Por Will Santos, sociologia Unicamp
Nos anos 80 a Banda 'punk' Blondie já em sua fase de
mudança sonora do rock para o pop, usando elementos do disco music, produziu e lançou a música
'accidentes never happen'. Com uma abertura marcante na letra e na melodia a
banda que se chamava 'loira', conforme a tradução literal para o português fez
sucesso no mundo pop com sua cantora dizendo: "Não, eu não acredito em
sorte \ Não, eu não acredito mais em circunstâncias Acidentes nunca acontecem
em um mundo perfeito\ Então eu não acreditarei na sorte."
Na sexta feira do dia 25 de outubro de 2013 e nos dias que
se seguiram a imprensa paulistana e a presidenta Dilma realizaram um verdadeiro
vendaval devido a agressão física de praticantes da tática Black Bloc que
espancaram um policial de alta patente em São Paulo no ato convocado pelo
Movimento Passe Livre para revogação da passagem de três reais, ao ponto de a
presidenta publicar em seu ‘twitter’ (o que não deixa de ser irônico), sua
solidariedade ao Coronel. O que surpreendeu a todos eles não foi apenas o seu (re)
sentimento em relação a população agredir o Estado, de modo direto, de modo
violento, de modo físico. O que é uma ação nova para o Brasil, raramente são os
cidadãos que de fato agridem o Estado de modo direto, a não ser como ocorreu
num passado não tão remoto - na guerrilha urbana e na mata - protagonizada
pelos guerrilheiros que lutavam contra a ditadura, cujo fato mais marcante é a
guerrilha do Araguaia. Ou o poder paralelo do tráfico (PCC, por exemplo). Esta
organização não tem qualquer caráter cidadão, digamos assim, tão pouco suas
ações possuem qualquer programa revolucionário a não ser a reivindicação por “paz,
justiça e liberdade” aos seus integrantes.
Estes últimos protagonizaram um verdadeiro ataque frontal e direto, anos
atrás, queimando ônibus e assassinando policiais, embora este mesmo poder tenha
relação muito profunda com o próprio Estado - e sabemos que as agressões foram
justamente o resultado da quebra de acordos entre os dois lados, ambos, diga-se
de passagem, são opressores dos moradores das favelas.
O que me surpreendeu é que neste dia embora eu não
estivesse no ato, mas muito próximo dele, e ‘solidário’ (tal como a presidenta)
aos colegas que nele estavam, mas no meu caso compunham o ato pela
reivindicação da revogação dos três reais, pude não apenas ver diversos carros
da ROTA (Ronda Ostensiva Tobias Aguiar) carregando cachorros (pastor alemão) e
amedrontando a população em sua ânsia de violência contra possíveis
manifestantes, passando lentamente e de modo intimidatório. O que me foi
surpresa foi o fato de descobrir só no domingo, dia 27 de outubro, que a presidenta
– ex torturada da ditadura pela polícia política do DOPS (Departamento de Ordem
Política e Social) - classificou aos Black Bloc´s como “barbáries
antidemocráticas”, ao mesmo tempo em que a imprensa manipulava sentimentos
editando diversas matérias – uma delas veiculada na TV Globo e outra no jornal
Folha de São Paulo – que ouviam apenas o lado do Coronel da Polícia Militar
agredido na noite, procurando representar (ou diria forjar) uma suposta 'impopularidade'
dos Black Blocs na população ‘paulistana’, uma impopularidade que chegaria aos
95% (quais paulistanos o jornal entrevistou me pergunto?), tal atuação fez meu
raciocínio simplista responder a ação do seguinte modo: "só quem nunca foi
agredido pela polícia teria sido contra a agressão dos Black´s".
Os cientistas sociais pequenos burgueses poderiam
me contradizer alegando que tal raciocínio não segue uma avaliação racional e
condizente com a análise científica, que os Black´s são fascistas (Marilena Chauí) e
o Estado tem de atuar para manter a ordem diante dos baderneiros, ou seja, dos
vândalos, que ‘atuam nas manifestações pra depredar o patrimônio público e
privado’, sendo assim teria sido a partir da violência deles que a polícia atuou
em nome da ordem, da paz e do protesto pacífico (quer dizer ordeiro).
Esta lógica acadêmica poderia estar correta: a
ser não pela realidade.
