Juventude às Ruas!

Fim do massacre ao povo palestino! Fim dos ataques do Estado de Israel à Faixa de Gaza! Palestina LIVRE!!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

FUNDAÇÂO SEADE demite 4 por manifestação política contra a reintegração de posse do PINHEIRINHO.


- Danielson, Estudante de Ciências Sociais da USP e militante da Juventude Às Ruas - demitido político do SEADE
 
Em visita a Fundação SEADE na última quinta-feira, enquanto deixava o prédio, o governador Geraldo Alckmin foi questionado sobre a reintegração de posse do Pinheirinho. Palavras como PINHEIRINHO! e ASSASSINO! foram gritadas em mais um momento de insatisfação quanto as recentes medidas repressoras e militarizantes adotadas pelo governo de São Paulo, na USP, na Cracolândia e sobretudo em São José dos Campos. Posto esta manifestação que de modo algum teve o caráter de agredir o governador e sim questioná-lo sobre suas decisões que fogem do diálogo e privilegia o uso da força policial; hoje eu e mais 3 companheiros fomos desligados da Fundação SEADE, por se posicionar politicamente neste dia. O motivo alegado foi que agimos com atos dolosos contra a imagem e reputação da Fundação SEADE, cabe esclarecer que a manifestação foi individual e que jamais feriu ou sequer mencionou o nome da Fundação SEADE.
 
Estes 4 afastamentos foram perpetrados sem qualquer critério e inclusive sem a devida observação da ampla defesa onde em nenhum momento nos foi dada a possibilidade de conhecer os reais motivos e o processo pertinente realizado para tal desfecho, ou seja, mais uma decisão autoritária que não considera as prerrogativas democráticas conquistadas com a constituição de 1988.
 
TODO APOIO AO POVO DO PINHEIRINHO!!! - SOMOS TODOS PINHEIRINHO!.
 
PELO DIREITO DE LIVRE MANIFESTAÇÃO DE PENSAMENTO GARANTIDO PELA CONSTITUIÇÃO.
 
ABAIXO AS DEMISSÕES POR MANIFESTAÇÕES POLÍTICAS! 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Pinheirinho é do povo! Declaração da Juventude Às Ruas acerca da invasão da PM no Pinheirinho



O Pinheirinho é do povo!
No domingo dia 22 de Janeiro a ocupação de Pinheirinho de São José dos Campos onde moram mais de 6000 pessoas desde 2004, foi brutalmente invadida por 1800 policiais, Tropa de Choque, Rota para realizar a reintegração de posse da região. Toda a repressão a esses moradores está a serviço de defender os interesses da especulação imobiliária e do “senhor” Naji Nahas. São responsáveis por esta brutalidade e por suas consequências ainda não divulgadas pelos órgãos do Estado e pela mídia burguesa: o governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin, do Prefeito de São José dos Campos Eduardo Cury, ambos do PSDB o do Tribunal de Justiça de São Paulo. Eles estão à serviço da burguesia, dos ricos, dos donos de empresas e especuladores e demonstram nesta ação onde armou-se um cenário de guerra que estão dispostos a matar os moradores, homens, mulheres, crianças, para seguir com sua política à serviço da classe dominante.

O governo tucano do estado de SP e a polícia assassina e racista, assim como faz agora no Pinheirinho, lança mais uma política repressiva no centro da capital paulista aos moradores de rua e dependentes de drogas na Cracolândia, e reprime as mobilizações estudantis, da juventude e dos trabalhadores como tem acontecido na USP.

Há 8 anos a área do Pinheirinho é habitada e construída por seus moradores. São trabalhadores, jovens, estudantes, crianças, desempregados, aposentados que são vítimas da especulação imobiliária, vítimas dos governos municipal e estadual, vítimas da polícia, vítimas do salário mínimo de miséria, dos empregos precários, da pobreza. Isso tudo tem nome, e se chama capitalismo.


