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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Um debate sobre o beijo gay e a estratégia da visibilidade

Um debate sobre o beijo gay e a estratégia da visibilidade
                
Virginia Guitzel e Eduardo Goes

Beijo de Félix e Nico, personagens de Amor à Vida.
      Na última sexta-feira, reprisado no sábado, pela primeira vez a emissora Rede Globo exibiu, e em horário nobre, um beijo homoafetivo entre dois homens. A esquerda, os movimentos de direitos humanos e LGBTTIs e muitos LGBTTIs comemoram-no como uma vitória. Para entrarmos nesse debate é fundamental expressar que Félix e Nico, personagens da telenovela Amor à Vida, representados, respectivamente, por Mateus Solano e Thiago Fragoso, são a expressão de um romance que conserva os valores burgueses: o casamento, a constituição de uma família monogâmica e a propriedade. A televisão, como uma das ferramentas de massas fundamentais para a dominação da burguesia, só pode transmitir seus valores e, nesse sentido, garantir a perpetuação da ideologia das classes dominantes. Assim, tal beijo é uma declaração aberta de que na democracia dos ricos, sob o capitalismo, a burguesia nacional pode conviver com parte, grifo proposital, dos LGBTTIs, incluindo o nicho de mercado que trazem consigo (o que chamamos de Pink Money).
Manifestantes em ato exigindo justiça por Kaique Augusto.
      Muitos homossexuais assistiram ao último capítulo da novela emocionados, o que não poderia ser diferente diante de tamanha homofobia existente em nosso país. O Brasil é reconhecido como o país mais homofóbico do mundo (superando países que têm legislação específica para criminalização da homossexualidade, alguns com pena de morte aos homossexuais), e aqui, aos 18 dias de 2014, já somavam-se mais de 23 LGBTTIs assassinados. A morte de Kaique Augusto, no dia 11 de janeiro, segue impune e silenciada pelo malabarismo organizado pelas polícias e seus comparsas, que forjaram um suicídio, o qual segue sem explicações elementares. Os pactos do governo do PT com a bancada evangélica e a histórica relação amorosa desse partido com o Vaticano foram os responsáveis pela tentativa de retomar a “cura gay”, extinta a mais de 23 anos, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade (antes com o sufixo -ismo) da classificação internacional de doenças. Nesse contexto, como poderiam os homossexuais, estando acostumados a sua inexistência política ou a não serem representados nos programas de massa e nos debates abertos nos mais diversos âmbitos da sociedade, não se emocionarem?
      No entanto, ao compreendermos que os LGBTTIs sintam-se representados ao verem um beijo gay – afinal, sempre foi cena proibida e isso é parte de reconhecermos a homofobia vigente –, precisamos abrir um debate profundo não sobre o beijo em si e todas as polêmicas que vêm se desenvolvendo, que acabam caindo em ataques, calúnias e questões mínimas que nada contribuem para os revolucionários e os setores oprimidos avançarem na conquista de suas demandas. É preciso debater os limites da visibilidade (LGBTTI, que impulsiona a ordem dessa sigla inclusive) como estratégia do movimento LGBTTI em particular, mas dos movimentos de setores oprimidos em geral.

O papel da luta por visibilidade e os limites dessa estratégia

      A influência do pensamento pós-moderno como orientador da organização LGBTTI, hoje, é marco fundamental do retrocesso da reflexão estratégica na luta pela livre expressão das sexualidades e construção de gênero. O momento em que foi elaborada – em meio à restauração capitalista nos países do leste Europeu e ex-URSS, com a profunda vitória subjetiva disseminada por muitos ideólogos burgueses como “fim da história” e “vitória do capitalismo”, bases que solidificaram as democracias burguesas dos países imperialistas que conquistavam o “bem estar social” como as máximas do desenvolvimento humano – diz muito sobre essa linha do pensamento. Linha muito refletida em Focault e atualmente centrada em Judith Butler (uma das principais referências das transfeministas e do conjunto do movimento Queer), teóricos que, ainda que ofereçam avanços no pensamento subjetivo sobre a sexualidade, demonstrando-as a partir de desconstrui-las em formas da construção social – desnaturalizando a heterossexualidade como algo divino ou biológico – contrapondo-se ao determinismo biológico (que determina o gênero e a sexualidade a partir do nascimento) e concluindo pela total desconstrução de perfis eternos de sexualidade e de identidade de gênero (sempre um, em contraposição ao outro, isso é, constrói-se a partir da exclusão do outro), esbarram no limite – não tão menor, ou desconsiderável – de como criar condições para que todas essas potencialidades corretamente apontadas possam ser realmente exercidas pelos indivíduos.
      Ao abandonarem as contribuições de Marx e Engels, e de todo o legado marxista também produzido por Lenin, Trotski e Rosa Luxemburgo, tais autores que abertamente retomam Hegel e outros idealistas avançam na concepção de que o “discurso tem poder por si”, de que a “fala constrói” e, a partir disso, se propõem a constituir uma contracultura paralela e pacífica com os marcos do sistema capitalista. Ignorando que, acima do discurso utilizado, existem bases sólidas e materiais que determinam a realidade de nossa sociedade dividida em classes.
      Muitos dizem que “antes de lutar por nossos direitos, é preciso existir”. Em última instância, estamos de acordo que os mortos não podem lutar, nem mesmo por suas vida – porque já não as possuem. Mas é a visibilidade que nos faz “existir”? Enquanto o tal beijo era televisionado – com todos os limites claros de conservadorismo naquela cena –, enquanto o casal homoafetivo dava uns selinhos frouxos, Edith – outra personagem da novela – saía pela rua seminua com seu namorado/amante sem camisa, beijando-se e dançando sensualmente, insinuando cenas sexuais.
      É importante ver que essa estratégia da visibilidade, organizada pelos movimentos LGBTTIs e adotada por certa esquerda centrista muito influenciável que executa claramente a separação entre “movimento de oprimidos” e “movimento revolucionário”, reivindica o beijo gay como uma vitória ou conquista ensimesmada, colocando como ponto de partida a necessidade de sermos assimilados pelo sistema capitalista e a ideia de que os LGBTTIs seguem sem direitos e oprimidos por uma “ignorância” (quase que inocente) das população em entender esses valores. Tal estratégia acaba por ignorar variadas formas de dominação burguesa, e que a própria homofobia se aplica à divisão das fileiras operárias para facilmente superexplorá-las, e também que, aqueles que agora nos permitem sermos vistos, impõe-nos o papel ideológico de que não se pode decidir sobre nosso próprio corpo, nossos gostos, nossa sexualidade e nosso futuro.
Selinho do jogador Emerson Sheik, do Corinthians, em amigo.
      Parece-nos muito mais importante, nessa perspectiva, do que os selinhos emitidos pela Globo o papel do jogador Emerson quando abriu grande discussão, a partir de um dos lugares mais homofóbicos de nosso país, o futebol brasileiro, ao postar foto sua dando selinho em um amigo. Logo depois, teve de retroceder, é verdade. Mas o papel político sincero que aparecia naquele momento foi, sem dúvidas, muito mais de enfrentamento com a real opressão do que qualquer tentativa de cooptação como a que então propõe a rede Globo – o de sermos os gays aceitos pelo capitalismo.
      Não nos basta aparecer! Não queremos apenas sermos vistos, e pelos limites das lentes da reacionária classe dominante brasileira. Existimos e temos disposição à luta. As barreiras impostas aos LGBTTIs são muito mais altas e sólidas que as dos dramas familiares representados! Que faremos agora? É necessário de uma vez por todas, e, sim, aproveitando o espaço aberto pelo debate em torno do aclamado beijo, desde nossos locais de trabalho, entidades estudantis e sindicatos, superando o freio das burocracias, avançarmos na luta por direitos que esbarram nos muros do próprio capitalismo. A homofobia, o machismo e o racismo, e mesmo a luta de determinados setores em um suposto combate a essa formas de opressão, dividem-nos e nos enfraquecem. 
      Organizar os sindicatos e as entidades que a esquerda conquistou nos últimos anos para fazer um sério debate, no seio do movimento operário, sobre a necessidade de se colocar ombro a ombro nessa luta com os setores oprimidos está no horizonte dessa esquerda? Organizar comissões de investigação, independentes do Estado e de seu aparato jurídico comprometido com os interesses da burguesia nacional, no caso de agressões e assassinatos, fortalecendo junto a entidades estudantis, organizações de direitos humanos e sindicatos a única aliança revolucionária, entre oprimidos e trabalhadores, capaz de colocar em cheque todas as expressões da miséria imposta pelo capitalismo está no horizonte dos movimentos LGBTTIs? Podemos tomar a tarefa de utilizar o espaço aberto pelo "beijo gay" para discussões em todos os locais, demonstrando que somente os LGBTTIs ricos podem adotar, ter uma casa na praia, serem felizes e respeitados, segundo a Globo e os que ela representa? E quanto aos outros setores LGBTTIs? Nossa auto-organização, a superação da homofobia, de todas as opressões e do presente regime de exploração, podem ser conquistadas porque "agora fomos vistos"?
  
