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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Elementos básicos acerca da discussão sobre o trote

Elementos básicos acerca da discussão sobre o trote[1]

Escrevemos este texto anteriormente a tormarmos conhecimentos das atrocidades dos trotes ocorridos na Unesp em 2014, como no trote homofóbico na Unesp Jaboticabal, e nos trotes machista de Botucatu, que se somam ao nefasto histórico de violências dos trotes. Não relataremos aqui os detalhes das práticas de tortura naturalizadas como tradição, mas buscamos uma breve compreensão acerca destas práticas, engajados na construção de uma luta que parta do questionamento dos trotes ao questionamento do caráter de classe do projeto de educação que temos.
Introdução: trote, estrutura de poder, e a comemoração do vestibular

O trote é a passada do cavalo que está entre seu ritmo ordinário e o galope. A habituação do cavalo ao ritmo deste passo se dá por meio de uma força externa, ao controle do cavaleiro. O passo é aprendido, se preciso, a esporadas e golpes físicos. O trote estudantil guarda alguma proximidade ao do cavalo. É uma modalidade de “integração” que se efetua por uma habituação do estudante a uma passada específica, um ritmo, uma ordem. O estudante que se entende como veterano, respaldado pelos interesses da instituição, assume para si o papel do cavaleiro, que irá exercer controle, se preciso a esporadas, na adequação do ingressante à ordem do novo espaço.
Esse espaço é uma universidade com uma estrutura política totalmente anti-democrática. Seus regimentos herdados da ditadura militar criminalizam a organização do movimento estudantil e de todos aqueles que lutam por um outro projeto de universidade, que esteja à serviço dos trabalhadores e conjunto da população. Os reitores são escolhidos a dedo pelo governador, de forma alheia a qualquer decisão democrática. Seus principais órgãos deliberativos funcionam através do 70/15/15 (70% de peso decisório para os professores, e apenas 15% a cada um dos outros dois segmentos, a dizer, funcionários e estudantes).
A população que paga a universidade através de seus impostos não tem voz nenhuma neste espaço, bem como tem seu acesso barrado pelo vestibular. O financiamento das pesquisas é voltado ao benefício da classe dominante. Seus recursos são advindos dos impostos cobrados sobre a classe trabalhadora, mas não é permitido o acesso do conjunto desta classe, através do filtro social que é o vestibular. A verba pública é direcionada segundo interesses privados.
A estrutura anti-democrática da universidade pública não se dá no vazio. Esta universidade é uma instituição de ensino de um Estado que tem um conteúdo de classe, que serve como palco de execução dos negócios particulares da classe burguesa. A estrutura de poder da universidade está, portanto, a serviço da manutenção da ordem burguesa. A falta de democracia da gestão universitária está a serviço de manter um projeto de universidade comandado de acordo com os interesses da classe capitalista.
O vestibular é um processo de seleção que tem por objetivo deixar uma parcela da população fora da universidade pública. Poucos estudantes conseguem passar por este funil. O trote cada vez mais é veiculado em materiais publicitários como um momento de festejo acerca do “mérito” do ingressante. É uma espécie de recompensa pelo esforço de estudo. Esta óptica de visão sobre o vestibular faz com que, ainda que muitos ingressantes repudiem os trotes, outros desejam recebê-lo. Desta forma, os festejos dos trotes possuem um conteúdo formado por anos de educação sob uma lógica neo-liberal na qual o ensino superior público não é direito de todos, mas é condicionado ao “mérito” de alguns. Por isso se festeja, por isso é uma alegria ter a pele marcada, por ser merecedor das raras vagas, por ser um dos poucos deste sistema de exclusão.
A relação com o projeto neo-liberal de educação não fica por aí. O Trote Universitário, pode ser entendido como uma prática educativa que tem como uma de suas principais funções naturalizar a estrutura de poder anti-democratica e autoritária da universidade aos “novos” que chegam, e logo ajustá-los à ela. O trote ensina, fundamentalmente conteúdos subjetivos como se submeter a uma ordem, não ter voz, obedecer, conteúdos de conduta caros à uma universidade antidemocrática. O trote cumpre o papel de o quanto antes adestrar os “bixos” ao passo correto da universidade.
Ao mesmo tempo que o autoritarismo e submissão presentes no ambiente do trote encontram respaldo na meritocracia e no autoritarismo da atual estrutura de poder da universidade para se legitimar, dialeticamente, esse mesmo ambiente do trote cumpre o papel de educar os ingressantes à naturalidade dessa mesma meritocracia e estrutura de poder. Aqui é importante ressaltar que o combate ao trote universitário deve ser entendido não apenas como o combate à violência entranhada nas diversas atividades que ocorrem especificamente nos dias de matricula e nas primeiras semanas de aulas (elefantinho, pedágio, raspagem de cabelo etc.), mas principalmente como um combate à lógica que está de fundo à essas atividades, que é a própria lógica do atual projeto de universidade e de sua estrutura de poder.
Desse modo a internalização da ordem universitária vai se dando em diferentes momentos: No primeiro contato com a universidade, a partir do Trote Formal, quando a lógica da estrutura de poder arcaica da universidade revela-se de maneira totalmente despida e caricatural através das atividades que ocorrem nas primeiras semanas de aula envolvendo “bixos” e “veteranos”; Num momento posterior, como uma espécie de “trote cotidiano”, através das próprias relações cotidianas mais corriqueiras entre os estudantes, muitas vezes pautadas pela mesma lógica de submissão expressada nas atividades do trote. É muito comum em republicas, por exemplo, meses após ter ingressado na universidade, o primeiro-anista ser obrigado pelos “veteranos” à ter que servi-los, limpar a casa, cozinhar ou pagar cervejas aos demais justamente pela sua condição de “bixo”. Aqui poderíamos dar diversos exemplos de como a lógica caricatural expressa nas atividades das primeiras semanas relacionadas ao trote, permanece cotidianamente na relação entre muitos estudantes.
É importante percebermos que o autoritarismo legitimado e naturalizado nas relações pautadas pelo trote universitário, que legitimam o “veterano” a tranquilamente poder ordenar, punir, humilhar, invadir o corpo do outro, possui uma ligação direta com o autoritarismo do regime disciplinar da universidade remanescente da ditadura militar que naturalmente também pune aqueles que atentam contra a “boa ordem”, “a boa moral e os bons costumes”. É neste sentido que a submissão experenciada por diversos estudantes ingressantes, não apenas no momento e nas atividades do trote formal (dias de matricula e primeira semana de aula), mas também numa lógica de relação cotidiana com os estudantes mais velhos na qual está implícita a sua submissão, que se estende ao longo dos anos, são eficientes praticas educativas que naturalizarão a atual estrutura de poder da universidade diante de quem ingressa na universidade.

A Divisão entre Trote “Leve”, “Médio” e “Violento”

