Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

terça-feira, 20 de março de 2012

BOLETIM DA JUVENTUDE ÀS RUAS EM MG



O FIM DO MITO DO “FIM DA HISTÓRIA”

POR BERNARDO ANDRADE, MILITANTE DA LER-QI, ESTUDANTE DE FILOSOFIA 

No último ano estudantes, jovens, trabalhadores e o povo pobre de diversas partes do mundo protagonizaram grandes movimentos. Esses processos não ocorrem por acaso. Em  diferentes níveis, mostram a enorme insatisfação da população frente os planos dos bancos centrais e dos governos da Alemanha, França, Grécia, Espanha, Portugal, e um longo etc. Esses planos implicam na retirada brutal de direitos conquistados anteriormente através de lutas para supostamente recuperar a economia combalida pelas profundas contradições do modo de produção no qual vivemos, o capitalismo.

Não por acaso esses processos há mais de um ano seguem mostrando a completa falência do discurso ideológico que, durante os anos noventa, falsamente afirmou o “fim da história”. Diziam acabados os anos de revoluções, que qualquer saída socialista estava esgotado, que só o que nos restava seria nos resignar e aceitar a vida sem perspectivas, baseada no individualismo – que, eles dizem, seria a única maneira de “se dar bem”. No entanto, a história não acabou e segue queimando esses sonhos antigos (dos burgueses e burocratas que acordados estão dormindo, vivos estão mortos...). As provas do quão anacrônico e parcial é o discurso dos capitalistas e seus governos são justamente as lutas que a juventude e os trabalhadores hoje protagonizam ao redor do mundo.

A atual crise do capitalismo que vivemos escancara a essência contraditória das relações sociais as quais nos permeiam. Relações que são determinadas pelo modo de produção que concentra e subordina todas as relações humanas em função das necessidades de reprodução do lucro de um punhado de bancos e monopólios e, portanto, é incapaz de garantir sequer as condições mais elementares para a sobrevivência do povo e da cada vez maior classe trabalhadora no mundo – muito menos suprir as necessidades, que permanentemente nos são negadas, em ter acesso à cultura, arte, saúde, educação, diversão, livre expressão, saúde e educação sexual e uma série de condições fundamentais para vivermos segundo nossas necessidades humanas, principalmente para a juventude!

A palavra Revolução se re-significa e, a seu modo, devora pseudociências que tentam fazer das relações de produção e de propriedade, que na verdade são relações históricas transitórias no curso da produção, leis eternas da natureza e da razão. É isso que está em jogo e a história - ao contrário de seus pretensos algozes que dizem que felicidade, esperteza e maturidade é aceitar as regras do jogo impostas - nos chama a participar, a decidir e a ser sujeito histórico ao lado dos que precisam e podem transformar radicalmente essa sociedade, a classe trabalhadora, a juventude e o povo explorado e oprimido.

A CRISE CAPITALISTA: QUEREM DESCARREGAR SOBRE OS TRABALHADORES E O POVO A CRISE ESTRUTURAL DO CAPITALISMO

Durante os anos noventa principalmente os capitalistas propagaram o ideal do neoliberalismo. Diziam que a queda do muro de Berlim significava o fim das revoluções e que por isso cabia uma doutrina que libertava a “livre iniciativa” das garras dos estatistas.

A doutrina econômica do neoliberalismo nunca foi o determinante nos últimos vinte ou trinta anos. Esta foi só uma forma econômica decorrente de um profundo processo político e social. Nesses anos na verdade tiveram como características essenciais a retirada brutal de direitos dos trabalhadores por via da precarização intensa das relações de trabalho. É por isso que podemos ver hoje nos corredores de nossa universidade muitos trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas que possuem salários duas vezes menores que dos trabalhadores efetivos. Hoje praticamente inexiste final de semana livre e todos trabalham pelo menos um dia. A privatização da saúde, a privatização das universidades públicas, o alto crescimento das universidades privadas e do ensino médio privado, a favelização brutal, a sobrevivência em base ao endividamento... esses são fenômenos mundiais e todos tem seus ápices nos anos 80, 90 ou 2000.

A verdade é que a tal “livre iniciativa” significa a liberdade estritamente dos mesmos grandes monopólios financeiros de antes. Os governos os deixavam cada vez mais livres para transformar em mercadorias - além de super-explorar os trabalhadores por via das terceirizações e precarização como citamos acima - alguns direitos que antes eram tidos como básicos. Só assim puderam sair de crises e contradições econômicas que se aprofundavam na década de setenta e oitenta em todo o mundo e aumentar seus lucros.
  
Mas como fizeram isso? A primeira coisa é que a própria precarização e terceirização levam à fragmentação da classe trabalhadora. Divididos os trabalhadores não conseguem se unificar e barrar os ataques a suas condições de vida. Segundo, isso só podia ocorrer por causa das burocracias sindicais, ou seja, representantes dos patrões dentro dos sindicatos de trabalhadores. As péssimas condições de trabalho e a alta rotatividade sempre favorecem a manutenção desses burocratas.

Em terceiro lugar, a repressão brutal do Estado, contra os trabalhadores precarizados, agrupados em favelas, mas não só, repressão por via da violência e da guerra da polícia – que defende os mesmos interesses dos governos e monopólios financeiros – contra os trabalhadores empobrecidos, contra a juventude e principalmente contra o povo negro. Não precisamos nem reafirmar o racismo cada vez mais evidente da polícia, mas é preciso dizer que esta serve à potencialização dessas condições precárias de vida acima citadas, assim como ao machismo, à homofobia e a criminalização das ditas drogas.

E por último a reconquista de mercados no leste Europeu e a reinserção de 1 bilhão de trabalhadores chineses ao mercado capitalista mundial.

Tudo isso fundamenta o processo social e político que, como vimos acima, só significa condições de vida cada vez piores em todo o mundo. Livre iniciativa para os monopólios burgueses explorarem e oprimirem. Pros trabalhadores e o povo significa ficar sem sindicatos, demitidos aos primeiros sinais de revolta e vivendo endividados para sobreviver. Estudando cinco anos e pagando quinze, como acontece no Chile – e por isso a juventude e os trabalhadores pararam o país no último ano em defesa de educação pública e gratuita para todos.

Porém, acontece que esses monopólios seguiram lucrando com essa situação até o momento que, como é tendência inerente ao capitalismo, esgotaram novamente sua capacidade de lucrar e, portanto acumular capital. Essa é a situação que vemos hoje no mundo. E o que propõem esses mesmos monopólios e governos que os servem? Descarregar sobre os trabalhadores a crise deles. Em números, só na Grécia, hoje isso significa “a supressão de 3,3 bilhões de euros do orçamento público, privatizações dos setores chave da economia, corte de 22% no salário mínimo, aumento de impostos e a demissão/suspensão de mais de 150.000 funcionários públicos (um quinto dos trabalhadores estatais gregos), com a extinção desses cargos, sob condições de desemprego que atingem 21% da população.”¹

NO BRASIL NÃO É DIFERENTE

No Brasil podemos ver como todos os elementos acima se expressam de maneira acentuada, como em poucos outros lugares do mundo.

“Mas o Brasil está estável politica e economicamente, não sofremos do mesmo mal!”. Diz o governo de Dilma em coro com os tucanos e tudo que há de mais reacionário no país.

No Brasil há alto índice de precarização do trabalho, de rotatividade no trabalho, de precarização da vida, com condições de moradia absurdas, com favelas cada vez maiores, com centenas de mortes todos os anos devido às más condições de moradia, com uma das policias que mais mata no mundo, como o país onde mais se morre por acidentes de trabalho no mundo.

Logo, não poderia ser diferente. A estabilidade se justifica porque aqui a exploração e opressão seguem se aprofundando! Se pode ser constatado um aumento no consumo, isso só se dá a custo do alto índice de endividamento e da precarização de todas as condições mais elementares de vida. A nova classe média que diz o governo assiste em LCD com esgoto a céu aberto. Nada mais é do que um lugar onde os capitalistas em crise ainda podem lucrar.

E isso não poderia acontecer sem o governo do PT, que se diz um governo de trabalhadores - baseado na autoridade de Lula - mas na verdade é um governo que hoje representa esses mesmos monopólios internacionais que, como o mesmo Lula sempre enchia a boca para dizer, nunca lucraram tanto no Brasil!

Além disso, a burocracia petista nos sindicatos cumpre o papel de reprodutores dos interesses dos capitalistas, como se fossem trabalhadores. E não para por aí. O PT, e seu aliado PCdoB, dominam a UNE, recebem milhões de reais do governo e dessa maneira agem no seio do movimento estudantil, segundo os interesses do governo e dos monopólios da educação superior no Brasil, auxiliados pelo PROUNI que transfere dinheiro público para as universidades privadas. Sem superar essas burocracias privilegiadas pelas relações com o governo não há como unificar a juventude, estudantes e trabalhadores para que possam se organizar conjuntamente e expressar suas necessidades reais.

Em Minas Gerais as forças do governo federal andam de mãos dadas com o mesmo PSDB que usou da polícia militar como uma força privada, em uma ação violenta e ilegal contra os moradores do Pinheirinho em São José dos Campos, e contra os estudantes da USP. A famigerada aliança “dilmasia” entre tucanos e petista na prefeitura de BH mostra como nos ataques aos trabalhadores e jovens o governo federal e estadual andam de mãos dadas dentro e fora das universidades. Esses objetivos em comum junto a setores da burguesia se expressam no despejo de moradores em função dos lucros estrondosos visados para a Copa do mundo, na repressão aos professores da rede estadual na greve do ano passado e a contínua precarização da educação.

O MARXISMO COMO CIENCIA E ARTE PARA TRANSFORMAR O MUNDO.