Por um Estado verdadeiramente laico! Pela separação efetiva da Igreja do Estado! Fim do acordo Brasil-Vaticano!

Pelo direito a nossos corpos, à livre construção e manifestação de nossas sexualidades e gênero!

Criminalização da homofobia já! Comissões independentes do Estado, compostas por familiares das vítimas de homolesbotransfobia e organizações de direitos humanos, entidades estudantis e operárias para investigação e debate sobre a punição dos agressores!


Que todas as entidades estudantis e sindicatos tomem para si a luta dos setores oprimidos! Pela união de nossas fileiras e real conquista de direitos!!! 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

O 'Beijo-gay', a normatividade patriarcal da Rede Globo e o oportunismo miserável da esquerda

Por Adriano Favarin, estudante de Pedagogia da USP

Não é possível afirmar taxativamente que a expectativa (e a concretização) do beijo entre dois homens na novela mais assistida da televisão brasileira representa, por si só, um papel progressista ou reacionário. Para não desenvolver opiniões meramente superficiais, sentimentais ou sectárias é necessário partirmos de analisar a conjuntura nacional e internacional na qual se insere esse beijo e as mudanças pelas quais passou o próprio movimento LGBTT e, também, como chega a subjetividade das massas com relação a esse tema no momento atual. Também é necessário nos debruçarmos sobre a política e o programa que a esquerda tem levado a frente há anos com relação ao tema da sexualidade e seus impactos. Tudo isso à luz do próprio desfecho de conjunto da trama da novela, na qual o beijo é apenas uma cena de toda uma conclusão ideológica conscientemente refletida pela Rede Globo de Televisão.

A polarização social com relação às demandas de gênero e da sexualidade como marca da conjuntura
            Na última campanha eleitoral presidencial brasileira de 2010 vimos a expressão dessa polarização relacionada principalmente ao tema do aborto. Dilma, do PT, para ser eleita, assegurou à bancada evangélica do Parlamento e à Igreja Católica que não avançaria nos direitos democráticos da mulher e dxs homossexuais. Esse giro à direita do PTismo para assegurar votos e a governabilidade parte do silenciamento com relação às milhares de mulheres mortas por abortos clandestinos, caminha pela via do impedimento da propaganda contra a homofobia nas escolas e da conscientização sobre os riscos da AIDS e conclui com o pacto entre o PT e o PSC na garantia da presidência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) para o pastor evangélico reacionário, Marco Feliciano.
            Mesmo antes de junho de 2013, a reação do movimento LGTTBI com relação às ações, projetos e declarações racistas e homofóbicas de Feliciano mostrava um potencial de indignação, insatisfação e rearticulação dxs homossexuais enquanto movimento questionador e político. Devido à vitória do PT na cooptação dos movimentos sociais – entre eles o LGTTBI – e ao programa sempre defensivo que os setores de esquerda dentro do movimento têm levado à frente durante anos, deseducando xs homossexuais, ficando sempre a reboque dos ataques e rebaixando o programa sempre à miséria da resistência possível (que não incomode demais o opressor), mesmo após junho, e após ter conseguido barrar a proposta de patologização da homossexualidade e silenciar por seis meses a CDH presidida por Feliciano, xs homossexuais não conseguiram derrubá-lo da presidência da CDH. Enquanto isso, para manter a estabilidade do regime abalado pelo desprestígio do Legislativo – uma das suas principais instituições –, o Poder Judiciário aprovava limitados direitos de união estável para os casais homoafetivos.
            A nacionalização midiática desses processos de polarização relacionados à temática da (homo)sexualidade desprovido de uma educação sexual e discussão mais profunda na sociedade sobre gênero e sexualidade, ligado há anos de Restauração Burguesa e ao papel do PTismo como, ao mesmo tempo, direção desses movimentos contestadores e governo conservador, direcionaram a polarização de classe contra o regime para uma equivocada polarização entre evangélicos (cristãos) e homossexuais, que serviu para encobrir os giros cada vez mais à direita do próprio regime contra a sexualidade (como a tentativa barrada por junho da patologização da homossexualidade) e a um aumento do número de assassinatos de homossexuais por grupos de extrema-direita (fascistas).
            Internacionalmente as questões democráticas ligadas ao gênero e a sexualidade têm polarizado os países. Na França a aprovação do casamento igualitário colocou centenas de milhares nas ruas a favor e contra esse direito. Na Rússia o governo e os grupos fascistas organizados têm avançado na humilhação e assassinato legalizado de homossexuais. Na Espanha, o governo acaba de aprovar uma lei que restringe a liberdade da mulher sobre seu próprio corpo, barrando o direito ao aborto legal, seguro e gratuito conquistado há mais de duas décadas. Não considerar esses elementos da conjuntura na hora de refletir sobre o que significa uma das maiores redes de comunicação mundial apresentar um beijo entre dois homens no horário em que a maioria das famílias brasileiras estão assistindo à novela pode levar a uma posição festiva oportunista ou superficial e sectária em relação à repercussão e significado desse fato nacional. A única coisa por hora concreta que podemos dizer sobre essa cena é que ela serviu para recolocar a temática da sexualidade (homossexualidade masculina, especificamente) no cotidiano da população.