A consideração das práticas do trote como violentas é questionada através do argumento da “integração” ser uma necessidade no início do ano letivo. Todavia podem haver distintas formas de integrar-se, sem que esteja pressuposta uma relação de hierarquia e opressão. Há uma parte dos trotes que é vista mais facilmente como repugnante, no caso, aqueles que chegam a levar estudantes ao óbito, ou deixam sequelas físicas irreparáveis. Por exemplo: Em 2003, Ugo Boattini Jr., 19 anos, abandonou o curso de engenharia na Unesp-Guratinguetá, depois de ter um peso de 7 kg amarrados aos genitais durante o trote; Também em 2003 Encapuzados e carregando tochas, lembrando as vestimentas da Ku Klux Klan, alunos veteranos do curso de Medicina Veterinária da Usp, obrigaram os ingressantes a tomarem banho com um liquido retirado do estomago de gado, a comer grama e a rolar na lama e no estrume de roupas intimas; F.A.C, 17 anos, de foi obrigado a rolar na lama e a comer ovo podre, tendo um ovo introduzido em seu ânus, durante o trote da Universidade Federal do Mato-Grosso do Sul em 1998; Ou mesmo quando o trote acaba em assassinatos, como no caso de Edson, ingressante em medicina da USP em 1999.
Geralmente estes casos são noticiados pela mídia, gerando perplexidade nos leitores. Todavia, o remédio que a própria mídia burguesa costuma fornecer a estes casos, largamente aceito como medida de resolução, são os exemplos de “trotes solidários”. Esta é inclusive uma prática adotada por diversas instituições de ensino como política que visa teoricamente coibir os “trotes violentos”, nestes escritos oficiais substitui-se o termo “bixo” por outro um pouco mais polido, o termo “calouro”.
Gesta-se desta forma uma separação entre gradações de tipos de trotes na qual uma parte deles é considerada inadmissível, colocados no campo de “violência”, devendo ser repudiados e punidos; ao passo que outras formas são naturalizadas no campo da “brincadeira” e “integração” saudáveis. Esta gradação é um tanto quanto questionável, e de difícil mensuração. O tom de voz; a intimidação; as ordens recebidas à todo instante, a submissão do primeiro-anista explícita no ar; as “brincadeiras” constrangedoras e opressoras; a tensão, a ridicularização dos apelidos; a pressão para se cortar o cabelo; a taxa em dinheiro para não levar ovadas; enfim a condição de “bixos” e “bixetes” que precisam ser adestrados à ordem que rege a universidade. Assim, algumas práticas de trote extremamente violentas por vezes são classificadas como “brincadeiras”. Em um ambiente no qual os poros estão abertos à opressão, um apelido racista com o qual um ingressante é batizado pode ser considerado uma “brincadeira”, todavia, este momento pode deixar uma marca violentamente profunda neste estudante. Quem são os juízes que decidem quais os limites entre o trote leve e o violento? Entre a integração saudável e a violação? Ainda que pareça um “simples” corte de cabelo ou pintura de rosto em trotes considerados “leves”, temos de estar sensíveis às formas de violência intrínsecas à própria lógica do trote, sem jamais normatizar a intimidação, a submissão, os constrangimentos, o machismo, a homofobia, o racismo presentes nestes ambientes “leves”.
Para a universidade, que se beneficia do trote universitário, o combate à este passa por mantê-lo sob formas um pouco mais “leves”, negando o problema existente em sua gênese enquanto tradição, sendo na verdade uma defesa velada da violência nas relações, pois como dissemos, a variação entre leve e violento é uma farsa. A ideia de que deva existir um ritual especial ao início do ano, ainda que sem violências mais claramente expressas, é na verdade associada a óptica burguesa sobre a vitória meritocrática que é passar no vestibular, e a necessidade de festejo e divulgação deste acontecimento que é ter sido um dos poucos a ingressar num processo seletivo excludente. Caso contrário, a integração não necessitaria de nenhum ritual especial. A manutenção desta tradição, ainda que se tente ligeiramente modificar parte das práticas a ela associada, já é violenta em sua gênese. Quando se mantém formato de relação veterano-bixo, mesmo com um “veterano gente fina”, a desigualdade está pressuposta na relação, e o campo para violações estará aberto, dependente apenas dos critérios do próprio “veterano”.
É comum que muitos estudantes relativizem a violência dos trotes. As opressões são impressionantes e se repetem todo ano nas universidades em um nível de violência e abrangência inegável, os exemplos divulgados pela mídia são numerosos, fora os não divulgados, são conhecidos pela proximidade a práticas de tortura. Acerca destes casos mais reconhecidamente violentos é mais fácil que se tenham acordos acerca dos “abusos”. Mas é fato também que nem em todos os casos as violências sejam tão claramente expressas como estas práticas de tortura, e é sobre este aspecto que buscamos aqui evidenciar.
Muitas vezes, inseridos em diversas contradições, alguns ingressantes até desejam receber trotes, por ser um momento que é um marco na vida deles. O combate contra o trote neste sentido ganha contornos complexos, pois temos que ser compreensivos e não mecânicos neste combate. Muitas vezes o caráter violento do trote fica borrado e escamoteado, principalmente quando é um trote considerado “leve”. Alguns estudantes mais antigos, ainda que tentem se aparentar mais democráticos, muitas vezes acabam reiterando com pequenas atitudes elementos de trote e de autoritarismo absolutamente desnecessários à integração, estas pequenas atitudes fazem parte do trote, e seguem a mesma lógica de relação dos trotes que levam a torturas.
Todavia, ainda que algumas situações sejam mais complexas e repletas de ambiguidades, não há relativismo que negue o caráter hegemonicamente violento dos trotes. A polidez do termo “calouro” em substituição a “bixo” procura esconder que a universidade é conivente com as práticas dos trotes, escondendo que estas práticas ocorrem normalmente. O uso da lei pela burocracia só se torna mais rígido quando trata-se de “trotes violentos” ao ponto de ferir a imagem da própria universidade, caso contrário, os conteúdos aprendidos nos trotes estão em plena consonância ao funcionamento ordinário desta instituição anti-democrática. A mesma lógica autoritária de relação está presente nos trotes “leves” ou “violentos”, sendo que, constantemente, um tipo pode levar ao outro. Fazendo uma breve pesquisa acerca do histórico dos “trotes violentos” vemos que muitos deles se iniciam com práticas consideradas leves. Muitos dos casos mais reconhecidamente violentos são castigos aplicados a estudantes que apresentaram resistência a práticas consideradas leves, por exemplo.

A “Integração” e as Opressões

Integrar-se é estabelecer uma relação. A integração fornecida pelo trote está em consonância à manutenção da atual ordem universitária. O fato de ser uma forma de integração não significa que seja necessária, ou que seja o único tipo de integração possível. O estabelecimento de relação entre estudantes pode se dar numa condição de igualdade de posições entre os interlocutores. Ou, como ocorre nos trotes, numa condição de desigualdade de posições, se manifestando nas “calouradas” através das designações “veterano” e “bixo”. A integração estabelecida entre “veteranos” e “bixos” durante o trote se dá por meio de ordem e controle autoritários. A submissão está presente nas “brincadeiras”, que por vezes são humilhações morais, por vezes são também castigos físicos. Nesta forma de integração, submeter-se às “brincadeiras” de bom grado é condição necessária à integração “sadia”, sem punições físicas, morais, chacotas, insultos ou isolamentos.
A estrutura de funcionamento da integração promovida pelo trote, na qual está pressuposta uma posição desigual entre os interlocutores, abre à diversas formas de opressão. Se em alguns outros tipos de relação os estudantes encontram menos respaldo social e até resistência diante de ações opressivas, numa relação em que a hierarquia é legitimada, tornando-se inclusive praticamente condição necessária à aclimatação do estudante no espaço universitário, a perpetuação de opressões ganha terreno fértil. O ambiente do trote é perfeitamente adequado ao machismo, um ambiente perfeito à toda violência de gênero, racismo, homofobia, transfobia, lesbofobia e misoginia. Com uma rápida pesquisa podemos perceber que não faltam exemplos, ano após ano, de opressões relacionadas aos trotes.
São muitas vezes nas formas de trote colocadas no âmbito do “leve”, da “brincadeira”, da simples “integração”, e logo da normalidade, que encontramos um caminho aberto para as opressões. A própria naturalização da submissão da condição de “bixo” em relação à de “veterano”, abre brecha para uma serie de assédios dos veteranos em relação às primeiro-anistas, não sendo raro os casos de estupros de ingressantes. O corpo da mulher muitas vezes é apropriado por atividades do trote que possuem conotação sexual, de maneira à expor as primeiro-anistas à situações de violência e constrangimento: ser obrigada a chupar banana e outros objetos na frente de todos, dançar de maneira sensual, desfilar de roupas intimas etc.

                              Ingressante obrigada a chupar objeto, trote Agronomia UnB 2011.

 Da mesma forma as diversas expressões de racismo e homofobia também encontram espaço aberto dentro do ambiente do trote, se expressando através de apelidos que visam ridicularizar os primeiro-anistas, humilhações, agressões físicas e verbais e etc. Recentemente tivemos o caso do trote da UFMG que expressou um exemplo claro do racismo presente nas universidades.



