Esse conjunto de relações sociais concretas não são auto-explicativas nem triviais. Ainda mais, há uma série de pseudoteorias com o objetivo de naturalizar essas relações de opressão. Assim como a filosofia medieval tomou muitas das questões fundamentais da filosofia grega e as subordinou à necessidade social de justificar uma sociedade onde a Igreja cumpria um papel fundamental no poder estatal, ainda hoje também nos deparamos com uma série de filosofias e concepções de mundo que tentam naturalizar a propriedade privada e as relações de produção atuais como leis da natureza, eternas. 

Na verdade cada vez mais o ensino, a pesquisa e todas as atividades na universidade estão subordinadas às necessidades do mercado. A livre expressão, a livre troca de conhecimento, a liberdade de organização, de manifestação é constantemente estranguladas pelas tesouras do governo que destinam as verbas voltadas aos cursos que tem interesse de mercado ou, o que se constitui como uma regra nas universidades brasileiras, pelas mãos dos diretores de faculdades, professores e reitores que, apoiados no poder quase ilimitado que possuem pelas estruturas de poder completamente autoritárias das universidades, mantém relações muitas vezes estreitas com fundações e empresas privadas que atuam dentro da universidade, com centros de pesquisa privadas, e uma série de relações que se estabelecem, principalmente, pois representam o controle do governo diretamente sobre a universidade, ferindo a autonomia universitária – na maioria das universidades públicas brasileiras quem escolhe os reitores é o presidente do país ou os governadores dos estados.
               
Além disso, as universidades públicas são completamente elitistas. Sua função social não é produzir conhecimento livre e em interesse de toda a humanidade, senão que produzir conhecimento em função dos lucros de uma minoria, além de fornecer mão-de-obra qualificada para ser explorada, sem as implicações de um possível avanço na consciência crítica dos que porque ali passam. São assim desde que começaram a existir e todo ano, enquanto alguns pouquíssimos comemoram a aprovação no vestibular, milhões de jovens, principalmente negros, minorias como os índios, e trabalhadores, ficam de fora, esquecidos, filtrados por um cruel mecanismo chamado vestibular, que não por acaso aprova na maioria das vezes os que podem pagar cursinhos caros e não precisam trabalhar, com poucas exceções. Por isso achamos fundamental colocar nosso conhecimento a serviço de combater esse caráter de classe dentro da universidade. Para combater os meios pelos quais se subordina o conhecimento à necessidade de se justificar uma ordem social tão opressora – e de fornecer-lhe instrumentos científicos para aprofundar a exploração –, e coloca-la a serviço dos interesses da humanidade.

Mas isso também não é o bastante. Como mostramos acima neste texto, vivemos em um momento de crise do capitalismo. Os 700 monopólios que hoje dominam o mundo querem superar essa crise rebaixando as condições de vida da juventude e dos trabalhadores em um patamar inferior muitas vezes ao das necessidades da mera sobrevivência. Portanto, só podemos colocar o conhecimento realmente a serviço dos interesses gerais da humanidade se transformamos antes as próprias relações de produção em função das necessidades humanas e não do lucro. Isso só pode ocorrer pela expropriação desses monopólios e de sua produção pelos trabalhadores e pelo povo. Por isso achamos fundamental o resgate do marxismo, livre do academicismo e do pedantismo teoricista, por conseguinte, próximo dos trabalhadores, como ciência e arte para transformar o mundo. 

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A UNIVERSIDADE QUE A BURGUESIA QUER EM TEMPOS DE CRISE

POR RODRIGO SILVA (Filosofia)

Para não tomarmos o que acontece ao nosso redor como causa e consequência de si mesmos, uma abordagem mais ampla pode nos ajudar a entender os rumos que a universidade pública tem tomado nos últimos anos no Brasil. Primeiro é importante ressaltar que o ensino superior brasileiro tem como tônica de sua história o elitismo. As universidades públicas brasileiras todas, em maior ou menor medida, foram pensadas para formar as elites intelectuais burguesas nacionais. Por isso nunca satisfizeram, minimamente sequer, a demanda da juventude pobre, principalmente negra, em ter acesso a ensino superior público, gratuito e de qualidade. Por outro lado em um momento como o que vivemos, em que o próprio capitalismo se convulsiona em crises estruturais, e a burguesia precisa avançar cada vez mais para abarcar no mercado e não só retirar direitos trabalhistas para melhor explorar a classe trabalhadora, mas também transformar em mercadorias o que antes eram direitos fundamentais, a educação superior tem sido por todo o mundo atacada e desfigurada por este processo. As universidades, que durante boa parte do séc. XX eram na sua maioria instituições estatais – e que, em alguns casos, como nas universidades privadas americanas do começo do século, mesmo quando privadas, dificilmente visavam de alguma forma o lucro –, vêm passando por um processo de privatização, que se dá em vários níveis. Um grande pensador anticapitalista, Immanuel Wallerstein, em seu mais recente artigo, aborda a questão da seguinte forma: “O que a privatização começou a significar por todo o mundo foram várias coisas: um, começaram a haver instituições de ensino superior que se estabeleceram como negócios, com fins lucrativos; dois, as instituições públicas começaram a buscar e a obter dinheiro de doadores corporativos, que começaram a intrometer-se nas decisões internas das universidades; e três, as universidades começaram a buscar patentes para os trabalhos em que os investigadores da universidade tenham descoberto ou inventado algo, e como tal começaram a ser operadores da economia, ou seja, se tornaram parte do negócio.”¹

Processos como o acima citado têm acontecido por todo o mundo, da Espanha a Grécia, passando pela América Latina, com processos de luta se abrindo em diversos países, organizados por estudantes e professores que se contrapõe a este projeto, como na Colômbia, onde a mobilização massiva fez o governo retroceder, e no emblemático processo chileno, onde o alcance gigantesco das mobilizações pode levar os estudantes a questionar não apenas o regime universitário, como também o próprio regime político do país. Mais recentemente, na Espanha, dezenas de milhares de estudantes se puseram em greve no dia 29 de fevereiro contra medidas que visam precarizar e privatizar o ensino superior, mobilizando mais de 20 cidades, e inclusive se aliando à classe trabalhadora na luta contra as reformas trabalhistas do governo². No Brasil, com o processo aberto na USP, estudantes também se levantam contra a repressão que é necessária para que estas medidas sejam executadas. Para quem não está informado de que tipo de medidas são estas, citaremos algumas: “(...) Rodas começou, no ano passado a aplicar o Plano Diretor, uma espécie de reforma universitária que serviria para reestruturar currículos e cursos de acordo com as demandas de mercado, fechando os cursos de baixo impacto econômico e incentivando financeiramente os que se adequarem ao projeto. Isso justamente com o objetivo de fazer a USP avançar nos rankings internacionais, se adequando aos critérios produtivistas que “medem” a qualidade das universidades, e dando projeção para a universidade a partir daí. Além disso o reitor afirma claramente que os cursos que conseguirem buscar a iniciativa privada para seu financiamento serão bem vistos, se coloca como um defensor do mecenato, quando na verdade defende a privatização do ensino e do conhecimento produzidos na universidade.”³ Mas a USP não é exceção. Em todo o Brasil tem sido tomadas medidas que avançam na privatização da universidade, inclusive com processos de luta sendo abertos em diversos estados, como em Rondônia. Na UFMG, a proposta de implantação do EBSERH, que privatiza o Hospital das Clínicas da UFMG, e a inserção no capital privado nas faculdades, a valorização do conceito de “universidade de excelência”, que visa se adequar em termos de produção acadêmica para melhor se posicionar nos rankings internacionais, e atrair mais capital privado, em detrimento de aspectos fundamentais da vivência universitária, além de medidas repressoras que visam calar os estudantes e impedir que estes se levantem e se organizem para rejeitar tal ataque, são mostras de que por aqui passamos pelo mesmo processo. Já citamos acima outras implicações que tais medidas têm no regime e na vivência universitária.

Do outro lado da privatização do ensino superior, temos o avanço das instituições privadas, que hoje atendem a cerca de 75% de todos os estudantes de ensino superior no Brasil. Essas instituições em diversos casos são “conglomerados educacionais, grandes empresas, de capital aberto e com forte participação de grupos estrangeiros em seu quadro de acionistas”. Neste caso, essas empresas se aproveitam de um lado, do abandono do Estado, que não oferta vagas no ensino público na mesma proporção da demanda, e mesmo quando oferta, o faz sem a estrutura adequada, o que gera precarização no ensino, e de outro lado, das chamadas parcerias público-privadas, que na verdade engendram um processo de transferência de recursos públicos para a iniciativa privada. ProUni e Fies são medidas neste sentido implementadas pelos governos Lula e Dilma, além de benefícios fiscais. Além de precarizar o trabalho dos próprios docentes, que se veem impedidos de continuar suas pesquisas, sem estabilidade no emprego, e forçados a recorrer a jornadas de trabalho extenuantes para se sustentar, o ensino superior privado é extremamente danoso ao próprio conceito de formação universitária, pois sua função, além de obter lucros, é formar mão-de-obra qualificada sem o devido senso crítico, o que é chamado por Andrea Harada Souza de “certificação vazia”. 

Segue uma citação da autora: “A forte presença do controle corporativo em um setor essencial como a educação provoca sérias fissuras na malha social, na medida em que os desdobramentos da transferência tácita da responsabilidade do Estado para a iniciativa privada têm autorizado o funcionamento de fábricas de diplomas com certificação vazia, para uma população que, embriagada pela democratização do acesso, ainda não se sabe enganada.”

Portanto os objetivos dos governos são claros e as consequências inevitáveis. Ou seja, passamos por um processo de precarização dos cursos que não tem apelo mercadológico, ou de aprofundamento do caráter de formação de mão de obra em cursos de humanas, o que precariza principalmente os cursos de licenciatura. Por outro lado há um aprofundamento do elitismo nos cursos de excelência que abrem menos vagas ao mesmo tempo que recebem altas verbas advindas e direcionadas à iniciativa privada. Ou seja, não há democratização. Há um direcionamento ainda maior do ensino superior aos lucros e não às necessidades da grande maioria dos jovens que seguem distantes da universidade publica.