Vários foram os motivos para ter surgido o
Punk Rock enquanto música e modo de ser da juventude europeia e americana nos
meados dos anos 1970: o visual, a decadência musical, as influências do cinema,
da imigração, da música, mas, principalmente a crise política e social da
Inglaterra e dos EUA neste período. Não deixa de ser um fato que sejam as
bandas mais radicais de esquerda - influenciadas pelo Hard Core, pelo Ska&Reggae,
a Soul Músic e o Rock dos anos 1950 - ou de direita influenciadas pelo OI!,
tiveram em comum a revolta contra a pobreza política e econômica – e a opressão
cotidiana expressa através do sentimento do ‘no future’
(Sex Pistols) - cujo fator estimulante deste quadro social foi a Reestruturação Produtiva e a opressão
política derivada da Restauração Burguesa,
durante os governos de Margaret Thatcher
e de Ronald Reagan. A revolta era contra toda uma condição política, econômica,
educacional e cultural como o ataque aos sindicatos, os acordos econômicos que
destruíram as leis trabalhistas e que impulsionaram as formas de trabalho
terceirizadas e precárias, o desânimo com as desigualdades no acesso ao ensino
superior, cujos efeitos ainda permanecem, mas, também, as políticas de
criminalização da migração, dos bairros ‘étnicos’ onde residiram os negros e os
asiáticos, a criminalização da juventude e o retorno do imperialismo através da
Guerra das Malvinas (que promoveu o retorno do nacionalismo).
Pois bem, foi no encontro com os imigrantes e
a luta dos sindicatos, no
resgate de musicistas recriando, com isto, novas sonoridades e estilos musicais
que os punkers mudaram o cenário sócio-cultural de sua época. Sua inovação não
foi econômica, mas articulava-se á uma transformação da estrutura política,
portanto, não se tratou de uma revolução, mas foi importante musicalmente e, é
claro, socialmente, pois forneceu nova possibilidade de atitude aos jovens
daquela época repercutindo politicamente naqueles países. O Punk Rock como um
estilo de vida se tornou um referencial naquele momento histórico á muitos
jovens que viviam na classe trabalhadora da época. O Punk Rock e o modo de ser
punk deu toda uma força a juventude dos anos 1970, jovens estes que partiam das
periferias para agredir as escolas e seus modos de opressão institucional, as
ruas e, por fim, o próprio Estado: não foram poucos os punks que se colocaram
em combate nos atos promovidos pelos sindicatos, enfrentando os nazis,
aprendendo aí como a polícia era um perigo e como ela era o Estado, como ela é
genocida e racista – a mesma polícia que os reprimia em seus shows e nos atos e
que também acobertava os crimes cometidos pelas gag´s neonazistas contra
trabalhadores e estrangeiros.
No Brasil os Punks eram todos, ao menos no
início, das favelas e não precisavam ao contrário dos Punkers europeus ir ás
passeatas para saber do perigo que era a polícia, no caso do país, pior ainda, tratava-se
da Polícia Militar. Quer dizer, não
foi apenas as músicas inglesas e americana de punk rock – e, portanto um estilo
de ser e de agir – que marcou o surgimento dos Punkers no Brasil, mas as atitudes
de enfrentamento mais opressoras que as que viviam seus contemporâneos naqueles
países. O surgimento do Punk Rock e do modo de ser Punk aqui ocorreu durante a
ditadura militar, no contexto da presença da ROTA e de seus milhares de atos
arbitrários e de assassinatos cometidos nas favelas, descrito no livro ‘Rota
66’ (1993) de Cacco Barcellos. Foi a experiência histórica da presença da polícia
genocida nas favelas brasileiras e dos diversos assassinatos que já ocorriam
que os fez se oporem á ela e a enfrenta-la. Só quem viveu os anos 70, 80 e 90
nas favelas paulistanas e também nas ruas, nos shows de rock ou na volta
destes, seja punk ou não, sabe o que era sair de casa e ver algum 'presunto'
pela manhã quando se ia para a escola ou para o trabalho, assassinado pela
polícia ou por traficantes.
Também domingo dia 27 de outubro na Vila
Medeiros na Zona Norte de São Paulo mais uma vez a juventude foi marcada pelo
assassinado "acidental" - como requer a polícia e a mesma imprensa
que criminaliza aos Blacks como já fez aos Punks - por um membro da Polícia Militar
do Estado de São Paulo. A Polícia Militar argumenta que a mesma foi chamada ao
local após uma denúncia de perturbação do sossego, pois um carro tocava Funk
com volume alto na rua Bacurizinho. O jovem assassinado na favela era da favela,
trabalhava em uma lanchonete. Não, ele não era punk, também não era um atuante
da tática Black Bloc. Chamava-se Douglas Rodrigues, tinha 17 anos, foi abordado
porque foi identificado como um ‘suspeito’. Ele estava, no domingo, em seu
carro quando foi abordado por um policial. Sua mãe comenta que o filho, sem
entender o que aconteceu e o motivo do acontecido, ainda havia perguntado ao
policial: “porque o senhor atirou em mim?”. A polícia responde de modo bem
racional (tal como Chauí) que foi um acidente (?) o disparou: “a porta da
viatura bateu na arma do policial militar”.
