Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um "contra-poder" inquilino do estado burguês, ou estratégia para vencer os capitalistas? Um debate de estratégias com o autonomismo

por João de Regina







Após três anos da crise não só as contradições econômicas se aprofundaram, como as políticas vêm adquirindo caráter cada vez mais determinante. O final de 2011 mostrou como governos e empresários dos principais países capitalistas não conseguem encontrar soluções duráveis para os problemas decorrentes da crise e como esses problemas evidenciam-se cada vez mais como encruzilhadas que só poderão ser resolvidas no terreno da política e da luta de classes. 
Politicamente 2011 se iniciou com a primavera árabe que colocou em cheque ditaduras como a da Tunísia e do Egito, e fizeram do mundo árabe um barril de pólvora onde as massas e a ação direta tiveram tanto protagonismo que a palavra revolução voltou a ser uma palavra chave em todo o mundo. Não por acaso a ocupação da praça Tahrir passou a ser uma referência da juventude que se levantava em todo o mundo. Em maio, as mobilizações na Espanha, que adquiriu o nome de “movimento dos indignados”, renomeava a praça do sol, agora ocupada, de Tahrir.
A juventude sem emprego e sem estudo da Espanha, atacada por um índice de desemprego de mais de 20%, não saiu às ruas sozinha. Foi acompanhada por jovens gregos que ocuparam a praça Syntagma e se aliaram com várias ações de trabalhadores que lutavam para que a crise não fosse paga por eles. Na Grécia não só a juventude estava nas ruas como os trabalhadores efetivaram inúmeras greves gerais e fortíssimas mobilizações nos serviços públicos, lutando contra os planos de austeridade. Em Outubro, essas mobilizações arriscaram iniciativas globais com o movimento 15-O. Em mais de 85 países ocorreram mobilizações ainda que as mais massivas tenha sido de fato nos países já afetados pela crise. Neste processo a ocupação de Wall Street teve importante destaque ainda que o pacifismo apresentado por ela contrastasse com os enfrentamentos de rua que aconteceram em Atenas e Milão.
Ainda que na América Latina possamos dizer que os efeitos da crise aparecem indiretamente, entendemos que as mobilizações estudantis no Chile e a luta dos povos originários na Bolívia são antecipações de conflitos ainda maiores.
Apostamos que essas mobilizações da juventude que combinam, ainda que de forma bem desigual, métodos radicais e aliança com os trabalhadores, são parte de um novo momento histórico onde as massas e métodos radicais de ação direta voltam a possuir protagonismos e o capitalismo, a burguesia e suas formas de representação política mostram-se cada vez mais ineficientes em dar soluções aos problemas derivados de seu próprio modo de produção. Assim, franqueia-se um período de enfrentamentos mais abertos entre as mobilizações de massa e o estado capitalista.



Autonomismo como parte de um espírito de época.

Entendemos que a nova etapa que se abre desmascarou características ideológicas de um período anterior. Este era marcado por idéias que partiam de grandes teorias sociais e iam até o senso comum, passando pelos debates dentro da própria esquerda. Do ponto de vista subjetivo, em todo o mundo e de forma massiva esta época, caracterizada pelo neo-liberalismo e o fim das experiências dos estados operários, significou um fortalecimento do individualismo, da vida privada, da fragmentação, objetiva e subjetiva, dos trabalhadores e do imediatismo sem precedentes (enfim, a recomposição das posições morais da burguesia nas distintas classes). Estes valores contribuíram para apagar do horizonte dos jovens e trabalhadores a idéia de revolução e de socialismo.
Do ponto de vista teórico, duas das ideias mais disseminadas eram a de que o “fim da história” havia chegado e de que a classe operária não existia mais. Essas ideologias, ainda que com diversos matizes, se apoiavam no fim dos estados socialistas, para afirmarem que havíamos chegado a um ponto onde as grandes rupturas históricas haviam ficado para trás e a democracia e o capitalismo se desenvolveriam de forma equilibrada rumo a superação de suas contradições.
  Na obra de Fukuyama, grande paladino da tese do fim da história e financiado pelo próprio imperialismo, o conteúdo ideológico dessas teses fica mais evidente, porém esse espírito de época teve expressões críticas que preponderam também na esquerda e nos movimentos de contestação. Apesar de possuírem um verniz anticapitalista as teses abaixo são para nós ideologias deste período que caracterizamos como restauração burguesa, ou seja, de restauração das posições da burguesia através da derrota física e moral do movimento operário organizado da época.
1. a forma estado nação havia sido superada pelo próprio capitalismo;
2. o capital se globalizou a ponto de deixar para trás conflitos inter-imperialistas clássicos do século XX.
3.Tanto a riqueza quanto a pobreza estariam sendo distribuídas por todo o globo, o que não mais permitiria falarmos sobre países imperialistas e países semi-coloniais.
4. Não seria mais classe operária o sujeito da transformação social, mas sim a ideia de uma “multidão”.
Essas teses eram defendidas por militantes e ativistas que apresentaram uma “nova” concepção de transformação social: de que não seria necessário um momento de transição para o comunismo; nem a construção de uma forma de poder transitória que pudesse por fim à resistência desesperada dos exploradores privados de seu poder, para a possibilidade do surgimento de um novo modo de produção; da negação da necessidade de um momento insurrecional e militar para a derrubada da burguesia e da construção de um novo poder revolucionário. A estratégia que estaria no lugar seria a da construção de experiências de “contra poder” ligadas a movimentos sem identificação de classe que explorariam as brechas dentro do capitalismo. Algumas vezes estas teses chegaram ao ponto de negar a possibilidade de colocar fim ao capitalismo e se contentaram em se transformar em estratégias de vivência dentro dele próprio.
Ao conjunto dessas teses e dessa negativa da necessidade de uma estratégia para derrubar o capitalismo chamamos de autonomismo. Evidentemente, este não se formou enquanto um movimento único e homogêneo, mas sim com distintas apropriações destas. Mesmo assim compreendemos que o autonomismo pode ser considerado como a recusa do enfrentamento com o estado e a proposição de alternativas para se viver à margem dele. Este ponto é importante, pois muitas vezes o autonomismo se emaranha nas concepções anarquistas. Ainda que estes dois compartilhem a recusa de um momento de transição para atingir o comunismo entendemos que o autonomismo volta às concepções do socialismo utópico uma vez que, diferentemente do anarquismo, se recusa à destruição do estado capitalista de forma insurrecional e propõem experiências paralelas. Não há frase melhor para resumir esse conjunto de ideias do que o titulo do livro de John Holloway, inspirador do movimento zapatista, “Mudar o mundo sem tomar o poder”.
Se pela direita o espírito da época dizia que o capitalismo, por si mesmo, havia chegado ao fim da história e enterrado a possibilidade de um mundo socialista, pela esquerda propunha que fechássemos os olhos para o poder do capital, nos esquivássemos da “tentação do poder do estado”, e nos contentássemos com experiências de contra-poder. Ora, com um verniz de novidade, acusando o socialismo de uma concepção presa ao século XIX, as ideias dos anos noventa esqueceram de dizer que também compartilhavam de fundamentos de tal século: os pró-capitalistas não falaram que suas promessas eram as mesmas do período do capitalismo de livre concorrência; e os “anti capitalistas” esconderam que compartilhavam do sonho dos primórdios da história do socialismo, a utopia de ter experiências livres do estado e do capital sem destruir o capitalismo.



A crise econômica e as teses autonomistas



Entendemos que o avançar da crise econômica vem demonstrando cada vez mais os erros das teses autonomistas. A crise da União Europeia evidenciou como o estado nacional ainda é fundamento da economia capitalista e que ela própria não era um exemplo de “divisão de riqueza e pobreza entre os países” mas uma tentativa de dominação das potências imperialistas que serviu como forma de descarregar sobre as nações de menos poder econômico os efeitos da crise capitalista. É impossível compreender as crises políticas como as que ocorrem na Grécia e na Itália por fora dos conflitos entre as nações e os interesses de recolonização de algumas nações da Europa. No mesmo sentido não temos no horizonte uma diminuição dos conflitos inter-imperialistas, mas muito provavelmente o contrário.
A dificuldade dos Estados Unidos em lidar com a primavera árabe, e a crescente insatisfação com a política sionista mostrou como de fato existe uma crise de hegemonia do imperialismo norte-americano, mas que de forma alguma isto significa diluição do imperialismo. Pelo contrário, o silêncio dos Estados Unidos frente à repressão da Junta militar no Egito evidencia os interesses imperialistas sobre a região (como a manutenção do acordo de paz de Camp David com Israel).
Porém, com certeza, o maior desmentido autonomista é a tese do fim da classe operária. As fortes mobilizações na França, as greves gerais na Grécia, a fundamental importância da greve geral para a queda de Mubarak são exemplos do posicionamento estratégico que possui a classe operária para a revolução e do fato de que ela é o sujeito revolucionário decisivo para as vitórias das mobilizações.



O autonomismo e as mobilizações atuais.



