classe operária em uma perspectiva revolucionária e internacional.

O outono do movimento sexual.
Anos 80 e 90, os primórdios do neoliberalismo, da cooptação e da restauração burguesa.

As organizações criadas pela classe operária, como os partidos social-democratas e comunistas, e até mesmo os sindicatos e os Estados Operários burocratizados, porém, não impulsionaram esse processo convulsivo de greves selvagens e intensos debates no meio revolucionário sobre amor-livre e combate a todas as formas de opressão. Pelo contrário, atuaram como freios do ascenso revolucionário de massas e como agentes da implementação das medidas que reconfigurariam pelos próximos 30 anos o domínio capitalista pela via da fragmentação dxstrabalhadorxs com o neoliberalismo. Essa situação desmoralizou politicamente das massas à vanguarda e endossou um ceticismo profundo sobre a possibilidade da transformação social pela via da organização e direção revolucionária da classe trabalhadora. A desorientação e fragmentação anterior da esquerda revolucionária com o fim da Segunda Guerra Mundial impediu que uma direção consequente canalizasse todo esse rico processo dos anos 60 e 70 e a classe dominante conseguiu se sustentar pela via do avanço sobre os Estados operários burocratizados pelo stalinismo, por meio do crescimento das formas de regime democrático capitalista incluindo a participação da classe média e de setores privilegiados da classe operária e envolvendo os movimentos sociais e subversivos da moral e dos costumes sob a tutela e institucionalização do Estado.

Exatamente assim se procedeu com o subversivo movimento pela libertação sexual. A incorporação de algumas demandas de igualdade sexual na pauta de políticas públicas do Estado visando à cidadania cooptou uma parte significativa dxs homo e TRANS* da pequena-burguesia que tiveram a porta aberta ao consumismo, ainda que em guetos voltados para sua orientação sexual “dissonante”. A consolidação de um mercado gay e a exaltação do indivíduo tendo sua realização no consumo firmaram as bases do “pinkmoney” e permitiu que a classe dominante quebrasse ao meio o movimento pela libertação sexual. Enquanto isso, os setores homo e TRANS* da classe trabalhadora padeciam na marginalização, no aumento dos índices de desemprego, na proliferação da pobreza, da violência policial, no aumento da exploração nos postos de trabalhos precarizados, na prostituição e na degradação social e também, sexual, a partir da restrição de sua satisfação e práticas sexuais ao esconderijo, sujeito a ambientes insalubres, perigosos e anti-higiênicos.

O divórcio da classe operária, encabeçado pelas suas direções, com os movimentos sociais se consumou e o movimento homo e TRANS* abandonou a luta contra a ordem social e moral que o capitalismo impõe e se contentou em pressionar as instituições do Estado por um “aumento de cidadania”. A classe dominante pôde então avançar ainda mais contra os setores oprimidos, ao ponto da primeira política pública do Estado aplicadaaxs LGBT ter vindo diretamente da pasta de saúde pública com a ofensiva da epidemia da AIDS. O extermínio de milhares de homo e TRANS*, o isolamento, o medo, a estigmatização e a patologização da prática homoafetiva submeteu o movimento LGBT ainda mais de joelhos perante um Estado que, pautado pela opinião pública por ele mesmo edificada, marginalizava xs homo e TRANS* como problema de saúde pública. Nesse período difícil para xsLGBT's, o refúgio nas ONG’s e nas mendicações ao Estado aprofundou ainda mais a institucionalização do movimento e sedimentou as bases da estratégia que viria a pautar o movimento LGBT a partir de então: a busca de direitos e do “aumento da cidadania” a partir de políticas públicas e da pressão por dentro das secretarias e comissões do Estado e dos lobbys parlamentares.

Por uma saída revolucionária para nossa sexualidade!
A revolução, ainda hoje, é uma condição fundamental para nossa emancipação.

Os longos anos de neoliberalismo aprofundaram um distensionamento na busca por uma estratégia capaz de alcançar a emancipação de nossa sexualidade. O que ficou conhecido como “grau zero de estratégia” nos anos reacionários, onde se restauraram o capitalismo nos ex-estados operários e se construiu uma forte ideia de triunfo do capitalismo, “fim da história” e “fim da classe trabalhadora”, foi responsável pelas diversas analises que hoje fundamentam o movimento LGBT/Queer.

Essa derrota objetiva, ligado ao fato do marxismo clássico e dos marxistas revolucionários que o sucederam não terem desenvolvido nenhuma tese ou contribuição à libertação sexual, com foco na opressão sofrida pelos LGBT, abriram o caminho para a construção de uma estratégia de emancipação pelos setores reformistas ou pós-modernos, sem lançar luz a partir das ferramentas do marxismo, no sentido da emancipação revolucionária de toda forma de sexualidade e identidade de gênero. O stalinismo, de forma mais completa, traiu a luta dos setores oprimidos e garantiu uma ampla influência em diversos partidos comunistas do mundo de invisibilizar e não oferecer nenhuma alternativa para os que mais sofrem com a sexualidade não-heterossexual e as identidades TRANS*. A identificação errônea do stalinismo com o socialismo foi a grande responsável pelo abandono dessas ferramentas pelxsLGBT's. 

A cisão dos movimentos sociais com a luta dos trabalhadores costurada nesses anos que chamamos de restauração burguesa garantiu o surgimento de uma tendência dentro do movimento LGBT que tem grandes pensadores que a representam, sendo ainda hoje muito referenciados: Foucault e Judith Butler, como principais símbolos.

A teoria Queer e toda uma “onda” do trans-feminismo hoje se pautam pela visibilidade (luta por ganhar espaços midiáticos e impor um reconhecimento social) e pelo idealismo, que retorna a Hegel, Austin e outros teóricos, para afirmar que “a linguagem determina a vida” e a ideia de “poder da fala”. Se por um lado há que se reconhecer como um progresso a visão difundida de que a construção da identidade de gênero e da sexualidade são frutos da sociedade em que vivemos, por outro, esta alternativa descolada da materialidade e das relações sociais nos parece um grande retrocesso estratégico na luta por nossa emancipação. Isto é, nossa assimilação do que somos, nossa construção individual, não pode se desligar das condições materiais que partimos para construí-las, da sociedade de classes, das variadas combinações de opressões e da ordem heteronormativa, binária e transfóbica a que somos bombardeados. Isso não deve nos levar a lógica de que somente os LGBT são oprimidos por sua sexualidade e identidade de gênero, mas sim que toda repressão sexual é fruto de uma necessidade objetiva do capitalismo de dominar nossos corpos e mentes para avançar na sua exploração, isso pode ser identificado na sexualidade reprodutiva que a maioria dos trabalhadores possuem, de maneira compulsória, sem ter conhecimento sobre o próprio corpo, deixando para as mulheres trabalhadoras a responsabilidade materna, sem a permissão de sentir prazer e construir sua identidade livremente.

Se, por um lado, a teoria Queer combate a reacionária visão de determinismo biológico (onde muitos LGBT se apoiaram num combate defensivo a ideologia da AIDS como “doença gay”), onde a biologia determinaria 100% nossa sexualidade e nosso gênero (impossível de ser re-construído) – o que serve de base para visões conservadoras e religiosas de patologização das identidades TRANS* e da sexualidade não normativa (sem fins reprodutivos), por outro, joga xs LGBT numa deriva estratégica, que em última instancia deposita no Estado ilusões de reformas progressistas, em geral pela via da reeducação da qual o pós-modernismo se debruça a construir a partir de uma contra-cultura.

Ainda que reconheça a sociedade capitalista, o pós-modernismo em suas mais variadas correntes de pensamento, não analisa os pilares do sistema capitalista buscando destruí-los para erguer uma sociedade comunista, onde sejamos verdadeiramente livres e possamos desconstruir e construir livremente nossas expressões e identidades. Por isso, para além da produção teórica – que sem dúvida cumpre um papel chave de combate a ideologia dominante que segue vigente nas universidades burguesas produtoras das mais variadas opressões - a revolução ainda segue como condição fundamental para nossa emancipação. A Revolução Russa – sobre a qual nos apoiamos –, que em 1918 já garantia a liberdade sexual (legalizando a homossexualidade), demonstra que mesmo as democracias capitalistas mais avançadas de hoje, ainda não podem garantir sequer o fim das padronizações para não se desvincular do “mercado rosa” (Pink Money), um nicho de mercado voltado ao público LGBT pequeno burgues ou diretamente burgues, que mantém "até onde se tolera" xs LGBT nos marcos do regime. O mercado rosa é uma das variadas formas de "inclusão" que amplos setores reivindicavam como medida progressiva de inclusão social dxs LGBT, que, no entanto, só expressa como apenas uma pequena parcela pode ser incluída, determinada novamente pelo caráter de classe.