O inicio da organização do movimento LGBTTI na década de 60 e 70
No bojo do último ascenso da revolução social do século passado, nas décadas de 60 e 70, a questão da sexualidade assumiu uma localização importante nos processos da luta de classes. Xs jovens, cansadas da moral conservadora e repressora da sociedade capitalista se colocaram em movimento por uma sociedade livre das opressões. O pano de fundo dessa busca se deu em um mundo polarizado entre o capitalismo imperialista norte-americano e seu “american way of life” heteropatriarcal e o socialismo soviético stalinizado (com suas cópias deformadas), tão degenerado por dentro, a ponto de retroceder nas mais avançadas conquistas democráticas pós-Revolução de 1917, como a liberdade sexual, o direito ao corpo e ao aborto, a separação da Igreja do Estado, etc. Nessa luta pela livre expressão da sexualidade, xs jovens se chocaram contra a idêntica normatização sexual imposta pelos dois pólos sociais existentes, contra a repressora família nuclear burguesa e sua burocrática cópia stalinista e compreenderam que a sexualidade só poderia ser plena se fosse sem as amarras tanto da ditadura do capital quanto da ditadura da burocracia da URSS.
A compreensão que a juventude da década de 60 e 70 faz de que a luta pela liberdade sexual só pode ser alcançada conjuntamente com uma estratégia de luta pela revolução socialista nos países capitalistas e pela revolução política nos países burocratizados deixaram experiências das quais não basta apenas relembrarmos hoje como memórias do passado, mas que merecem ser entendidas, estudadas e reapropriadas para o presente como a luta das travestis de StoneWall contra a polícia e a justiça; ou a militância da Frente Homossexual de Ação Revolucionária na França que buscava se unificar com os partidos comunistas; ou xs homossexuais que se organizaram na Argentina para combater a ditadura militar; e finalmente, com setores do Grupo SOMOS, no Brasil, que marcharam para a assembleia dos metalúrgicos do ABC para declarar seu apoio e serem ovacionados pelxs trabalhadorxs. É o exemplo, o programa e a estratégia que esses setores levavam a frente para garantir o fim da miséria sexual da humanidade e o combate a moral heteronormativa vigente que tanto assustava a burguesia e a burocracia stalinista, maoísta e castrista.


A fagocitose do subversivo: a normatização e esteriotipação da sexualidade marginal
A derrota da revolução política polonesa em 1982 encerrou esse período de ascenso social. A derrota da greve dos mineiros britânicos pelo governo de Margareth Thatcher em 1984-85 iniciou o período de ofensiva restauracionista da burguesia. A reação econômica com o neoliberalismo é simultânea a reação em todas as demais esferas da estrutura e superestrutura social. Tomar as consignas e as reivindicações da geração derrotada e torná-las inofensivas tem sido historicamente o método com o qual as classes dominantes tratam a contracultura. No caso LGTTBI, a aceitação da sexualidade homoafetiva (objetivamente impossível de combater, já que o próprio desenvolvimento do capitalismo favorece o desenvolvimento de relações sexuais homoafetivas[1]) se dá na medida em que o capitalismo possa transformar seus elementos subversivos em dóceis reprodutores da dominação do capital. O enquadramento e padronização da sexualidade entre dois polos opostos (homossexuais e heterossexuais), com rótulos, estereótipos, cultura, gosto musical, jeito de andar, de se vestir, se portar, de falar, etc... foi o principal responsável para o fortalecimento da concepção ideológica de determinismo biológico para a sexualidade.
Conjuntamente com essa ferramenta ideológica castradora que normatiza a sexualidade homo em padrões familiares heteropatriarcais se dá a propagação da AIDS e do HIV como consequência da ‘promiscuidade’ homossexual, fortalecendo ainda mais a ideia da necessidade da monogamia patriarcal e das relações homoafetivas submetidas aos moldes do casamento burguês heteronormativo para ser aceito em uma sociedade sexualmente miserável. O cu perdeu a sua subversão. O prazer sexual não-penetrativo e não-reprodutivo foram perdendo sentido. O sujeito homossexual foi se afirmando enquanto tal e na mesma medida, reafirmava o sujeito heterossexual, os dois como seres determinados biologicamente e buscando seu espaço e aceitação na sociedade. O heterossexual, aceito e reivindicado; o homossexual, invisível e marginalizado. A sexualidade não-heteronormativa perdia assim o seu caráter questionador da sociedade de classes para se contentar aprisionada em caixinhas esteriotipadas, padronizadas e limitadas. A luta pela liberdade sexual da humanidade (e logo, contra o capital) cedeu espaço para a luta pela visibilidade, aceitação e conquistas de direitos de cidadão dentro do capitalismo para um setor social enquadrado (e também sexualmente limitado) como homossexual.