De fato uma analogia muito presente atualmente é a identificação dos movimentos de juventude de hoje com o movimento “no global” e com as jornadas de Seattle do final dos anos noventa. Essa analogia mostra que ainda existe uma forte influência das ideias autonomistas entre a juventude que se levanta frente à crise econômica. Não por acaso, pensadores de muita expressão no movimento no global como Antonio Negri e Naomi Klein rapidamente tentaram influenciar o movimento dos indignados.
As mobilizações anticapitalistas apresentaram importantes pontos progressivos, mas as concepções autonomistas foram os limites deste movimento. A ideia da falência do estado nação e de que o capitalismo precisava só de um “empurrãozinho” das multidôes para transformar seus avanços de força produtiva em coletivização - tese defendida por Negri - impossibilitou que a radicalização do movimento adquirisse forma de confronto direto contra o estado e debilitou experiências de organização que pudessem levar o movimento a desenvolver estratégias que pudessem colocar em xeque os governos e negócios capitalistas.
Essas ideias ainda possuem força entre os ativistas, os indignados. Porém podemos dizer que há duas concepções que podem influir sobre o horizonte deste movimento. Uma, a autonomista, insiste que os métodos e os fins são as mesmas coisas e se recusam a ir a fundo nas questões programáticas e organizativas que possam desenvolver o movimento. Nessa concepção os acampamentos, democracia direta e os atos são experiências mas não “métodos de guerra”. Nessa perspectiva ganham força posturas anti sindicais, pacifistas e alternativistas. Onde o objetivo não é o enfrentamento com o estado, governo e instituições repressoras mas a própria mobilização. É impossível não identificar essas concepções com antiga máxima reformista “o objetivo não é nada, o movimento é tudo”.
Por outro lado é inegável que a nova conjuntura imposta pela crise econômica impõe a experiência que mostra a necessidade de ter programas claros de combate ao capitalismo, à burguesia e a seus defensores. As mobilizações na Grécia possuíram exemplos de aliança da juventude com os trabalhadores, de enfrentamento encarniçado contra a polícia e de reivindicações que iam contra os planos de austeridade se enfrentando diretamente com o governo. E o Egito que serviu de exemplo para os movimento dos indignados segue o segundo ato de seu processo revolucionário se enfrentando contra o Exército e a junta militar com o aprendizado de “que não basta o movimento de acampamento; a greve geral foi fundamental para derrubar Mubarak e será para continuar a revolução.”



O Brasil no horizonte da crise econômica e das mobilizações de massas.



Apesar da crise econômica ter atingido o Brasil de forma indireta e o discurso do Brasil potência ainda ressoar, houve experiências no país que, podemos dizer, estavam contaminadas com os novos ares. Houve um verdadeiro espírito marchista em São Paulo que possuía referência nas mobilizações da juventude internacional, Marchas “da maconha”, “da liberdade”, slut walk, e o próprio 15-O, apesar de com menos peso, possuíram algum tipo de visibilidade.
Combinado a isso tivemos greves de trabalhadores precarizados e terceirizados em Jirau, na construção dos estádios para copa do mundo e na USP que mostra potencial para que nos grandes enfrentamento futuros o Brasil compartilhe das experiências mais avançadas das mobilizações internacionais, a radicalização de trabalhadores super-explorados. Essas mobilizações possuem um conteúdo político bem profundo uma vez que questionam um dos principais pilares do projeto de país do lulismo. Desmascara o nevoeiro e falatório do Brasil potência, esconde a precarização, a repressão policial e a super-exploração contra os trabalhadores.
Porém, essas mobilizações foram fenômenos bem separados e as marchas do estado de São Paulo possuíram muito mais um conteúdo autonomista do que um espírito de radicalização e pró-operário.
Hoje o país vive um debate nacional aberto pelas mobilizações dos estudantes da USP contra a polícia. Este, ainda que enfrente uma fervorosa batalha contra a grande mídia que apresenta o movimento como de minorias e elitista, vem mostrando características políticas que podem servir de lições para o desenvolvimento das lutas de juventude no Brasil.
Primeiramente o conflito abre um debate sobre o caráter da polícia militar, uma instituição do estado capitalista. A pressa da mídia em difamar o movimento como de “elitista” tem a ver, principalmente, com a necessidade de se ofuscar a potencialidade de um fenômeno de juventude e estudantil ter demandas em comum com os trabalhadores e o povo pobre. As mentiras de que os estudantes “só querem fumar maconha dentro da USP” visa esconder da população que os estudantes que lutam contra a polícia no campus são os mesmos que denunciam seu caráter repressivo, racista e machista nas favelas e nos bairros pobres; que são os mesmos estudantes que se solidarizam com as lutas dos professores da rede pública; que são os mesmos que questionam o elitismo das universidades públicas ao excluírem, pelo vestibular, os jovens trabalhadores; que fazem parte deste movimento os mesmos que denunciam as mortes de trabalhadores terceirizados da USP que morreram, ou pela violência da polícia na favela São Remo, ou pela insegurança imposta pela precarização do trabalho.
Ainda que as mobiliações da USP não possuam o caráter tão massivo como das mobilizações do Chile ou da Europa, a amplitude do debate que ela tem gerado abre a possibilidade de sacarmos lições estratégicas para um futuro próximo: a de que a juventude não possui interesses distintos dos trabalhadores e de que não há vitória sem estes, de que a luta contra o estado e seus aparelho de repressão é parte fundamental da luta da juventude, que não se contenta com experiências alternativas (buscando brechas dentro da miséria capitalista, com instinto individualista) mas que se movimenta pela vitória, pela subversão radical da sociedade de classes.

O retorno dos quadros burgueses à “Casa” e a invenção liliputiana de um Brasil Potência frente às “oportunidades” da crise

Por Daphnae Picoli e Flávia Ferreira

(* "Liliput" é uma das diversas nações remotas do mundo em que Gulliver aporta no livro do escritor irlandês Jonathan Swift, "As viagens de Gulliver". Os habitantes desta ilha, a primeira das quais recebe o protagonista desse romance satírico, eram extremamente pequenos, dotados de tremenda impertinência e entrando em conflitos por qualquer futilidade. Suas aspirações de grandiosidade são retratadas satiricamente por Swift)




"Na época do imperialismo, é impossível abordar o destino de um país de outra forma senão tendo como ponto de partida as tendências do desenvolvimento mundial como um todo, no qual este país, com todas as suas particularidades nacionais, está incluído e ao qual está subordinado" 
Leon Trotsky


A clareza do método de análise do revolucionário russo nos servirá como iluminação para desvendar as cavidades cerebrais obscuras das "personalidades da Casa" do IE. Nos dias 07 e 09 de março de 2012, o Instituto de Economia da Unicamp teve duas palestras de início de ano que foram o retorno à "Casa" de dois quadros da burguesia formados pela "Escola de Campinas": o Prof. Márcio Pochmann, presidente do IPEA, indicado pelo PT à candidato na prefeitura de Campinas e pesquisador do Centro de Estudos do Sindicalismo e Trabalho (CESIT); e o Prof. Otaviano Canuto, chefe do departamento de "Redução de pobreza e gestão econômica" do Banco Mundial, que em sua palestra contou com a presença de professores do Centro de Estudos de Conjuntura Econômica (CECON) André Biancarelli e do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT), Célio Hiratuka e de quadros como o ex-diretor do IE e agora chefe do departamento de assuntos estratégicos do governo federal, Mariano Laplane.
Partindo de uma análise da situação internacional "de acordo com as aberturas oportunas para o Brasil", como um momento do "surgimento de uma nova ordem mundial" ou da constatação sem grandes aprofundamentos de uma "grande transformação estrutural na economia global" (ambas as definições tão profundamente fundamentadas nas "provas de imunidade à crise" dadas pelo Brasil, na mente desses profundíssimos pensadores) as duas palestras "Perspectivas do desenvolvimento brasileiro" e "Os países emergentes no contexto da crise internacional" a despeito das diferenças na abordagem, tratavam com centralidade das possibilidades que estariam se abrindo frente a crise para o Brasil conseguir alçar, pelo enfrentamento dos seus desafios -no primeiro caso- ou pelo desenvolvimento de fatores autônomos de crescimento -no segundo-, uma nova posição de “potência” no cenário internacional.