O termo “bixo”

O termo “bixo” claramente remete à desumanização do estudante ingressante, à sua incapacidade de decisão própria, necessitando de um guia que ensine seus passos, como um cavaleiro e seu cavalo, utilizando a mesma analogia. O “bixo” não é ainda humano o suficiente para participar do espaço em condição de igualdade, é aspirante a tal, mediante as provas que irá ter que passar, até que passe por toda uma batelada de rituais tão tradicionais quanto for a criatividade dos inventores da tradição no momento. O uso do termo “bixo” é em si ofensivo. Há, por outro lado uma substituição diplomática pelo termo “calouro”. Assim como a universidade reitera a lógica de submissão ao estabelecer algum tipo de punição apenas em casos extremos aos aplicadores de trote, mas, por outro lado elogiar os trotes “saudáveis”, quando usa o termo “calouro” em substituição a “bixo” acaba utilizando o mesmo sentido só que uma palavra diferente, que escamoteia o tipo de relação pressuposta.
Em Marilia, já há alguns anos, substituímos o termo “Calourada” por “Ingressada”. O significado de “calouro” é também problemático, no sentido de se referir, assim como o termo “bixo”, a alguém que almeja ser algo que ainda não é. Assim como na música, um calouro ainda não é cantor, mas apenas aspirante a tal, um aspirante que deve passar pelo julgamento dos mais experientes, o calouro na universidade é uma espécie de aspirante a estudante, que ainda passará por algumas provas. É uma relação distintiva do ingressante para os demais estudantes. O problema não é o termo em si, pois seu significado poderia ser alterado, mas reside exatamente na tradição de seu uso. As “calouradas” tornaram-se tradicionalmente as ocasiões onde os trotes ocorrem, e este tipo de relação se estabelece entre os estudantes. Devemos ir contra a reivindicação desta tradição. O termo “calouro” é apenas uma maneira mais formal e “leve” de dizer “bixo”. A mudança por qualquer outro termo que mantenha o mesmo conteúdo não resolve o problema, pois de fundo, o problema é a que tipo de relação estes termos se referem materialmente e não as palavras em si, contudo, exatamente por isso, por hoje estes termos estarem totalmente conectados às práticas às quais se referem, eles mesmos tornam-se ofensivos e organicamente atrelados a tradição autoritária material do trote, e o uso deles referido a esta tradição autoritária, devendo portanto, ser cuidadosamente pensado.

 “Tradição Acadêmica”, vestibular e o trote como festejo de uma universidade elitista

Ainda que muitos reconheçam alguns problemas relacionados ao trote, há uma representação deste que o torna indiscutível em alguns meios. O trote é representado como sendo uma tradição. Este fato torna possível que em alguns casos os próprios estudantes sofram abusos, submetam-se a ordens, concebendo esta postura como uma espécie de manutenção de uma tradição de sociabilidade. Uma tradição é mantida sem nenhuma explicação racional necessária. Quando representado como tradição, o trote é tirado do terreno de discussão. Tenta-se dar ao trote o caráter de ser uma prática a qual todas as pessoas presentes nas universidades e todas as que já passaram por ela participaram, aparentando ainda, ser algo que “sempre” ocorreu, logo tornando os questionamentos e outras possibilidades, muito pequenos diante da imensidão desse “sempre imemorável”.
Toda a tradição possui agentes de sua reprodução, a tradição não possui poder superior aos agentes, isto é uma ilusão. Basta que seus guardiões deixem de reproduzir uma determinada tradição para que ela deixe de existir. As tradições ganham um status secular, todavia, são inventadas a cada vez que alguém as reproduz. São historicamente mutáveis. Os próprios trotes ganham novidades ano a ano. O Clero durante o Feudalismo manteve a perpetuação das tradições que os interessava através da inquisição, das torturas. É uma decisão política abandoná-las ou mantê-las. Assim como os membros do clero do período citado, hoje temos universitários decididos a serem guardiões desta “tradição” de integração, dispostos a interferirem no corpo do estudante do primeiro ano, a humilharem, a maltratarem, inclusive aplicando punições e castigos.
A representação do trote como tradição e sua reprodução tem base não apenas na decisão dos “veteranos” de cada ano (nem sempre estes estudantes estão completamente consciente politicamente acerca de suas práticas), é um processo de longa duração, que não à toa está atrelado a interesses da classe dominante. A raridade de vagas na universidade pública se dá por um projeto de educação que busca favorecer os interesses dos grandes empresários, mantendo a maior parte do ensino superior brasileiro relegado à iniciativa privada, transformando educação em um negócio muito lucrativo[2], à revelia da qualidade do ensino e da oferta de vagas em instituições públicas, que se daria através da estatização das privadas[3].
O filtro do vestibular nas universidades públicas faz movimentar os lucros também do imenso número de cursinhos pré-vestibulares privados. No interior destes cursinhos já se inicia o processo de educação necessário a passar no vestibular, o qual o trote irá dar o retoque final. O trote nas propagandas destes cursinhos é veiculado como símbolo de uma conquista, como vitória num processo de concorrência no qual a maioria ficou de fora, perdeu (“Faça Anglo, Vire Bixo”, por exemplo). Aqui o direito ao ensino superior fica condicionado ao mérito individual, sendo fruto de uma conquista, desta forma fica escondido o fato do Estado não oferecer ensino superior público a todos. Sob esta perspectiva veiculada, os estudantes que conseguem passar no processo seletivo, adentram na universidade por seus próprios méritos, por outro lado, os que não adentram, ficam de fora por seus deméritos. O peso da insuficiência da política de educação recai não sobre o Estado, mas sobre os ombros dos indivíduos que sofreram por esta insuficiência. Sob esta óptica invertida, não é o Estado culpado por não oferecer possibilidade de acesso e vagas suficientes num ensino superior público e de qualidade, mas os próprios indivíduos que ficam de fora deste projeto de educação excludente que passam a ser culpabilizados por não terem conseguido passar na prova, ou são “incapazes”, ou não são suficientemente esforçados nos estudos.
Ensinando os estudantes secundaristas a olharem o vestibular com este ponto de vista, nos cursinhos aprende-se de maneira não consciente aspectos importantes da ideologia dominante, de competição entre os estudantes que encontram-se numa mesma condição. A ideologia dominante de um tempo é a ideologia da classe dominante. A óptica invertida de visão sobre o que é o vestibular, a imagem que a burguesia cria sobre este filtro, de acordo com seus próprios interesses, se manifesta no significado que se dá ao sucesso ou insucesso neste processo seletivo.
Neste sentido, alguns estudantes chegam ao primeiro ano aguardando um ritual festivo, que marque sua pele para que possa tirar uma foto e divulgar sua vitória, festejando seus próprios méritos, e reproduzindo a óptica burguesa sobre este processo seletivo. A relação do ingressante, portanto, com a tradição do trote, pode ser ortodoxa e heterodoxa. Alguns estudantes primeiro-anistas educados nesta lógica submetem-se a certos constrangimentos, chegando a reivindicar a aplicação do trote. Em seu texto “O trote no curso de pedagogia e a prazerosa integração sadomasoquista”, Antonio Zuin da Universidade Federal de São Carlos, relata a entrevista de uma mãe que considerou ser pouca coisa, e até mesmo sem graça, apenas rasparem o cabelo e pintarem o rosto do seu filho, afirmando que se ela fosse a veterana “teria feito muito mais” e que seu filho não poderia “voltar para casa sem portar sinais que o identificassem como alguém que havia passado na Usp”.
A falta de democracia no próprio acesso à universidade já está introjetada num ponto em que ingressar nela é aceitar moldar-se sob sua lógica. Esta postura de legitimação em relação ao trote não é moral, mas é a forma como o estudante materialmente aprendeu a lidar com este momento de transição que é momento do ingresso na universidade. Posteriormente elx pode romper ou não, alguns já rompem com esta lógica desde o início, resistindo aos “veteranos”, e rebelando-se. Por outro lado vemos também primeiro-anistas que são bastantes sensíveis aos constrangimentos e violências característicos do trote, de modo a se posicionarem de maneira contraria à “tradição”, se negando a participar ou a cumprir ordens dos “veteranos”, apesar de todo ambiente adverso do trote.
Um fato interessante de ser notado é que muitos estudantes que dizem ter gostado do trote, reivindicando-o e até dizendo que pretendem continuar com a “tradição” quando forem veteranos, se tivermos oportunidade de dialogar, em geral sempre relatam alguns momentos nos quais se sentiram constrangidos ou que gostaram menos. Essa ambiguidade entre integração e tensão, sorrisos e ordens autoritárias, “brincadeiras” e constrangimento é característica do trote.