É também lição da revolução russa, de que a transformação das bases econômicas não garantirá de imediato a nossa emancipação. Todavia, a revolução segue como condição para libertar todos os países da lógica capitalista de consumo, propriedade e de reprodução da família como regra, para permitir que revolução avance em todos os níveis, que destrua os pilares que perpetuam o machismo, o racismo e a homo-lesbo-transfobia. Sendo o capitalismo herdeiro último da sociedade patriarcal dividida em classes, é necessário defender fortemente a sua destruição internacional para que permita erguer-se uma nova sociedade baseada na relação de produtorxs e reprodutorxs livres, o que só é possível com uma política internacionalista também no âmbito da sexualidade.


Suplemento Especial LGBT (parte 1) - O FALSO PROGRESSISMO DO PT E AS MOBILIZAÇÕES DE JUNHO

A necessidade de uma estratégia revolucionária para nossa emancipação.

“É um fato curioso que, a cada grande movimento revolucionário,
vem à tona a questão do ‘amor livre’.” (F. Engels, 1883)



Se resgatarmos o período da última eleição presidencial até junho de 2013 vamos perceber que o horizonte para xs homo e TRANS* ficava mais sombrio a cada dia que passava. A partir do compromisso firmado entre Dilma e a bancada religiosa, vimos primeiramente a pauta da legalização do aborto e do direito a maternidade ser simplesmente rasgada pelo PT; depois as cartilhas educacionais e de saúde voltadas para explicar sobre a sexualidade e as DST’s foram banidas; o acordo Brasil-Vaticano vigorava e na medida que o ensino religioso nas escolas se ampliava, se ampliava também o numero de homossexuais assassinados no país (de 2003 à 2007, aumentou-se 117% de assassinatos a LGBT – dos registros oficiais); e na coroação dessa ofensiva, o PT fechava acordo com o Partido Social Cristão que colocaria Marco Feliciano, pastor declaradamente homofóbico e racista, na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados.

Porém, em junho de 2013 vimos tudo isso mudar. A partir da mobilização de massas da juventude foi possível barrar o projeto de cura-gay e do Estatuto do Nascituro apresentado pelos setores conservadores na Câmara, após junho os questionamentos e alvoroços sobre a aprovação da união estável entre homossexuais, de súbito, silenciaram. A luta nas ruas e a atuação coletiva das massas de juventude freou o avanço que os setores mais conservadores da sociedade, benzidos e abençoados pelo governo do PT, estavam impondo sobre a vida e os direitos dxs LGBT. Essa conquista conjuntural nos fez extrair a lição de que a estratégia individualista de simplesmente nos construirmos como somos por fora de atuar coletiva e politicamente pelos nossos direitos não serve. Permite também confrontarmos esta lição com a experiência histórica que xs homo e TRANS* se propuseram na década de 70, de encabeçar a linha de frente da luta pela libertação sexual de toda a humanidade sempre buscando ter consigo o apoio e a participação da maioria dos setores da sociedade, em especial xstrabalhadorxs.

A ausência dxstrabalhadorxs como sujeito político e a debilidade dos sindicatos e das entidades estudantis de organizarem a juventude e tomarem em suas mãos as bandeiras dxs LGBT nas manifestações de Junho foi o seu principal limite. Isto fez com que, mesmo com as derrotas que o movimento impôs à pauta dos conservadores, Marco Feliciano permanecesse até o final do seu mandato na presidência da CDHM. 

Esse limite, porém, tem uma superação sem precedentes apontada em fevereiro de 2014, quando xsbravxs garis do Rio de Janeiro decidem interromper o Carnaval carioca como nenhum setor social poderia sonhar em fazer para exigir a valorização do salário. E sem se dobrar perante as ameaças do prefeito, do patrão, do juiz, da polícia e nem da burocracia sindical conseguem impor uma fragorosa derrota à classe dominante e um exemplo para xstrabalhadorxs e oprimidxs! Somente imagine a moralização para xstrabalhadorxs, e o choque educativo contra a ideologia dominante homofóbica e machista que não haveria, se um grupo organizado de homo e TRANS* se colocassem ativamente a apoiar e prestar solidariedade a esta luta? Imagine os frutos que essa aliança não traria também na luta pelas pautas dsx LGBT, ao terem suas bandeiras levantadas pelxs garis com os métodos operários de piquetes e paralisações? “Não tem arrego” nem para Feliciano nem para Bolsonaro!

Essa, a estratégia revolucionária, baseada nas mobilizações coletivas de massas, na organização dos setores oprimidos em aliança com xstrabalhadorxs e na hegemonia dos métodos e da centralidade da classe operária, é a única que pode responder contra a homofobia e na conquista, inclusive, dos mínimos direitos formais hoje negados pelo Estado capitalista e sujeitos ao jogo das forças sociais, aos acordos político-parlamentares e, pelos vai-e-vens da economia, ao sabor e gosto do FMI e do Banco Mundial. A garantia do fim da homofobia vai muito além da existência de uma lei. Como bem sabemos, com oito anos de existência, a Lei Maria da Penha não conseguiu reduzir mais do que 5% dos casos de feminicídio e nem dize sobre a violência contra a mulher. Também a criminalização do racismo até hoje não puniu ninguém por este crime – e não nos faltam exemplos de racismo, inclusive amplamente divulgados pela mídia e cometidos por figuras públicas, que podemos citar!

Dirigir o movimento, como fazem as correntes LGBT ligadas ao PSOL, com o norte na luta pela aprovação de leis (PLC’s) por esse Estado capitalista através da pressão pela via dos seus lobbys parlamentares, como Jean Wyllys e outros, só serve para fortalecer um Estado regulador e não combater o problema social. Ao mesmo tempo em que existe pouco ou nenhum investimento em tudo o que possa transformar a pobreza, a dependência e a precarização das mulheres, existem inúmeras leis penais para protegê-las, mas que não garantem igualdade na vida. Fazer deste o norte estratégico de luta dxs homo e TRANS*, como defendem xs reformistas do PSOL, significa depositar no Estado capitalista todas as fichas para nossa emancipação, sem nenhuma ação efetiva rumo a sua destruição. 

Também a estratégia de pressão por via de atos de rua para exigir dos governos a aprovação de leis, como propõe o PSTU, termina servindo aos mesmos interesses, pois novamente não deposita energias na construção de um serio plano de lutas organizado desde a base, pelo contrário, atuam por fora dos sindicatos e entidades estudantis que dirigem desperdiçando o importante papel de reconstruir a ponte entre as demandas dos setores oprimidos e a luta dos trabalhadores. A única maneira em que a luta pela criminalização da homofobia pode servir para organizar xs homo e TRANS* na luta contra o Estado é se a esquerda superar a estratégia “antineoliberal” e adotar uma estratégia verdadeiramente revolucionária, que parta de reconstruir a ligação, destroçada pelo neoliberalismo, entre os movimentos sociais e o movimento operário, sendo somente por meio dos métodos dos trabalhadores a única possibilidade de alcançar as demandas dos setores oprimidos, levantando bandeiras que se enfrentam não apenas com a moral burguesa, mas com a estrutura do capitalismo que a mantém.

Essa perspectiva nunca esteve tão próxima nos últimos anos quanto está atualmente. Enquanto lemos e refletimos este material, dezenas de mobilizações de trabalhadorxs estouram nesse maio de greves operárias. Com a moral das travestis negras de Stonewall que se enfrentaram diretamente contra o destacamento de homens armados do Estado, mas com os métodos dos estudantes da França de 1968, podemos dar um upgrade neste maio de 2014 elevando a outro patamar a experiência do setor do Grupo de Afirmação Homossexual brasileiro da década de 70 e 80, SOMOS, que durante uma das maiores assembleias dos metalúrgicos do ABC marchou no estádio com uma faixa em que dizia: “Os Homossexuais apóiam a greve dos trabalhadores” para serem ovacionados pelxsoperárixs!!! Com o ascenso de lutas operárias em nosso país, xs LGBT precisamos construir a aliança das lutas contra a opressão com as lutas operárias contra a exploração, para que juntos sejamos mais fortes contra nossos inimigos, que reproduzem e perpetuam as opressões como forma de aperfeiçoar sua dominação de classe. Lutemos pela liberdade sexual e livre construção da identidade de gênero de toda a humanidade, para que todxspossamos exercer livremente todo nosso ser.


De Milk à Jean Wyllys: a incapacidade do reformismo para responder nossas reivindicações


Centenas de LGBT hoje se veem representados pelo deputado Jean Wyllys (PSOL), pelo seu combate as bancadas religiosas que tentam repetidamente retroceder nos direitos conquistados pelos setores oprimidos. A ilusão que Jean Wyllys cria no poder do Estado em defender os setores oprimidos é parte de sua estratégia de garantir direitos acumulativos a partir de projetos de lei, mas sem nenhuma organização independente rumo à tomada do poder.