 


            Para além de uma crise do sistema financeiro, a crise atual tem se mostrado uma crise do sistema capitalista, mais especificamente desse sistema numa fase específica, a fase do capitalismo dos monopólios, do imperialismo. Nessa época histórica do capitalismo os oligopólios mundiais junto ao capital bancário são como aves de rapina ao explorarem os mercados dos países semi-coloniais e de desenvolvimento capitalista atrasado, como o Brasil. Com os monopólios cumprindo mais de um século desde sua passagem para o primeiro plano da economia mundial, determinando o ritmo das pulsações do sistema capitalista; com toda a série de processos de revolução e contra-revolução do século XX, para além das duas Grandes Guerras Mundiais, responsáveis pelas sucessivas divisões do globo através da carnificina bélica, dotando as potências imperialistas centrais nos EUA e na Europa de vastas "esferas de influência", ou seja, de lucratividade pela rapina; estendendo a mão sobre todo tipo de territórios do planeta, conseguindo-se estabelecer os padrões de extração de recursos e riquezas de todo o mundo pelos grandes monopólios, inclusive no Brasil: com tudo isso, torna-se uma falácia descabida o discurso ideológico de professores do IE de que o país poderia alcançar os níveis de desenvolvimento dos países centrais, estando o equilíbrio econômico instável do país totalmente dependente das flutuações e caprichos da economia internacional (como mostraremos abaixo), ao qual "estamos subordinados, com o qual estamos conectados e do qual não podemos escapar", parafraseando Lênin.
            A análise desses especialistas ignora completamente o poder do capital financeiro e a relação de dependência que estas potências capitalistas imperialistas possuem com os países semi-coloniais, mesmo de tipo especial, como Brasil (a relação entre um punhado de países credores e uma infinidade de países devedores). De particular e fragmentada, completamente deformada, o Prof. Otaviano Canuto chega ao absurdo de em sua palestra apresentar o caso da descoberta de minas de diamantes e exploração destas  nos países africanos Botswana e Zimbábue apontando para a diferença de "governance" entre os dois, como se o governo desses países não fosse uma marionete impotente diante das transnacionais européias que retiram o mineral às custas da escravidão e da super-exploração dos africanos, como herança dos primeiros períodos da política colonial dos estados europeus.

 E o "Brasil potência" de Dilma e do PT diante de todo esse contexto?



 


            É fato que o Brasil se encontra em uma situação particular diante da crise que assola os países do centro capitalista, assim como outros "países emergentes" como China. Ao contrário do centro e por conta da política dos países centrais, o que vemos é uma enxurrada de fluxos de capitais para o país (incrementando o volume de crédito disponível para o consumo interno, mas também a contradição do endividamento para a sobrevivência do brasileiro) que, junto à ainda substancial demanda por matérias-primas por parte da China - que através de suas exportações aos EUA e Europa cumpria na primeira fase da crise um papel contra-tendencial - com elevação do preço das commodities, sustentam o crescimento logrado desde 2004 -interrompido em 2008, com o estouro da bolha crise, mas sem recessões. A burguesia nacional tenta encontrar nesse momento singular os pilares para conseguir fazer do Brasil um país "modelo" e uma potência regional com a ideologia do "novo desenvolvimentismo", vinda desde o governo Lula e que tem como base o pensamento da Escola de Campinas a respeito do país: apontando para o "adensamento das cadeias" de agroindústria e a geração de tecnologia ligada a estes setores e o desenvolvimento de multinacionais e grandes oligopólios brasileiros.
            O fato é que além desse crescimento estar apoiado em "pés de barro" e numa conjuntura internacional favorável (os grandes investidores se entrincheiram na periferia do capitalismo como nichos de acumulação provisórios, enquanto os centros capitalistas entram numa espécie de "recessão sincronizada"), esses grandes analistas da "Casa" ignoram o caráter dependente do Brasil diante do cenário mundial, de que as empresas multinacionais tão idolatradas como Petrobrás e as multinacionais da construção civil estão preenchidas. Dilma Rousseff e o governo petista, enquanto cortam R$55 bilhões de reais do orçamento público, continuam cedendo porções de nichos de exploração para o capital estrangeiro não abandonar o país "à sua própria sorte", como a privatização dos três principais aeroportos do país, e inundar o país de investimentos lucrativos para a patronal brasileira e estrangeira, sem os quais o "Brasil potência" ruiria como um castelo de cartas, descobrindo seus "fatores autônomos" de desacoplamento da crise se desmanchando no ar. Os petistas - tendo entre seus quadros Márcio Pochmann - que tanto se gabaram de políticas anti-privatistas, escancaram as veias já abertas do país para os parasitas internacionais, sendo responsáveis, mesmo numa conjuntura econômica nacional destoante da européia, pelo mesmo remédio de austeridades aos gastos públicos.
            Uma das facetas dessa nova fase do Brasil é o imperativo mundial dos capitalistas do aumento da produtividade, para a geração de mais-valia. No Brasil, a necessidade do aumento de produtividade e de competitividade da indústria está diariamente nos jornais burgueses, e se traduz mais concretamente na aprovação, no último período, de uma Lei de Regulamentação da Terceirização que permite a terceirização não apenas de atividades meios, mas também àquelas centrais para as empresas, regulamentando a precarização e a superexploração dos trabalhadores.
            Os adeptos desse novo desenvolvimentismo e a propensão do IE/Unicamp de admirar os regimes de grande intervenção estatal esquecendo do seu caráter fortemente autoritário e anti-democrático, tem na China o grande exemplo de desenvolvimento, país que estaria agora rumando para um crescimento deslocado para a demanda interna. Contudo, a estrutura produtiva chinesa foi montada, pelas transnacionais estrangeiras e de potencias imperialistas como os EUA, para fazer desse país uma plataforma mundial de exportação de produtos manufaturados tendo como base para a competitividade de seus produtos o trabalho semi-escravo, terceirizado, da população chinesa e a grande desigualdade de renda do país, que oferece para uma camada de burocratas e novos "self made men" a ideologia da ascensão social e deixa a grande massa da população morrer nas indústrias, suicidando-se inclusive (como nos diversos casos da empresa Foxconn, produtora dos aparelhos da Apple) e no atraso do campo. A China não apenas é o exemplo de que o chamado trabalho imaterial advogado pelo Prof. Márcio Pochmann não se tornou a base de todo capitalismo mas sim a expressão nítida de como o capital financeiro internacional montou nas costas dos povos oprimidos e da classe trabalhadora dos ex-estados operários burocratizados para poder escapar duradouramente de suas contradições mais penosas. Essa produção predatória e dos grandes lucros das multinacionais é que são tão elogiadas pelo Instituto. 
            Nós, da Juventude às Ruas, partimos de um ponto radicalmente oposto. A dominação do capital financeiro acentua as desigualdades e as contradições da economia mundial, e dá ao papel da burguesia um caráter reacionário em toda a linha. O lugar histórico que o imperialismo ocupa relativamente ao capitalismo em geral é decisivo para qualquer análise séria e fundamentada cientificamente, e os "intelectuais da Casa" enumerados acima provaram que a realidade superior da economia mundial sobre suas distintas partes precisa ser um segredo ocultado convenientemente por aqueles que querem intactas as bases da economia capitalista em decadência. A Unicamp, na voz desses cavalheiros – muitos são donos de empresas terceirizadas, de cursos pagos dentro da universidade, ligados a fundações e ao próprio governo federal – fala em nome da exploração dos trabalhadores. O papel estratégico dos professores enquanto intelectuais que possam ajudar a armar a juventude contra este discurso reacionário do petismo patrocinado pelas grandes corporações,  é vital, e dentro e fora da universidade, precisa revelar o seu potencial de choque contra o estado burguês e seus intelectuais orgânicos.
            Nesse sentido, o novo desenvolvimentismo do IE cumpre um papel ideológico de amortecimento da luta de classes, ocultamento das reais condições de exploração e opressão no país e de sua ligação indissociável com as potências imperialistas. A partir dos processos da Primavera Árabe e da crise internacional, se evidencia a incapacidade da burguesia e do capitalismo de cumprirem qualquer papel progressista no mundo. Mesmo tendo se tornado a sexta economia do mundo o Brasil segue sendo o país da precarização, da perseguição aos lutadores, da violência contra as mulheres, da criminalização da pobreza e de uma das polícias mais assassinas do mundo. Nossa aposta vai no sentido inverso da desses intelectuais orgânicos da burguesia: apostamos na aliança da juventude com os trabalhadores - como os professores da rede pública em greve em todos os estados do país - para terminar de vez com as bases econômicas dos monopólios e do capital financeiro, com meios estratégicos que nos possibilitem vencer e derrubar este sistema de miséria e opressão defendido pelos quadros da Escola de Campinas!

terça-feira, 20 de março de 2012

BOLETIM DA JUVENTUDE ÀS RUAS EM MG



O FIM DO MITO DO “FIM DA HISTÓRIA”

POR BERNARDO ANDRADE, MILITANTE DA LER-QI, ESTUDANTE DE FILOSOFIA 

No último ano estudantes, jovens, trabalhadores e o povo pobre de diversas partes do mundo protagonizaram grandes movimentos. Esses processos não ocorrem por acaso. Em  diferentes níveis, mostram a enorme insatisfação da população frente os planos dos bancos centrais e dos governos da Alemanha, França, Grécia, Espanha, Portugal, e um longo etc. Esses planos implicam na retirada brutal de direitos conquistados anteriormente através de lutas para supostamente recuperar a economia combalida pelas profundas contradições do modo de produção no qual vivemos, o capitalismo.

Não por acaso esses processos há mais de um ano seguem mostrando a completa falência do discurso ideológico que, durante os anos noventa, falsamente afirmou o “fim da história”. Diziam acabados os anos de revoluções, que qualquer saída socialista estava esgotado, que só o que nos restava seria nos resignar e aceitar a vida sem perspectivas, baseada no individualismo – que, eles dizem, seria a única maneira de “se dar bem”. No entanto, a história não acabou e segue queimando esses sonhos antigos (dos burgueses e burocratas que acordados estão dormindo, vivos estão mortos...). As provas do quão anacrônico e parcial é o discurso dos capitalistas e seus governos são justamente as lutas que a juventude e os trabalhadores hoje protagonizam ao redor do mundo.