O Combate ao Trote e Experiência de Marília 

Assim combater o trote, ligando-o à discussão da estrutura de poder da universidade, significa criar um espaço na ingressada para que haja formas de integração entre os estudantes no qual se combata a lógica de submissão do estudante ingressante em relação aos demais estudantes, no qual nos coloquemos de maneira extremamente sensível ao combate à qualquer expressão da lógica do trote em nossas relações, politizando a discussão no sentido do questionamento ao projeto de universidade. Criando esse espaço, no qual o primeiro-anista saiba que não será chamado de “bixo”, que não receberá “ordens” e nem será tratado com desdém e humilhação, conseguiremos nos aproximar tanto de uma serie de estudantes que chegam à universidade com muitos incômodos em relação ao trote e sua lógica, bem como também conseguiremos dialogar com os incômodos mesmo daqueles que se colocam a favor do trote. Neste sentido a Luta pelo fim do vestibular deve passar necessariamente pela luta contra os trotes, pois estes são diretamente relacionados à raridade das vagas, são a continuidade do processo seletivo, segregando e selecionando estudantes, são a manifestação em ritual do festejo da vitória e da meritocracia. Assim como o vestibular não é um sistema de ingresso, e sim um sistema de exclusão, uma vez que a experiência da maioria que o presta não é de ingressar na universidade através dele, mas de ser barrado, o trote também não é um ritual de integração neutra, mas de humilhação sistemática, de opressão, de exclusão de determinadas rodas, de afunilamento, de habituação forçada, de perpetuação das opressões, continuando um processo seletivo já iniciado desde os cursinhos, desde toda a vida, iniciando as práticas educativas da ordem dominante e da estrutura de poder da universidade. O questionamento do trote é o questionamento da estrutura de poder da qual o trote é parte constitutiva ao ensinar a sujeição à falta de democracia desde os momentos iniciais que se adentra nela.

Por fim a reflexão e experiência de combate ao trote que temos em Marília, que passa desde a organização de discussões sobre o trote ligando-o à questão da estrutura de poder e opressões, até a forma como estabelecemos relacionamento com os ingressantes, tem sido uma ponte importante de aproximação com os estudantes do primeiro ano, pois somos um grupo consequente que tem acúmulo e tradição nesta discussão. Organizamos panfletos sobre o tema e campanhas visuais com frases do tipo: “Nem Bixo, Nem Bixete, Nem Veterano: Por uma integração horizontal entre os estudantes”, “O Autoritarismo do Trote bebe no Autoritarismo da Estrutura de Poder da Universidade”; “Por uma integração horizontal entre os estudantes: sem ordens, sem constrangimento, sem submissão”; etc. As mesas organizadas por nós sobre o tema alcançam uma audiência importante para abordarmos o questionamento da lógica dos trotes e para abrirmos sensivelmente uma série de debates políticos com os estudantes dos primeiros anos que são mais tocados por esta questão.  Travamos uma discussão que parte do questionamento aos trotes universitários ao questionamento do projeto de educação e da lógica do capital.



[1] Este texto contém alguns elementos mais básicos das conclusões acerca das discussões sobre o trote realizadas em Marília nos últimos anos. Aqui apenas resumimos alguns dos principais pontos que norteiam a luta que travamos pelo trote. Temos intenção de elaborar um texto destrinchando mais os argumentos, com dados que temos reunidos, e elementos do histórico dos trotes que levam a nossas conclusões com mais propriedade.
[2] O ímpeto do capitalista que investe na área de educação não é o valor de uso, mas o valor de troca. A qualidade do ensino não interessa tanto quanto sua lucratividade.
[3] Para que não confundam com políticas de expansão baseadas na precarização como o REUNI, falo de uma expansão das vagas no ensino público, mas tendo em vista qualidade deste ensino, que funcione numa auto-organização, num governo tripartite entre os três segmentos, com fim do reitorado, numa educação a serviço da classe trabalhadora, que volte suas pesquisas ao benefício da população. A “qualidade” do ensino não tem um caráter neutro neste sentido, mas assume a forma de qualidade para a classe trabalhadora. De maneira imediata defendemos o fim do vestibular com a estatização das universidades privadas.

domingo, 13 de abril de 2014

Na ditadura de Gama e Silva; na democracia de Rodas e Zago: segue a estrutura “feudal” da USP.

Por André Bof, estudante de Ciências Sociais da USP, militante da Juventude às Ruas

O ano de 2014 começa com uma suposta “mudança de ares” na USP. 
Buscando se localizar “democraticamente”, tendo em vista as eleições de 2014 e o desgaste que poderia lhe causar a continuidade da “crise de democracia” na universidade, Alckmin, que a frente do Governo do Estado deu todo suporte a antiga gestão repressora de Rodas, escolheu Zago, ex-Pró Reitor de pesquisa da USP e o “mais votado” na consulta feita para legitimar as eleições antidemocráticas com ares de democracia, como novo REItor da USP.

De cara, teve de enfrentar os problemas deixados como legado maldito da gestão Rodas. Até para os calouros mais novos, deve ser conhecido o estrago feito por esta gestão. Rodas, ex-professor da Faculdade de Direito, possui um histórico tão sombrio quanto a missão que lhe foi confiada. 

Como diretor, foi o responsável pelo chamado da tropa de choque para reprimir movimentos sociais dentro do prédio das arcadas; no dia de sua posse, convocou a força tática para reprimir com bombas e tiros de borracha uma manifestação que repudiava sua pomposa posse ao som de orquestra, dentro da Sala São Paulo; durante a greve de trabalhadores em 2010, impôs um mês de corte de salário contra os trabalhadores e, em 2011, legitimou a presença da PM no campus e utilizando-se desta, militarizou a USP como somente a Ditadura militar o fez, colocando 400 PM’s de elite com cachorros, bombas, rapel para desalojar o prédio da Reitoria, ocupado politicamente, e prender 73 estudantes, dentre eles uma jovem que foi torturada, com uma mordaça dentro do prédio.

Posteriormente a isto, já habituado ao clima de governo absoluto, Rodas processou toda a diretoria do SINTUSP, buscando demitir diretores que se aliaram a centenas de trabalhadoras terceirizadas que paralisaram contra a miséria de suas funções; construiu um monumento a “Revolução de 64” em frente ao Crusp; processou dezenas de estudantes numa espécie de tribunal/comissão que acusava/julgava/punia e, em 2013, como cereja do Bolo, manteve toda a intransigência, acenando com promessas vagas e mais repressão... 

Isto tudo, afinal, estava a serviço de um plano, arquitetado há muito tempo e que os governos em geral, como o PSDB a frente, tentam implementar, desde 2007, quando ocorrem as importantes greves da USP, UNESP e Unicamp, as quais abrem um “reascender” no M.E. (movimento estudantil).

Desde que assume, Rodas define a USP como uma “terra de ninguém”, aonde a Lei não chega, os trabalhadores fazem greves (!!!), as pesquisas operacionais (mercadológicas) encontram questionamento em ideologias arcaicas e que, desde 2007, começa a elevar uma crescente oposição ao projeto de Universidade das elites. 
Para por um basta a isto, Rodas é empossado, sendo o segundo da lista tríplice, por Serra e começa a estratégia de desmonte do movimento de trabalhadores, em primeiro lugar, e de divisão dos estudantes e ataque ao movimento estudantil.

Os trabalhadores da USP haviam, em todos os momentos de luta da USP, desde 2002 e antes, estado ao lado dos estudantes e em greves que garantiram importantes conquistas. Em 2002 apoiaram uma greve de 3 meses na FFLCH por professores e pelo chamado “gatilho de contratação” que contratava automaticamente professores caso houvesse aposentadoria ou falecimento; em 2004 bancaram greve com enfrentamento na porta da prefeitura da USP; em 2007 levantaram-se contra os decretos do Serra, que buscava investir mais em áreas voltadas ao mercado; em 2009, construiram a mobilização conjunta contra a Univesp (universidade virtual de SP) e democracia; em 2010 pela isonomia salarial, etc.

Ao todo haviam feito mais de 388 dias de greve nos últimos 10 anos, algo inadmissível ao PSDB e, assim, se seguiram todos os ataques e golpes relatados no início do texto. 

O projeto de universidade que Rodas tenta resgatar, no entanto, não é de sua “brilhante” autoria. Suas origens remontam a ditadura militar e, talvez, até anteriormente, quando a Universidade é pensada como um espaço de formação para as elites. Obviamente, no entanto, por dentro do turbilhão de desfigurações que deixou a ditadura, a USP encontrou um papel no plano dos generais.