Para alguns, o simples fato de termos homossexuais dentro do Estado já é em si um avanço progressista. Porém, com a chegada de uma presidenta mulher ao poder, podemos facilmente identificar que o gênero, a etnia ou a sexualidade não garantem por si uma política emancipadora. Os projetos de lei de Jean Wyllys, com destaque para a Lei Gabriela Leite, revelam que as políticas ditas como “progressistas” não se enfrentam com a ordem capitalista, pelo contrário, neste projeto de lei, Jean Wyllys regulamenta a cafetinagem e ainda institui que só é reconhecido como exploração sexual a “apropriação total ou maior que 50% do rendimento de prestação de serviço sexual por terceiro”, o que demonstra à quem esse PL favorece. E se considerarmos que as travestis e transexuais são as mais afetadas pela prostituição compulsória (única alternativa para garantia de sua sobrevivência), o projeto de Lei não se apresenta como alternativa consequente, pois desconsidera a impossibilidade de legislar sobre a prostituição marginal da qual sofrem as TRANS*.

Se retomarmos a trajetória de Harvey Milk, primeiro homossexual declarado a assumir um cargo político nos EUA, veremos que desde sua participação na revolta de StoneWall até seu assassinato em 1978, sua estratégia era puramente reformista, mas infinitamente mais combativa à postura de Jean Wyllys, que vê no parlamento um “plano de carreira”, onde defende com unhas e dentes os super-salários. De um a outro, podemos ver que nas situações mais diversas, tanto com um parlamentar que participou da revolta de StoneWall até Jean Wyllys, que hoje nos próprios projetos de lei atacam os setores oprimidos, o reformismo não foi uma alternativa. As lutas dxs LGBT não se inserem no marco de “mais direitos”, pois a liberdade sexual exige uma superação da ordem vigente, para que nossos corpos e mentes sejam verdadeiramente livres. Enquanto a lógica capitalista de produção e lucro prevalecer nossos corpos não poderão ser mais do que objetos, nossa sexualidade mais do que uma função reprodutiva à serviço da construção de um exército de reserva e nossas mentes patologizadas por querer construir livremente nossas identidades.


- Que a universidade se coloque ao lado dxs LGBT! Que a produção do conhecimento e sua influência política garanta educação sexual nas escolas! Pela permanência estudantil das travestis e transexuais! Abaixo o Acordo Brasil-Vaticano. Pelo fim do ensino religioso, heteronormativo, binario e determinista biológico nas escolas!

- Fora bancada evangélica! Fora vaticano! Pela separação da igreja do Estado! Basta de acordos e leis contra os direitos dxs LGBT, mulheres e negros!

- Que as entidades estudantis e sindicatos tomem em suas mãos a bandeira pela liberdade sexual e livre construção de identidade de gênero! Que impulsionem nas campanhas salarias e nos acordos coletivos a inclusão dxs LGBT nos planos de saúde e demais direitos trabalhistas!

- Basta de silicones industriais! Basta de mortes e lesões por não acompanhamento medico! Por um único sistema de saúde, estatizado sob controle dos trabalhadores, para garantir: aborto legal, seguro e gratuito para mulheres pobres e TRANS-homens; cirurgias de redesignição sexual, acompanhamento hormonal e psicólogos para vítimas de violência.

- Não a regulamentação da cafetinagem! Pela descriminalização da prostituição!

- Igualdade na lei e igualdade na vida! Pela aprovação da Lei João Nery! Por um sério plano de luta que garanta todos os direitos iguais para a população LGBT rumo à transformação radical da sociedade!

- Pelo fim da miséria sexual! Por casas abrigos para homossexuais e TRANS* expulsos de casa! Por espaços para a juventude exercer sua sexualidade livremente!

- Basta de assassinatos, violência e mutilações axs LGBT! Aprovação imediata da PLC 122 que criminaliza a homofobia, com comissões independentes do Estado para garantir investigação e punição para os casos de violência e assassinatos!

- Basta de estupros corretivos! Não aceitaremos a heteronormatividade compulsória! Pela livre construção da sexualidade lésbica e bissexual! E pela educação sexual preventiva a DSTs!


- Pela de despatologização das identidades TRANS*! Não há laudo para o que não é doença! Não a cura gay! Não há ciência produzida para justificar a homo-lesbo-transfobia.



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Nesse 15M retomemos as demandas de junho junto aos trabalhadores!!!


Vamos já ao encontro do primeiro aniversário das Jornadas de Junho de 2013 em meio a um convulsivo cenário nacional, marcado por greves operárias radicalizadas que colocam para a juventude a possibilidade de voltar a fazer história e se provar um aliado estratégico da classe trabalhadora.

Nesse dia nacional de lutas da juventude contra os mega-eventos, precisamos retomar as demandas de junho que marcaram nosso país, e oferecer uma resposta concreta para os anseios de milhares que tomaram as ruas e seguem sem serviços básicos acessíveis, de qualidade e para todos.
Acreditamos que, frente a esta possibilidade e a nova situação que vivemos no país desde Junho de 2013, é necessário que a Juventude tenha uma estratégia para vencer: Construir a luta ao lado dos trabalhadores e paralisar e construir ações desde a base das universidades e escolas neste.

2014 começou marcado por uma nova conjuntura nacional, onde as greves operárias tomam as ruas impondo suas demandas goela abaixo dos governos, burocratas sindicais e patrões. A greve dos garis que, sendo um exemplo da força dos trabalhadores paralisando a prestação dos serviços, apontou o caminho para a juventude que se via impotente frente a defesa de suas bandeiras. Frente a força dessa greve, ficou demonstrado o fracasso da tática black block para arrancar direitos, por um lado, e, por outro, a falência das direções anti-governistas do movimento estudantil e operário, com ênfase em PSOL e PSTU,  que se prepararam para a luta de classes de maneira que não puderam cumprir nenhum papel determinante nas massivas mobilizações de Junho.

Com importantes greves em curso, como de professores em São Paulo, rodoviários no Rio de Janeiro, Garis em BH, milhares de operários da Petrobrás em Cubatão, as direções do movimento estudantil devem organizar os estudantes para que prestem solidariedade ativa aos trabalhadores, combinando esta às suas próprias demandas no sentido de fortalecer ambas as lutas e construir uma rede de solidariedade que defenda a organização independente dos trabalhadores e a organização desde a base dos estudantes para superar o corporativismo ligando as lutas as necessidades da sociedade.

Para avançar nessa perspectiva, é preciso, em primeiro lugar, combater a burocracia estudantil da UNE que joga contra as mobilizações e neste momento convoca a juventude para trabalhar de graça para que a FIFA aumente seus lucros!

Organizações de esquerda como PSTU e PSOL que dirigem entidades importantes no país, em Junho não conseguiram oferecer uma alternativa de organização à juventude, o que foi um dos principais pontos que determinaram seus limites. O fato de não haver organização desde as estruturas de base, que levantasse demandas claras é um dos desafios que a esquerda deveria buscar responder neste 15M. Para isso é preciso que as direções do movimento estudantil superem sua lógica de militar por aparatos, desligadas das bases. É preciso chamar assembleias de curso para construir o 15M, que desde as bases se discuta as demandas e organizem paralisações para garantir que todos possam sair às ruas.

O movimento estudantil precisa entrar no cenário político nacional dizendo claramente que está organizado ao lado dos trabalhadores e contra todas os setores que os atacam: os governos, as burocracias sindicais e as reitorias!

É necessário ter um plano de luta claro que arme a juventude para o combate, garantindo que nossas bandeiras se liguem aos levantes operários! Apenas assim, superaremos os obstáculos impostos pelas burocracias governistas e patronais que impediram que os trabalhadores se mobilizassem em Junho e confluíssem com as manifestações do ano passado. 

É, neste sentido, necessário um passo decidido nesse dia de 15 de maio, para que as entidades estudantis organizem panfletagens, chamados a atividades conjuntas e demonstrações de solidariedade, junto dos trabalhadores em luta, como os metroviários e rodoviários de SP ou educadores do RJ, novamente em greve.

 Que todo filho de trabalhador esteja na Universidade pública! Estatização do ensino privado sob controle dos que trabalham e estudam, e fim do vestibular!

 A educação é, supostamente, um direito universal da humanidade, contudo 95% dos jovens  brasileiros não tem acesso à universidade pública.

O projeto de universidade no Brasil mantém alguns polos de excelência que, a partir do vestibular, excluem a juventude negra e pobre. O conhecimento fica restrito a uma elite branca e por fora das reais necessidades e interesses dos trabalhadores e da população. As universidades são geridas por uma estrutura universitária na qual a burocracia acadêmica se enriquece com supersalários e luxos usando dinheiro público para, além de tudo, direcionar a Universidade a pesquisas que só geram lucro a uma minoria de empresas. Os trabalhadores e seus filhos só entram na universidade para trabalhar, sendo os negros os mais precarizados e que ocupam os postos terceirizados.

Enquanto a maioria dos jovens ou não tem acesso ao ensino superior ou precisam pagar cursos precários em universidade privadas, o governo do PT fala em democratização do ensino. , Escondem que esta suposta democratização é uma política aberta de fazer com que a classe trabalhadora se endivide em Universidade Privadas. Dessa forma, garantem lucros exorbitantes para os monopólios da educação ao mesmo tempo em que defendem como “verba pública” o financiamento direto do governo aos monopólios a partir de programas como PROUNI, que pagam as vagas ociosas para os monopólios, sendo que, com esse custo, poderiam ser abertas 3 vagas nas universidades públicas.