A atual crise do capitalismo que vivemos escancara a essência contraditória das relações sociais as quais nos permeiam. Relações que são determinadas pelo modo de produção que concentra e subordina todas as relações humanas em função das necessidades de reprodução do lucro de um punhado de bancos e monopólios e, portanto, é incapaz de garantir sequer as condições mais elementares para a sobrevivência do povo e da cada vez maior classe trabalhadora no mundo – muito menos suprir as necessidades, que permanentemente nos são negadas, em ter acesso à cultura, arte, saúde, educação, diversão, livre expressão, saúde e educação sexual e uma série de condições fundamentais para vivermos segundo nossas necessidades humanas, principalmente para a juventude!

A palavra Revolução se re-significa e, a seu modo, devora pseudociências que tentam fazer das relações de produção e de propriedade, que na verdade são relações históricas transitórias no curso da produção, leis eternas da natureza e da razão. É isso que está em jogo e a história - ao contrário de seus pretensos algozes que dizem que felicidade, esperteza e maturidade é aceitar as regras do jogo impostas - nos chama a participar, a decidir e a ser sujeito histórico ao lado dos que precisam e podem transformar radicalmente essa sociedade, a classe trabalhadora, a juventude e o povo explorado e oprimido.

A CRISE CAPITALISTA: QUEREM DESCARREGAR SOBRE OS TRABALHADORES E O POVO A CRISE ESTRUTURAL DO CAPITALISMO

Durante os anos noventa principalmente os capitalistas propagaram o ideal do neoliberalismo. Diziam que a queda do muro de Berlim significava o fim das revoluções e que por isso cabia uma doutrina que libertava a “livre iniciativa” das garras dos estatistas.

A doutrina econômica do neoliberalismo nunca foi o determinante nos últimos vinte ou trinta anos. Esta foi só uma forma econômica decorrente de um profundo processo político e social. Nesses anos na verdade tiveram como características essenciais a retirada brutal de direitos dos trabalhadores por via da precarização intensa das relações de trabalho. É por isso que podemos ver hoje nos corredores de nossa universidade muitos trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas que possuem salários duas vezes menores que dos trabalhadores efetivos. Hoje praticamente inexiste final de semana livre e todos trabalham pelo menos um dia. A privatização da saúde, a privatização das universidades públicas, o alto crescimento das universidades privadas e do ensino médio privado, a favelização brutal, a sobrevivência em base ao endividamento... esses são fenômenos mundiais e todos tem seus ápices nos anos 80, 90 ou 2000.

A verdade é que a tal “livre iniciativa” significa a liberdade estritamente dos mesmos grandes monopólios financeiros de antes. Os governos os deixavam cada vez mais livres para transformar em mercadorias - além de super-explorar os trabalhadores por via das terceirizações e precarização como citamos acima - alguns direitos que antes eram tidos como básicos. Só assim puderam sair de crises e contradições econômicas que se aprofundavam na década de setenta e oitenta em todo o mundo e aumentar seus lucros.
  
Mas como fizeram isso? A primeira coisa é que a própria precarização e terceirização levam à fragmentação da classe trabalhadora. Divididos os trabalhadores não conseguem se unificar e barrar os ataques a suas condições de vida. Segundo, isso só podia ocorrer por causa das burocracias sindicais, ou seja, representantes dos patrões dentro dos sindicatos de trabalhadores. As péssimas condições de trabalho e a alta rotatividade sempre favorecem a manutenção desses burocratas.

Em terceiro lugar, a repressão brutal do Estado, contra os trabalhadores precarizados, agrupados em favelas, mas não só, repressão por via da violência e da guerra da polícia – que defende os mesmos interesses dos governos e monopólios financeiros – contra os trabalhadores empobrecidos, contra a juventude e principalmente contra o povo negro. Não precisamos nem reafirmar o racismo cada vez mais evidente da polícia, mas é preciso dizer que esta serve à potencialização dessas condições precárias de vida acima citadas, assim como ao machismo, à homofobia e a criminalização das ditas drogas.

E por último a reconquista de mercados no leste Europeu e a reinserção de 1 bilhão de trabalhadores chineses ao mercado capitalista mundial.

Tudo isso fundamenta o processo social e político que, como vimos acima, só significa condições de vida cada vez piores em todo o mundo. Livre iniciativa para os monopólios burgueses explorarem e oprimirem. Pros trabalhadores e o povo significa ficar sem sindicatos, demitidos aos primeiros sinais de revolta e vivendo endividados para sobreviver. Estudando cinco anos e pagando quinze, como acontece no Chile – e por isso a juventude e os trabalhadores pararam o país no último ano em defesa de educação pública e gratuita para todos.

Porém, acontece que esses monopólios seguiram lucrando com essa situação até o momento que, como é tendência inerente ao capitalismo, esgotaram novamente sua capacidade de lucrar e, portanto acumular capital. Essa é a situação que vemos hoje no mundo. E o que propõem esses mesmos monopólios e governos que os servem? Descarregar sobre os trabalhadores a crise deles. Em números, só na Grécia, hoje isso significa “a supressão de 3,3 bilhões de euros do orçamento público, privatizações dos setores chave da economia, corte de 22% no salário mínimo, aumento de impostos e a demissão/suspensão de mais de 150.000 funcionários públicos (um quinto dos trabalhadores estatais gregos), com a extinção desses cargos, sob condições de desemprego que atingem 21% da população.”¹

NO BRASIL NÃO É DIFERENTE

No Brasil podemos ver como todos os elementos acima se expressam de maneira acentuada, como em poucos outros lugares do mundo.

“Mas o Brasil está estável politica e economicamente, não sofremos do mesmo mal!”. Diz o governo de Dilma em coro com os tucanos e tudo que há de mais reacionário no país.

No Brasil há alto índice de precarização do trabalho, de rotatividade no trabalho, de precarização da vida, com condições de moradia absurdas, com favelas cada vez maiores, com centenas de mortes todos os anos devido às más condições de moradia, com uma das policias que mais mata no mundo, como o país onde mais se morre por acidentes de trabalho no mundo.

Logo, não poderia ser diferente. A estabilidade se justifica porque aqui a exploração e opressão seguem se aprofundando! Se pode ser constatado um aumento no consumo, isso só se dá a custo do alto índice de endividamento e da precarização de todas as condições mais elementares de vida. A nova classe média que diz o governo assiste em LCD com esgoto a céu aberto. Nada mais é do que um lugar onde os capitalistas em crise ainda podem lucrar.

E isso não poderia acontecer sem o governo do PT, que se diz um governo de trabalhadores - baseado na autoridade de Lula - mas na verdade é um governo que hoje representa esses mesmos monopólios internacionais que, como o mesmo Lula sempre enchia a boca para dizer, nunca lucraram tanto no Brasil!

Além disso, a burocracia petista nos sindicatos cumpre o papel de reprodutores dos interesses dos capitalistas, como se fossem trabalhadores. E não para por aí. O PT, e seu aliado PCdoB, dominam a UNE, recebem milhões de reais do governo e dessa maneira agem no seio do movimento estudantil, segundo os interesses do governo e dos monopólios da educação superior no Brasil, auxiliados pelo PROUNI que transfere dinheiro público para as universidades privadas. Sem superar essas burocracias privilegiadas pelas relações com o governo não há como unificar a juventude, estudantes e trabalhadores para que possam se organizar conjuntamente e expressar suas necessidades reais.

Em Minas Gerais as forças do governo federal andam de mãos dadas com o mesmo PSDB que usou da polícia militar como uma força privada, em uma ação violenta e ilegal contra os moradores do Pinheirinho em São José dos Campos, e contra os estudantes da USP. A famigerada aliança “dilmasia” entre tucanos e petista na prefeitura de BH mostra como nos ataques aos trabalhadores e jovens o governo federal e estadual andam de mãos dadas dentro e fora das universidades. Esses objetivos em comum junto a setores da burguesia se expressam no despejo de moradores em função dos lucros estrondosos visados para a Copa do mundo, na repressão aos professores da rede estadual na greve do ano passado e a contínua precarização da educação.

O MARXISMO COMO CIENCIA E ARTE PARA TRANSFORMAR O MUNDO.

Esse conjunto de relações sociais concretas não são auto-explicativas nem triviais. Ainda mais, há uma série de pseudoteorias com o objetivo de naturalizar essas relações de opressão. Assim como a filosofia medieval tomou muitas das questões fundamentais da filosofia grega e as subordinou à necessidade social de justificar uma sociedade onde a Igreja cumpria um papel fundamental no poder estatal, ainda hoje também nos deparamos com uma série de filosofias e concepções de mundo que tentam naturalizar a propriedade privada e as relações de produção atuais como leis da natureza, eternas. 