Tanto no que diz respeito ao conteúdo quanto aos métodos, a ditadura ensinou muito ao PSDB e os reitores a seu serviço. 
Gama e Silva, o ex-ministro da Justiça que assinou o AI-5, abrindo as portas para o período de maior perseguição tortura e assassinatos da ditadura, foi REItor da USP e redigiu seu regimento interno que, não só prevê absurdos como punição a quem atentar a “moral e aos bons costumes” e incitar greves, como segue sendo instrumento para ELIMINAR estudantes (tornar qualquer vínculo com a USP impossível por 10 anos) na mão da Reitoria hoje.

Quanto ao conteúdo, não é necessário dizer muito: a FIESP, fundação dos Industriais de SP (que apoiou o golpe de 64) segue tendo cadeira cativa no C.O. (conselho universitário) ao lado de professores saudosistas da ditadura, donos de empresas terceirizadas e de fundações privadas, a esmagadora maioria no minoritário orgão da autocracia USPiana. Todos estes senhores dão o tom do conteúdo social da USP, como sendo uma universidade elitista, com bilhões de orçamento e quase nada a contribuir para a maioria do povo pobre que a financia com seus impostos. Projetos de pesquisa sobre doenças primárias, que adoecem milhões no Brasil, como a diarréia; projetos de planos de obras públicas para dar emprego e casa; história do povo e das revoltas negras na formação brasileira; tudo isto perde para as pesquisas de Avon, Odebretch, DERSA, FIA, etc...

Zago, o suposto “salvador da pátria”, surge como figura neste cenário. Do ponto de vista histórico, observando a estrutura da USP e seu papel, Zago é apenas mais uma variável. E o sistema necessita de todas elas; Sejam Gama e Silva, sejam Rodas, sejam Zago.

Após a terra arrasada orçamentária deixada por Rodas, como fruto da tentativa de cooptar financeiramente os trabalhadores da USP e de sua extravagância de tapetes persas e banquetes de luxo, Zago se vê na ingrata tarefa de disciplinar a USP com a austeridade. 

Para isto, se utiliza da tática de “dobrar a vara para não perder o peixe”. A crise de democracia e, agora, a crise orçamentária, são questões das quais Zago não pode fugir. Para isto, já prepara uma Autoreforma que, de conjunto, pretende manter tudo como está. 

Em recente entrevista dada ao Jornal do Campus, além de assumir que já fez cortes na Graduação, bolsas de intercâmbio, de bolsas, trabalhos de campo e indicar que irá cortar benefícios dos trabalhadores, Zago aponta a necessidade de aperfeiçoar as instituições burocráticas da USP.
Menciona que agora não é mais um universo tão restrito do C.O. que vota nas eleições (cerca de 300), mas as congregações de unidades (2 mil) e que isto poderia, numa hipótese tão aberta quanto o mar, ser ampliado para os conselhos departamentais.

Ora, quão grande é a nossa surpresa ao perceber que estas “mudanças” só beneficiam... aos professores! Num universo de 100 mil estudantes, 16 mil funcionários, cerca de 5 mil terceirizados, o grande projeto de Zago é ampliar a democracia para... as congregações e os departamentos (!!!), que, se Zago fosse “radical” e rompesse as divisões de “status” entre os professores, abarcaria míseros 5 mil. 
Esta é uma continuidade da atual estrutura que distorce o peso da comunidade em benefício da minoria de professores, sobretudo os titulares, mais privilegiados.

Assim, além de se esquivar da questão da Each, dizendo que cabe a justiça dar uma resposta, não mencionar nada sobre as demissões de terceirizados que incentiva, nada dizer sobre as bolsas e a permanência estudantil, além de que devemos “apertar os cintos”, Zago faz seu papel de “dialoguista”.

No fundo, as estruturas da USP continuam baseadas numa lógica Semi-feudal, sendo a Reitoria o orgão de intervenção a serviço do Senhor; os professores titulares a casta de nobres; o conjunto de professores oscilando entre o “baixo clero” e, junto dos estudantes e trabalhadores, a “plebe”, restando aos Terceirizados o papel de “Sans Cullottes” e/ou “servos”.

Este ano o movimento deve refletir e, sobretudo, agir. Não apenas a abertura e publicação do Orçamento é uma bandeira urgente, como a luta por mais verbas é central. No entanto, esta luta pela cabeça dos Lordes só sairá vitoriosa se entendermos uma simples lição que a luta de classes e, mais recentemente, junho, nos deixou: a plebe unida é uma força irrefreável; sozinho os “senhores” não aguentam. 

Saindo da bolha da USP e lutando por uma universidade com cotas raciais, o Fim do vestibular e estatização do ensino, projetos a serviço das necessidades do povo, permanência, creches e moradia a todos que precisam, uniremos esta plebe e, então, a Bastilha Reitorável, há de cair, abrindo novos Junhos e novas conquistas. 
Mãos A Obra!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sobre a consulta eleitoral para Direção da Faculdade de Educação da USP


O ano de 2013 foi marcado por uma forte greve estudantil questionando a atual estrutura de poder da USP e exigindo democracia tanto no que diz respeito ao acesso quanto à gestão da Universidade. Esse movimento paralisou mais de 60 cursos da USP impulsionado por uma ocupação de Reitoria com tamanho apoio democrático que levou a justiça a negar uma primeira liminar de reintegração de posse. Ainda que esse forte movimento, imbuído do espírito das Jornadas de Junho, poderia ter ido muito além do beco sem saída para o qual a gestão do DCE em 2013 o levou (gestão que hoje impulsiona a chapa “Para virar a USP do avesso”), a indignação estudantil com a atual estrutura anti-democrática de decisão dos rumos da Universidade e o anseio latente contra o seu elitismo no acesso e permanência abalaram as estruturas do atual regime universitário herdeiro da Ditadura Militar.

Nesse sentido, a candidatura de Belmira e Diana Vidal para a Diretoria da FEUSP não representam um passo no sentido da luta que os estudantes levaram a frente, muito pelo contrário. Com uma carta à comunidade acadêmica que não passa de uma reprodução quase ipsis litteris[i] de suas propostas quando candidata em 2006(!), a candidatura à Direção, na figura de Belmira, defende a manutenção das Fundações Privadas nas Universidades (como a FAFE na Educação) alegando serem estas parte de uma “cultura” já criada e que representa apenas mais uma “tensão” a ser simplesmente “gerida”. Apresentando de maneira antagônica a inclusão social com a manutenção da qualidade de ensino, a maior verdade que fica evidente de sua carta consta na afirmação de que sua “concepção de universidade é fruto da formação que obteve aqui [na USP]”. Ao formar-se dentro da Universidade mais elitista, racista e anti-democrática da América Latina durante o período da ditadura militar no Brasil, não é de estranhar que sua concepção de Universidade veja antagonismo entre a democratização do seu acesso e aquilo que esta formação meritocrática entende sobre qualidade do seu ensino. Também não é de se estranhar que sua visão sobre a ditadura militar se resuma em “abalos dos anos 60” que, mesmo assim, “mantiveram a notável continuidade” dos objetivos iniciais da USP (objetivo idealizado pela elite paulistana cafeicultora na década de 30).
A carta de Belmira e Diana Vidal se coloca em sintonia com a nova Reitoria da USP, Prof. Zago. Essa nova Reitoria já deixou claro que sua retórica de “diálogo” encobre a manutenção da repressão e das demissões ilegais contra trabalhadores e eliminações autoritárias contra estudantes. Seu “diálogo” é voltado para os setores da própria burocracia universitária descontentes com a gestão Rodas para tentar aplicar da maneira mais hegemônica possível nos órgãos colegiados os cortes orçamentários, o arrocho salarial e as demais políticas de austeridade. Declarar seu alinhamento com a Reitoria que pretende reformular o Estatuto da USP por dentro do Conselho Universitário e sem transformar a podre estrutura de poder da USP, filha legítima da ditadura militar, só pode significar um retrocesso com relação a luta por democracia que se desenvolve dentro da USP.
Diferente da maioria dos demais Institutos e Faculdades da USP nas quais os Diretores são eleitos apenas pelos membros da Congregação da Faculdade (órgão colegiado que possui a presença de 85% de professores, 5% de trabalhadores e 10% de estudantes) e que está submetido à aprovação da Reitoria a partir de uma lista tríplice, a Faculdade de Educação possui um processo de consulta à comunidade acadêmica e um acordo de que a Congregação apenas homologará o nome mais votado (o fim da lista tríplice para Diretor foi institucionalizado em toda a USP esse ano). Ainda que seja progressivo este pleito frente ao cúmulo de anti-democrático que é o processo de escolha e participação dirigente na USP, não podemos deixar de enxergar os enormes limites anti-democráticos que possui essa consulta. Somente professores titulares podem ser candidatos, o que limita o direito democrático de mais de 95% da comunidade da FEUSP se candidatar, prevalecendo a ditadura da minoria de docentes titulares no mando da Universidade; a consulta acadêmica não respeita a conquista democrática constitucional do voto universal (um voto por cabeça) e amplia o peso do voto de cada professor, limando o peso de voto de cada estudante, ao estipular a proporção paritária (33% para cada categoria), fortalecendo o corporativismo e desviando o conteúdo político da concepção de universidade em uma sociedade de classe criando a falsa ideia de que cada categoria é homogênea e que estas possuem interesses antagônicos entre si.
Não fazemos, portanto, campanha para que os estudantes participem desse processo consultivo, pois está evidente a pouca validade representativa que ele possui. Ao mesmo tempo, respeitamos as/os estudantes que desejam participar criticamente desse processo para demarcar sua posição. A estas/es, chamamos a anularem o voto, pois Belmira e Diana Vidal não representam nenhuma postura que avance na luta que os estudantes protagonizaram no ano passado e no sentido da real democratização do acesso e das estruturas de poder da USP.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Compor e ouvir com os políticos da ditadura e a burocracia sindical