Tanto é que simultaneamente acompanhamos um alto índice de precarização das relações de trabalho dentro da universidade. Pelos corredores praticamente os únicos negros que vemos são trabalhadoras mulheres, terceirizadas que recebem muito menos que um funcionário efetivo, trabalham mais e não possuem quaisquer direitos elementares, como sindicalização.

Nesse marco, é importante perguntar; como esse processo mundial chega dentro da universidade, ao nosso cotidiano? Através dos diretores das faculdades, professores que se associam à privatização na universidade – muitos possuem vínculos ou são donos de fundações privadas ou empresas terceirizadas que estão dentro da universidade devido ao posto destes professores – e do reitor. O reitor é escolhido pelo presidente da república, os diretores das faculdades são escolhidos pelo reitor, ou seja, todos, em primeira e última instancia, são ligados diretamente ao governo. Assim se desmente a fábula do abismo entre os planos do governo e a autonomia universitária. Por isso, a estrutura de poder da universidade é tão autoritária e repressora, para que esses burocratas acadêmicos possam livremente aplicar esse plano de privatização dentro da universidade.

Enfim, esse processo de privatização só se mantém porque no Brasil existe um filtro chamado vestibular. Por não passarem no vestibular, a maioria das pessoas atribuem à suposta falta de mérito não terem acesso à universidade publica. É evidente que o vestibular só serve para que essas pessoas não percebam que o principal problema é a falta de vagas. Assim, o vestibular se constitui como um filtro de classe, que deixa os jovens pobres e grande parte da juventude negra fora da universidade.

É por esses elementos que expomos acima que afirmamos que a universidade não é uma bolha. O destino da universidade está ligado com as questões políticas externas à universidade. Portanto, para nós é importante se ligar aos que hoje estão fora das universidades públicas, lutar pelo fim do vestibular (em países como Argentina, França, Bolívia etc não existe vestibular, todos que se formam entram na universidade), pela estatização dessas universidades privadas e a serviço dos trabalhadores e do povo para, dessa maneira, identificar nossa luta por melhores condições de estudo com as demanda da juventude pobre e trabalhadora. Transformar a universidade para transformar o país. Assim como no Chile, podemos e devemos nos juntar à juventude e trabalhadores que estão fora para transformar o que hoje são lutas isoladas, em diferentes universidades, em um questionamento nacional de toda a juventude por educação pública, laica, gratuita e de qualidade para todos. 

2 – “De Valencia a Barcelona los estudiantes toman las calles con huelga estudantil”, em http://www.ft-ci.org/article.php3?id_article=5229?lang=es
3 – “Defender o movimento e avançar na luta pela democratização da universidade”, em http://www.ler-qi.org/spip.php?article3411
4 - “Da educação mercadoria à certificação vazia”, Andrea Harada Souza, Le Monde Diplomatique.

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O QUE É JUVENTUDE ÀS RUAS?

Frente aos tempos que se abrem, marcados pela crise capitalista e o desenvolvimento da luta de classes internacionalmente, coloca-se o desafio de forjar uma alternativa revolucionária que prepare a juventude para essa etapa histórica que se desenvolve. Em aliança com os trabalhadores contra a precarização do trabalho, repressão do Estado e sua polícia contra o povo negro e todos que se colocam em luta, a opressão às mulheres e homossexuais, e contra a manutenção de uma universidade para atender aos interesses dos monopólios e grandes capitalistas, surge a Juventude às Ruas!, um grupo de jovens com aspiração revolucionária composto por militantes da Liga Estratégia Revolucionária (LER-QI) e por independentes.
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JUVENTUDE ÀS RUAS EM MOVIMENTO NA LUTA DOS ESTUDANTES DA USP   O COMANDO DE GREVE COM DELEGADOS REVOGÁVEIS: FUNDAMENTAL PARA UMA DIREÇÃO DEMOCRÁTICA  DOS RUMOS DA GREVE

A luta do ano passado na USP - que tinha como eixo central a luta pelo Fora PM da USP e pelo fim do convênio USP-Polícia Militar - deixou conquistas muito importantes. Fizemos duas ocupações e construímos uma greve que, apesar de não terem sido fortes o suficiente para vencer, geraram um movimento de milhares e milhares de estudantes, que se organizaram num comando de greve com delegados eleitos nos cursos, que junto aos trabalhadores da USP e seu combativo sindicato, o Sintusp,e de um setor de professores e intelectuais, foram capazes de desgastar Rodas e a burocracia acadêmica, e de gerar um repúdio de massas na USP à PM, ao convênio e a Rodas. A luta em defesa da universidade pública e contra o projeto privatista de universidade, que ocorre há anos, está em momentos decisivos e teve no ano passado mais uma batalha muito importante.  Após a ocupação da Reitoria que ocorreu ano passado, ao contrário do que esperava a reitoria e a grande mídia, o movimento se expandiu, e numa assembleia com milhares de estudantes foi votada a greve e, por proposta da Juventude Às Ruas a construção de um comando de greve com delegados eleitos nos cursos, uma votação histórica no movimento estudantil do país, seguindo o exemplo do que há de mais avançado no movimento estudantil internacionalmente. Foram eleitos mais de 120 delegados a partir das assembleias de curso, sendo 1 para cada 20 estudantes em assembleia, mandatados democraticamente e revogáveis. Assim, os estudantes assumiram em suas mãos a greve de forma anti-burocrática, capaz de unificar todos os setores em luta para que nada senão as suas posições devidamente representadas dirijam os rumos da greve, combatendo por um lado as correntes que em momentos de ampla mobilização nos cursos tentam subordinar os espaços democráticos de decisão de amplos setores dos estudantes (as assembleias) às decisões das entidades estudantis e seus conselhos de CAs (no caso da USP PSOL e PSTU); por outro as correntes que defendem políticas vanguardistas que tendem a desconsiderar as posições dos estudantes nos cursos (no caso da USP PCO, MNN e “autonomistas”).

segunda-feira, 12 de março de 2012

BOLETIM ESPECIAL CALOURADA - RJ

OS NOVOS TEMPOS NOS EXIGEM SER UMA JUVENTUDE REVOLUCIONÁRIA

Crescemos com a certeza que nos contavam que a história havia acabado, que o capitalismo seguia firme e sólido e que as revoluções eram coisas do passado.  Crescemos sob uma ideologia individualista que nos ensinava que os sonhos e as expectativas de vida são baseados no consumo e o que somos medidos pelo que temos.

 A crise capitalista que eclodiu em 2008 é uma crise histórica. Ela chocou estes sonhos de consumo vendidos pela burguesia com a impossibilidade de sua realização material. Os sonhos de consumismo viraram pesadelo de desemprego, repressão, fome e miséria. O destino que a burguesia guarda aos povos é mostrado na Grécia, na Espanha. 

Na Grécia foi reduzido o salário mínimo de toda a população em 22%, na juventude a redução passa de 30%. O desemprego da juventude é de os 54% por cento, e os que conseguirem empregos precários ganharam menos de metade que os adultos ganhavam antes do desconto. Para garantir os lucros, a "competitividade" das empresas entregam corpos, vidas e o futuro de gerações inteiras.

A crise e a busca de cada burguesia nacional em recuperar sua "produtividade" fará cada uma despejar sobre sua classe trabalhadora ajustes tais como os gregos. Os países da América Latina hoje andam em outro ritmo - mas dependem de uma situação conjuntural de fluxo de capitais estrangeiros e na qual a China siga comprando commodities. Mas isto terminará, a China, a fábrica do mundo precisará reduzir sua produção, pois a Europa e os EUA com tanto desemprego estagnação econômica precisam consumir menos, situação que certamente atingirá o Brasil. O futuro que nos aguarda é grego. A Grécia é um país da Europa e mesmo assim sofre um ataque muito maior dos que foram impostos à América Latina nos anos 80 e 90. Os impostos são recolhidos para uma conta especial, tem auditores europeus destas contas e só depois de entregue o dinheiro a UE é que este país poderá ter qualquer gasto. Se fazem isto na Europa, o que nos aguarda?!

Em meio ao avanço da crise econômica e das saídas reacionárias da burguesia, a juventude reage e tem entrado em luta em vários países, mas ainda não a altura dos desafios históricos. Na Grécia a juventude vai às ruas, protagonizando diversos enfrentamentos de rua com a polícia para barrar os planos de austeridade e também a classe trabalhadora dá mostras com 16 greves gerais de que não está disposta a pagar pela crise dos capitalistas. Para que esta disposição de luta alcance suas necessidades é preciso superar a burocracia sindical que impede a confluência da juventude e da classe trabalhadora, e trata cada greve geral não como uma investida contra o governo e a burguesia mas como pressão para que alterem o ataque. Na Espanha a situação é muito semelhante, o desemprego chega a 25% e a juventude também sai à luta. A juventude indignada espanhola influencia a juventude em todo o mundo a criar “Occupy”. Na Primavera Árabe a juventude e o povo põe-se em movimento para derrotar décadas de ditaduras sanguinárias, vendidas ao imperialismo que mantinha sobre o manto do nacionalismo árabe a população sob fome, repressão, desemprego e miséria. 

Na América Latina, a juventude no Chile protagonizou uma luta por mais de 7 meses em defesa de educação gratuita, de qualidade para todos, fazendo tremer as bases de um regime repressivo e anti-democrático, herdeiro da Ditadura de Pinochet. A combinação de família e gerações de jovens endividadas com a educação privatizada com a repressão policial fez surgir no Chile uma juventude conhecida como a “geração sem medo” e que, em processos desiguais, vai fazendo experiências com o PC Chileno e outras direções que buscam desmobilizar através de conduzir tudo à negociações estéreis com o governo. Sigamos o exemplo dos estudantes chilenos, sejamos aqui também uma geração sem medo de lutar pelo futuro.