A esquerda reformista e a esquerda centrista diante as questões democráticas durante o neoliberalismo
A esquerda reformista, na sua luta para gerir o Estado capitalista e demonstrar para a burguesia como pode fazê-lo mais aceitável e a exploração de classe que ele engendra mais humanizada, se contenta na luta por reformas cosméticas nas leis e demais papéis da burocracia do Estado que afirmem direitos iguais para sujeitos homossexuais e heterossexuais. Para além de serem papéis molhados dentro de um sistema que não pode existir sem limitar a liberdade sexual da humanidade, tal política abre precedente (quando não aponta diretamente) na determinação biológica da sexualidade e não na possibilidade da sua construção e desconstrução social. O centrismo, ainda que coloque a perspectiva estratégica de superação do capitalismo por via da revolução e da ligação com a classe trabalhadora e demonstre a diferença entre a situação dos homossexuais burgueses dos homossexuais das classes oprimidas, conclui sua política com programas rebaixados e que não levam a ligação real entre xs homossexuais e a classe trabalhadora. Não disputam dentro da classe, nos sindicatos que dirige e nas relações operárias que constroem, a luta contra a homofobia, mas permanecem no terreno puramente sindical e econômico. Terminam, assim, programaticamente, em demandas rebaixadas e miseráveis, como chega a ser a exigência de que haja um beijo-gay na novela[2] ou a luta, sem nenhuma diferenciação de classe, pela criminalização da homofobia, o que não ajuda a desenvolver a organização dos oprimidos, nem a unidade das demandas das mulheres, dxs negros e homossexuais, e acaba depositando confiança nos inimigos da revolução social – a polícia, a justiça, a lei do Estado burguês – como possíveis aliados, impedindo uma luta séria pela liberdade sexual ao não organizar xs oprimidos para extrapolarem os limites do capitalismo.

O “beijo-gay” aceitável, a polarização reacionária e a esquerda miserável
            No último capítulo da novela “Amor à Vida”, para além do nascimento de filhos varões e dos casamentos e uniões familiares, constituições e reconstituições da família nos modelos burgueses como núcleo da felicidade e mantenedoras da educação moral e cristã, assistimos a cena final de Félix e Nico vivendo em família, como um tradicional casal burguês, falando dos negócios do casal, cuidando dxs filhxs (ou melhor, deixando xs filhxs aos cuidados da babá) e, enquanto um permanece no lar, o outro parte para o trabalho, e se despedem com um selinho relativamente prolongado. Em nenhum momento, porém, pronunciam que ‘se amam’. A próxima cena da novela, a cena final de fato, termina com Félix ao lado de seu pai, César, olhando o pôr do sol, e, para seu pai, Félix diz “eu te amo” e recebe a inesperada resposta do machista e homofóbico pai que este também o amava. Não é possível negar que, para a maioria dxs homossexuais que sentem na pele o que é ser rejeitadx pela família por não querer se limitar a miséria sexual pré-escolhida para você pela sociedade antes mesmo do seu nascimento, essa cena foi muito mais emocionante e marcante do que o tal beijo em si.
Não foi casual que a Rede Globo encerrou a novela dando mais peso para a reconciliação familiar e a declaração de amor entre pai e filho do que ao final feliz com o beijo do casal gay protagonista. O beijo entre os dois homens, em si, não modificou a subjetividade da população. Não vai fazer aqueles que são contra as relações homoafetivas ficarem a favor, todos já esperavam esse beijo e comentavam sobre ele independente dele vir ou não ao ar. No dia seguinte, em uma banca de jornal, era possível ouvir daqueles que são contra as relações homoafetivas os comentários de repúdio ao pegarem 'O Agora’ ou ‘O Diário’ e verem a foto do beijo estampada em um quadradinho pequeno na capa e a naturalidade de sempre daquelxs que sempre enxergaram de forma natural o beijo entre pessoas na vida real. Ao mesmo tempo em que a Rede Globo traz uma cena de beijo entre dois homens, envolve esta por inúmeros elementos que buscam demonstrar qual o ‘tipo’ de homossexual aceitável. Ideologicamente significa reforçar a moral familiar e, até mesmo, cristã (basta ver o ultimo pronunciamento do Papa com relação aos homossexuais e a Igreja[3]), fortalecer a concepção reacionária da família nuclear burguesa e condicionar o potencial subversivo e explosivo latente na luta pela liberdade sexual encabeçada pelxs homossexuais aos limites da democracia burguesa e da luta pela visibilidade, aceitação e cidadania.
            Ao não se preocupar com o fato de que, com a educação moral conservadora que temos nas escolas, igrejas e famílias, a reprodução em si de uma cena de beijo entre dois homens que não desconstrua esse preconceito e ódio ensinado durante anos de vida termine por reforçar os preconceitos e ódio nos setores reacionários da sociedade, ao mesmo tempo em que se comemora acriticamente a trama de conjunto, a esquerda desarma a luta dxs homossexuais, pois retira a cena do seu contexto e não extrai as conclusões ideológicas conservadoras fundamentais que a burguesia passa, pela via da Rede Globo, na subjetividade da população e que é necessário combater. Essa esquerda miserável não é capaz de educar e politizar em cima da situação nacional aberta, mas segue debatendo mortalmente se a Globo foi progressista ou não; se o beijo foi responsabilidade da luta dxs homossexuais ou fruto das Jornadas de Junho, ou dos dois, ou se da benevolência de Walcyr Carrasco; e não consegue de fato, a partir dos sindicatos, movimentos sociais e entidades estudantis que dirige, politizar e debater a sexualidade com a classe trabalhadora e a juventude utilizando da repercussão dessa cena e fazendo o combate a todas as contradições reacionárias que a trama de conjunto engendra no subjetivo da população.