Na verdade cada vez mais o ensino, a pesquisa e todas as atividades na universidade estão subordinadas às necessidades do mercado. A livre expressão, a livre troca de conhecimento, a liberdade de organização, de manifestação é constantemente estranguladas pelas tesouras do governo que destinam as verbas voltadas aos cursos que tem interesse de mercado ou, o que se constitui como uma regra nas universidades brasileiras, pelas mãos dos diretores de faculdades, professores e reitores que, apoiados no poder quase ilimitado que possuem pelas estruturas de poder completamente autoritárias das universidades, mantém relações muitas vezes estreitas com fundações e empresas privadas que atuam dentro da universidade, com centros de pesquisa privadas, e uma série de relações que se estabelecem, principalmente, pois representam o controle do governo diretamente sobre a universidade, ferindo a autonomia universitária – na maioria das universidades públicas brasileiras quem escolhe os reitores é o presidente do país ou os governadores dos estados.
               
Além disso, as universidades públicas são completamente elitistas. Sua função social não é produzir conhecimento livre e em interesse de toda a humanidade, senão que produzir conhecimento em função dos lucros de uma minoria, além de fornecer mão-de-obra qualificada para ser explorada, sem as implicações de um possível avanço na consciência crítica dos que porque ali passam. São assim desde que começaram a existir e todo ano, enquanto alguns pouquíssimos comemoram a aprovação no vestibular, milhões de jovens, principalmente negros, minorias como os índios, e trabalhadores, ficam de fora, esquecidos, filtrados por um cruel mecanismo chamado vestibular, que não por acaso aprova na maioria das vezes os que podem pagar cursinhos caros e não precisam trabalhar, com poucas exceções. Por isso achamos fundamental colocar nosso conhecimento a serviço de combater esse caráter de classe dentro da universidade. Para combater os meios pelos quais se subordina o conhecimento à necessidade de se justificar uma ordem social tão opressora – e de fornecer-lhe instrumentos científicos para aprofundar a exploração –, e coloca-la a serviço dos interesses da humanidade.

Mas isso também não é o bastante. Como mostramos acima neste texto, vivemos em um momento de crise do capitalismo. Os 700 monopólios que hoje dominam o mundo querem superar essa crise rebaixando as condições de vida da juventude e dos trabalhadores em um patamar inferior muitas vezes ao das necessidades da mera sobrevivência. Portanto, só podemos colocar o conhecimento realmente a serviço dos interesses gerais da humanidade se transformamos antes as próprias relações de produção em função das necessidades humanas e não do lucro. Isso só pode ocorrer pela expropriação desses monopólios e de sua produção pelos trabalhadores e pelo povo. Por isso achamos fundamental o resgate do marxismo, livre do academicismo e do pedantismo teoricista, por conseguinte, próximo dos trabalhadores, como ciência e arte para transformar o mundo. 

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A UNIVERSIDADE QUE A BURGUESIA QUER EM TEMPOS DE CRISE

POR RODRIGO SILVA (Filosofia)

Para não tomarmos o que acontece ao nosso redor como causa e consequência de si mesmos, uma abordagem mais ampla pode nos ajudar a entender os rumos que a universidade pública tem tomado nos últimos anos no Brasil. Primeiro é importante ressaltar que o ensino superior brasileiro tem como tônica de sua história o elitismo. As universidades públicas brasileiras todas, em maior ou menor medida, foram pensadas para formar as elites intelectuais burguesas nacionais. Por isso nunca satisfizeram, minimamente sequer, a demanda da juventude pobre, principalmente negra, em ter acesso a ensino superior público, gratuito e de qualidade. Por outro lado em um momento como o que vivemos, em que o próprio capitalismo se convulsiona em crises estruturais, e a burguesia precisa avançar cada vez mais para abarcar no mercado e não só retirar direitos trabalhistas para melhor explorar a classe trabalhadora, mas também transformar em mercadorias o que antes eram direitos fundamentais, a educação superior tem sido por todo o mundo atacada e desfigurada por este processo. As universidades, que durante boa parte do séc. XX eram na sua maioria instituições estatais – e que, em alguns casos, como nas universidades privadas americanas do começo do século, mesmo quando privadas, dificilmente visavam de alguma forma o lucro –, vêm passando por um processo de privatização, que se dá em vários níveis. Um grande pensador anticapitalista, Immanuel Wallerstein, em seu mais recente artigo, aborda a questão da seguinte forma: “O que a privatização começou a significar por todo o mundo foram várias coisas: um, começaram a haver instituições de ensino superior que se estabeleceram como negócios, com fins lucrativos; dois, as instituições públicas começaram a buscar e a obter dinheiro de doadores corporativos, que começaram a intrometer-se nas decisões internas das universidades; e três, as universidades começaram a buscar patentes para os trabalhos em que os investigadores da universidade tenham descoberto ou inventado algo, e como tal começaram a ser operadores da economia, ou seja, se tornaram parte do negócio.”¹

Processos como o acima citado têm acontecido por todo o mundo, da Espanha a Grécia, passando pela América Latina, com processos de luta se abrindo em diversos países, organizados por estudantes e professores que se contrapõe a este projeto, como na Colômbia, onde a mobilização massiva fez o governo retroceder, e no emblemático processo chileno, onde o alcance gigantesco das mobilizações pode levar os estudantes a questionar não apenas o regime universitário, como também o próprio regime político do país. Mais recentemente, na Espanha, dezenas de milhares de estudantes se puseram em greve no dia 29 de fevereiro contra medidas que visam precarizar e privatizar o ensino superior, mobilizando mais de 20 cidades, e inclusive se aliando à classe trabalhadora na luta contra as reformas trabalhistas do governo². No Brasil, com o processo aberto na USP, estudantes também se levantam contra a repressão que é necessária para que estas medidas sejam executadas. Para quem não está informado de que tipo de medidas são estas, citaremos algumas: “(...) Rodas começou, no ano passado a aplicar o Plano Diretor, uma espécie de reforma universitária que serviria para reestruturar currículos e cursos de acordo com as demandas de mercado, fechando os cursos de baixo impacto econômico e incentivando financeiramente os que se adequarem ao projeto. Isso justamente com o objetivo de fazer a USP avançar nos rankings internacionais, se adequando aos critérios produtivistas que “medem” a qualidade das universidades, e dando projeção para a universidade a partir daí. Além disso o reitor afirma claramente que os cursos que conseguirem buscar a iniciativa privada para seu financiamento serão bem vistos, se coloca como um defensor do mecenato, quando na verdade defende a privatização do ensino e do conhecimento produzidos na universidade.”³ Mas a USP não é exceção. Em todo o Brasil tem sido tomadas medidas que avançam na privatização da universidade, inclusive com processos de luta sendo abertos em diversos estados, como em Rondônia. Na UFMG, a proposta de implantação do EBSERH, que privatiza o Hospital das Clínicas da UFMG, e a inserção no capital privado nas faculdades, a valorização do conceito de “universidade de excelência”, que visa se adequar em termos de produção acadêmica para melhor se posicionar nos rankings internacionais, e atrair mais capital privado, em detrimento de aspectos fundamentais da vivência universitária, além de medidas repressoras que visam calar os estudantes e impedir que estes se levantem e se organizem para rejeitar tal ataque, são mostras de que por aqui passamos pelo mesmo processo. Já citamos acima outras implicações que tais medidas têm no regime e na vivência universitária.

Do outro lado da privatização do ensino superior, temos o avanço das instituições privadas, que hoje atendem a cerca de 75% de todos os estudantes de ensino superior no Brasil. Essas instituições em diversos casos são “conglomerados educacionais, grandes empresas, de capital aberto e com forte participação de grupos estrangeiros em seu quadro de acionistas”. Neste caso, essas empresas se aproveitam de um lado, do abandono do Estado, que não oferta vagas no ensino público na mesma proporção da demanda, e mesmo quando oferta, o faz sem a estrutura adequada, o que gera precarização no ensino, e de outro lado, das chamadas parcerias público-privadas, que na verdade engendram um processo de transferência de recursos públicos para a iniciativa privada. ProUni e Fies são medidas neste sentido implementadas pelos governos Lula e Dilma, além de benefícios fiscais. Além de precarizar o trabalho dos próprios docentes, que se veem impedidos de continuar suas pesquisas, sem estabilidade no emprego, e forçados a recorrer a jornadas de trabalho extenuantes para se sustentar, o ensino superior privado é extremamente danoso ao próprio conceito de formação universitária, pois sua função, além de obter lucros, é formar mão-de-obra qualificada sem o devido senso crítico, o que é chamado por Andrea Harada Souza de “certificação vazia”. 

Segue uma citação da autora: “A forte presença do controle corporativo em um setor essencial como a educação provoca sérias fissuras na malha social, na medida em que os desdobramentos da transferência tácita da responsabilidade do Estado para a iniciativa privada têm autorizado o funcionamento de fábricas de diplomas com certificação vazia, para uma população que, embriagada pela democratização do acesso, ainda não se sabe enganada.”