Não é só na economia que a burguesia prepara grandes ataques

A Europa do consenso está morrendo para dar lugar ao predomínio, aberto, de uma nação (Alemanha) sobre outras. Isto é uma reviravolta histórica a todo projeto de união européia e todo equilíbrio entre França, Alemanha, Inglaterra que predominou nas últimas décadas. Isto é um sinal de que o futuro nos espera muito maiores contradições entre os estados.  Para conseguir implementar estes ataques a burguesia também precisa garantir condições políticas. Se, os “ajustes” são duros demais é difícil que consiga impor sua hegemonia somente pelo consenso – convencimento. É preciso, se necessário derrotar, esmagar a classe trabalhadora. É por isto que vemos nascer, e ser alentado, ainda de forma não decidida, uma série de partidos xenofóbicos na Europa, o Tea Party nos EUA. São ensaios de governos reacionários e fascistas. Estes desafios políticos se dirigem não só à classe operária e juventude mas a conquistas elementares da humanidade, como livrar-se do racismo como instituição oficial e legal do Estado, separação – formal que seja – do Estado e da Igreja, entre vários outros, estarão questionados. Estes fenômenos são uma viva atualização do que dizia Lênin que vivemos em uma época de crises, guerras e revoluções. A juventude que nossos tempos exigem, e o futuro exigirá muito mais precisa partir disto. Lutar contra o imperialismo e pela revolução! 

Tomemos os exemplos da luta da juventude no mundo e construamos uma juventude revolucionária

No Brasil depois de 8 anos de governo Lula e de eleger a primeira presidente mulher, consolida-se o mito de país “potência” em que as condições de vida poderiam avançar de forma lenta e gradual, num clima de paz social, que caminharia ao fim da miséria, que atinge o posto de 6° economia do mundo. O que vemos é que este clima de paz social tem dias contados. Pois este Brasil potência cresce em meio ao trabalho precário, salários de miséria, déficit de moradia e índices esse sim no topo da lista: de violência policial e de mortos em crimes patronais chamados de acidentes de trabalho – mais de mil por ano. Não existe possibilidade de o Brasil permanecer blindado em meio à crise econômica mundial. Se, com toda a suposta blindagem o que vemos é repressão a quem luta pela universidade como na USP, por terra como no Pinheirinho, privatizações da previdência e aeroportos por Dilma o que nos esperará quando tudo deixar de ficar “perfeito”? Por isso precisamos nos preparar para o que tempo nos exige ser.

Mas a Grécia, a Espanha, o Egito, mostram como ainda inicialmente, mas sem sombra de dúvidas a juventude pode ajudar a sacudir os trabalhadores e o conjunto da população. A juventude pode ter um papel na luta de classes ao lado dos trabalhadores e do povo! 

É preciso que tenhamos isto muito claro em cada discussão sobre que universidade queremos, como lutar por permanência estudantil, como barrar os aumentos dos transportes públicos. Participar ativamente de cada luta pontual que aconteça, organizando, questionando, preparando o futuro, nossos sonhos. É preciso derrotar os ataques que a universidade sofre hoje, defender os lutadores da USP e em todo país como preparação do futuro. 

O revolucionário russo Lênin dizia: "É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias." Para fazer possível nossos sonhos de construir um mundo livre da exploração do homem pelo homem, o que só é possível pela organização da classe trabalhadora aliada ao campesinato, desempregados, juventude e setores explorados da sociedade. Nossos sonhos não cabem em vitrines, creditos no cartão, nem nas urnas. A realidade hoje nos exige pensar, questionar, lutar, nós da Juventude Às Ruas, queremos fazer o esforço apaixonado de sacudir aqueles que não vem o que se aproxima, e mostrar que se aproximam novos tempos e que a juventude pode fazer diferença na luta de classes. 
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Breves lições da luta da USP

Em meio a uma situação nacional onde o que se destaca é a esperança em mudanças graduais, os estudantes e a juventude em geral, no país tem mostrado em forma muito embrionária e inicial sua relação com este processo mundial. Ano passado ocorreram várias lutas por permanência estudantil como restaurantes, bolsas, em praticamente todas universidades federais do país, mas achamos importante destacar três processos que apontam, ao nosso ver, embrionariamente para o futuro pois se ligam a problemas dos trabalhadores e do povo, e porque criam novas formas de organização. Na UFMG centenas de estudantes apoiaram ativamente a luta dos trabalhadores da educação de Minas, na UFF os estudantes lutaram contra a remoção de uma favela, e com mais destaque e mais profundamente o que ocorreu na USP. Em meio a uma situação onde a burguesia conseguiu reconquistar apoio a sua assassina polícia os estudantes da USP souberam ser audazes em lutar pela retirada da polícia da universidade. Nós da Juventude às Ruas nos orgulhamos de junto a centenas de estudantes independentes conseguir que o que fosse denunciado na USP não fosse a polícia só na universidade mas também nos morros e favelas. E mais importante ainda, na USP foi erguida uma forma de organizar o movimento que é muito diferente do que existe em todo o país e permite tanto sua massividade quanto sua radicalização. Contra os limites impostos pelas principais direções do movimento (PSOL e PSTU) que buscavam que a luta não se desenvolvesse mas chegasse a rápidos acordos com a direção da universidade os estudantes, construíram um comando de greve. Um comando a partir de delegados, revogáveis, de cada assembléia na proporção de 1 delegado a cada X estudantes por assembléia. Esta medida permite que o conjunto dos estudantes em luta, toda suas tendências, criem um organismo muito superior para um período de luta do que são as entidades estudantis, ou uma reunião de todas as correntes, mas uma representação real, mutável a cada assembléia do conjunto do movimento. Uma direção democrática, auto-organizada, do conjunto do movimento. 
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Educação para todos? 

As universidades no Brasil mostram como não estamos avançando para que a educação seja um direito de todos. É só olhar em volta para ver que são poucos os negros, a única vaga que é reservada para a maioria negra da população é na limpeza. Um dos mecanismos que garante este elitismo e racismo é o vestibular.

“Novo” Enem: fim do vestibular (?!) 

O “novo” Enem e o Sisu não alteraram esta estrutura que os petistas herdaram e mantiveram dos tucanos. As vagas permanecem limitadas, e grande parte do orçamento é comprometida em ajudar os grandes empresários da educação através do PROUNI. Mesmo com um “vestibular nacional” e alguma expansão de vagas mantém-se de pé este filtro social, e mais estas mudanças não alteram outro filtro social das universidades. O estudante pobre que passou dificilmente conseguirá arcar com a moradia, os custos da vida acadêmica, alimentação, transporte. 

As miseráveis políticas de assistência estudantil e o prolongamento do filtro social no cotidiano da academia

Uma questão extremamente importante e que se encontra totalmente abandonadas por governos e reitorias, são as políticas que tangem a permanência estudantil nas universidades. Para ficarmos apenas num “pequeno” exemplo da dimensão do problema podemos citar a situação da moradia estudantil daqui da UFRJ: São 504 quartos ao todo para uma Universidade com 50.000 estudantes!  Sem falar que e o “aló” está abandonado e precário. Os poucos estudantes de baixa renda que conseguem as disputadíssimas vagas no aló, ainda são obrigados a arcarem financeiramente para poderem permanecer na moradia. 

- Por moradia, bolsas, transporte e alimentação para todos!
- Por bandejões sem trabalho precário, com trabalhadores efetivos das universidades! 
- Pela estatização das universidades privadas para garantir vagas para todos em um sistema público, gratuito e de qualidade!
- Pelo fim do vestibular/livre acesso!
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RIO DE JANEIRO: A CIDADE DO FUTURO OU UMA  CIDADE A FAVOR DOS LUCROS ?

O Rio de Janeiro tem passado por várias transformações  para sediar os grandes eventos em 2014 e 2016.   Obras faraônicas no estádio do Maracanã; grandes reformas como a chamada “Operação Porto Maravilha” na Zona Portuária; as inúmeras desocupações urbanas e as UPP´s (Unidades de Polícia Pacificadora) nos morros e favelas cariocas. Por mais que a princípio pareça que a cidade está se desenvolvendo e que toda a população de forma geral tem melhorado suas condições de vida, é necessário olharmos mais de perto as contradições postas, que refletem uma lógica que beneficia cada vez mais a burguesia em detrimento dos trabalhadores. 

 As UPP´s: mais repressão e controle à juventude negra e pobre e aos trabalhadores

Com a desculpa de serem uma forma de combate à violência, somam-se hoje 19 UPP´s, que além de garantirem preços exorbitantes dos aluguéis com a valorização dessas regiões, servem para reprimir e controlar os moradores das favelas e morros impedindo até confraternizações. O projeto carro chefe do governador Cabral e o secretário de segurança pública José Mariano Beltrame, aplaudido por Lula e defendido por Dilma como “um exemplo a ser seguido em todo o país” (e que hoje já é implementado em Salvador e Curitiba) expressa o verdadeiro projeto de cidade pensado pelos governos, baseado na repressão. 

No último período, são recorrentes as notícias dos inúmeros ataques diretos e perseguições que a classe trabalhadora e a juventude negra e pobre vem sofrendo no Rio de Janeiro. A polícia, que reprime as manifestações estudantis, greves operárias e que desocupa de forma criminosa moradores de suas próprias casas diariamente no Rio de Janeiro, (assim como fez recentemente no Pinheirinho) tem como único propósito de existir a defesa da propriedade privada e os interesses do Estado e da burguesia. Se no Rio, ainda sem intensa luta de classes, a burguesia pode se dar o luxo de vender sua polícia como algo para a “segurança dos indivíduos”, lugares como o Egito, Grécia, Estado Espanhol, Chile, mostram o que ela é. Uma garantidora da ordem – da propriedade da burguesia e seus governos – contra o povo! Por isto o fortalecimento da polícia, e de sua suposta segurança não é um projeto que favorece os trabalhadores e o povo.