Além disto, há o REUNI, combatido em 2012 na Greve de todas as Universidades Federais, que é uma expansão do número de vagas, sem investimento: são abertas muitas vagas, mas não há professor, sala de aula, restaurante universitário, bolsas, moradias....
 Precisamos lutar para que todo estudante esteja na Universidade pública como parte de retomar as demandas de Junho. Isso só é possível se os estudantes das universidade privadas, das públicas e toda a população que não tem acesso ao ensino, lutarem por um programa que unifique seus interesses e responda até o final as suas demandas.

Por isso levantamos a necessidade da estatização das Universidades privadas e o fim do vestibular, nos colocando neste caminho, na linha de frente da luta por cotas proporcionais ao número de negros em cada Estado, dando um sério combate ao vestibular racista e elitista que impede que a juventude e negra possa estudar.

 Não podemos mais aceitar que a educação seja restringida pelo interesse do lucro de algumas “indústrias do ensino”, a educação tem que ser 100% pública e controlada pelos estudantes, trabalhadores e professores, assim lutamos ao lado dos professores e trabalhadores da educação contra a precarização do trabalho e pela qualidade do ensino.

Redução imediata das passagens
em luta pela Estatização dos transportes sob controle dos trabalhadores e usuários.

Desde junho a demanda por transporte se mantém viva. Isso porque, mesmo com a conquista da redução, o não aumento das tarifas não consegue responder o problema estrutural dos transportes no país: a super lotação dos metrôs e ônibus, os salários de miséria dos trabalhadores, os acidentes, e as altas tarifas para premiar tudo isso.

O início do ano começou com uma forte greve dos rodoviários do Rio Grande do Sul que conseguiu superar a direção burocrática do sindicato e levantar demandas que se unificavam com a população, como redução das passagens. Mas esse foi só o começo, no mês do 15M a juventude pode na pratica se unificar com os trabalhadores do transporte, no Rio de Janeiro estoura uma greve dos rodoviários e já começa radicalizada, em Campinas os trabalhadores da linha verde entram em greve, no metrô de São Paulo a categoria vem se organizando para parar, enquanto em MG as catracas são abertas para a população como parte da luta dos trabalhadores terceirizados.

Junto a uma categoria que se agita, existe um descontentamento generalizado na população com a qualidade e o preço do transporte público, uma expressão disso são os centenas de ônibus queimados pelo Brasil, mostrando que o transporte virou um símbolo de luta desde Junho.

Contudo a demanda de tarifa zero levantada em Junho mostrou suas limitações ao não questionar principalmente quem administra os transportes no país, onde os governos junto as empresas privadas transformam um direito da população, num negócio de altos lucros, formando verdadeiras máfias que dirigem os escandalosos esquemas de corrupção.

Os distintos projetos propostos para resolver o caos do transporte, seja pelo MPL, seja por “progressistas” dentro e fora dos governos, se esqueciam, propositadamente, de uma questão crucial: que o transporte deve ser público e, efetivamente um direito. Em todos seus projetos, contabilizavam formas de, mantendo a propriedade privada do transporte, encontrar uma forma menos custosa para o trabalhador e usuário.

É preciso dizer não! Levantamos bem alto a demanda da redução imediata das passagens, no trilho da luta pela estatização dos transportes públicos sobre controle dos trabalhadores e usuários, retirando esse direito das mãos das grandes máfias e passando para a mão dos trabalhadores que, ao gerirem o transporte, verão que podem administrar toda a sociedade como única saída para os problemas estruturais de nosso país.

Basta de repressão aos que lutam! Basta de assassinatos da juventude negra!

No país do pelourinho e das chibatas, a luta da população negra sempre foi tratada com repressão. A polícia brasileira é a mais assassina do mundo, e todos sabem que matam principalmente os jovens negros.

Contudo depois de Junho essa instituição reacionária esta cada vez mais questionada, o ódio à policia explodiu depois da morte de Amarildo, e a cada novo assassinato o morro se revolta, foi assim com Claudia Ferreira e com DG, e são apenas uma pequena demonstração do papel fundamental da luta negra como parte de uma luta indissociável pela transformação radical dessa sociedade. Basta de assassinatos da juventude negra! Fim das UPP’s e dos tribunais militares! Nenhuma confiança na policia e em nenhum órgão repressor do Estado! Abaixo a repressão aos que lutam! Fora o Exército dos morros e favelas! Nossas universidades não servirão de base para a repressão durante a Copa!




quarta-feira, 23 de abril de 2014

Levante Popular da Juventude: Fazendo, com cara “jovem”, o velho trabalho dos PTistas.


Por André Bof

Recentemente, o conhecido Levante Popular da Juventude realizaram um Encontro nacional, na cidade de Cotia, para organizar  setores de sua militância que o próprio movimento define como “do campo, da periferia, das universidades”.

Autointitulado um encontro de “milhares”, o encontro girou em torno de mil e poucos jovens de alguns estados que, após a reunião, organizaram um ato, na Avenida paulista, em SP, por uma demanda que, segundo o movimento toca “profundamente” as necessidades das periferias, universidades e do campo... : A Reforma Política! Aquela que Dilma anunciou (e tão logo esqueceu) como a salvação do País, quando ocorreram as manifestações de milhões de Junho de 2013.

É, no entanto, importante relembrar o que lhe rendeu a famigerada fama e quem é o “Levante Popular da Juventude”.
Formado há poucos anos, o Levante Popular da Juventude é uma espécie de braço juvenil de uma organização política, mais antiga, chamada Consulta Popular, surgida em 1997 e que se autodefine como impulsionada por movimentos sociais sobretudo o MST, dirigido pelo, também ligado a Consulta, João Pedro Stedile.

Além de uma série de afirmações abstratas como o “compromisso com a unidade popular”, seu projeto distingue-se pela repetição e reafirmação, seguida a risca pelo Levante Popular, da luta por um “Projeto Popular”, o qual, então, seria a concretização da dita “revolução brasileira”.
Chegam até a, surpreendentemente, afirmar que as tarefas estruturais do Brasil (que os marxistas definem como a Reforma Agrária, libertação da influência do imperialismo, industrialização, etc) só podem ser cumpridas pelo trabalhadores assalariados (proletariado) que, dirigindo todos os demais oprimidos, se coloca na Luta pelo poder.
Uma tese, sem dúvida, próxima a de muitos trotskystas e marxistas revolucionários que seguiram a estratégia que levou a vitória em 1917 na Rússia.  Postuladas as “conexões” do levante popular, voltaremos a isto a seguir.

Do ponto de vista das ações que os tornaram conhecidos, estão os já famosos “escrachos” grupo rastreava as casas e localização de ex-apoiadores e membros da ditadura Civil-Militar de 64 e então faziam pichações, atos, e coisas do tipo, perturbando e trazendo a tona tais milicos de casaca em ações que, não é problema nenhum afirmar, foram muitas vezes importantes para publicizar a questão da impunidade.

No entanto, é aqui então que, não por acaso, somos obrigados a voltar.

Além seu sumiço repentino durante as mobilizações que, em Junho, reacenderam  a luta em setores massivos de Juventude e de trabalhadores, inicialmente por transporte, mas avançando para o questionamento de conjunto dos direitos sociais (moradia, saúde, transporte, educação, etc), o Levante Popular da Juventude, seguiu com pouca atividade, seja durante os atos que se seguiram a Junho, seja nos meses de 2014 em que tem se organizado a luta Contra Copa do Mundo, definida como a “Copa dos Patrões” por milhares nas ruas.

Este sumiço, não é coincidência. O Levante, como setor ligado a Consulta Popular e MST, mantém, apesar de seu discurso “revolucionário” em cartilhas de formação, uma posição de apoio entusiasmado, com pequenas críticas, aos governos do PT encabeçados por Lula e Dilma. 


Se em junho, quando “massas” saíram às ruas, buscando resolver com as próprias mãos suas necessidades e justamente colocando em prática a luta por aquilo (saúde, transporte, moradia, emprego, etc) que a Consulta e o Levante juram defender pela via de “mudanças radicais na estrutura do País”,  estes não impulsionaram seus milhares de membros, a razão está em sua visão de tudo “de bom” que deve ser “reivindicado” dos Governos do PT..... apesar da ação independente e ofensiva de milhões de jovens nas Ruas que talvez não entendam o avanço deste governo.
O mesmo vale hoje, para a luta contra a Copa, que aonde estão, os membros do Levante e da Consulta tratam de desorganizar, criticar e boicotar.

Em suas cartilhas de formação (www.consultapopular.org.br/sites/default/files/cartilha%2021_0.pdf), a Consulta Popular trata de maneira muito mais clara e mais aberta do que qualquer um poderia descrever, seu apoio alegre as medidas do Governo Lula e Dilma.