Portanto os objetivos dos governos são claros e as consequências inevitáveis. Ou seja, passamos por um processo de precarização dos cursos que não tem apelo mercadológico, ou de aprofundamento do caráter de formação de mão de obra em cursos de humanas, o que precariza principalmente os cursos de licenciatura. Por outro lado há um aprofundamento do elitismo nos cursos de excelência que abrem menos vagas ao mesmo tempo que recebem altas verbas advindas e direcionadas à iniciativa privada. Ou seja, não há democratização. Há um direcionamento ainda maior do ensino superior aos lucros e não às necessidades da grande maioria dos jovens que seguem distantes da universidade publica.

Tanto é que simultaneamente acompanhamos um alto índice de precarização das relações de trabalho dentro da universidade. Pelos corredores praticamente os únicos negros que vemos são trabalhadoras mulheres, terceirizadas que recebem muito menos que um funcionário efetivo, trabalham mais e não possuem quaisquer direitos elementares, como sindicalização.

Nesse marco, é importante perguntar; como esse processo mundial chega dentro da universidade, ao nosso cotidiano? Através dos diretores das faculdades, professores que se associam à privatização na universidade – muitos possuem vínculos ou são donos de fundações privadas ou empresas terceirizadas que estão dentro da universidade devido ao posto destes professores – e do reitor. O reitor é escolhido pelo presidente da república, os diretores das faculdades são escolhidos pelo reitor, ou seja, todos, em primeira e última instancia, são ligados diretamente ao governo. Assim se desmente a fábula do abismo entre os planos do governo e a autonomia universitária. Por isso, a estrutura de poder da universidade é tão autoritária e repressora, para que esses burocratas acadêmicos possam livremente aplicar esse plano de privatização dentro da universidade.

Enfim, esse processo de privatização só se mantém porque no Brasil existe um filtro chamado vestibular. Por não passarem no vestibular, a maioria das pessoas atribuem à suposta falta de mérito não terem acesso à universidade publica. É evidente que o vestibular só serve para que essas pessoas não percebam que o principal problema é a falta de vagas. Assim, o vestibular se constitui como um filtro de classe, que deixa os jovens pobres e grande parte da juventude negra fora da universidade.

É por esses elementos que expomos acima que afirmamos que a universidade não é uma bolha. O destino da universidade está ligado com as questões políticas externas à universidade. Portanto, para nós é importante se ligar aos que hoje estão fora das universidades públicas, lutar pelo fim do vestibular (em países como Argentina, França, Bolívia etc não existe vestibular, todos que se formam entram na universidade), pela estatização dessas universidades privadas e a serviço dos trabalhadores e do povo para, dessa maneira, identificar nossa luta por melhores condições de estudo com as demanda da juventude pobre e trabalhadora. Transformar a universidade para transformar o país. Assim como no Chile, podemos e devemos nos juntar à juventude e trabalhadores que estão fora para transformar o que hoje são lutas isoladas, em diferentes universidades, em um questionamento nacional de toda a juventude por educação pública, laica, gratuita e de qualidade para todos. 

2 – “De Valencia a Barcelona los estudiantes toman las calles con huelga estudantil”, em http://www.ft-ci.org/article.php3?id_article=5229?lang=es
3 – “Defender o movimento e avançar na luta pela democratização da universidade”, em http://www.ler-qi.org/spip.php?article3411
4 - “Da educação mercadoria à certificação vazia”, Andrea Harada Souza, Le Monde Diplomatique.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

O QUE É JUVENTUDE ÀS RUAS?

Frente aos tempos que se abrem, marcados pela crise capitalista e o desenvolvimento da luta de classes internacionalmente, coloca-se o desafio de forjar uma alternativa revolucionária que prepare a juventude para essa etapa histórica que se desenvolve. Em aliança com os trabalhadores contra a precarização do trabalho, repressão do Estado e sua polícia contra o povo negro e todos que se colocam em luta, a opressão às mulheres e homossexuais, e contra a manutenção de uma universidade para atender aos interesses dos monopólios e grandes capitalistas, surge a Juventude às Ruas!, um grupo de jovens com aspiração revolucionária composto por militantes da Liga Estratégia Revolucionária (LER-QI) e por independentes.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
JUVENTUDE ÀS RUAS EM MOVIMENTO NA LUTA DOS ESTUDANTES DA USP   O COMANDO DE GREVE COM DELEGADOS REVOGÁVEIS: FUNDAMENTAL PARA UMA DIREÇÃO DEMOCRÁTICA  DOS RUMOS DA GREVE

A luta do ano passado na USP - que tinha como eixo central a luta pelo Fora PM da USP e pelo fim do convênio USP-Polícia Militar - deixou conquistas muito importantes. Fizemos duas ocupações e construímos uma greve que, apesar de não terem sido fortes o suficiente para vencer, geraram um movimento de milhares e milhares de estudantes, que se organizaram num comando de greve com delegados eleitos nos cursos, que junto aos trabalhadores da USP e seu combativo sindicato, o Sintusp,e de um setor de professores e intelectuais, foram capazes de desgastar Rodas e a burocracia acadêmica, e de gerar um repúdio de massas na USP à PM, ao convênio e a Rodas. A luta em defesa da universidade pública e contra o projeto privatista de universidade, que ocorre há anos, está em momentos decisivos e teve no ano passado mais uma batalha muito importante.  Após a ocupação da Reitoria que ocorreu ano passado, ao contrário do que esperava a reitoria e a grande mídia, o movimento se expandiu, e numa assembleia com milhares de estudantes foi votada a greve e, por proposta da Juventude Às Ruas a construção de um comando de greve com delegados eleitos nos cursos, uma votação histórica no movimento estudantil do país, seguindo o exemplo do que há de mais avançado no movimento estudantil internacionalmente. Foram eleitos mais de 120 delegados a partir das assembleias de curso, sendo 1 para cada 20 estudantes em assembleia, mandatados democraticamente e revogáveis. Assim, os estudantes assumiram em suas mãos a greve de forma anti-burocrática, capaz de unificar todos os setores em luta para que nada senão as suas posições devidamente representadas dirijam os rumos da greve, combatendo por um lado as correntes que em momentos de ampla mobilização nos cursos tentam subordinar os espaços democráticos de decisão de amplos setores dos estudantes (as assembleias) às decisões das entidades estudantis e seus conselhos de CAs (no caso da USP PSOL e PSTU); por outro as correntes que defendem políticas vanguardistas que tendem a desconsiderar as posições dos estudantes nos cursos (no caso da USP PCO, MNN e “autonomistas”).

segunda-feira, 12 de março de 2012

BOLETIM ESPECIAL CALOURADA - RJ

OS NOVOS TEMPOS NOS EXIGEM SER UMA JUVENTUDE REVOLUCIONÁRIA

Crescemos com a certeza que nos contavam que a história havia acabado, que o capitalismo seguia firme e sólido e que as revoluções eram coisas do passado.  Crescemos sob uma ideologia individualista que nos ensinava que os sonhos e as expectativas de vida são baseados no consumo e o que somos medidos pelo que temos.

 A crise capitalista que eclodiu em 2008 é uma crise histórica. Ela chocou estes sonhos de consumo vendidos pela burguesia com a impossibilidade de sua realização material. Os sonhos de consumismo viraram pesadelo de desemprego, repressão, fome e miséria. O destino que a burguesia guarda aos povos é mostrado na Grécia, na Espanha. 

Na Grécia foi reduzido o salário mínimo de toda a população em 22%, na juventude a redução passa de 30%. O desemprego da juventude é de os 54% por cento, e os que conseguirem empregos precários ganharam menos de metade que os adultos ganhavam antes do desconto. Para garantir os lucros, a "competitividade" das empresas entregam corpos, vidas e o futuro de gerações inteiras.

A crise e a busca de cada burguesia nacional em recuperar sua "produtividade" fará cada uma despejar sobre sua classe trabalhadora ajustes tais como os gregos. Os países da América Latina hoje andam em outro ritmo - mas dependem de uma situação conjuntural de fluxo de capitais estrangeiros e na qual a China siga comprando commodities. Mas isto terminará, a China, a fábrica do mundo precisará reduzir sua produção, pois a Europa e os EUA com tanto desemprego estagnação econômica precisam consumir menos, situação que certamente atingirá o Brasil. O futuro que nos aguarda é grego. A Grécia é um país da Europa e mesmo assim sofre um ataque muito maior dos que foram impostos à América Latina nos anos 80 e 90. Os impostos são recolhidos para uma conta especial, tem auditores europeus destas contas e só depois de entregue o dinheiro a UE é que este país poderá ter qualquer gasto. Se fazem isto na Europa, o que nos aguarda?!

Em meio ao avanço da crise econômica e das saídas reacionárias da burguesia, a juventude reage e tem entrado em luta em vários países, mas ainda não a altura dos desafios históricos. Na Grécia a juventude vai às ruas, protagonizando diversos enfrentamentos de rua com a polícia para barrar os planos de austeridade e também a classe trabalhadora dá mostras com 16 greves gerais de que não está disposta a pagar pela crise dos capitalistas. Para que esta disposição de luta alcance suas necessidades é preciso superar a burocracia sindical que impede a confluência da juventude e da classe trabalhadora, e trata cada greve geral não como uma investida contra o governo e a burguesia mas como pressão para que alterem o ataque. Na Espanha a situação é muito semelhante, o desemprego chega a 25% e a juventude também sai à luta. A juventude indignada espanhola influencia a juventude em todo o mundo a criar “Occupy”. Na Primavera Árabe a juventude e o povo põe-se em movimento para derrotar décadas de ditaduras sanguinárias, vendidas ao imperialismo que mantinha sobre o manto do nacionalismo árabe a população sob fome, repressão, desemprego e miséria. 