Por uma resposta classista para a sexualidade
            O movimento LGTTBI organizado e dirigido pelas ONG’s surgidas na década de 90 e dirigidas pelo PT mostrou sua falência histórica no decorrer do ano passado. Mesmo após junho, esse movimento cooptado, ligado ao petismo e aos partidos governistas e que tem como estratégia a eleição de parlamentares gays para defender os direitos igualitários de cidadão dxs homossexuais por dentro do capitalismo, não foi capaz – exatamente por tudo isso – de derrubar Marco Feliciano da CDH. A esquerda reformista busca se localizar nas contradições do governo e ocupa o espaço a esquerda do PT, com a mesma estratégia de eleger seus parlamentares – como Jean Wyllys, do PSOL, o mesmo que defende a legalização da cafetinagem e, consequentemente, a institucionalização da miséria sexual da humanidade. A esquerda centrista, pela sua lógica de departamentalização das demandas dos setores oprimidos e pela pressão pequeno-burguesa que possui em fazer da luta contra as opressões sociais uma luta contra os sujeitos socialmente privilegiados pela sociedade e não uma luta contra essa sociedade que engendra esses privilégios, não consegue se colocar como alternativa para xs homossexuais na luta pela liberdade sexual, pois termina fazendo dxs homossexuais quadros das suas causas particulares e não dirigentes revolucionários na construção de uma organização que derrube esse sistema de conjunto. A academia, por sua vez, ligada a Teoria Queer, a Judith Butler e Foucault, com uma discussão sobre a sexualidade menos adaptada à democracia burguesa da época de restauração e mais livre, peca por não trazer a luta para a realidade de classes e permanece divagando no universo particular do abstrato quais seriam as formas de relações mais completas e menos opressoras em uma sociedade desejável. Sem buscar construir o caminho para chegar até essas relações e essa sociedade, que passariam necessariamente por se colocar nas trincheiras da classe trabalhadora contra a burguesia, acabam se adaptando ao reformismo e a eleição de parlamentares homossexuais.
            É necessário que a esquerda paute esse debate nas categorias operárias que atua seja como oposição ou direção sindical. A Oposição Alternativa de professores do Estado de São Paulo, por exemplo, não pode entrar em greve sem questionar profundamente o currículo e a escola, pautando a necessidade da educação sexual laica e não moralista e organizada pelxs professorxs, assim como o desvinculo da Igreja com o Estado e a educação. A esquerda não pode mais, ano após ano, somente observar a “burguesia Pink” lucrar como poucas vezes no ano sobre um evento que deveria servir para impulsionar a luta contra os pilares desse sistema social que inibe e reprime a nossa sexualidade, que seriam as Paradas Gays.
            É nesse sentido que faço um chamado público para toda a esquerda, começando com a organização na qual eu milito, a Juventude às Ruas, e a entidade nacional que construo, a ANEL, a organizarmos um forte bloco classista na Parada Gay do dia 04/05 em São Paulo (e nos dias das demais cidades), que esteja unificado sob a bandeira da educação sexual laica nas escolas; pelo aborto legal, livre, seguro e gratuito; por hotéis públicos para a juventude poder se relacionar sem os perigos do sexo insalubre e anti-higiênico e livre da opressão familiar; pelo direito a identidade trans; por anticoncepcionais e cirurgias de redesignação sexual gratuitxs e com acompanhamento de qualidade em um SUS controlado pelos trabalhadores da saúde; pela garantia por parte do Estado de trabalho para todas as travestis em situação de prostituição; pela prisão de todo aliciador e cafetão, como a punição de todxs xs agressorxs de homossexuais, a começar pelos parlamentares, ‘humoristas’ e meios de comunicação que reproduzem e legitimam a violência homofóbica.
            Nós, da Juventude às Ruas, estaremos em bloco, com toda a certeza junto do Grupo de Mulheres Pão e Rosas, como parte do Movimento Mulheres em Luta, levantando bem alto que essas demandas só podem ser conquistadas na luta dxs homossexuais de maneira organizada para se defenderem dos homofóbicos e da polícia; na confiança estratégica que a classe trabalhadora, com todos os atrasos e preconceitos que muitos setores reproduzem da ideologia burguesa, é a única que pode derrubar esse sistema, e que somente enquanto parte da classe trabalhadora é possível a luta séria pela liberdade sexual.




[1] Ver D’Emilio – Capitalismo e Identidad Gay
[2] Ver nota “Quem tem medo do beijo gay?” escrita por Lucas Brito da Secretaria Nacional LGBT do PSTU.
[3] Ver http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,papa-abre-igreja-aos-gays-aos-divorciados-e-as-mulheres-que-abortam,1076594,0.htm

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sobre a polêmica do "beijo gay"

Por Felipe Chagas, militante da Juventude às Ruas - USP



Mudanças de paradigmas. Hoje, nós LGBT*, em tese, deveríamos estar festejando. Deveríamos estar festejando porque, em tese, toda a nossa comunidade foi “oficialmente” reconhecida pelas famílias ‘quatrocentonas’ cariocas depois do “primeiro beijo gay da TVGlobo”. Hoje, sábado, 01 de fevereiro de 2014, sem dúvida nenhuma, muitos comentaristas de plantão estarão enviando seus amores às corporações Globo pela grande iniciativa.

No entanto, eu como gay, viado, fagg, bicha, e todos os epítetos já utilizados para tentar me ofender (não só nas ruas, mas também por esse mesmo meio de comunicação, a TV), não estou nada contente. Aliás, acredito que dada às comemorações alheias, este talvez seja o melhor momento para uma boa reflexão e nada mais feliz que fazê-lo inaugurando um novo blog que se dedicará exclusivamente às LGBT* em luta.

A realidade é que nós existimos e isso incomoda muita gente. Incomoda muita gente a ideia de pessoas poderem viver em harmonia longe do núcleo fundamental da burguesia: uma família heterossexual nucleada por um macho alpha com prole também heterossexual que gerará mais famílias heterossexuais nucleadas. Eu me lembro, da minha infância (que não se vai muito longe, diga-se), de muitas pessoas se surpreenderem com alguns papéis femininos, também em novelas globais, sendo trabalhadoras, mães solteiras e tudo o mais que faz parte da realidade da população brasileira há muitos anos.

Há muitos anos, há muuuuitos anos, há milhares de anos, os homo sapiens sapiens (a.k.a. nós) desenvolveram a habilidade de fazer sexo para recreação (!) (assim como os golfinhos!) e óbvio, não eram só órgãos sexuais femininos penetrados. Eu poderia me debruçar sobre meu notebook reavivando muitos conceitos históricos a respeito dos inúmeros tipos de relações entre seres humanos que se diferem do “papai e mamãe” e que hoje conhecemos como a comunidade de LGBT*, mas isso desviaria o foco desse texto.

O que de fato importa é que, aproximadamente, nos últimos dois milênios foram criados padrões de tantos tipos para justificarem tantas opressões (homofobia, machismo, xenofobia, racismo, são todas opressões pelas quais o atual sistema social vigente se mantem) que as LGBT* se esconderam cada vez mais dentro de si. Nas últimas décadas esse grupo de pessoas não organizado sentiu (é importante que se diga que no movimento LGBT, assim como no movimento de mulheres ou no movimento negro, existem muitas frações e diferenças), talvez como o espírito do tempo, que estava na hora de mudar essa realidade do submundo e tomar para si o papel de cidadão como o de todas as outras pessoas.

Nesse momento nós avançamos. Com a novela da Globo ontem, não.

A realidade, gente, é que nós estamos aqui, e o que vimos ontem nas telinhas (sic) foi apenas uma realidade retratada de forma mais que atrasada a partir do ponto de vista da burguesia (com seu núcleo familiar patriarcal, heterossexual e com prole) sobre a nossa existência. É tão vergonhoso as LGBTs se arrastarem por várias novelas para conseguirem um único beijo gay no principal canal de televisão no “horário nobre”, que me sinto revoltado. Sinto-me revoltado porque é humilhante saber que depois de tantos anos, com uma audiência exorbitante causado pelo principal personagem dessa obra ficcional (que é um ex-vilão gay que virou mocinho), que o tão esperado beijo foi um selinho que durou 4 segundos (ou menos que isso), na penúltima cena da novela depois das 23h duma sexta-feira. Patético, apenas.