Definem, partindo de suas muitas linhas em que demonstram sua estratégia revolucionária com protagonismo “operário e popular”, como, a partir de 2002, apesar de abandonar o projeto de luta pela tomada do poder (e nos perguntamos se este era o projeto de Lula antes de 2002!), a eleição de Lula e o PT representa um “limite ao avanço” neoliberal (época do capitalismo conhecida pelas privatizações e retirada de direitos trabalhistas) e cita uma série de medidas positivas do Governo.

Que o país tenha avançado como nunca das terceirizações que afetam sobretudo os negros, privatizações de rodovias, de portos, “concessões” privatizantes de aeroportos, manutenção das privatizações da Vale do rio doce, etc, nada disto importa.

Demonstram, no entanto, como o Brasil sai, com Lula, da servidão colonial para uma política que visa os interesses nacionais e é cada vez mais independente; como o Governo realiza os grandes projetos sociais conhecidos como o Bolsa Família, o Reuni, o Prouni; e finalizam com a afirmação de que, com a vitória de Dilma, seguem estas medidas e se dá a vitória sobre “os setores da Igrejas Católica conservadora e Pentecostais”.

Dentre estas medidas, criticáveis em si, como o Bolsa Família que não chega a distribuir nem 0,4% do PIB brasileiro, enquanto para os Bancos e Banqueiros o governo paga 47% do Orçamento do PIB como juros da dívida pública; ou o delírio de dizer que Dilma derrotou os Evangélicos e a Igreja Católica, enquanto não apenas o PT se elegeu com o APOIO destes setores, vendendo as pautas da luta pela legalização do aborto, pelo casamento homossexual, etc, como abriu espaço para que Bolsonaro e Feliciano fossem membros que tomassem parte e dirigissem comissões como de direitos humanos, fazendo afirmações machistas, racistas e homofóbicas sem punição; destaca-se, pelo Levante, a defesa de projetos como o ProUni e Reuni que tem sido já criticados há um bom tempo por estudantes em todo o país.

O primeiro, pelo fato de que o governo paga milhares por uma vaga a uma universidade privada, ao invés de criar outras públicas e gratuitas, alimentando a educação como mercadoria e fomentando monopólios como Anhanguera, Unip etc; o segundo, cujo “balanço e crítica” já foi feito pela greve de TODAS as universidades federais em 2012, pois significa uma expansão de vagas sem nenhuma estrutura (não existiam prédios, alojamentos, restaurantes universitários, transporte, professores, etc).

De toda esta definição, afirmam que, dentro de sua tática, devem apoiar as coisas benéficas a classe trabalhadora e criticar as ruins, pois, num governo em que definem, como de Conciliação de classes (quando partidos ditos “operários” governam em conjunto e muitas vezes a serviço dos empresários e capitalistas) é necessário “usar as contradições” para “criar a força social própria”.

Que nos principais momentos aonde esta “força social própria” tratou de dar seus primeiros passos, eles estivessem ao lado do governo e não do “sujeito social” da revolução, não julgam importante dizer.

E não é exagero dizê-lo.
O boicote ao não atuarem como organização, a Junho, talvez por medo de desgastar o tão “progressista governo do PT” e o boicote a Luta contra a copa são um exemplo.

O amordaçamento completo do MST (atestado seja por partidos de esquerda na oposição, seja por intelectuais), que em 12 anos de governo do PT praticamente só seguiu e aplaudiu as “conquistas”, se inscreveu nos planos de auxílio assistencialista e esperou o pão prometido, afastando-se de sua história de ocupações de terras de latifundiários matadores de camponeses, é outro exemplo.

E é aqui que se retorna ao cerne da questão.
Em junho, face a maior manifestação de luta popular, juvenil e de setores proletários da história recente do Brasil o governo do PT pela primeira vez se viu encurralado.

Com seus índices de aprovação caindo vertiginosamente, as manifestações atingindo a Copa das Confederações, cada vez mais repressão, mortes nos atos, atos cada vez maiores, tentativas de invasão de prédios do governo nos estados e em Brasília, Dilma precisou dar uma cartada para aliviar a pressão.

Em meio as manifestações, enquanto apoiava a estratégia de criminalizar o movimento e dividi-lo entre “pacíficos e vândalos”, para esvaziar os atos com o medo, o Governo cantou aos ventos a ideia de uma “Constituição Exclusiva” ou “reforma na constituição” ou “reforma política” que, assim, de pouco em pouco, foi desaparecendo até chegar a nada e mais do mesmo: repressão e falta de direitos.

Com esta reforma política, Dilma tentou desviar a atenção dos manifestantes, prometendo melhorar o sistema político, ampliar a representação, impedir a corrupção, impedir as empresas de (sic) influenciar na política, garantir vias de melhorar saúde, educação, moradia, enfim, de salvar o Brasil. Pois bem. A estratégia da repressão teve efetividade e Dilma e a base aliada esqueceram rapidamente esta história.

Mas eis que o Levante Popular da Juventude, cuja falta não sentimos tanto, trata de, após boicotar dezenas de atos em junho ou este ano, relembrar esta tão bela ilusão e colocar, como expressão de “luta” de seus milhares de membros, mil jovens na rua por uma Reforma política que, segundo eles possibilitará “
uma reformulação do sistema eleitoral e de representação democrática no país”....Tal como Dilma nos disse há um ano.
 Não explicam que reformulação, de que forma se consegue “acumular forças” proletárias, como  conseguir as demandas de saúde, educação, moradia e transporte, enfim, nada.

Tratam, assim, de apenas prestam um excelente serviço, com “cara jovem”, a uma velha política de ilusão, desvio e enganação digna dos mais velhacos burocratas do PT, que, caso reorganizem um "sistema eleitoral", infelizmente para os "revolucionários" da Consulta, que embelezam esta proposta como via de "limpeza e moralização" da política, não farão a não ser em seu interesse e no daqueles poucos magnatas, banqueiros e empresários que financiaram e financiam suas campanhas e privilégios "extraoficiais".

Felizmente, o chão ainda está quente. Milhares de jovens entendem o que foi Junho e entendem como o Governo, com todas suas forças, trataram de afogá-lo em mentiras e repressão. Muitos ainda tem de abrir os olhos. Mas o sangue segue quente. Senão dos que lutam para mostrar que a luta deve continuar, então o dos operários mortos nos estádios da Copa.

Ao afirmarem suas pretensas “convicções revolucionárias” o Levante ainda consegue enganar alguns. Certamente alguns honestos. No entanto, basta chamar as coisas pelo seu nome e suas ações para, como diziam alguns revolucionários irredutíveis do passado, as coisas se desmancharem no ar.

A luta pelas questões estruturais que afligem a juventude, classe trabalhadora e os oprimidos seguem sendo tarefa dos trabalhadores.
Estes, a cada dia entendem, como a Greve dos Garis do RJ nos demonstra, que efetivamente e não em palavras, só podem contar com suas próprias forças, organizando Greves, atos, cortes de ruas, ultrapassando os burocratas sindicais de CUT, CTB UGT, FORÇA, e arrancando a força, como diziam, “sem arrego”, aquilo que o governo lhes retira em nome dos interesses do capitalismo.

Um operário, um jovem, um favelado, que foi às ruas em Junho, repudia a Copa, atropela a Justiça e a Burocracia que impedem sua greve, mas, ainda assim, não vê, por mil motivos, a necessidade e as vias para a revolução, está mil vezes mais próximos desta e vale mil toneladas mais do que “revolucionários” que nos dias de festa falam de revolução e nos dias de luta correm aos compadres do Governo e do Patrão.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Elementos básicos acerca da discussão sobre o trote

Elementos básicos acerca da discussão sobre o trote[1]

Escrevemos este texto anteriormente a tormarmos conhecimentos das atrocidades dos trotes ocorridos na Unesp em 2014, como no trote homofóbico na Unesp Jaboticabal, e nos trotes machista de Botucatu, que se somam ao nefasto histórico de violências dos trotes. Não relataremos aqui os detalhes das práticas de tortura naturalizadas como tradição, mas buscamos uma breve compreensão acerca destas práticas, engajados na construção de uma luta que parta do questionamento dos trotes ao questionamento do caráter de classe do projeto de educação que temos.
Introdução: trote, estrutura de poder, e a comemoração do vestibular