Por Pardal, estudante da USP e militante da Juventude às Ruas


Levante Popular da Juventude, que encabeça a "Compor e Ouvir", recebe prêmio de direitos humanos da Dilma

“Compor e ouvir”: que nome mais belo e democrático! Quem o ouve e vê seus discursos por um “novo movimento estudantil”, um movimento democrático e plural que seja de todos os estudantes, mal pode imaginar que eles são o que há de mais velho, burocrático e afastado dos estudantes nessas eleições. São os que estão do lado da direção da UNE e do governo federal, dizendo que os que estão nas ruas lutando contra a copa e protestando contra seus gastos absurdos, suas remoções, sua repressão, as mortes dos operários nos estádios, estão “fazendo o jogo da direita”.
                Os grupos políticos que estão na Compor e Ouvir são aqueles que ouvem a voz do Palácio do Planalto e compões suas campanhas sujas no meio do movimento estudantil: em defesa dos mensaleiros; em defesa dos programa do governo que privatizam e precarizam a educação, como o PROUNI e o REUNI; são os que estão do lado do governo que manda tropas para o Haiti e massacram seu povo; o governo que reprime as greves das universidades federais e do funcionalismo público; o governo que assassina os povos indígenas e mantém a bancada ruralista como base aliada. O governo que está com os burocratas sindicais que tentam abafar as greves dos garis e de todas as categorias, enquanto coloca a Força Nacional de Segurança para reprimir nos canteiros das obras do PAC, em Belo Monte, em Jirau...
                Eles fazem escrachos e defendem uma comissão da verdade na USP. Mas dizem que é progressista o governo que está no poder junto com os Sarney, os Collor, os Calheiros e todo o entulho da ditadura militar. O governo que foi responsável por tirar a “justiça” que acompanhava o nome da comissão da verdade, defendendo que não se puna os responsáveis por reprimir, matar e torturar durante os anos de chumbo da ditadura.

                Para democratizar a universidade e por um novo movimento estudantil, precisamos ouvir a voz dos trabalhadores e compor a luta dos que estão do lado de fora da universidade, com aqueles que estão cansados da velha política do “toma lá dá cá” dos petistas, peessedebistas e peemedebistas. A Marilena Chauí que os apoia é a mesma que há poucos meses deu uma palestra para policiais, dizendo que os black blocs eram “fascistas”, e preparando a enxurrada de lixo ideológico que o governo despejou junto com a mídia para tentar criminalizar os movimentos sociais. Não nos serve um movimento estudantil assim; mudar a universidade precisa ser com algo que seja novo para além do discurso.

Uma USP do avesso é uma USP sem “voto útil”

Por Pardal, estudante da USP e militante da Juventude às Ruas.


Reitor Zago fala na mesa da calourada do DCE
São mais de 500 membros na chapa que diz querer “virar a USP do avesso”. O que nenhum destes membros diz é que os grupos políticos que compõem sua chapa, PSOL e PSTU, estão há quase dez anos  no DCE – com exceção de 2007 – e nada mudou!

Agora, passam nas salas dizendo aos estudantes que, se não votarem neles, “a direita vai ganhar”. Têm a esperança, com este discurso do medo que evita discutir o programa de qualquer uma das outras seis chapas de esquerda, de conseguir enganar os calouros e os que estão no segundo ano; porque qualquer outro estudante da USP que tenha participado de uma eleição de DCE já conhece a farsa de seu “terrorismo do voto útil”. Em 2012, quando disseram que “a direita pode ganhar!!!” esta direita sequer ficou em segundo lugar nas eleições. Por outro lado, quando propomos uma gestão proporcional, eles são contra. Uma gestão proporcional acabaria com seu discurso do voto útil e com seu monopólio sobre uma entidade que deveria ser dos estudantes, e não uma corrente de transmissão das políticas de uma chapa que hegemoniza a gestão. O que eles não querem é que o DCE deixe de ser exclusivamente “seu”, um aparato com o qual podem fazer a política que bem entendam, pelas costas dos estudantes inclusive, já que se recusam a convocar assembleias e quando as convocam frequentemente boicotam suas deliberações.

Dizem querer mudar a USP do avesso, mas quando os estudantes se levantaram aos milhares no ano passado, exigindo democracia na USP e votando em assembleia pela dissolução do Conselho Universitário, o DCE continuou apenas querendo votar pra reitor. Quando mais de 700 estudantes rechaçaram em assembleia a sua proposta de acordo de fim de greve que concordava com a punição dos estudantes, eles simplesmente boicotaram a continuidade da greve com todas as suas forças. Comemoravam como exemplo os cursos que saíram da greve com a conquista de pequenas demandas parciais, que logo no dia seguinte foram retiradas pela reitoria.

Eles querem virar a USP do avesso, dizem, mas em meio às eleições, quando os trabalhadores terceirizados foram protestar em frente à reitoria para receber seu salários atrasados, eles continuaram rotineiramente em frente às urnas, com seus panfletos, sem mencionar aos estudantes a existência de uma greve de trabalhadores precarizados que sequer recebem seu salário de menos de 800 reais.

Como virar a USP do avesso sem questionar sua estrutura de poder? Como virar a USP do avesso sem questionar o trabalho semiescravo que persiste cotidianamente nela? Como virar a USP do avesso sem questionar o seu acesso, quando o vestibular continua mantendo de fora toda a juventude trabalhadora e negra que sustenta esta universidade? Como virar a USP do avesso mantendo a mesma prática política rotineira e adaptada que vêm mantendo há pelo menos dez anos?


Chamamos todos os estudantes a não caírem no engodo do “voto útil”. A eleição para DCE é um momento de expressar um posicionamento político diante da situação desta universidade e seu papel social. É hora de dizer, como dissemos em junho, como disseram os garis, que não vamos mais manter nossas cabeças baixas aceitando mais do mesmo. Precisamos de um DCE novo, que tenha efetivamente vontade de transformar radicalmente a universidade aliando-se aos trabalhadores!

terça-feira, 8 de abril de 2014

O Território Livre e seu elitismo "radical"



Por Pardal.

De maneira bastante pedante, os companheiros do Território Livre responderam ao chamado lançado pela Juventude às Ruas de conformação de uma chapa unificada de oposição ao DCE dizendo que nós “não entendemos o seu programa”.

De fato, às vezes parece um pouco misterioso o que pretendem os companheiros, quando lançam palavras de ordem como, por exemplo na eleição do DCE no ano passado, de “jogar o movimento estudantil à deriva”, ou de criar um “território livre” que eles mesmos tomam bastante cuidado de nunca definir em nenhum aspecto positivo, mas apenas como a destruição da “universidade shopping”.

Contudo, queremos lembrar aos companheiros do Território Livre que nem todos no país estudam em uma universidade shopping ou em outra de qualquer tipo: cerca de 85% dos jovens de 18 a 24 anos no país estão excluídos do ensino superior. Dentre os que estão nele, cerca de 75% estão em universidades privadas, bastante diferentes da USP, de onde a maior parte dos militantes do Território Livre proclama “heroicamente” seu desejo de reduzir a “universidade burguesa” a ruínas.