A Precarização do trabalho e da vida

A aliança entre os governos federal, estadual e local com a burguesia carioca é cada vez mais explícita. Hoje existe um projeto de lei no Senado com objetivo de  proibir as greves operárias nos últimos três meses antes dos mega eventos e durante todo a sua duração, um brutal ataque a todos trabalhadores.  O chamado AI-5 da Copa, literalmente caracteriza como crime um direito fundamental e inclusive constitucional de liberdade de expressão e manifestação, criminalizando o principal método de luta da classe operária, as greves. Isso mostra que os ataques estão só começando, e que muito ainda estão por vir.

Estão construindo uma cidade que é para os lucros, para a Fifa, para Eike Batista. Precisamos lutar por uma outra cidade, uma cidade dos trabalhadores e do povo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com Javiera Marquez, estudante da Universidade de Santiago do Chile, participou ativamente das lutas em defesa da educação gratuita e que está no Brasil

Juventude às Ruas: Por que você está vindo para o Brasil?

Eu fui convidada pelo comando de greve da USP para vir nas atividades da calourada. Fiquei muito contente porque será uma excelente oportunidade de compartilhar com o movimento estudantil brasileiro a histórica luta da qual fiz parte durante mais de 7 meses de luta, como militante trotskista do PTR [organização irmã da LER-QI no Chile] e ativista do movimento estudantil, que não somente colocou centenas de milhares nas ruas em luta pela educação pública, gratuita e de qualidade, mas também fez tremer as bases de um regime político super repressivo e anti-democrático, principalmente com a juventude. Acho que será ótimo que os estudantes daqui saibam o que aconteceu por lá, não pela via da mídia que distorce tudo, ou pela Camila Vallejo que sei que veio aqui no Brasil convidada pela UNE, pois a verdadeira história do que passou não poderia ser contada por essa via. Da mídia já sabemos o que esperar, mentiras. Mas a Camila Vallejo apareceu em todo o mundo como a figura do movimento estudantil, e de fato era a que mais aparecia na mídia, mas isso não expressa como eram as coisas por lá, pois ela e o Partido Comunista da qual faz parte foram traidores da luta, e por isso são rechaçados massivamente em todo o país. Isso se demonstrou inclusive nas eleições estudantis no fim do ano, quando a Camila Vallejo sequer ganhou as eleições do DCE da Universidade do Chile, da qual faz parte, assim como o PC foi amplamente derrotado em várias universidades, inclusive na própria USACH onde eu estudo jornalismo.

Juventude às Ruas: Quais são as principais questões que você pensa em compartilhar por aqui?

É difícil resumir assim, o melhor mesmo será nas atividades que queria convidar a todos para que venham. Mas uma das coisas que vou querer explicar é porque foi um movimento tão massivo, tão profundo e que marcou tanto todo o povo chileno. O Chile não é mais o mesmo depois dessa luta. Quero que as pessoas entendam porque somos conhecidos como a “geração sem medo”. O Chile tem um regime e um governo ultra-repressivo e anti-democrático, herdeiro direto da ditadura pinochetista que deixou heranças nefastas até hoje. Combinou-se o problema de que os estudantes e famílias de todo o país não aguentam mais pagar universidades tão caras (aqui não há mais universidade gratuita desde a ditadura), com um ódio acumulado contra esse regime que para a juventude só deixa a repressão. Foi esse ódio acumulado que fez com que não somente saíssemos massivamente às ruas, mas ocupássemos as universidades e nos enfrentássemos sempre com a polícia que queria impedir nossas manifestações. 

Também quero explicar como era as discussões dentro do movimento estudantil, porque aqui eu imagino que sabe-se muito pouco, mas houve um enorme movimento anti-burocrático que questionou muitíssimo o PC, Camila Vallejo e Giorgio Jackson que foram as figuras que ficaram mais conhecidas. Principalmente entre os secundaristas o PC já não consegue controlar o movimento desde 2006, quando aconteceu o que ficou conhecida como a “Rebelião dos Pinguins”, mas também nas universidades o questionamento foi enorme, porque o PC dizia o que queria na mídia e não tinha nada a ver com o que votavam as assembleias. Essa é uma das principais lições que tiramos, que é necessário ter comandos de luta com delegados eleitos na base, como sei que vocês avançaram na USP e é importantíssimo. Pois só assim os estudantes podem decidir os rumos da luta democraticamente. Na minha universidade foi enorme o movimento anti-burocrático, mas o PC burocrateava de todas as maneiras tudo. Muita gente tirou a lição de que poderíamos ter vencido se tivéssemos varrido a burocracia estudantil, e por isso o PC saiu muito mal da luta, por exemplo na USACH eles dirigiam o DCE e agora foram derrotados fortemente nas eleições.

Juventude às Ruas: Conte-nos um pouco melhor o que aconteceu na USACH?

Para que se entenda porque foi justamente nesta universidade onde mais se avançou na luta contra a burocracia estudantil, é necessário entender que apesar de que a USACH é a segunda universidade mais importante do Chile, é onde também a maioria dos estudantes estuda com bolsas, então ela não é tão elitista como as outras. Somos todos jovens trabalhadores ou filhos de trabalhadores, então somos os que estamos mais cansados de ficar 10, 15 anos pagando a universidade depois que nos formamos, assim como nossas famílias, somos os que mais queremos educação gratuita, política que o PC sempre foi contra. 
Mesmo com um movimento que colocou nas ruas mais de 600 mil pessoas em todo o país, e imaginem que o Chile tem 15 milhões de habitantes, e com um amplíssimo setor na base querendo que a demanda fosse educação gratuita como piso mínimo, porque sentíamos a força que tínhamos, o PC se colocava contra. O PC e Camilo Ballesteros, que era o presidente do DCE se negavam a aceitar o mandato das assembleias e os estudantes se rebelaram, tornamos a vida da burocracia estudantil um inferno. Eles tinham até que trazer seguranças do PC para fazer as reuniões e partiam para a agressão física porque os estudantes não aguentavam mais. E todo este processo culminou nas eleições do DCE que aconteceram em janeiro, onde a chapa que nós do PTR organizamos com dezenas e dezenas de independentes ganhou mais de 2000 votos, enquanto o PC não chegou aos 1300 e nem puderam colocar Camilo Ballesteros como candidato de tão odiado que é hoje em dia. Infelizmente, não ganhamos o DCE porque houve uma aliança do Partido Socialista com estudantes de direita que mobilizaram massivamente todas as faculdades de engenharia para votarem em massa, e conquistaram 3000 votos. Mas a força do movimento anti-burocrático que surgiu aí é muito maior, e será uma gestão sem nenhum peso na base, enquanto a nossa chapa segue organizada em mais de 20 cursos. Foi uma vitória política importantíssima que deixou bases para seguir um movimento muito forte não somente dentro da USACH, mas junto aos milhares e milhares que em todo o país questionaram a burocracia estudantil e que não vão ficar passivos por muito tempo. O movimento estudantil chileno vai voltar a explodir, e este regime pinochetista não vai se sustentar. Nós concluímos que para conquistar algo, temos que lutar por tudo, e é esse o espírito que vai se expressar nas próximas batalhas.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Boletim Especial Calourada - Juventude às Ruas

 


Um primeiro balanço e perspectivas da luta em curso na USP

Mais um ano começa na USP. Milharesde novos estudantes entram na universidade que é não somente a mais disputadano vestibular, mas também a mais mobilizada do país. É uma excelenteoportunidade para que cada novo estudante possa entender o porquê e descobrir arealidade que a mídia, o tucanato e a casta de burocratas que detém o poder nauniversidade nunca vão dizer. Coloca-se uma grande oportunidade para somarforças à difícil luta que há anos vem sendo travada na USP em defesa dauniversidade pública, levada a frente por estudantes, junto aos trabalhadores eum setor de professores que se enfrentam com a ditadura de Rodas. Coloca-se apossibilidade de ser parte da luta que segue aberta contra a polícia nauniversidade, que mostra como a universidade não é uma ilha, pois aqui tambémela cumpre o mesmo papel reacionário que cumpre no Pinheirinho, na chamada“Cracolândia” e em cada lugar onde há luta. Mais que isso, coloca-se apossibilidade de ser parte de um movimento de milhares de jovens que se coloca depé e mostra que, no Brasil que o lulismo tenta apresentar como o “país dofuturo” e do crescimento econômico, há uma juventude que não fica passiva vendoa roda da história girar no Egito, na Grécia, no Estado Espanhol, nos EUA, noChile, e também quer ser sujeito da transformação pela qual está passando omundo frente à crise capitalista.
A luta do ano passado na USP deixouconquistas muito importantes do ponto de vista do fortalecimento damobilização, - que tinha como eixo central a luta pelo Fora PM da USP e pelofim do convênio USP-PM - e que são uma grande base para seguir a luta neste anoe construir uma greve que seja capaz de conquistar as nossas demandas. Fizemosduas ocupações e construímos uma greve que, apesar de não terem sido fortes osuficiente para vencer, geraram um movimento de milhares e milhares deestudantes, que se organizaram num comando de greve com delegados eleitos nabase, que junto aos trabalhadores da USP e seu combativo sindicato, o Sintusp,e de um setor de professores e intelectuais, foram capazes de desgastar Rodas ea burocracia acadêmica, e de gerar um repúdio de massas na USP à PM, aoconvênio e a Rodas. Apesar disso, a reitoria seguiu avançando de maneiradecidida na repressão, inclusive nas férias, aproveitando o esvaziamento dauniversidade, e impôs derrotas táticas para o movimento com sua enorme ofensivarepressiva para tentar calar o movimento pela força. Somado a isso, a reitoriavem com uma política, apoiada no aumento conjuntural da economia que impactapositivamente no orçamento da universidade, de fazer concessões econômicas atrabalhadores e professores para levá-los à passividade frente aos ataques etentar impedir a unidade dos três setores contra a reitoria e o governo doestado. Mas há um importante setor que segue resistindo nas três categorias,com um apoio de massa dos estudantes, principalmente nas faculdades que têmmais tradição de luta, e de milhares de trabalhadores da USP que têm uma amplatradição de luta. Em síntese, a luta em defesa da universidade pública e contrao projeto privatista de universidade ocorre há anos, está em momentos decisivose teve no ano passado mais uma batalha muito importante.
Vejamos quais foram os principaisaspectos que envolveram essa luta que segue em curso e os desafios que nós, daJuventude às Ruas (composta por militantes da Liga Estratégia Revolucionária eindependentes), consideramos os mais importantes e para os quais chamamos atodos a enfrentar conjuntamente conosco como parte da luta por um movimentoestudantil massivo, anti-burocrático, aliado aos trabalhadores, que lute paraderrotar os ataques e passar à ofensiva na luta por uma universidade a serviçodos trabalhadores e do povo pobre, e, como diziam os estudantes do maiofrancês, passar “do questionamento da universidade de classes ao questionamentoda sociedade de classes”.