Na América Latina, a juventude no Chile protagonizou uma luta por mais de 7 meses em defesa de educação gratuita, de qualidade para todos, fazendo tremer as bases de um regime repressivo e anti-democrático, herdeiro da Ditadura de Pinochet. A combinação de família e gerações de jovens endividadas com a educação privatizada com a repressão policial fez surgir no Chile uma juventude conhecida como a “geração sem medo” e que, em processos desiguais, vai fazendo experiências com o PC Chileno e outras direções que buscam desmobilizar através de conduzir tudo à negociações estéreis com o governo. Sigamos o exemplo dos estudantes chilenos, sejamos aqui também uma geração sem medo de lutar pelo futuro.

Não é só na economia que a burguesia prepara grandes ataques

A Europa do consenso está morrendo para dar lugar ao predomínio, aberto, de uma nação (Alemanha) sobre outras. Isto é uma reviravolta histórica a todo projeto de união européia e todo equilíbrio entre França, Alemanha, Inglaterra que predominou nas últimas décadas. Isto é um sinal de que o futuro nos espera muito maiores contradições entre os estados.  Para conseguir implementar estes ataques a burguesia também precisa garantir condições políticas. Se, os “ajustes” são duros demais é difícil que consiga impor sua hegemonia somente pelo consenso – convencimento. É preciso, se necessário derrotar, esmagar a classe trabalhadora. É por isto que vemos nascer, e ser alentado, ainda de forma não decidida, uma série de partidos xenofóbicos na Europa, o Tea Party nos EUA. São ensaios de governos reacionários e fascistas. Estes desafios políticos se dirigem não só à classe operária e juventude mas a conquistas elementares da humanidade, como livrar-se do racismo como instituição oficial e legal do Estado, separação – formal que seja – do Estado e da Igreja, entre vários outros, estarão questionados. Estes fenômenos são uma viva atualização do que dizia Lênin que vivemos em uma época de crises, guerras e revoluções. A juventude que nossos tempos exigem, e o futuro exigirá muito mais precisa partir disto. Lutar contra o imperialismo e pela revolução! 

Tomemos os exemplos da luta da juventude no mundo e construamos uma juventude revolucionária

No Brasil depois de 8 anos de governo Lula e de eleger a primeira presidente mulher, consolida-se o mito de país “potência” em que as condições de vida poderiam avançar de forma lenta e gradual, num clima de paz social, que caminharia ao fim da miséria, que atinge o posto de 6° economia do mundo. O que vemos é que este clima de paz social tem dias contados. Pois este Brasil potência cresce em meio ao trabalho precário, salários de miséria, déficit de moradia e índices esse sim no topo da lista: de violência policial e de mortos em crimes patronais chamados de acidentes de trabalho – mais de mil por ano. Não existe possibilidade de o Brasil permanecer blindado em meio à crise econômica mundial. Se, com toda a suposta blindagem o que vemos é repressão a quem luta pela universidade como na USP, por terra como no Pinheirinho, privatizações da previdência e aeroportos por Dilma o que nos esperará quando tudo deixar de ficar “perfeito”? Por isso precisamos nos preparar para o que tempo nos exige ser.

Mas a Grécia, a Espanha, o Egito, mostram como ainda inicialmente, mas sem sombra de dúvidas a juventude pode ajudar a sacudir os trabalhadores e o conjunto da população. A juventude pode ter um papel na luta de classes ao lado dos trabalhadores e do povo! 

É preciso que tenhamos isto muito claro em cada discussão sobre que universidade queremos, como lutar por permanência estudantil, como barrar os aumentos dos transportes públicos. Participar ativamente de cada luta pontual que aconteça, organizando, questionando, preparando o futuro, nossos sonhos. É preciso derrotar os ataques que a universidade sofre hoje, defender os lutadores da USP e em todo país como preparação do futuro. 

O revolucionário russo Lênin dizia: "É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias." Para fazer possível nossos sonhos de construir um mundo livre da exploração do homem pelo homem, o que só é possível pela organização da classe trabalhadora aliada ao campesinato, desempregados, juventude e setores explorados da sociedade. Nossos sonhos não cabem em vitrines, creditos no cartão, nem nas urnas. A realidade hoje nos exige pensar, questionar, lutar, nós da Juventude Às Ruas, queremos fazer o esforço apaixonado de sacudir aqueles que não vem o que se aproxima, e mostrar que se aproximam novos tempos e que a juventude pode fazer diferença na luta de classes. 
_________________________________________________________________________________

Breves lições da luta da USP

Em meio a uma situação nacional onde o que se destaca é a esperança em mudanças graduais, os estudantes e a juventude em geral, no país tem mostrado em forma muito embrionária e inicial sua relação com este processo mundial. Ano passado ocorreram várias lutas por permanência estudantil como restaurantes, bolsas, em praticamente todas universidades federais do país, mas achamos importante destacar três processos que apontam, ao nosso ver, embrionariamente para o futuro pois se ligam a problemas dos trabalhadores e do povo, e porque criam novas formas de organização. Na UFMG centenas de estudantes apoiaram ativamente a luta dos trabalhadores da educação de Minas, na UFF os estudantes lutaram contra a remoção de uma favela, e com mais destaque e mais profundamente o que ocorreu na USP. Em meio a uma situação onde a burguesia conseguiu reconquistar apoio a sua assassina polícia os estudantes da USP souberam ser audazes em lutar pela retirada da polícia da universidade. Nós da Juventude às Ruas nos orgulhamos de junto a centenas de estudantes independentes conseguir que o que fosse denunciado na USP não fosse a polícia só na universidade mas também nos morros e favelas. E mais importante ainda, na USP foi erguida uma forma de organizar o movimento que é muito diferente do que existe em todo o país e permite tanto sua massividade quanto sua radicalização. Contra os limites impostos pelas principais direções do movimento (PSOL e PSTU) que buscavam que a luta não se desenvolvesse mas chegasse a rápidos acordos com a direção da universidade os estudantes, construíram um comando de greve. Um comando a partir de delegados, revogáveis, de cada assembléia na proporção de 1 delegado a cada X estudantes por assembléia. Esta medida permite que o conjunto dos estudantes em luta, toda suas tendências, criem um organismo muito superior para um período de luta do que são as entidades estudantis, ou uma reunião de todas as correntes, mas uma representação real, mutável a cada assembléia do conjunto do movimento. Uma direção democrática, auto-organizada, do conjunto do movimento. 
_________________________________________________________________________________
Educação para todos? 

As universidades no Brasil mostram como não estamos avançando para que a educação seja um direito de todos. É só olhar em volta para ver que são poucos os negros, a única vaga que é reservada para a maioria negra da população é na limpeza. Um dos mecanismos que garante este elitismo e racismo é o vestibular.

“Novo” Enem: fim do vestibular (?!) 

O “novo” Enem e o Sisu não alteraram esta estrutura que os petistas herdaram e mantiveram dos tucanos. As vagas permanecem limitadas, e grande parte do orçamento é comprometida em ajudar os grandes empresários da educação através do PROUNI. Mesmo com um “vestibular nacional” e alguma expansão de vagas mantém-se de pé este filtro social, e mais estas mudanças não alteram outro filtro social das universidades. O estudante pobre que passou dificilmente conseguirá arcar com a moradia, os custos da vida acadêmica, alimentação, transporte. 

As miseráveis políticas de assistência estudantil e o prolongamento do filtro social no cotidiano da academia

Uma questão extremamente importante e que se encontra totalmente abandonadas por governos e reitorias, são as políticas que tangem a permanência estudantil nas universidades. Para ficarmos apenas num “pequeno” exemplo da dimensão do problema podemos citar a situação da moradia estudantil daqui da UFRJ: São 504 quartos ao todo para uma Universidade com 50.000 estudantes!  Sem falar que e o “aló” está abandonado e precário. Os poucos estudantes de baixa renda que conseguem as disputadíssimas vagas no aló, ainda são obrigados a arcarem financeiramente para poderem permanecer na moradia. 

- Por moradia, bolsas, transporte e alimentação para todos!
- Por bandejões sem trabalho precário, com trabalhadores efetivos das universidades! 
- Pela estatização das universidades privadas para garantir vagas para todos em um sistema público, gratuito e de qualidade!
- Pelo fim do vestibular/livre acesso!
______________________________________________________

RIO DE JANEIRO: A CIDADE DO FUTURO OU UMA  CIDADE A FAVOR DOS LUCROS ?