O trote é a passada do cavalo que está entre seu ritmo ordinário e o galope. A habituação do cavalo ao ritmo deste passo se dá por meio de uma força externa, ao controle do cavaleiro. O passo é aprendido, se preciso, a esporadas e golpes físicos. O trote estudantil guarda alguma proximidade ao do cavalo. É uma modalidade de “integração” que se efetua por uma habituação do estudante a uma passada específica, um ritmo, uma ordem. O estudante que se entende como veterano, respaldado pelos interesses da instituição, assume para si o papel do cavaleiro, que irá exercer controle, se preciso a esporadas, na adequação do ingressante à ordem do novo espaço.
Esse espaço é uma universidade com uma estrutura política totalmente anti-democrática. Seus regimentos herdados da ditadura militar criminalizam a organização do movimento estudantil e de todos aqueles que lutam por um outro projeto de universidade, que esteja à serviço dos trabalhadores e conjunto da população. Os reitores são escolhidos a dedo pelo governador, de forma alheia a qualquer decisão democrática. Seus principais órgãos deliberativos funcionam através do 70/15/15 (70% de peso decisório para os professores, e apenas 15% a cada um dos outros dois segmentos, a dizer, funcionários e estudantes).
A população que paga a universidade através de seus impostos não tem voz nenhuma neste espaço, bem como tem seu acesso barrado pelo vestibular. O financiamento das pesquisas é voltado ao benefício da classe dominante. Seus recursos são advindos dos impostos cobrados sobre a classe trabalhadora, mas não é permitido o acesso do conjunto desta classe, através do filtro social que é o vestibular. A verba pública é direcionada segundo interesses privados.
A estrutura anti-democrática da universidade pública não se dá no vazio. Esta universidade é uma instituição de ensino de um Estado que tem um conteúdo de classe, que serve como palco de execução dos negócios particulares da classe burguesa. A estrutura de poder da universidade está, portanto, a serviço da manutenção da ordem burguesa. A falta de democracia da gestão universitária está a serviço de manter um projeto de universidade comandado de acordo com os interesses da classe capitalista.
O vestibular é um processo de seleção que tem por objetivo deixar uma parcela da população fora da universidade pública. Poucos estudantes conseguem passar por este funil. O trote cada vez mais é veiculado em materiais publicitários como um momento de festejo acerca do “mérito” do ingressante. É uma espécie de recompensa pelo esforço de estudo. Esta óptica de visão sobre o vestibular faz com que, ainda que muitos ingressantes repudiem os trotes, outros desejam recebê-lo. Desta forma, os festejos dos trotes possuem um conteúdo formado por anos de educação sob uma lógica neo-liberal na qual o ensino superior público não é direito de todos, mas é condicionado ao “mérito” de alguns. Por isso se festeja, por isso é uma alegria ter a pele marcada, por ser merecedor das raras vagas, por ser um dos poucos deste sistema de exclusão.
A relação com o projeto neo-liberal de educação não fica por aí. O Trote Universitário, pode ser entendido como uma prática educativa que tem como uma de suas principais funções naturalizar a estrutura de poder anti-democratica e autoritária da universidade aos “novos” que chegam, e logo ajustá-los à ela. O trote ensina, fundamentalmente conteúdos subjetivos como se submeter a uma ordem, não ter voz, obedecer, conteúdos de conduta caros à uma universidade antidemocrática. O trote cumpre o papel de o quanto antes adestrar os “bixos” ao passo correto da universidade.
Ao mesmo tempo que o autoritarismo e submissão presentes no ambiente do trote encontram respaldo na meritocracia e no autoritarismo da atual estrutura de poder da universidade para se legitimar, dialeticamente, esse mesmo ambiente do trote cumpre o papel de educar os ingressantes à naturalidade dessa mesma meritocracia e estrutura de poder. Aqui é importante ressaltar que o combate ao trote universitário deve ser entendido não apenas como o combate à violência entranhada nas diversas atividades que ocorrem especificamente nos dias de matricula e nas primeiras semanas de aulas (elefantinho, pedágio, raspagem de cabelo etc.), mas principalmente como um combate à lógica que está de fundo à essas atividades, que é a própria lógica do atual projeto de universidade e de sua estrutura de poder.
Desse modo a internalização da ordem universitária vai se dando em diferentes momentos: No primeiro contato com a universidade, a partir do Trote Formal, quando a lógica da estrutura de poder arcaica da universidade revela-se de maneira totalmente despida e caricatural através das atividades que ocorrem nas primeiras semanas de aula envolvendo “bixos” e “veteranos”; Num momento posterior, como uma espécie de “trote cotidiano”, através das próprias relações cotidianas mais corriqueiras entre os estudantes, muitas vezes pautadas pela mesma lógica de submissão expressada nas atividades do trote. É muito comum em republicas, por exemplo, meses após ter ingressado na universidade, o primeiro-anista ser obrigado pelos “veteranos” à ter que servi-los, limpar a casa, cozinhar ou pagar cervejas aos demais justamente pela sua condição de “bixo”. Aqui poderíamos dar diversos exemplos de como a lógica caricatural expressa nas atividades das primeiras semanas relacionadas ao trote, permanece cotidianamente na relação entre muitos estudantes.
É importante percebermos que o autoritarismo legitimado e naturalizado nas relações pautadas pelo trote universitário, que legitimam o “veterano” a tranquilamente poder ordenar, punir, humilhar, invadir o corpo do outro, possui uma ligação direta com o autoritarismo do regime disciplinar da universidade remanescente da ditadura militar que naturalmente também pune aqueles que atentam contra a “boa ordem”, “a boa moral e os bons costumes”. É neste sentido que a submissão experenciada por diversos estudantes ingressantes, não apenas no momento e nas atividades do trote formal (dias de matricula e primeira semana de aula), mas também numa lógica de relação cotidiana com os estudantes mais velhos na qual está implícita a sua submissão, que se estende ao longo dos anos, são eficientes praticas educativas que naturalizarão a atual estrutura de poder da universidade diante de quem ingressa na universidade.

A Divisão entre Trote “Leve”, “Médio” e “Violento”

A consideração das práticas do trote como violentas é questionada através do argumento da “integração” ser uma necessidade no início do ano letivo. Todavia podem haver distintas formas de integrar-se, sem que esteja pressuposta uma relação de hierarquia e opressão. Há uma parte dos trotes que é vista mais facilmente como repugnante, no caso, aqueles que chegam a levar estudantes ao óbito, ou deixam sequelas físicas irreparáveis. Por exemplo: Em 2003, Ugo Boattini Jr., 19 anos, abandonou o curso de engenharia na Unesp-Guratinguetá, depois de ter um peso de 7 kg amarrados aos genitais durante o trote; Também em 2003 Encapuzados e carregando tochas, lembrando as vestimentas da Ku Klux Klan, alunos veteranos do curso de Medicina Veterinária da Usp, obrigaram os ingressantes a tomarem banho com um liquido retirado do estomago de gado, a comer grama e a rolar na lama e no estrume de roupas intimas; F.A.C, 17 anos, de foi obrigado a rolar na lama e a comer ovo podre, tendo um ovo introduzido em seu ânus, durante o trote da Universidade Federal do Mato-Grosso do Sul em 1998; Ou mesmo quando o trote acaba em assassinatos, como no caso de Edson, ingressante em medicina da USP em 1999.
Geralmente estes casos são noticiados pela mídia, gerando perplexidade nos leitores. Todavia, o remédio que a própria mídia burguesa costuma fornecer a estes casos, largamente aceito como medida de resolução, são os exemplos de “trotes solidários”. Esta é inclusive uma prática adotada por diversas instituições de ensino como política que visa teoricamente coibir os “trotes violentos”, nestes escritos oficiais substitui-se o termo “bixo” por outro um pouco mais polido, o termo “calouro”.
Gesta-se desta forma uma separação entre gradações de tipos de trotes na qual uma parte deles é considerada inadmissível, colocados no campo de “violência”, devendo ser repudiados e punidos; ao passo que outras formas são naturalizadas no campo da “brincadeira” e “integração” saudáveis. Esta gradação é um tanto quanto questionável, e de difícil mensuração. O tom de voz; a intimidação; as ordens recebidas à todo instante, a submissão do primeiro-anista explícita no ar; as “brincadeiras” constrangedoras e opressoras; a tensão, a ridicularização dos apelidos; a pressão para se cortar o cabelo; a taxa em dinheiro para não levar ovadas; enfim a condição de “bixos” e “bixetes” que precisam ser adestrados à ordem que rege a universidade. Assim, algumas práticas de trote extremamente violentas por vezes são classificadas como “brincadeiras”. Em um ambiente no qual os poros estão abertos à opressão, um apelido racista com o qual um ingressante é batizado pode ser considerado uma “brincadeira”, todavia, este momento pode deixar uma marca violentamente profunda neste estudante. Quem são os juízes que decidem quais os limites entre o trote leve e o violento? Entre a integração saudável e a violação? Ainda que pareça um “simples” corte de cabelo ou pintura de rosto em trotes considerados “leves”, temos de estar sensíveis às formas de violência intrínsecas à própria lógica do trote, sem jamais normatizar a intimidação, a submissão, os constrangimentos, o machismo, a homofobia, o racismo presentes nestes ambientes “leves”.
Para a universidade, que se beneficia do trote universitário, o combate à este passa por mantê-lo sob formas um pouco mais “leves”, negando o problema existente em sua gênese enquanto tradição, sendo na verdade uma defesa velada da violência nas relações, pois como dissemos, a variação entre leve e violento é uma farsa. A ideia de que deva existir um ritual especial ao início do ano, ainda que sem violências mais claramente expressas, é na verdade associada a óptica burguesa sobre a vitória meritocrática que é passar no vestibular, e a necessidade de festejo e divulgação deste acontecimento que é ter sido um dos poucos a ingressar num processo seletivo excludente. Caso contrário, a integração não necessitaria de nenhum ritual especial. A manutenção desta tradição, ainda que se tente ligeiramente modificar parte das práticas a ela associada, já é violenta em sua gênese. Quando se mantém formato de relação veterano-bixo, mesmo com um “veterano gente fina”, a desigualdade está pressuposta na relação, e o campo para violações estará aberto, dependente apenas dos critérios do próprio “veterano”.
É comum que muitos estudantes relativizem a violência dos trotes. As opressões são impressionantes e se repetem todo ano nas universidades em um nível de violência e abrangência inegável, os exemplos divulgados pela mídia são numerosos, fora os não divulgados, são conhecidos pela proximidade a práticas de tortura. Acerca destes casos mais reconhecidamente violentos é mais fácil que se tenham acordos acerca dos “abusos”. Mas é fato também que nem em todos os casos as violências sejam tão claramente expressas como estas práticas de tortura, e é sobre este aspecto que buscamos aqui evidenciar.
Muitas vezes, inseridos em diversas contradições, alguns ingressantes até desejam receber trotes, por ser um momento que é um marco na vida deles. O combate contra o trote neste sentido ganha contornos complexos, pois temos que ser compreensivos e não mecânicos neste combate. Muitas vezes o caráter violento do trote fica borrado e escamoteado, principalmente quando é um trote considerado “leve”. Alguns estudantes mais antigos, ainda que tentem se aparentar mais democráticos, muitas vezes acabam reiterando com pequenas atitudes elementos de trote e de autoritarismo absolutamente desnecessários à integração, estas pequenas atitudes fazem parte do trote, e seguem a mesma lógica de relação dos trotes que levam a torturas.
Todavia, ainda que algumas situações sejam mais complexas e repletas de ambiguidades, não há relativismo que negue o caráter hegemonicamente violento dos trotes. A polidez do termo “calouro” em substituição a “bixo” procura esconder que a universidade é conivente com as práticas dos trotes, escondendo que estas práticas ocorrem normalmente. O uso da lei pela burocracia só se torna mais rígido quando trata-se de “trotes violentos” ao ponto de ferir a imagem da própria universidade, caso contrário, os conteúdos aprendidos nos trotes estão em plena consonância ao funcionamento ordinário desta instituição anti-democrática. A mesma lógica autoritária de relação está presente nos trotes “leves” ou “violentos”, sendo que, constantemente, um tipo pode levar ao outro. Fazendo uma breve pesquisa acerca do histórico dos “trotes violentos” vemos que muitos deles se iniciam com práticas consideradas leves. Muitos dos casos mais reconhecidamente violentos são castigos aplicados a estudantes que apresentaram resistência a práticas consideradas leves, por exemplo.