Ali, desfrutando de seu lugar em uma universidade pública, um privilégio para poucos neste país, eles dizem “A única e verdadeira educação que o povo deve ter hoje é a educação da luta, mas ela passa muito longe das salas de aula. Quantas revoluções não foram feitas por ‘ignorantes’ e analfabetos?” Contudo, não vemos os militantes dessa organização largando seus lugares na universidade porque “a verdadeira educação está nas ruas”. Então, será que é apenas para o “povo” que não serve está universidade? E para os militantes de sua organização, ela serve? E será que quando afirmam que “Esta educação é, em sua maior parte, uma ideologia de classe, existente só para controlar pessoas.”, estão se referindo também ao “povo” (será que é dividido em classes, esse “povo”? Hoje o Território Livre até mesmo já se apropriou das consignas petistas e populistas de “poder popular”). Mas talvez seus militantes, que possivelmente se julgam bem melhores do que esse povo, seja capaz de discernir a ideologia presente na universidade, então pode muito bem permanecer nela, mesmo enquanto se educa nas ruas...

A atitude, em primeiro lugar nada dialética, de dizer que a universidade e a cultura burguesas “não podem produzir mais nada de relevante que não passe, necessariamente, pela sua destruição.” É o que leva a esta conclusão, na prática, de um programa extremamente elitista que nega à classe trabalhadora e ao povo pobre o direito elementar à educação. A universidade, evidentemente, é um pólo produtor de ideologia burguesa, bem como de conhecimento técnico para perpetuar sua dominação. Mas não é senão com o conhecimento de hoje que construiremos as bases para a sociedade de amanhã. Neste sentido, é fundamental lutar não apenas para que cada trabalhador tenha direito de ter acesso a esse conhecimento produzido nas universidades, mas que lutemos a cada dia por uma fração revolucionária no movimento estudantil, pela construção de um verdadeiro pacto operário-universitário em que os estudantes coloquem todo o conhecimento que adquirem na universidade a serviço das lutas e das demandas da classe trabalhadora. Um exemplo contundente disso podemos dar na FaSinPat, a fábrica Zanon na Argentina, que foi tomada pelos trabalhadores e colocada para produzir sob controle operário numa exemplar luta que conseguiu, após oito anos, expropriar legalmente a fábrica de seu ex-dono. Os estudantes da Universidade de Neuquén cumpriram um papel fundamental para ajudar os trabalhadores a aprender a conduzir partes da produção às quais apenas os técnicos e engenheiros tinham acesso anteriormente. Esse conhecimento, ensinado nas universidades, é apenas um exemplo do que a universidade pode oferecer aos trabalhadores, mas que o Território Livre – junto com a burguesia – não quer que a classe operária tome para si. Mas há exemplos mais próximos, como o do professor da Faculdade de Direito da USP Jorge Luiz Souto Maior, que foi saudado com emoção pelos garis do Rio presentes no encontro que organizamos, por ter colocado seu conhecimento a serviço da luta dos trabalhadores. Será que esse “conhecimento burguês” não ajudou em nada?

Se os companheiros do Território Livre acham tão desprezível lutar por qualquer reforma, talvez devessem deixar de apoiar as greves operárias que lutam por demandas mínimas totalmente possíveis dentro do estado capitalista. O que opinam, então, os companheiros do Território Livre da vitória dos garis no Rio, conquistando um aumento salarial de 37%? Talvez, com o mesmo desdém arrogante que dizem que esses garis devem estar fora das universidades, possam esses jovens dar de ombros e chamar os garis que abriram um novo cenário na luta de classes no país de “reformistas” porque não lutam pelas escalas móveis de salários.

Os companheiros muitas vezes afirmam que as demais correntes que se reivindicam trotskistas não compreendem o Programa de Transição, de Leon Trotsky, um documento que procurava justamente superar o abismo entre o atraso subjetivo da classe trabalhadora e as condições objetivamente maduras para a revolução. No entanto, é fácil ver que são eles que persistem na divisão entre “programa mínimo” e “programa máximo”, colocando no lugar deste último dogmaticamente as consignas do programa de transição, de forma isolada e independente do contexto, como se fossem uma “receita mágica” para a revolução. Tudo o que Trotsky nunca pretendeu, nem qualquer revolucionário sério, é escrever uma “receita” para um programa revolucionário.

Um programa é uma combinação entre os elementos objetivos e os fatores subjetivos, pois serve para responder a uma situação concreta – e não aos delírios dos dirigentes do Território Livre – articula consignas mínimas com consignas transicionais e consignas democrático-radicais. A mesma lógica de negação dogmática de qualquer programa “possível de ser conquistado dentro do capitalismo” eles aplicam, por exemplo, à sua análise absolutamente superficial e falsa de como o Partido Bolchevique encara a questão da Assembleia Constituinte. Sim, ela foi dissolvida pelo governo soviético, mas foi agitada como programa desde fevereiro até janeiro de 1918, como um passo fundamental para combater as ilusões constitucionalistas das massas. O próprio governo julgou necessário permitir a reunião da assembleia para que ficasse mais claro que esta palavra de ordem, progressiva ainda há poucos maeses, adquirira um caráter reacionário após a tomada do poder pelos sovietes, transformando a Assembleia Constituinte num ninho da contra-revolução.

Contudo, os bolcheviques não levantavam como seu programa apenas a Assembleia Constituinte, mas ligavam sempre esse programa – para combater a ilusão constitucionalista das massas – ao seu programa de um estado operário, expresso na consigna “Todo poder aos sovietes.” Da mesma forma, os companheiros falsificam nosso programa ao dizer que levantamos apenas “Assembleia Estatuinte Livre e Soberana”, omitindo que esta consigna tem seu lugar articulada em um programa que afirma que esta Assembleia deve se dar com a dissolução do Conselho Universitário e do reitorado, e que o programa de poder para a universidade é o governo tripartite, composto por funcionários, professores e pela maioria estudantil. A isso, o que opõe o Território Livre? “a tomada da universidade pelos estudantes para torná-la um centro de luta da juventude, o que possibilitaria efetivamente a aliança com a classe trabalhadora.” Vejamos: a classe trabalhadora não pode entrar na universidade, mas, se transformarmos essa em “um centro de luta da juventude”, então nos aliaremos aos trabalhadores - para os quais, ao mesmo tempo, devemos dizer que, como "a função da universidade é criar mão de obra qualificada para o mercado, nós não lutamos para que mais pessoas tenham um lugar privilegiado no mercado de trabalho" (mas diríamos isso nos mantendo nessa mesma universidade pra garantir o nosso!)... parece muito coerente!

Perguntamos aos companheiros, como, num país em que existe o maior monopólio educacional do mundo (Kroton-Anhanguera), vinculado organicamente ao capital imperialista e detentor até mesmo de uma bancada ligada diretamente a seus interesses no parlamento, a demanda de estatização sem indenização do sistema educacional é de alguma forma conciliadora com alguma ilusão em um suposto caráter democrático do Estado burguês? Ora, então joguemos fora as consignas que o próprio Trotsky levantou no Programa de Transição sobre a estatização dos principais ramos da economia!

Há milhões de argumentos teóricos e históricos que podem demonstrar o equívoco profundo do posicionamento do Território Livre. No entanto, talvez o mais simples seja o mais eficaz: propomos aos companheiros que se dirijam aos trabalhadores, à juventude das escolas públicas, e vejam quantos estarão dispostos a lutar pelo seu programa de... mantê-los fora da universidade!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Mensagem de gari do Rio em agradecimento à solidariedade da Juventude às Ruas à Greve!

Mensagem que Marloni Silva (gari do Rio de Janeiro) enviou à Juventude às Ruas:

"Boa noite pessoal! sou gari do RJ e quero agredecer a todos vcs do Juventude as Ruas , pela força que vcs tem dado ao nosso movimento , isso está tendo uma repercursão muito grande , e com essa força com certeza ficaremos muito mais fortes , a situação aqui está tensa , os que aderiram a greve , estão sendo ameaçados de serrem demitidos pelo presidente da comlurb , a nossa luta está apenas começando , valew galera estamos juntos !!!!!"