Na noite de ontem nós não fomos reconhecidos, gente. Na noite de ontem nós arrancamos da burguesia brasileira (e sim, galerinha, não adianta vir com Reinaldo Azevedismo que não cola) uma coisa que ela estava guardando às sete chaves: o nosso direito de ser o que quisermos. Ao mesmo tempo em que muitos devem estar mandando flores ao diretor de núcleo da Globo, muitos devem estar, assim como eu, escrevendo textos e mais textos atacando o “perigo que ronda a família brasileira”, como diria infelicianos por aí.

Por fim, é preciso que nós, LGBT*, aprendamos com nossa própria história: nada nos é dado, tudo por nós é conquistado e com muita luta. Dessa vez não foi diferente, afinal hoje o Brasil reconhece a legalidade da união civil entre qualquer pessoa e, apesar de ofuscado pelos movimentos de junho, a luta da união civil igualitária foi uma das que mais mexeu com os alicerces sociais e colocou gente nas ruas em 2013 (antes de junho) e nos trouxe a um novo paradigma. Muitas lutas ainda existem e precisamos vencê-las o mais depressa possível pois, assim como o beijo de Félix e Nico, são para ontem!

E já que citei junho, faço um apelo e um alerta aos companheiros de várias organizações políticas, inclusive aos meus: junho veio e se foi, gente. Nós devemos saber aproveitar os acertos desse fenômeno, mas também precisamos aprender, e muito, com os erros que cometemos. Junho, assim como julho, agosto, setembro e todos os subsequentes, se foram. Sua herança, de fato, é atemporal, mas hoje devemos travar outras lutas para alcançarmos nossas vitórias. Às vezes a realidade nos é dura e não queremos aceitar que algo tão magnifico possa ter se esvaído de nossas mãos tão rapidamente, mas a realidade é uma tirana e se impõe. Que nos próximos meses em luta que virão, as LGBT* retomem seu protagonismo e, com o resto dos trabalhadores, possamos voltar às ruas e lutar por um mundo sem opressões. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Vamo de rolezinho?!

Logo no início do ano da pretendida Copa do Mundo no Brasil, um novo fenômeno da juventude tem apavorado os governos, os empresários e a grande mídia em nosso país. Depois das mobilizações de junho de 2013 e dos mais diversos processos de luta de jovens e trabalhadores, os 'rolezinhos' antecipam e escancaram as contradições sociais do país da Copa. Enquanto milhões de reais são repassados para uso da FIFA e das grandes construtoras para realizar o grande evento dos empresários brancos, a juventude pobre e negra é removida de suas casas e afastada cada vez mais para a periferia das cidades. Com os megaeventos, a conclusão de doze anos de governo do PT não poderia ser mais simbólica: para os ricos – a Copa, a ostentação, o lazer, o lucro e o direito à cidade –; para os pobres e negros – a violência policial, a falta de saúde e educação, o transporte caro, a prostituição e o trabalho precário.

Os milhares de jovens, que hoje exigimos nosso direito de fazer um 'rolê' nos shoppings (centro de consumo e lazer da classe média), exigimos na verdade o nosso direito à cidade. Queremos poder comer, nos divertir, paquerar e consumir como qualquer outro jovem de classe média. Somos os mesmos jovens que ano passado barramos o aumento da tarifa e que queremos um transporte público, gratuito e de qualidade para podermos nos locomover das periferias aos centros das cidades. Que queremos o direito de frequentar praças, teatros, cinemas, parques e baladas sem sermos humilhados, reprimidos ou assassinados pela polícia por sermos negros, pobres ou homossexuais (QUEM MATOU KAIQUE?) e “não pertencermos a esses espaços”.

O povo negro e a juventude que está nos trabalhos precarizados não queremos entrar nas Universidades Públicas ou nos estádios e clubes somente pelos andaimes ou pelos banheiros, mas exigimos nosso direito à educação, cultura e lazer. São essas contradições que os 'rolezinhos' expressam, e a preocupação dos governos e empresários é porque sabem que a Copa do Mundo irá aprofundá-las ainda mais. É por isso que Haddad, pela via do Netinho de Paula, demagogicamente diz querer dialogar com os jovens e pretende “institucionalizar” os ‘rolezinhos’ limitando-os aos estacionamentos dos shoppings, aceitando e reforçando descaradamente a segregação social e racial evidenciada.

Hoje as demandas de junho voltam como espectro nos 'rolezinhos' da juventude da periferia. A possibilidade de solidariedade e unificação de um importante setor da juventude de classe média, principalmente a juventude universitária, com esse fenômeno pode ser o embrião da fusão dos diversos extratos sociais de juventude que coloque em xeque toda a estrutura capitalista do Brasil do apartheid.


* Basta de apartheid! Exigimos nosso direito de desfrutar livremente todos os espaços!!!

* Pelo direito à cidade: estatização dos transportes públicos sob controle de trabalhadores e usuários!

* Pela construção de áreas e espaços públicos (praças e clubes) de lazer, cultura e prazer para a juventude!

* Basta de genocídio ao povo negro! Fim da polícia!

NÃO ESQUECEREMOS, QUEREMOS SABER: CADÊ O AMARILDO? QUEM MATOU KAIQUE?



Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?


“Cidadão” – Lúcio Barbosa”


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

QUEM MATOU KAIQUE? BASTA DE VIOLÊNCIA AOS HOMOSSEXUAIS E TRAVESTIS!



No sábado 11/01, Kaique Augusto, 16, jovem negro e homossexual, foi visto pela ultima vez por seus amigos após sair de uma balada gay no centro de São Paulo. Foi somente dia 14/01, após incessantes buscas e idas infrutíferas ao IML, que a família conseguiu encontrar o corpo de Kaique, que steve todo esse tempo no próprio IML. Kaique havia sido brutalmente espancado, possuía hematomas e marcas de violência no rosto e no corpo, seus dentes haviam sido arrancados e uma barra de ferro havia sido encravada no meio de suas pernas. Nesta mesma semana, dia 15/01, em Uberaba, a travesti Toni Gretchen, de 50 anos, foi assassinada com vários tiros após ameaças de morte e cobranças do pagamento do “pedágio” no ponto de prostituição.
Essas mortes, motivadas claramente por homofobia e transfobia, são parte do aumento da violência contra homossexuais e travestis, que tem ocorrido no país nos últimos anos (durante o governo petista aumentou em 117%, de 2003 a 2010). Nos primeiros 16 dias deste ano, 18 casos de assassinatos de homossexuais foram noticiados pela mídia. Esse aumento da violência contra xs homo e transexuais tem ligação direta com o avanço ideológico reacionário levado à frente pela bancada parlamentar fundamentalista, que se baseia nos laços profundos do Estado com a Igreja e se legitima com a defesa cristã da “moral e dos bons costumes”. Isso ficou claro tanto na posse de Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos, com o aval do governo federal e da maioria absoluta dos deputados durante 2013, quanto com a vinda do Papa para o Brasil em meio às mobilizações nacionais da juventude. Todas as medidas dos governos com relação à diversidade sexual, longe de significarem um fim aos casos de violência contra xs homo e transexuais e um progresso no sentido de uma sociedade mais igualitária e sexualmente livre, tem polarizado a sociedade cada vez mais, e nessa polarização, o lado que o Estado e as suas instituições tomam é sempre oposto ao lado dxs homo e transexuais.