A “Integração” e as Opressões

Integrar-se é estabelecer uma relação. A integração fornecida pelo trote está em consonância à manutenção da atual ordem universitária. O fato de ser uma forma de integração não significa que seja necessária, ou que seja o único tipo de integração possível. O estabelecimento de relação entre estudantes pode se dar numa condição de igualdade de posições entre os interlocutores. Ou, como ocorre nos trotes, numa condição de desigualdade de posições, se manifestando nas “calouradas” através das designações “veterano” e “bixo”. A integração estabelecida entre “veteranos” e “bixos” durante o trote se dá por meio de ordem e controle autoritários. A submissão está presente nas “brincadeiras”, que por vezes são humilhações morais, por vezes são também castigos físicos. Nesta forma de integração, submeter-se às “brincadeiras” de bom grado é condição necessária à integração “sadia”, sem punições físicas, morais, chacotas, insultos ou isolamentos.
A estrutura de funcionamento da integração promovida pelo trote, na qual está pressuposta uma posição desigual entre os interlocutores, abre à diversas formas de opressão. Se em alguns outros tipos de relação os estudantes encontram menos respaldo social e até resistência diante de ações opressivas, numa relação em que a hierarquia é legitimada, tornando-se inclusive praticamente condição necessária à aclimatação do estudante no espaço universitário, a perpetuação de opressões ganha terreno fértil. O ambiente do trote é perfeitamente adequado ao machismo, um ambiente perfeito à toda violência de gênero, racismo, homofobia, transfobia, lesbofobia e misoginia. Com uma rápida pesquisa podemos perceber que não faltam exemplos, ano após ano, de opressões relacionadas aos trotes.
São muitas vezes nas formas de trote colocadas no âmbito do “leve”, da “brincadeira”, da simples “integração”, e logo da normalidade, que encontramos um caminho aberto para as opressões. A própria naturalização da submissão da condição de “bixo” em relação à de “veterano”, abre brecha para uma serie de assédios dos veteranos em relação às primeiro-anistas, não sendo raro os casos de estupros de ingressantes. O corpo da mulher muitas vezes é apropriado por atividades do trote que possuem conotação sexual, de maneira à expor as primeiro-anistas à situações de violência e constrangimento: ser obrigada a chupar banana e outros objetos na frente de todos, dançar de maneira sensual, desfilar de roupas intimas etc.

                              Ingressante obrigada a chupar objeto, trote Agronomia UnB 2011.

 Da mesma forma as diversas expressões de racismo e homofobia também encontram espaço aberto dentro do ambiente do trote, se expressando através de apelidos que visam ridicularizar os primeiro-anistas, humilhações, agressões físicas e verbais e etc. Recentemente tivemos o caso do trote da UFMG que expressou um exemplo claro do racismo presente nas universidades.



















O termo “bixo”

O termo “bixo” claramente remete à desumanização do estudante ingressante, à sua incapacidade de decisão própria, necessitando de um guia que ensine seus passos, como um cavaleiro e seu cavalo, utilizando a mesma analogia. O “bixo” não é ainda humano o suficiente para participar do espaço em condição de igualdade, é aspirante a tal, mediante as provas que irá ter que passar, até que passe por toda uma batelada de rituais tão tradicionais quanto for a criatividade dos inventores da tradição no momento. O uso do termo “bixo” é em si ofensivo. Há, por outro lado uma substituição diplomática pelo termo “calouro”. Assim como a universidade reitera a lógica de submissão ao estabelecer algum tipo de punição apenas em casos extremos aos aplicadores de trote, mas, por outro lado elogiar os trotes “saudáveis”, quando usa o termo “calouro” em substituição a “bixo” acaba utilizando o mesmo sentido só que uma palavra diferente, que escamoteia o tipo de relação pressuposta.
Em Marilia, já há alguns anos, substituímos o termo “Calourada” por “Ingressada”. O significado de “calouro” é também problemático, no sentido de se referir, assim como o termo “bixo”, a alguém que almeja ser algo que ainda não é. Assim como na música, um calouro ainda não é cantor, mas apenas aspirante a tal, um aspirante que deve passar pelo julgamento dos mais experientes, o calouro na universidade é uma espécie de aspirante a estudante, que ainda passará por algumas provas. É uma relação distintiva do ingressante para os demais estudantes. O problema não é o termo em si, pois seu significado poderia ser alterado, mas reside exatamente na tradição de seu uso. As “calouradas” tornaram-se tradicionalmente as ocasiões onde os trotes ocorrem, e este tipo de relação se estabelece entre os estudantes. Devemos ir contra a reivindicação desta tradição. O termo “calouro” é apenas uma maneira mais formal e “leve” de dizer “bixo”. A mudança por qualquer outro termo que mantenha o mesmo conteúdo não resolve o problema, pois de fundo, o problema é a que tipo de relação estes termos se referem materialmente e não as palavras em si, contudo, exatamente por isso, por hoje estes termos estarem totalmente conectados às práticas às quais se referem, eles mesmos tornam-se ofensivos e organicamente atrelados a tradição autoritária material do trote, e o uso deles referido a esta tradição autoritária, devendo portanto, ser cuidadosamente pensado.