O que está em jogo na luta em curso na USP

Muito tem sedito acerca da truculência da PM no campus e, em torno disso, aparecempropostas de uma polícia mais humana ou de mudanças no convênio USP-PM. Noentanto, a função social da polícia não é proteger a população. Trata-se dobraço armado da classe dominante para garantir sua propriedade e seusinteresses. Na USP, esses interesses se demonstram pela via de um projetoprivatista de educação.
Oreitor-interventor Rodas, segundo colocado na eleição - ela mesma restrita aoantidemocrático Conselho Universitário (C.O.) - e nomeado arbitrariamente porJosé Serra, representando os projetos da burguesia na USP, veio para manter eaprofundar a privatização da educação e a precarização do trabalho. No ensino,a verba não é dividida sob o critério de uma universidade pública e que,portanto, deveria se voltar às necessidades da população, mas sob os interessesdas grandes empresas que entram na universidade através das fundações privadase das ligações que têm com a casta de professores titulares que compõe oConselho Universitário oligárquico. Aliado a isso, o filtro social dovestibular deixa de fora da universidade pública a maioria da juventude, oriundada classe trabalhadora, e consequentemente a juventude negra; e os poucos quepassam por essa etapa são repelidos da universidade pelas precárias condiçõesde permanência estudantil, falta de moradia ou auxílio para todos, levandomuitos a abandonar a faculdade. No entanto, não são apenas as condições deestudo que são afetadas. Por exemplo, em abril de 2011 estourou o conflito queescancarou a semi-escravidão existente na USP pela via do trabalhoterceirizado. Centenas de trabalhadoras de limpeza da empresa União entraram emgreve por seus salários e seus direitos atrasados, evidenciando a rotina deexploração, assédio moral, e por vezes sexual, nos corredores da universidadeque consta nos rankings das melhores do mundo.
A polícia,portanto, é uma ferramenta para manter a USP a serviço da elite. A reitoria daUSP já vinha em uma ofensiva de repressão com dezenas de processos contraestudantes e trabalhadores por se mobilizarem politicamente, em base a umdecreto da ditadura, de 1972, que ainda vigora na USP, que coloca comoinfrações passíveis de expulsão os ‘’atentados à moral e aos bons costumes’’ e‘’manifestações de cunho político e racial’’. Talvez a reitoria racista da USP,uma universidade da qual uma ínfima porcentagem dos estudantes é negra, considereo Núcleo de Consciência Negra como uma ‘’manifestação racial’’, e por isso osexpulsou do local onde funciona. Também é crime na USP lutar por moradia, eportanto por condições para se manter na universidade, como demonstra aexistência de processos e agora 12 novas prisões políticas e 6 expulsões deestudantes por militarem por permanência estudantil na Moradia Retomada. Nãobastasse, o SINTUSP, sindicato combativo e aliado histórico do movimentoestudantil, teve um de seus diretores, Brandão, demitido inconstitucionalmenteem 2008 e todo o restante da diretoria do sindicato é processada pela USP.
Em 2011 oestudante Felipe Ramos Paiva morreu assassinado no estacionamento da FEA,tragédia que foi usada de forma oportunista pela reitoria como pretexto paracolocar a PM ostensivamente dentro do campus. Numa universidade fechada aoconjunto da população, numa metrópole que concentra as contradições do “Brasilpotência” das enchentes, da miséria e do trabalho precário, a ideologia dasegurança aparece para legitimar a repressão e a PM, que estava na USP nomomento do crime e nada fez para evitar o assassinato. O que a presençaostensiva da polícia fez na USP não foi “proteger", foi abordar estudantespor ‘’olhar feio’’, caminhar pelos corredores abordando professores, estudantese trabalhadores, intimidar a entrada da população da favela São Remo queutiliza serviços oferecidos pela universidade. A prisão de 73 estudantes etrabalhadores que se colocaram em luta contra tantas arbitrariedades e por um projetodistinto de universidade se dá nesses marcos, assim como a prisão de outros 12que viviam na Moradia Retomada. A agressão do estudante negro Nicolas no espaçodo DCE durante as férias demonstra que, além de politicamente repressora, apolícia é racista. Com a presença da PM na USP não foi impedida uma criminosatentativa, também nas férias e logo após o sindicato se colocar na defesa deNicolas, de explosão do Sintusp abrindo o gás do fogão, na verdade,estranhamente provocada por alguém que não arrombou a porta e revirou uma salacom documentos do sindicato sem roubar nada – ao contrário, tudo aponta para aconclusão de que a própria polícia esteja envolvida no atentado.
A PM, pois, estáa serviço de um projeto e de uma classe. A ideologia da “segurança” existe paralegitimar a repressão estrutural à pobreza em um país de enorme desigualdade.Não existe segurança sob o regime de miséria do capitalismo, sem educação,moradia, emprego, saúde, que são as verdadeiras ameaças à vida da maioria dapopulação.

Uma luta queavançou na auto-organização que é necessário retomar e fortalecer paramassificar o movimento

A luta USP doano passado explodiu no dia 27 de outubro, a partir da truculência da PM com 3estudantes que estariam fumando maconha na FFLCH. Centenas de estudantes serebelaram, colocaram a PM para fora, organizaram uma assembleia e votaram aocupação da diretoria da FFLCH, contra a vontade do PSOL (DCE) e do PSTU. Apartir daí a luta só se intensificou. Em poucos dias, na FFLCH havia um apoio massivoe em amplos setores da USP. É então convocada uma assembleia geral com mais de1000 estudantes, na qual o PSOL e o PSTU querem acabar com a luta e com aocupação da FFLCH. Baseando-se em setores conservadores e burocratizando aassembleia, votam o fim da ocupação e, frente a centenas de estudantes quequeriam seguir a luta e votar a ocupação da reitoria, o PSOL e o PSTU implodema assembléia para impedir qualquer votação, com o claro interesse de seguir ocalendário das eleições estudantis. Os estudantes se rebelam, não aceitam,seguem a assembleia e votam a ocupação da reitoria. A universidade ficapolarizada, cursos votam apoio a ocupação, outros contra, o movimento se dividecom uma campanha do PSOL e do PSTU de difamação da ocupação – inclusive comdeclarações e notas públicas denunciando as organizações políticas que estavamna ocupação, entregando para a repressão e fornecendo citações para a imprensadeslegitimar a mobilização diante da opinião pública, facilitando a repressão.A reitoria, frente à divisão do movimento, invade a universidade com um enormeaparato militar e prende 73 lutadores que estavam no momento na ocupação. Masao contrário do que esperava a reitoria, o movimento se expande, e numaassembleia com milhares de estudantes é votada a greve e, por proposta daJuventude Às Ruas a construção de um comando de greve com delegados eleitos nabase, uma votação histórica no movimento estudantil do país, seguindo o exemplodo que há de mais avançado no movimento estudantil internacionalmente. Sãoeleitos mais de 120 delegados a partir das assembleias de base, sendo 1 paracada 20 estudantes em assembleia, mandatados democraticamente e revogáveis.Assim, os estudantes assumiram em suas mãos a greve de forma anti-burocrática,para que nada senão as suas posições devidamente representadas dirijam os rumosda greve, em detrimento ou de uma corrente política hegemônica que decide pelabase via entidades estudantis (como faz o PSOL, e o PSTU se adapta – verpolêmica de estratégias neste mesmo jornal) e de políticas vanguardistas quetendem a desconsiderar as posições dos estudantes nos cursos (MNN, PCO eautonomistas).
Como explicamos, a luta não terminou.Durante as férias o comando perdeu sua vinculação com as assembléias de curso eagora é necessário seguir com o comando de greve submetido às assembleias e aoscursos, ampliando a participação com a eleição de novos delegados querepresentem verdadeiramente as posições dos estudantes em assembleia. Paranós, a política correta é colocar todo peso na construção das assembléias decurso antes da assembléia geral dos estudantes que está marcada para o dia 8/3,pois somente assim podemos retomar uma greve que seja forte e efetiva parabarrar os ataques e passar à ofensiva. Para isso, será necessário combatertambém a política do PSOL e do PSTU que será de boicotar a calourada unificada,o comando e só dar peso para as eleições estudantis, uma vez mais incorrendo noerro de transformar as entidades estudantis no objetivo mais importante,inclusive secundarizando a tarefa de impulsionar a luta e o comando, repetindoos erros que cometeram ano passado. Isso não significa dar as costas para aseleições estudantis, por isso, construímos no ano passado a chapa “27 deoutubro” para o DCE, junto ao MNN, outras organizações e dezenas deindependentes combativos, e chamamos os calouros a retomar a sua construçãoconosco, mas nunca colocando a tática da participação nas eleições à frente danecessidade de impulsionar a luta e a auto-organização.
Dentro de um balanço, é necessárioidentificar os erros do movimento. Na nossa opinião, um deles é que a partir daassembléia que o PSOL e o PSTU implodiram, dividindo e enfraquecendo omovimento para impôr de modo burocrático sua posição, e que acabou por votar aocupação da reitoria - uma medida ofensiva contra inimigos mais fortes, com omovimento enfraquecido por responsabilidade do PSOL e PSTU, que polarizou todaa universidade, era fundamental uma política de se ligar organicamente a basedos cursos e não tratar a ocupação como um fim em si mesmo (como o MNN e o PCO,com o argumento de que gerava “instabilidade” sem se importar que o movimentohavia se dividido profundamente e perdido apoio de setores da base), levantandouma política de auto-organização desde antes e combatendo a política dedifamação do movimento por parte do PSOL e PSTU. Mas não bastava a denúncia,era necessária uma política de exigência de impulsionar novamente assembleiasem comum para definir os rumos da mobilização. Além disso, opinamos que após umasemana, em que a ocupação ganhou apoio em alguns cursos, mas não rompeu o cercona opinião pública, na última assembleia antes da invasão da PM, teria sidomais correto um recuo tático organizado, desocupando a reitoria e votando umaofensiva na base dos cursos para organizar a greve e um comando com delegados.Nós, da Juventude Às Ruas, que víamos que a ocupação não era um fim em simesmo, e lutamos pra que ela não se isolasse da base dos cursos, tambémsuperestimamos suas forças nesse momento, não defendendo a desocupação, queteria evitado a prisão de 73 companheirxs.