Contra a impunidade dos assassinatos de homo e transexuais no Brasil!
Nenhuma confiança no Estado e nas suas instituições!

Com relação ao Kaique, a Polícia Militar abriu B.O. na 2º DP (Bom Retiro), dizendo ter encontrado o corpo sob uma ponte e alegando suicídio, o Delegado da Polícia Civil registrou assim o caso dizendo “não ter detectado nenhum indício que pudesse contrariar essa informação”. Os médicos peritos do IML, ligados à Polícia Civil, somente confirmaram que o corpo de Kaique estava lá após três tentativas frustradas da família em procurá-lo no próprio IML, e justificam os hematomas no corpo alegando deterioração pelo tempo que lá teria permanecido fora da geladeira (o motivo alegado é superlotação), justificam a desfiguração no rosto com a suposta queda da ponte e dizem desconhecer a existência da barra de ferro transfixada ao corpo (sic!). No caso de Toni, todos sabemos que a grande maioria das mulheres e travestis em situação de prostituição são coagidas a pagar ‘tributo’ a policiais militares que rondam as ruas (pontos) para não serem reprimidas, o que eleva essa podre instituição e seus membros também ao título de cafetões e aliciadores.
A serviço dos interesses de quem está tanta enrolação e informações incoerentes sobre a morte de Kaique? O que e quem se quer encobrir? Não podemos ter nenhuma ilusão nas instituições deste Estado, menos ainda na Polícia, seja ela civil ou militar. Seu racismo é evidenciado cotidianamente nas favelas e periferias, contra a juventude pobre e negra, e agora é deixado ainda mais explícito na repressão feroz aos “rolezinhos”. Seu machismo é compreendido por todas as mulheres que por algum motivo tenham precisado ir às Delegacias da Mulher. E sua homofobia se escancara em cada violência ou assassinato de umx homossexual ou travesti, seja pela participação direta, seja pelo constrangimento, humilhação, omissão e descaso ao tratar de vítimas de homofobia.
Há anos está em tramitação o PLC 122/06 que criminalizaria a homofobia. Muitos homossexuais têm se agarrado a essa luta com a esperança de ser uma via para combater a homofobia em nosso país. Infelizmente, setores da esquerda e dos movimentos sociais defendem essa lei de maneira a criar ilusões de que por aprovações de leis poderíamos acabar com a discriminação no trabalho, nas escolas, e tantos outros espaços públicos A grande questão que deve ser discutida é quais seriam os interesses do Estado em promulgar uma lei que vai contra toda a ordem vigente baseada de forma aberta na opressão e na perseguição aos homossexuais. Temos a experiência da Lei Maria da Penha, e da criminalização do racismo, e vemos diariamente esse próprio Estado e sua justiça legitimarem o feminicídio e o genocídio contra o povo negro, seja culpabilizando a mulher, seja marginalizando o negro. Assim como junho deixou claro para os governantes que não estávamos nas ruas só por 20 centavos, temos que gritar bem alto que não é só pela PLC 122, é pela naturalização da diversidade sexual e pela livre construção de gênero. E que nos colocamos não somente contra a polícia que persegue, mata e tortura nas periferias, mas contra todo esse aparato jurídico (judiciário, executivo e legislativo) que está a serviço de manter os pactos do Estado com as instituições religiosas e contra os trabalhadores e a população pobre, negra e LGBTTI.

Resgatar com a juventude de junho o espírito das travestis e homossexuais de Stonewall

A juventude que saiu às ruas em junho exigindo seu direito à cidade, contra as tarifas do transporte, hoje sai às ruas “de rolezinho” para exigir o seu direito ao lazer, ocupa os centros comerciais e estacionamentos dos shoppings contra a proibição dos bailes funks na periferia e os toques de recolher. Kaique Augusto é parte dessa juventude que quer dar um basta à segregação imposta em nosso país, que em São Paulo divide a periferia do centro da cidade, que impede a juventude negra de ter acesso ao lazer e à cultura, que faz dos bairros periféricos grandes bairros-dormitórios, que impede que a juventude possa expressar abertamente sua sexualidade e conhecer o seu corpo e o seu prazer. É contra esse Estado, os seus governos e os partidos do seu regime que a juventude se levanta e exige seus direitos!
Nós, que nos organizamos como “Juventude às Ruas” estamos presente no Lgo. do Arouche, neste ato, em solidariedade aos familiares e amigos de Kaique Augusto e tantos outros Kaiques que silenciosamente são assassinados por este Estado. Estamos aqui para exigir investigação e justiça para a família de Kaique, o que só é possível se for organizada por uma comissão, independente do Estado, formada pelos familiares, membros dos Direitos Humanos e organizações políticas de gênero e sexualidade. Estamos aqui para resgatar o que de realmente revolucionário deixou as lições do levante de Stonewall, dxs homo e transexuais contra a violência policial: que foi a organização dxs homo e transexuais para garantir sua defesa; que foi nenhuma confiança nesse Estado; que foi a compreensão que a garantia de fato da liberdade sexual só pode ser alcançada superando o sistema social e econômico do capitalismo, o qual, para existir, se apoia na miséria sexual e, portanto, na repressão sexual dos que não se submetem à miséria normativa imposta; e, principalmente, que é somente se organizando com a classe trabalhadora, aqueles que têm nas mãos as ferramentas para transformar essa ordem econômica e dar impulso a uma nova organização social, que é possível lutar pela liberdade sexual.

* Investigação e justiça! Por uma Comissão Independente do Estado para averiguar, julgar e punir os responsáveis pela morte de Kaique, Toni e todx homo e transexuais!
* Pela construção de áreas e espaços públicos (praças e clubes) de lazer, cultura e prazer para a juventude!
* Basta de genocídio ao povo negro! Fim da polícia!
* Basta de violência contra homo e transexuais! Educação sexual nas escolas organizada pelos professores, estudantes e agremiações estudantis e sindicais!