 “Tradição Acadêmica”, vestibular e o trote como festejo de uma universidade elitista

Ainda que muitos reconheçam alguns problemas relacionados ao trote, há uma representação deste que o torna indiscutível em alguns meios. O trote é representado como sendo uma tradição. Este fato torna possível que em alguns casos os próprios estudantes sofram abusos, submetam-se a ordens, concebendo esta postura como uma espécie de manutenção de uma tradição de sociabilidade. Uma tradição é mantida sem nenhuma explicação racional necessária. Quando representado como tradição, o trote é tirado do terreno de discussão. Tenta-se dar ao trote o caráter de ser uma prática a qual todas as pessoas presentes nas universidades e todas as que já passaram por ela participaram, aparentando ainda, ser algo que “sempre” ocorreu, logo tornando os questionamentos e outras possibilidades, muito pequenos diante da imensidão desse “sempre imemorável”.
Toda a tradição possui agentes de sua reprodução, a tradição não possui poder superior aos agentes, isto é uma ilusão. Basta que seus guardiões deixem de reproduzir uma determinada tradição para que ela deixe de existir. As tradições ganham um status secular, todavia, são inventadas a cada vez que alguém as reproduz. São historicamente mutáveis. Os próprios trotes ganham novidades ano a ano. O Clero durante o Feudalismo manteve a perpetuação das tradições que os interessava através da inquisição, das torturas. É uma decisão política abandoná-las ou mantê-las. Assim como os membros do clero do período citado, hoje temos universitários decididos a serem guardiões desta “tradição” de integração, dispostos a interferirem no corpo do estudante do primeiro ano, a humilharem, a maltratarem, inclusive aplicando punições e castigos.
A representação do trote como tradição e sua reprodução tem base não apenas na decisão dos “veteranos” de cada ano (nem sempre estes estudantes estão completamente consciente politicamente acerca de suas práticas), é um processo de longa duração, que não à toa está atrelado a interesses da classe dominante. A raridade de vagas na universidade pública se dá por um projeto de educação que busca favorecer os interesses dos grandes empresários, mantendo a maior parte do ensino superior brasileiro relegado à iniciativa privada, transformando educação em um negócio muito lucrativo[2], à revelia da qualidade do ensino e da oferta de vagas em instituições públicas, que se daria através da estatização das privadas[3].
O filtro do vestibular nas universidades públicas faz movimentar os lucros também do imenso número de cursinhos pré-vestibulares privados. No interior destes cursinhos já se inicia o processo de educação necessário a passar no vestibular, o qual o trote irá dar o retoque final. O trote nas propagandas destes cursinhos é veiculado como símbolo de uma conquista, como vitória num processo de concorrência no qual a maioria ficou de fora, perdeu (“Faça Anglo, Vire Bixo”, por exemplo). Aqui o direito ao ensino superior fica condicionado ao mérito individual, sendo fruto de uma conquista, desta forma fica escondido o fato do Estado não oferecer ensino superior público a todos. Sob esta perspectiva veiculada, os estudantes que conseguem passar no processo seletivo, adentram na universidade por seus próprios méritos, por outro lado, os que não adentram, ficam de fora por seus deméritos. O peso da insuficiência da política de educação recai não sobre o Estado, mas sobre os ombros dos indivíduos que sofreram por esta insuficiência. Sob esta óptica invertida, não é o Estado culpado por não oferecer possibilidade de acesso e vagas suficientes num ensino superior público e de qualidade, mas os próprios indivíduos que ficam de fora deste projeto de educação excludente que passam a ser culpabilizados por não terem conseguido passar na prova, ou são “incapazes”, ou não são suficientemente esforçados nos estudos.
Ensinando os estudantes secundaristas a olharem o vestibular com este ponto de vista, nos cursinhos aprende-se de maneira não consciente aspectos importantes da ideologia dominante, de competição entre os estudantes que encontram-se numa mesma condição. A ideologia dominante de um tempo é a ideologia da classe dominante. A óptica invertida de visão sobre o que é o vestibular, a imagem que a burguesia cria sobre este filtro, de acordo com seus próprios interesses, se manifesta no significado que se dá ao sucesso ou insucesso neste processo seletivo.
Neste sentido, alguns estudantes chegam ao primeiro ano aguardando um ritual festivo, que marque sua pele para que possa tirar uma foto e divulgar sua vitória, festejando seus próprios méritos, e reproduzindo a óptica burguesa sobre este processo seletivo. A relação do ingressante, portanto, com a tradição do trote, pode ser ortodoxa e heterodoxa. Alguns estudantes primeiro-anistas educados nesta lógica submetem-se a certos constrangimentos, chegando a reivindicar a aplicação do trote. Em seu texto “O trote no curso de pedagogia e a prazerosa integração sadomasoquista”, Antonio Zuin da Universidade Federal de São Carlos, relata a entrevista de uma mãe que considerou ser pouca coisa, e até mesmo sem graça, apenas rasparem o cabelo e pintarem o rosto do seu filho, afirmando que se ela fosse a veterana “teria feito muito mais” e que seu filho não poderia “voltar para casa sem portar sinais que o identificassem como alguém que havia passado na Usp”.
A falta de democracia no próprio acesso à universidade já está introjetada num ponto em que ingressar nela é aceitar moldar-se sob sua lógica. Esta postura de legitimação em relação ao trote não é moral, mas é a forma como o estudante materialmente aprendeu a lidar com este momento de transição que é momento do ingresso na universidade. Posteriormente elx pode romper ou não, alguns já rompem com esta lógica desde o início, resistindo aos “veteranos”, e rebelando-se. Por outro lado vemos também primeiro-anistas que são bastantes sensíveis aos constrangimentos e violências característicos do trote, de modo a se posicionarem de maneira contraria à “tradição”, se negando a participar ou a cumprir ordens dos “veteranos”, apesar de todo ambiente adverso do trote.
Um fato interessante de ser notado é que muitos estudantes que dizem ter gostado do trote, reivindicando-o e até dizendo que pretendem continuar com a “tradição” quando forem veteranos, se tivermos oportunidade de dialogar, em geral sempre relatam alguns momentos nos quais se sentiram constrangidos ou que gostaram menos. Essa ambiguidade entre integração e tensão, sorrisos e ordens autoritárias, “brincadeiras” e constrangimento é característica do trote.

O Combate ao Trote e Experiência de Marília 

Assim combater o trote, ligando-o à discussão da estrutura de poder da universidade, significa criar um espaço na ingressada para que haja formas de integração entre os estudantes no qual se combata a lógica de submissão do estudante ingressante em relação aos demais estudantes, no qual nos coloquemos de maneira extremamente sensível ao combate à qualquer expressão da lógica do trote em nossas relações, politizando a discussão no sentido do questionamento ao projeto de universidade. Criando esse espaço, no qual o primeiro-anista saiba que não será chamado de “bixo”, que não receberá “ordens” e nem será tratado com desdém e humilhação, conseguiremos nos aproximar tanto de uma serie de estudantes que chegam à universidade com muitos incômodos em relação ao trote e sua lógica, bem como também conseguiremos dialogar com os incômodos mesmo daqueles que se colocam a favor do trote. Neste sentido a Luta pelo fim do vestibular deve passar necessariamente pela luta contra os trotes, pois estes são diretamente relacionados à raridade das vagas, são a continuidade do processo seletivo, segregando e selecionando estudantes, são a manifestação em ritual do festejo da vitória e da meritocracia. Assim como o vestibular não é um sistema de ingresso, e sim um sistema de exclusão, uma vez que a experiência da maioria que o presta não é de ingressar na universidade através dele, mas de ser barrado, o trote também não é um ritual de integração neutra, mas de humilhação sistemática, de opressão, de exclusão de determinadas rodas, de afunilamento, de habituação forçada, de perpetuação das opressões, continuando um processo seletivo já iniciado desde os cursinhos, desde toda a vida, iniciando as práticas educativas da ordem dominante e da estrutura de poder da universidade. O questionamento do trote é o questionamento da estrutura de poder da qual o trote é parte constitutiva ao ensinar a sujeição à falta de democracia desde os momentos iniciais que se adentra nela.

Por fim a reflexão e experiência de combate ao trote que temos em Marília, que passa desde a organização de discussões sobre o trote ligando-o à questão da estrutura de poder e opressões, até a forma como estabelecemos relacionamento com os ingressantes, tem sido uma ponte importante de aproximação com os estudantes do primeiro ano, pois somos um grupo consequente que tem acúmulo e tradição nesta discussão. Organizamos panfletos sobre o tema e campanhas visuais com frases do tipo: “Nem Bixo, Nem Bixete, Nem Veterano: Por uma integração horizontal entre os estudantes”, “O Autoritarismo do Trote bebe no Autoritarismo da Estrutura de Poder da Universidade”; “Por uma integração horizontal entre os estudantes: sem ordens, sem constrangimento, sem submissão”; etc. As mesas organizadas por nós sobre o tema alcançam uma audiência importante para abordarmos o questionamento da lógica dos trotes e para abrirmos sensivelmente uma série de debates políticos com os estudantes dos primeiros anos que são mais tocados por esta questão.  Travamos uma discussão que parte do questionamento aos trotes universitários ao questionamento do projeto de educação e da lógica do capital.



[1] Este texto contém alguns elementos mais básicos das conclusões acerca das discussões sobre o trote realizadas em Marília nos últimos anos. Aqui apenas resumimos alguns dos principais pontos que norteiam a luta que travamos pelo trote. Temos intenção de elaborar um texto destrinchando mais os argumentos, com dados que temos reunidos, e elementos do histórico dos trotes que levam a nossas conclusões com mais propriedade.
[2] O ímpeto do capitalista que investe na área de educação não é o valor de uso, mas o valor de troca. A qualidade do ensino não interessa tanto quanto sua lucratividade.
[3] Para que não confundam com políticas de expansão baseadas na precarização como o REUNI, falo de uma expansão das vagas no ensino público, mas tendo em vista qualidade deste ensino, que funcione numa auto-organização, num governo tripartite entre os três segmentos, com fim do reitorado, numa educação a serviço da classe trabalhadora, que volte suas pesquisas ao benefício da população. A “qualidade” do ensino não tem um caráter neutro neste sentido, mas assume a forma de qualidade para a classe trabalhadora. De maneira imediata defendemos o fim do vestibular com a estatização das universidades privadas.