O Rio de Janeiro tem passado por várias transformações  para sediar os grandes eventos em 2014 e 2016.   Obras faraônicas no estádio do Maracanã; grandes reformas como a chamada “Operação Porto Maravilha” na Zona Portuária; as inúmeras desocupações urbanas e as UPP´s (Unidades de Polícia Pacificadora) nos morros e favelas cariocas. Por mais que a princípio pareça que a cidade está se desenvolvendo e que toda a população de forma geral tem melhorado suas condições de vida, é necessário olharmos mais de perto as contradições postas, que refletem uma lógica que beneficia cada vez mais a burguesia em detrimento dos trabalhadores. 

 As UPP´s: mais repressão e controle à juventude negra e pobre e aos trabalhadores

Com a desculpa de serem uma forma de combate à violência, somam-se hoje 19 UPP´s, que além de garantirem preços exorbitantes dos aluguéis com a valorização dessas regiões, servem para reprimir e controlar os moradores das favelas e morros impedindo até confraternizações. O projeto carro chefe do governador Cabral e o secretário de segurança pública José Mariano Beltrame, aplaudido por Lula e defendido por Dilma como “um exemplo a ser seguido em todo o país” (e que hoje já é implementado em Salvador e Curitiba) expressa o verdadeiro projeto de cidade pensado pelos governos, baseado na repressão. 

No último período, são recorrentes as notícias dos inúmeros ataques diretos e perseguições que a classe trabalhadora e a juventude negra e pobre vem sofrendo no Rio de Janeiro. A polícia, que reprime as manifestações estudantis, greves operárias e que desocupa de forma criminosa moradores de suas próprias casas diariamente no Rio de Janeiro, (assim como fez recentemente no Pinheirinho) tem como único propósito de existir a defesa da propriedade privada e os interesses do Estado e da burguesia. Se no Rio, ainda sem intensa luta de classes, a burguesia pode se dar o luxo de vender sua polícia como algo para a “segurança dos indivíduos”, lugares como o Egito, Grécia, Estado Espanhol, Chile, mostram o que ela é. Uma garantidora da ordem – da propriedade da burguesia e seus governos – contra o povo! Por isto o fortalecimento da polícia, e de sua suposta segurança não é um projeto que favorece os trabalhadores e o povo.

A Precarização do trabalho e da vida

A aliança entre os governos federal, estadual e local com a burguesia carioca é cada vez mais explícita. Hoje existe um projeto de lei no Senado com objetivo de  proibir as greves operárias nos últimos três meses antes dos mega eventos e durante todo a sua duração, um brutal ataque a todos trabalhadores.  O chamado AI-5 da Copa, literalmente caracteriza como crime um direito fundamental e inclusive constitucional de liberdade de expressão e manifestação, criminalizando o principal método de luta da classe operária, as greves. Isso mostra que os ataques estão só começando, e que muito ainda estão por vir.

Estão construindo uma cidade que é para os lucros, para a Fifa, para Eike Batista. Precisamos lutar por uma outra cidade, uma cidade dos trabalhadores e do povo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com Javiera Marquez, estudante da Universidade de Santiago do Chile, participou ativamente das lutas em defesa da educação gratuita e que está no Brasil

Juventude às Ruas: Por que você está vindo para o Brasil?

Eu fui convidada pelo comando de greve da USP para vir nas atividades da calourada. Fiquei muito contente porque será uma excelente oportunidade de compartilhar com o movimento estudantil brasileiro a histórica luta da qual fiz parte durante mais de 7 meses de luta, como militante trotskista do PTR [organização irmã da LER-QI no Chile] e ativista do movimento estudantil, que não somente colocou centenas de milhares nas ruas em luta pela educação pública, gratuita e de qualidade, mas também fez tremer as bases de um regime político super repressivo e anti-democrático, principalmente com a juventude. Acho que será ótimo que os estudantes daqui saibam o que aconteceu por lá, não pela via da mídia que distorce tudo, ou pela Camila Vallejo que sei que veio aqui no Brasil convidada pela UNE, pois a verdadeira história do que passou não poderia ser contada por essa via. Da mídia já sabemos o que esperar, mentiras. Mas a Camila Vallejo apareceu em todo o mundo como a figura do movimento estudantil, e de fato era a que mais aparecia na mídia, mas isso não expressa como eram as coisas por lá, pois ela e o Partido Comunista da qual faz parte foram traidores da luta, e por isso são rechaçados massivamente em todo o país. Isso se demonstrou inclusive nas eleições estudantis no fim do ano, quando a Camila Vallejo sequer ganhou as eleições do DCE da Universidade do Chile, da qual faz parte, assim como o PC foi amplamente derrotado em várias universidades, inclusive na própria USACH onde eu estudo jornalismo.

Juventude às Ruas: Quais são as principais questões que você pensa em compartilhar por aqui?

É difícil resumir assim, o melhor mesmo será nas atividades que queria convidar a todos para que venham. Mas uma das coisas que vou querer explicar é porque foi um movimento tão massivo, tão profundo e que marcou tanto todo o povo chileno. O Chile não é mais o mesmo depois dessa luta. Quero que as pessoas entendam porque somos conhecidos como a “geração sem medo”. O Chile tem um regime e um governo ultra-repressivo e anti-democrático, herdeiro direto da ditadura pinochetista que deixou heranças nefastas até hoje. Combinou-se o problema de que os estudantes e famílias de todo o país não aguentam mais pagar universidades tão caras (aqui não há mais universidade gratuita desde a ditadura), com um ódio acumulado contra esse regime que para a juventude só deixa a repressão. Foi esse ódio acumulado que fez com que não somente saíssemos massivamente às ruas, mas ocupássemos as universidades e nos enfrentássemos sempre com a polícia que queria impedir nossas manifestações. 

Também quero explicar como era as discussões dentro do movimento estudantil, porque aqui eu imagino que sabe-se muito pouco, mas houve um enorme movimento anti-burocrático que questionou muitíssimo o PC, Camila Vallejo e Giorgio Jackson que foram as figuras que ficaram mais conhecidas. Principalmente entre os secundaristas o PC já não consegue controlar o movimento desde 2006, quando aconteceu o que ficou conhecida como a “Rebelião dos Pinguins”, mas também nas universidades o questionamento foi enorme, porque o PC dizia o que queria na mídia e não tinha nada a ver com o que votavam as assembleias. Essa é uma das principais lições que tiramos, que é necessário ter comandos de luta com delegados eleitos na base, como sei que vocês avançaram na USP e é importantíssimo. Pois só assim os estudantes podem decidir os rumos da luta democraticamente. Na minha universidade foi enorme o movimento anti-burocrático, mas o PC burocrateava de todas as maneiras tudo. Muita gente tirou a lição de que poderíamos ter vencido se tivéssemos varrido a burocracia estudantil, e por isso o PC saiu muito mal da luta, por exemplo na USACH eles dirigiam o DCE e agora foram derrotados fortemente nas eleições.

Juventude às Ruas: Conte-nos um pouco melhor o que aconteceu na USACH?

Para que se entenda porque foi justamente nesta universidade onde mais se avançou na luta contra a burocracia estudantil, é necessário entender que apesar de que a USACH é a segunda universidade mais importante do Chile, é onde também a maioria dos estudantes estuda com bolsas, então ela não é tão elitista como as outras. Somos todos jovens trabalhadores ou filhos de trabalhadores, então somos os que estamos mais cansados de ficar 10, 15 anos pagando a universidade depois que nos formamos, assim como nossas famílias, somos os que mais queremos educação gratuita, política que o PC sempre foi contra. 
Mesmo com um movimento que colocou nas ruas mais de 600 mil pessoas em todo o país, e imaginem que o Chile tem 15 milhões de habitantes, e com um amplíssimo setor na base querendo que a demanda fosse educação gratuita como piso mínimo, porque sentíamos a força que tínhamos, o PC se colocava contra. O PC e Camilo Ballesteros, que era o presidente do DCE se negavam a aceitar o mandato das assembleias e os estudantes se rebelaram, tornamos a vida da burocracia estudantil um inferno. Eles tinham até que trazer seguranças do PC para fazer as reuniões e partiam para a agressão física porque os estudantes não aguentavam mais. E todo este processo culminou nas eleições do DCE que aconteceram em janeiro, onde a chapa que nós do PTR organizamos com dezenas e dezenas de independentes ganhou mais de 2000 votos, enquanto o PC não chegou aos 1300 e nem puderam colocar Camilo Ballesteros como candidato de tão odiado que é hoje em dia. Infelizmente, não ganhamos o DCE porque houve uma aliança do Partido Socialista com estudantes de direita que mobilizaram massivamente todas as faculdades de engenharia para votarem em massa, e conquistaram 3000 votos. Mas a força do movimento anti-burocrático que surgiu aí é muito maior, e será uma gestão sem nenhum peso na base, enquanto a nossa chapa segue organizada em mais de 20 cursos. Foi uma vitória política importantíssima que deixou bases para seguir um movimento muito forte não somente dentro da USACH, mas junto aos milhares e milhares que em todo o país questionaram a burocracia estudantil e que não vão ficar passivos por muito tempo. O movimento estudantil chileno vai voltar a explodir, e este regime pinochetista não vai se sustentar. Nós concluímos que para conquistar algo, temos que lutar por tudo, e é esse o espírito que vai se expressar nas próximas batalhas.