O desafio de impulsionar uma grande campanha contra a repressão ligada àdemocratização da universidade
Desde a prisão dos 73 estudantes nareitoria, dizíamos que era preciso colocar sua defesa em primeiro lugar, poisse esse ataque passasse, a reitoria estaria em melhores condições para punir osdemais processados, e o governo para reprimir os movimentos de moradia, porterra, e dos trabalhadores. Os acontecimentos desses meses, infelizmente,confirmaram o que prevíamos. Não tivemos apenas 73 presos políticos, tambémtemos 6 expulsos, 12 outros estudantes presos na luta por permanênciaestudantil, trabalhadores processados e ameaçados de demissão por semobilizarem e uma tentativa de atentado contra a sede do SINTUSP. Esses fatosescancaram qual é a política não apenas da reitoria da USP, mas do governo doestado, para os que lutam ou que atrapalham o andamento dos projetos a serviçoda burguesia. Contra isso devemos levantar uma ampla campanha democráticacontra a repressão, que deve retomar com todo peso a luta para colocar a PMpara fora da USP e pelo fim do convênio USP-PM, construindo uma ampla frenteúnica, superando todo tipo de sectarismo que há entre setores vanguardistascontra uma forte política para intelectuais, professores, etc, e também apolítica mesquinha do PSTU, e principalmente do PSOL, de não defender osperseguidos políticos (talvez porque não há nenhum deles?), pois é um problemade princípio a unificação de todos contra a repressão numa campanhaconsequente, pois está em jogo a defesa da universidade e dos lutadores. Nósseguiremos defendendo incondicionalmente qualquer lutador atacado apesar dasnossas diferenças políticas.
Ao mesmo tempo, a mobilizaçãoestudantil deve avançar em seu programa, não somente contra a repressão, mascontra o projeto a que ela serve. Neste debate necessário e urgente, defendemosque a apropriação do conhecimento não está desligada da estrutura de poder e dequem a dirige, assim como o acesso à universidade interfere no próprioconhecimento produzido. Assim, a luta para impor o Fora Rodas e uma EstatuinteLivre e Soberana que possa dissolver a camarilha que hoje é chamada de“Conselho Universitário”, dando passos para a conformação de um governotripartite com maioria estudantil – expressando desta forma a maioria queexiste na universidade, que são os estudantes – é uma condição necessária paraque a universidade possa se colocar a serviço dos trabalhadores e do povopobre, utilizando assim todo o conhecimento que é produzido a serviço destasnecessidades e avançar para que o conhecimento passe a expressar estes avançosconcretos de democratização, contra a influência das grandes empresas.
Essa luta se liga à defesa de umaverdadeira autonomia universitária. As classes dominantes não podem aceitar queexista um movimento estudantil que questione o papel da polícia nas favelas,que vote em suas assembleias gerais a efetivação dos terceirizados sem concursopublico com salários e direitos iguais aos efetivos, que apoie os métodosradicais de luta dos trabalhadores; não pode aceitar que exista um sindicatoque faça greves e piquetes em defesa de mais verbas para a educação, pelo fimdo vestibular para que o povo pobre possa entrar na universidade, contramedidas de cerceamento da atividade sindical e política na universidade e emdefesa dos trabalhadores terceirizados; sobretudo, não podem aceitar a aliançade um sindicato não corporativo e um movimento estudantil não elitista naprincipal universidade do país, o que seria um "péssimo exemplo" paraos trabalhadores e estudantes fora da universidade. É para impedir que essaaliança siga se desenvolvendo que a reitoria ataca a já frágil autonomiauniversitária.  Mas não é só isso, a luta pela verdadeira autonomiauniversitária passa também pela ruptura da relação do ensino, pesquisa eextensão com os interesses dos capitalistas, para que se possa ter odesenvolvimento da ciência livre das amarras do capital e voltada para osinteresses da população, apontando no sentido da construção de uma universidadea serviço dos trabalhadores e do povo pobre, partindo da visão da universidadee da sociedade dividida em classes, ligando a luta contra a ditadura dentro daUSP, que tem Rodas e seu braço armado como inimigos mais visíveis, com a lutacontra a sociedade capitalista dos monopólios, que só gera sofrimento para asmassas de todo o mundo, como se expressa agora com a crise capitalista. Se noBrasil essa crise ainda não chegou, é apenas uma questão de tempo. Mesmo semela, já estamos vivendo a repressão aos que lutam, porque a burguesia está sepreparando; cabe a nós fazer o mesmo, nos organizando não somente no movimentoestudantil, mas construindo uma forte juventude revolucionária; é para essaperspectiva na USP e fora dela que te chamamos a conhecer e a construir aJuventude às Ruas, uma juventude composta por estudantes e trabalhadores queatua dentro e fora das universidades, em São Paulo, no Rio de Janeiro e emMinas Gerais. Nas universidades, estamos principalmente na USP, Unesp (Marília,Franca e Rio Claro), Unicamp, Fundação Santo André, PUC-SP, UFRJ e UFMG. Entreem contato e se quiser difunda este jornal.

As diferentes estratégias na luta dos estudantes da USP
Como se sabe, omovimento estudantil não é um todo homogêneo. Na USP, há não somente uma sériede correntes políticas que têm distintas concepções de movimento estudantil ede como deve se dar cada luta, o que está ligado às concepções mais de fundo decada organização, mas também uma série de estudantes independentes que, emparte concordam com as posições das correntes políticas, e em parte tem outrasposições, alguns inclusive definindo-se como autonomistas. O debate políticoentre as posições é algo normal no movimento e, ao contrário do que muitasvezes se diz, são essenciais para fazer o movimento avançar, desde que adefinição sobre os rumos do movimento esteja sempre nas mãos dos estudantes quedemocraticamente devem votar os passos a seguir.
A mídia tentousimplificar as posições da USP fazendo uma divisão entre “radicais” e“moderados”, que era não somente uma tentativa de isolar o movimento estudantilcombativo, mas também não expressa as três estratégias fundamentalmente queestavam em disputa na luta da USP, além de que há uma ampla camada deindependentes que não se alinha organicamente com nenhuma delas. Vejamos quaissão estas três estratégias.

O que há de realna divisão entre o que a imprensa chamava de “radicais” e “moderados”?

Em primeirolugar, há um partido que segue a tradição petista tanto nacionalmente como nomovimento estudantil, ainda que com um discurso mais de esquerda, que é o PSOL.Essa é a corrente que tem mais peso nas entidades do movimento estudantil daUSP, sempre atua como freio nas mobilizações, sempre se coloca contra odesenvolvimento do movimento com o argumento de que “não há correlação deforças”, boicota a organização democrática dos estudantes para além das entidades, aradicalização nos métodos, e querem conseguir nas mesas de negociação o quesupostamente é “possível”, que é sempre uma miséria, uma migalha. No anopassado, essa concepção se expressou no boicote desse partido ao comando degreve com delegados eleitos na base, na política de implodir a assembleia queacabou por votar a ocupação da reitoria, na adaptação completa ao senso comumpró “segurança pública” com a defesa de um “plano de segurança alternativo” porfora de questionar o caráter elitista e racista da USP e que não questiona opapel da polícia na universidade. Essa política teve uma das suas expressõesmais deploráveis no dia 27 de Outubro, com o enfrentamento com a PMocorrido na FFLCH. Enquanto centenas de estudantes, que nos orgulhamos de teracompanhado, tentavam impedir a prisão de 3 colegas – em seguida se enfrentandocom a repressão policial -, as gestões do DCE e da maioria dos CAs da FFLCH,dirigidas pelo PSOL, faziam um cordão humano para escoltá-los, em acordo com adireção da faculdade, até o carro que os levou para a delegacia, para emseguida se colocar contra a ocupação da Administração da FFLCH, que defendemose foi aprovada pela maioria dos estudantes, e foi essencial para toda amobilização, que eles não queriam que se desenvolvesse para realizartranquilamente o calendário das eleições estudantis que é o que mais osinteressa. É por isso que a definição de “moderados” para este partidocondiz com a realidade.