NÃO ESQUECEREMOS, QUEREMOS SABER:
CADÊ O AMARILDO? QUEM MATOU KAIQUE?

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

NOTA DE REPÚDIO À ESCALADA REPRESSIVA DA POLÍCIA NA ZONA LESTE

Nas últimas semanas tivemos acesso a notícias atrozes vindas da população da Zona Leste de São Paulo. A Polícia Militar ataca os moradores e moradoras do Jardim Elba e da Favela da Ilha num regime de terror. Invasões de casas, abordagens truculentas, toques de recolher, práticas de tortura com fios desencapados e baldes de água, estabelecimentos do comércio fechados, espancamentos.

Este cenário se deu após a morte de um policial na região. Em represália ao ocorrido, numa espécie de vingança, os policiais simplesmente disseram que a população deveria permanecer em “luto”, assim como a corporação policial.

Revoltados com a rotina de medo imposta pela força repressiva do Estado, a população se organizou em uma manifestação contra a violência da PM no dia 28 de Dezembro fechando a passagem que liga Santo André a São Paulo. A Polícia novamente usou de violência com bombas de gás e balas de borracha.

Apesar da organização da população, que tem uma tradição de lutas por outras demandas, uma vez que sofre pela falta de equipamentos urbanos, as práticas de intimidação continuaram nos primeiros dias do ano, com denúncias acerca de pessoas baleadas por homens não identificados em motos.

Essas notícias emergem ao mesmo tempo em que o apartheid brasileiro é desnudado pelos “rolezinhos” dos jovens de periferia de São Paulo. Os/As jovens negros/as impedidos/as de passear nos espaços elitizados que são os shoppings, a não ser como trabalhadores/as precarizados/as, são os mesmos que convivem com a repressão policial cotidiana, bem como com diversas privações na vida, entre elas a de espaços de lazer nas periferias.

A práticas de violência na zona Leste, os rolezinhos, a crise penitenciaria explodida recentemente no Maranhão, os índices que apontam limites ao crescimento econômico liberados pelo Dieese nos primeiros dias de Janeiro, são partes de um mesmo momento histórico que passamos, evidenciado desde 2008 no mundo, e desde Junho de 2013 no Brasil, com um novo período da luta de classes nacional que está em aberto.

A truculência policial na Zona Leste é resultado da história de um país construído na base da chibata. Por todos os lados a classe dominante, quando não consegue por outros meios, exerce sua dominação com truculência, organizando sua violência através da polícia, instituição calcada no racismo. Esta história não pode mais ser invisibilisada, e não faltarão esforços para trazê-la à tona. Nós da Juventude às Ruas expressamos aqui total repúdio às práticas violentas da polícia na Zona Leste!
Todo apoio à população do Jardim Elba e da Favela da Ilha!

Pelo fim das Polícias!

Foto publicada junto a artigo disponível em http://www.brasildefato.com.br/node/27075#.UtWUdhfaj_M.facebook


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

TODOS AO ATO DE AMANHÃ CONTRA AS DEMISSÕES DOS TRABALHADORES DA GM!




Declaração da Juventude ÁS RUAS construindo a ANEL nas lutas!

As jornadas de Junho mostraram a importância da juventude tomar as ruas, com sua disposição e força para lutar, comprovou que somente com fortes mobilizações se pode arrancar nossos direitos.  Contra a arrogância dos governos envolvidos em escândalos de corrupção, a juventude mostrou o caminho de luta que logo foi seguido por diversos outros setores sociais. Junho demonstrou que se não houvessem as mobilizações nas ruas, o enfrentamento direto com o Estado e sua polícia, e confiança em nossas próprias forças, não haveríamos tornando o impossível em realidade.
                Em meio as festas de fim de ano, a General Motors demitiu mais de 400 trabalhadores, sem nenhuma justificativa. Com o aumento de lucros cada vez maior, a GM demonstra que independente das políticas que o governo cria para favorecer os patrões, a única segurança dos trabalhadores permanece na sua força de mobilização, com seus próprios métodos.  Isso é, quando as coisas vão bem para o patrão, este busca vias para melhorar ainda mais, como vem fazendo com os PDVs (Plano de Demissão “Voluntária”), Flexibilização dos empregos, redução do salário de 3.500 para 1.800, etc.  Com as férias coletivas até dia 20 de janeiro, é preciso cercar de solidariedade todos trabalhadores demitidos, demonstrando que esse ataque é em primeiro lugar um ataque ao conjunto dos trabalhadores da GM, não apenas dos demitidos, mas também é contra o conjunto da classe trabalhadora, diretamente porque afeta diversas outras empresas que dependem desses trabalhos, como também porque contribui para educar os trabalhadores a aceitarem sua submissão aos patrões.

Cercar de solidariedade ativa a luta dos trabalhadores!

Ontem (08/01) nós da Juventude ÀS RUAS! fomos a assembleia em São José dos Campus levar nossa solidariedade incondicional a estes trabalhadores, que lutam pelos seus empregos e pela garantia de seus direitos. A assembleia aprovou o ato de sexta-feira, 10 de Janeiro, as 15:30 na Martins Fontes, Centro de São Paulo, que nós dispomos de mobilizar nossas pequenas forças para fortalecer essa luta.
Para barrar as demissões e reverter todos os ataques, é preciso que os trabalhadores da GM saibam que não estão sozinhos na luta contra o governo e seu patrão. É preciso que a força de Junho e a fortaleza da unidade entre os professores do Rio de Janeiro e da juventude no ano passado, sejam exemplos que possamos retomar a partir de colocar todas as entidades de trabalhadores, entidades estudantis a serviço de nacionalizar essa luta com uma forte campanha contra as demissões. Desde a ANEL devemos discutir em nossas executivas e exigir que a Oposição de Esquerda da UNE se some a construção, desde as entidades estudantis e nossos locais de estudo, uma forte campanha em defesa dos  trabalhadores e a organizar uma verdadeira aliança operária-estudantil com medidas concretas.

Devemos organizar um forte ato de juventude, de diversas universidades, em apoio a luta dos trabalhadores e contra as demissões, em frente aos escritórios da GM que possamos construir desde as bases para demonstrar uma solidariedade ativa e militante como expressão da verdadeira aliança operária estudantil! ÁS RUAS!



TODOS AO ATO!
10 de Janeiro, as 15:30
Rua Martins Fontes nº 109 PRÓXIMO AO METRO ANHANGABAU