Na Letras USP, estudantes e e trabalhadores terceirizados em apoio à greve dos garis!

sábado, 1 de março de 2014

Relato da greve e piquetes dos garis no Rio - Viva a greve da Comlurb!

Começou no Rio, em plena sexta feira de carnaval, a greve dos trabalhadores da COMLURB. Na terça feira, já tinha acontecido um grande do ato na Av. Presidente Vargas no qual os trabalhadores já exigiam a atuação do sindicato, já que nesse mês se inicia o dissídio da categoria. E na cidade maravilhosa onde não faltam recursos para Fifa e empresários, os garis sofrem de sol a sol com míseros R$ 850 de salário. Os garis já anunciavam que fariam greve durante o Carnaval para garantir um acordo coletivo e um aumento salarial justos. Quando foi noticiado em todos os jornais, na sexta-feira de manhã que o sindicato já havia assinado o acordo coletivo, que garantia apenas horas extras de 50% nos feriados, auxilio funeral e mísero aumento no ticket de alimentação e sequer tocava no aumento do salário base, aparecendo em letras garrafais que os garis não fariam greve e que o acordo estava selado, centenas de trabalhadores saíram furiosos para porta do sindicato exigir o apoio do mesmo para que houvesse greve.

É importante ressaltar que o Sindicato dos Trabalhadores do Asseio e Conservação do Rio de Janeiro dá exemplos de como a burocracia pode chegar em seu nível extremo. O sindicato que compõe a UGT, não realizou sequer um assembleia para assinar o acordo com a patronal. Indignados com toda a situação e a histórica colaboração com as empresas e governos deste sindicato o trabalhadores expressavam em suas falas a necessidade da democracia operária. Diziam nenhuma reunião fechada, que tudo se resolva na rua na frente de todos. E sendo tratados com tamanho desprezo viram que a única alternativa era pressionar o sindicato a assinar um documento de apoio a greve. Centenas dele gritavam GREVE! e nenhum deles titubeava sobre o que fazer, muitos diziam "É tudo ou nada!". Gritavam também "ooo o gari acordou!!" como uma incrível ressonância da energia de junho que ainda reverbera na classe trabalhadora.

Depois de muitas tentativas de manobra, o sindicato finalmente assina o apoio a greve. Fazendo com que todos ali retornassem as suas gerências para garantir os piquetes e os informes. Eles saíram sozinhos, sem nenhum orientação, sem nenhuma faixa do sindicato apoiando a greve. Mas três horas depois o sindicato faz a sua manobra maior, emitindo um documento onde diz que a greve é ilegal, usando o argumento que não foi avisado ao empregador 72 horas antes. Nessas horas fica claro o quanto a legalidade burguesa serve apenas aos patrões uma vez que não é julgado criminoso um sindicato passar por cima dos interesses da categoria.
 
De posse de mais este documento do sindicato encarregados que são ligados a direção do sindicato, gerentes, pressionaram os trabalhadores a trabalhar. Apesar disso a greve segue em muitos bairros da cidade. Com piquetes impedindo a saída dos caminhões, com pelegos amedrontados sem conseguir trabalhar, deixando a cidade caótica e mostrando a importância dessa categoria tantas vezes invisibilizada pela precarização. Em unidades mais organizadas os trabalhadores formaram equipes para correr outras e avisar da greve em piquetes ambulantes parando toda a região e todos já se dirigindo para o sindicato para impor sua vontade. Utilizando de muita articulação e coação, a patronal nas gerências das regiões turísticas do Carnaval pressionam os trabalhadores. Presenciamos muitos trabalhadores saindo obrigados a trabalhar com esperança de que a luta continue e se fortaleça. Ainda não tiveram força de derrotar nestas unidades a pressão da patronal e do sindicato, mas muito "esqueciam" suas vassouras, e mesmo com contradições estão dando passos em sua organização e consciência. A manobra do sindicato inclui uma reunião hoje às 12 horas com a direção da empresa. Já há um forte movimento para que todos estejam novamente na porta do sindicato.

Seguimos acompanhando e vivendo de perto a luta dessa categoria. Esperamos contribuir para que sejam vitoriosos. No entanto já é possível perceber que está greve nos serve de escola e podemos a partir delas tirar várias lições. A primeira é da importância da militância revolucionária estar diretamente ligada ao dinamismo da luta de classe. Era impensado que houvesse uma luta tão intensa no período em que todos se anestesiam e  há grande refluxo, por esse tipo de giro deve se tornar constante em nossa política. Além disso, fica claro que mesmo com todo o ativismo, ódio de classe e clareza do papel que cumprem na sociedade, a falta de organização da categoria e até mesmo um comando alternativo ao sindicato para que orientasse alguma direção debilita muita a força do movimento. É necessário um programa classista e revolucionário que seja uma alternativa à burocracia sindical e um ponto de apoio para construir a organização. Até agora, esse evento inesperado na luta de classes, mostra também a tamanha debilidade da esquerda que figura raramente com pouquíssimos militantes de algumas correntes ou nenhum. Pulam tranquilamente seu Carnaval enquanto deixam passar a luta concreta e a aliança com a classe trabalhadores. Por último, a principal lição que temos aqui é a de que Junho não acabou, a classe trabalhadora pode nos surpreender com a força que está acumulada subjetivamente em cada um de nós. É nosso papel estar ombro a ombro nessa luta!

TODO APOIO A LUTA DOS GARIS!
VIVA A GREVE DOS TRABALHADORES DA COMLURB!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Viva a luta dos trabalhadores da Comlurb!


Juventude às Ruas – Rio de Janeiro
Nesta terça-feira, mais de mil Garis tomaram as ruas do centro do Rio de Janeiro, reivindicando reajuste salarial de 18%, aumento do valor do vale-refeição, triênios e outros benefícios. Em sua longa caminhada atraíram o apoio da população que passava a pé, nos carros, e muitos aderiram a esta “onda laranja” que tomou a Presidente Vargas e o Sambódromo. Os trabalhadores da estatal municipal de economia mista, a Comlurb sofrem com um trabalho desgastante, arriscado, e ainda ganham humilhantes R$800 como salário inicial. Tudo isto em uma prefeitura onde Paes não poupa dinheiro à Fifa e às empreiteiras.
Os garis se mobilizaram contra a direção de seu sindicato. O sindicato dos trabalhadores do asseio, ligado à pelega UGT, não só era contra esta mobilização, como, panfletou nas unidades, com o explícito apoio das gerências contra os trabalhadores entrarem em greve e irem à manifestação. Os garis mostraram na rua, seu ódio a esta direção, à exploração que sofrem e ao prefeito Paes.
Os garis estão se organizando para derrotar esta direção e impor sua greve que pode se iniciar no sábado de Carnaval. Sua próxima ação é garantir a votação da greve em assembleia na sexta-feira, 28/02.
Este passo adiante de uma das camadas mais exploradas dos trabalhadores do país mostra a profundidade do que as “jornadas de junho” abriram para a luta dos trabalhadores. Os garis estão conscientes que se entrarem em greve em sua data-base, 1º de Março, colocarão em jogo a realização de um dos maiores e mais lucrativos eventos da cidade. Não tem Carnaval sem gari!

Entoando palavras de ordem como “êêêê, no carnaval o prefeito vai varrê”, os trabalhadores da Comlurb denunciavam a contradição entre suas condições de trabalho e a importância da categoria para o funcionamento da cidade, sobretudo em períodos de grandes eventos, como o Carnaval ou mesmo a Copa do Mundo. Os trabalhadores sabem que sua ação pode colocar em questão estes grandes eventos.
A luta da classe trabalhadora, como mostram os garis, é o que realmente pode colocar em xeque os planos elitistas da Copa do Mundo e outros megaeventos.
A luta dos garis por seus direitos e contra seu sindicato vendido é uma luta de todos cariocas contra a exploração e contra esta cidade dos megaeventos, imposta contra todos os trabalhadores, começando pelos trabalhadores da limpeza urbana. Chamamos toda a esquerda antigovernista, sindicatos que se reivindicam classistas e antiburocráticos, centros acadêmicos, o Fórum de Lutas e a FIP a organizarem uma imediata campanha de solidariedade e apoio aos garis.

Todo apoio à sua luta! Se houver greve de garis no Carnaval, o bloco de carnaval de todo carioca ligado aos trabalhadores e o povo é o bloco dos garis!
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