Mas não é a toa que a imprensa (eamplos setores do movimento) coloca o PSTU como parte do bloco dos “moderados”.Apesar de que, em geral como partido, e também no movimento estudantil, sempreadotam um discurso mais de esquerda, na sua prática política tem grandes pontosde contato com o PSOL e na própria luta em curso foi assim.  No 27 deoutubro também foram contra a ocupação da FFLCH e nunca denunciaram o cordãohumano do PSOL; juntos com o PSOL implodiram a assembléia que acabou por votara ocupação da reitoria; também dão um peso estratégico para as entidadesestudantis e historicamente não defenderam um comando de greve com delegadoseleitos na base (ainda que na recente luta se relocalizaram pela força domovimento anti-burocrático); também se adaptam à defesa de um “plano desegurança alternativo” e sempre buscam alianças com o PSOL para as eleiçõesestudantis como política permanente e se adaptam a eles em função disso. OPSOL e PSTU reproduzem o discurso de que a USP é insegura, e precisa de maisguarda universitária, mais “bem treinada”, que, na prática, sob essa estruturade poder, seguiria controlada pela reitoria repressora, elitista e racista. Épor estes elementos que o PSTU é colocado no bloco dos “moderados”: porqueapesar do discurso mais de esquerda, não tem uma estratégia para a mobilizaçãodiferenciada do PSOL e se unificou com eles em muitas questões táticas (comosempre), por isso, se dedicam mil vezes mais a atacar o que eles chamam de“ultra” (onde incluem a Juventude às Ruas e a LER-QI) do que o PSOL, que é umfreio ao movimento.

E os que a mídia chamou de “radicais” ou “ultras”?

Chamar dessa forma era parte dapolítica de isolar o movimento estudantil combativo que estava encabeçando aluta. Dentro desse bloco, colocavam desde a Juventude às Ruas e a LER-QI,passando pelo Movimento Negação da Negação, o PCO e um amplo setor deindependentes, incluindo setores que se definem como autonomistas. Mas dentrodeste bloco houve antes, durante e depois do conflito, duas estratégias para aluta e duas concepções de movimento estudantil. Por um lado, estão o MNN, o PCOe um setor autonomista que são a negação mecânica e infantil de parte dospiores problemas do PSOL (e do PSTU). Contra a passividade, defendem a ofensivapermanente, independentemente da correlação de forças ou se há apoio para elasou não, dos estudantes que se envolvem nas “ações exemplares”, fazem um feticheda radicalização nos métodos separado da política, ou seja, um “radicalismo”que tem “perna curta” porque é impossível arrancar conquistas efetivas equalitativas sem um movimento massivo e ligado organicamente à base dosestudantes. Podem até conseguir satisfazer os anseios de alguns estudantescombativos que querem lutar seriamente, mas a negação da política demassificação, da necessidade de saber atuar em frente única com outros setoresnas questões em que houver acordo (mantendo a liberdade de crítica para todosos que atuam em comum) e de um programa profundo de democratização dauniversidade, levará essa vanguarda a se descolar cada vez mais da baseestudantil e as derrotas táticas repressivas que já vieram se implementando vãose aprofundar, avançando o projeto elitista de universidade e impedindo queconquistemos nossas demandas.
Entre os setores vanguardistas, sedestaca a posição do MNN sobre a universidade e seu programa. Essa corrente nãoassume a posição adaptada do PSOL e do PSTU, defendendo mais guarda esegurança. Por outro lado, se coloca contra as demandas de democratização doacesso e do poder, como o fim do vestibular, a permanência estudantil, aassembleia estatuinte. Isso porque não se trataria de defender a universidadepública, nem lutar pra que esteja a serviço dos trabalhadores, mas simdestruí-la a favor do que eles chamam de “território livre”. Essa fraseologiaveste, na verdade, um programa abstrato, que não arma a mobilização paragolpear a universidade elitista e racista hoje existente e abrir espaço paraque os trabalhadores possam ter acesso a ela, para que os que entram possamnela permanecer com permanência estudantil e para que o conhecimento nelaproduzido esteja a serviço da sociedade. Tudo isso para eles seria reformismo:o correto seria destruir tudo e erguer o “território livre”. Para nós se tratade uma adaptação (pela esquerda) ao elitismo da universidade.

Nós da Juventude às Ruas não somos “radicais” nem “ultras”, somosrevolucionários que lutamos por um movimento massivo, anti-burocrático ecombativo com uma estratégia para vencer

Durante o processo de luta, nossacorrente, composta por militantes da LER-QI e independentes, era identificadapela mídia como parte do bloco dos “radicais”, mas na verdade não somentetivemos uma política diferente das outras correntes, com as quais soubemosfazer frente única para fazer o movimento avançar, como ocorreu, mas temosconcepções de fundo bastante diferentes que constituem uma estratégia distintapara a mobilização e para a universidade, como queremos aprofundar em maisalguns elementos de balanço e de perspectivas para além dos que já colocamos.
O PSOL, o PSTU e o PCO sempre secolocaram contra a auto-organização, ou seja, contra os comandos de greve comdelegados eleitos na base, que sempre defendemos como corrente. O PSTU serelocalizou para não se opor ao movimento anti-burocrático. O MNN não fala daauto-organização, salvo em momentos ultra pontuais, mas nunca foi consequentena sua defesa, esteve contra a auto-organização em anos anteriores, e tampoucotem uma visão verdadeiramente democrática, como se expressou na política queteve para o comando de greve nas férias. Para retomar a luta e a greve nesseinício de ano, era importante que a calourada fosse organizada pelos delegadosem luta e pelos CAs, tal como foi feito, defendido por nós, e está correto. Noentanto, nesse período a greve não se manteve, pois as disciplinas seencerraram. O erro que cometemos ao votar a continuidade da “greve” num períodosem aulas – e portanto sem as assembleias – está em que um comando democráticodepende do controle constante das assembleias (que podem revogar delegados quenão estejam representando adequadamente os estudantes de seus cursos). Isso nãoteve piores consequências – até agora – porque com luta política dentro docomando, foi possível evitar com que se tomasse grandes medidas por fora de seumandato (organizar a calourada). Ainda assim, um setor restrito, em particularo MNN, impôs pela via de comissões organizativas sua política à calourada emnome do comando. O caso mais grave é que a festa-protesto da calourada, umamedida de luta, seja garantida contratando trabalho terceirizado para limpeza,como defendeu o MNN; a segurança também será privada, contra tudo o quesignificou o avanço da luta contra a terceirização uma USP e toda tradição demovimento independente, que já fez enormes festivais sem polícia, nem segurançaprivada, velha conhecida nossa da USP, controlada por policiais – foi o quedefenderam juntos o PSOL, PSTU e MNN, o que não surpreende, já que estãoestrategicamente juntos no apoio às greves da PM por “melhores condições detrabalho”; a questão, também aqui, é a completa ausência da independência declasse. Devemos reverter o erro e seguir com o comando de greve submetido àsassembleias e aos cursos, ampliando a participação com a eleição de novosdelegados que representem verdadeiramente os estudantes.
A luta domovimento estudantil da USP tem de ser contra a presença da polícia e pelademocratização da universidade. Também não podemos permitir que as decisõescontinuem sendo tomadas por uma burocracia de professores ligados a grandesempresas: temos de lutar pela dissolução do C.O. e do reitorado, e por umaestatuinte livre e soberana, com representação proporcional de estudantes,professores e funcionários. Somente com essa luta pela democratização radicalda estrutura de poder na universidade, em aliança com os trabalhadores, eatravés da nossa autoorganização, será possível colocar a universidade aserviço, não dos lucros dos monopólios, mas das necessidades da classetrabalhadora e do povo pobre. Luta esta que só poderá ser efetiva com o fim dovestibular, um filtro racista e elitista. 

Declaração de Marcelo Pablitoe Diana Assunção

Como diretores do SINTUSP processados, e dirigentesda LER-QI, queremos dar as boas-vindas aos milhares de calouros que entramna USP. Para isso, no entanto, não podemos deixar de, em primeiro lugar,virar nossas atenções para as dezenas de milhares de jovens que acabam deter seu acesso à universidade pública negado pelo vestibular. Esse é umdos principais exemplosdo elitismo do projeto de universidade que, já hámuitos anos, os diferentes governos do estado, em nome dosgrandes empresários paulistas, vêm, através da reitoria e daburocracia universitária, buscando aprofundar. Nós, da LER-QI, queintegra a Juventude Às Ruas, nos orgulhamos de fazer parte do SINTUSP,pois esse sindicato vem sendo, ao lado do movimento estudantil, linha defrente na defesa dos interesses dos trabalhadores, e também dauniversidade pública. Foi assim em 2000, quando uma greve de mais de 50dias das três categorias impediu a aprovação de um projeto de lei queprevia a cobrança de mensalidades na USP, que agora volta com Rodas. Foramtambém as greves de estudantes e trabalhadores que garantiram o aumento deverbas; a reposição de parte significativa das perdas salariais dedocentes e funcionários; a contratação de mais de 150 docentes paraa FFLCH; a construção de um novo bloco para o CRUSP; a derrubada dosdecretos de Serra contra a autonomia universitária. Há mais de uma décadaa reitoria vem impondo ataques, e somente graças ao movimento, e às grevesda USP, que a imprensa tanto difama, ainda temos uma universidadepública. Mas ela segue sob ameaça, e nos últimos anos Rodas vemimpondo medidas, ameaçando a organização política dos que resistem, eavançando sob a polarização da universidade. Por isso, para seguirdefendendo a universidade, e poder passar à ofensiva, pela transformaçãoda universidade, para que esteja a serviço dos trabalhadores e do povopobre, chamamos todos a construir a Juventude Às Ruas, para atuarem cada mobilização para que ela seja vitoriosa, mas também, mais queisso, pra que sirva à construção de uma juventude revolucionária, ligadaaos trabalhadores, que ajude a fazer com que sejam os capitalistas, e nãonós, jovens e trabalhadores, a pagar por sua crise!