Não é a primeira vez também que a população
da periferia se revolta e resolve partir pra cima do Estado após a morte de um
jovem, na favela, pela polícia. Em 2009 moradores da Favela de Heliópolis se
revoltaram contra o Estado quando este através da Polícia (GCM – de São
Caetano) entrou no local perseguindo criminosos e assassinou Ana Cristina também
de 17 anos com um tiro no pescoço. A garota se protegia do tiroteio, pneus e
ônibus foram queimados, barricadas montadas, houve também depredação (ou seria
vandalismo?), e o protesto foi reprimido, primeiro, por sua criminalização (a polícia,
no caso, argumentou que os moradores atuaram porque ganhariam ‘cesta básica’ de
traficantes), em seguida, usou da força de elite: GOE (Grupo de Operações
Especiais), o Garra (Grupo de Repressão a Roubos e Assaltos), gás lacrimogêneo,
bombas de efeito moral e balas de borracha, foram presos 21 pessoas.
Desta vez, ao contrário do que vem fazendo
(nada novo, portanto, a atuação dos Blackers) a população se revoltou e
'vandalizou' (ou diria escandalizou) a imprensa e o Estado, porque inspirados (tal
com os Punkers se inspiraram na arte e na atuação política dos sindicatos) pelos
seus métodos já conhecidos - métodos de revolta históricos dos moradores das
favelas contra a atuação opressora do Estado - e das revoltas de junho, desta
vez, além de queimarem ônibus, saquearem lojas, depredarem, jogavam pedras na
polícia. Diversos jovens, embora não marchassem - como é comum em atos
políticos – não empunhavam palavras de ordem, mas destruíam agencias bancárias
queimavam caminhões e conseguiram paralisar avenidas como a Edu Chaves, Roland
Garros e Luís Stamatis além da ‘Rodovia Fernão Dias’, portanto, paralisaram o
movimento de caminhões (que claro leva os produtos [o valor de troca] das
indústrias de São Paulo para Minas Gerais e de lá para cá). Como de praxe a
polícia criminalizou e prendeu 90 pessoas. Porém o conflito não encerrou no
domingo. Não se resumiu aos três ônibus lotados de moradores que foram para o
enterro do jovem, mas, continuou na terça feira, quando o Estado em uma atuação
violentamente nada pacífica invadiu a favela com carros da tática, da Rota e
Helicóptero atirando com bala de borracha e munição ‘dura’ (real), jogando
bombas e assassinando no Bairro mais um jovem (alegando que este pretendia
cometer um assalto). Sim se trata de uma atuação que o próprio Estado sabe que
é transformadora ao ponto de o Ministro da Justiça José Eduardo Cardoso propor
se reunir nesta quinta feira (31/10/2013) com os secretários de segurança
pública de São Paulo (Fernando Grella Vieira) e do Rio de Janeiro (José Mariano
Beltrame), com o objetivo de traçar uma ‘estratégia conjunta entre a polícia
federal e as estaduais para dar uma resposta mais ágil aos atos de vandalismo’,
envolvendo com isto o ministério público e o judiciário.
No Brasil as pessoas que moram nas favelas
desde o surgimento delas já eram assassinadas, o período militar apenas
intensificou os assassinatos com aval baseado na "segurança" nacional,
e tal prática continuou durante todos os anos 1990 e ainda permanece, tal como
neste caso da Zona Norte. Isto já foi mais do que descrito pelas músicas dos
Racionais MC´s, do Facção Central e do mais recente MC da Leste. A revolta da
população da Zona Norte - a revolta da classe perigosa como classificam os
"sociólogos" - contra o genocídio é uma ação política. O assassinato
também. De nada foi acidental porque se trata de uma prática histórica da
polícia, afinal, acidentes nunca acontecem. Não é, infelizmente, novidade, pois,
vem acontecendo há tempos. Este
caso foi, porém, o primeiro de maior repercussão após o caso (do pedreiro
torturado) Amarildo que a imprensa divulgou.
Nada de novo há no fronte. E nada tem haver
com os Blacks. A morte do jovem não foi acidental, como afirma a polícia, mas é
histórica, todos sabem da forma como a polícia atua no Brasil: primeiro mata
depois pergunta. Acontece que desta vez e pelo contexto político nacional está
dado que a classe trabalhadora não vai mais aceitar mentiras, não vai mais
aceitar acidentes politicamente articulados. Embora, a atuação dos jovens e dos
moradores em geral da Vila Medeiros não siga um programa político, nem uma
estratégia e não carregue símbolos, ela é política. Não vem de um espontaneismo,
muito ao contrário vem da sinceridade do cansaço de séculos de exclusão e de
violência cotidiana, é o resultado muito bem refletido sobre a pobreza, a
criminalização, a violência do Estado e vem da vontade de viver. Assim, é
provável que esteja sendo gestado nestes lugares, e talvez há mais tempos do
que percebemos, elementos de revolução política, cultural e econômica que nem
os Blacks, nem os Punkers, nem outro grupo pode gestar. A morte do jovem está historicamente
ligada ao caso Amarildo, a revolta Zumbi, as revoltas dos jovens do RAP nos
anos 80/90, só que com um elemento novo: o gigante - porque no Brasil as
favelas são populações, são uma classe política e econômica - acordou e está
disposto a enfrentar no front, nas ruas, e não apenas nas urnas, o Estado.