Essa mesma política capitalista que vemos efetivada pelo governo de Eduardo Paes (PMDB) na reintegração de inumeras ocupações de moradias no centro do Rio de Janeiro, onde a polícia militar age com a mesma violência e truculência que em São Paulo para garantir o interesse da especulação imobiliária enquanto milhares de famílias são jogadas embaixo das pontes. É também parte dessa política as UPP's de Sérgio Cabral (PMDB) e do governo federal (PT) que, pela via de inumeros abusos policiais, pela invasão de casas e violência contra os moradores garantiram a presença ostensiva da polícia militar nos morros em favor dos interesses das grandes empreiteiras das obras do PAC, das Olimpíadas e da Copa do Mundo.

É desse tipo de especuladores, criminosos como Naji Nahas - condenado em 1989 a 24 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro -, e seus assistentes: governadores, prefeitos municipais e a justiça, que o povo do Pinheirinho vem sendo vítima. Por isso, a unica saída do povo pobre e trabalhador de Pinheirinho é sua organização de maneira independente junto dos demais trabalhadores, jovens e desempregados!

Nesse sentido, é central levantar a bandeira de desapropriação imediata,  sem nenhuma indenização a este especulador e sua corja e que se organize um plano de Obras Públicas que garante emprego e moradia e seja organizado pelas entidades e organizações dos trabalhadores e moradores!

Assim como a resistência e ousadia dos trabalhadores garantiu os 8 anos de existência do Pinheirinho, a resistência e continuidade da Luta por moradia e vida deve ser tarefa das mãos destes lutadores, arrancadas dos facínoras dos governos!

É necessário que a juventude coloque todas as suas forças em apoio e solidariedade ativa nesta luta, somando forças em defesa da ocupação do Pinheirinho, pelo direito à moradia  e pelo direito de lutar.

Nós da Juventude às ruas fazemos um chamado a toda  a juventude, organizações de esquerda, partidos, movimentos sociais e Oposição de Esquerda da UNE e a UNE para que construamos atos nacionais contra a repressão e em defesa dos lutadores.

 Liberdade imediata aos presos políticos e nenhum processo!

 
Punição aos responsáveis pela repressão!
 
Desapropriação sem indenização da área do pinheirinho!

 
Por um plano de obras publicas e moradia digna para todos!

CENAS DA REPRESSÃO- Um relato da invasão militar do Pinheirinho


CENASDA REPRESSÃO-Um relato da invasão militar doPinheirinho
porAline, estudante de Ciências Sociais da USP e militante daJuventude Às Ruas 


Dia21 de janeiro de 2012 - DIA ANTERIOR À REINTEGRAÇÃODE POSSE
Durantea plenária das 19hs, onde estavam presentes Zé Maria,Eduardo Suplicy, Ivan Valente,  outros parlamentares,diversas entidades, partidos e organizações, juntamentecom toda a comunidade do Pinheirinho, todas as falas feitas seconcentraram em tranquilizar os moradores em relação apossibilidade de uma ação da polícia nacomunidade, dizendo que ela por enquanto não viria eantecipando uma possível vitória.
EduardoSuplicy, durante a plenária, garantiu que a reintegraçãode posse não aconteceria e que no prazo de 3 meses a 2 anosninguém seria tirado dali. Todas as outras falas anunciavam avitória da luta por moradia, confiantes nas medidas judiciaiscontrárias à reintegração pela PM.Todosos que estavam ali presentes foram envolvidos por uma falsa sensaçãode segurança. Todos ali, inclusive nós estudantes.
Emoutra fala, Suplicy relatou a sua última conversa com Cury, oPrefeito de SJC, que afirmou que apesar de não concordar com ainvasão criminosa dos adultos , estava muito preocupado com as4 mil crianças da comunidade, e se comprometeu a garantir oacesso a saúde e educação.
(Umgeneroso gesto de benevolência de um Prefeito que negacotidianamente a essas mesmas crianças o acesso àspoliticas de assistência social do município e vagas emescolas e creches municipais simplesmente por serem moradoras daOcupação de Pinheirinho. O mesmo Prefeito que reconhecea origem nordestina da maioria desses moradores, que promove nacidade a xenofobia e a segregação racial e que,homenageia Bolsonaro com medalha de honra ao mérito.)
Acomunidade comemorou e a plenária acabou depois das 21hs danoite com palavras de ordem que diziam fervorosamente:"A-ha,u-hu! O Pinheirinho é nosso!". Vamos comemorar!

DIA22 de janeiro de 2012...
Por volta das 06hs da manhã, o quefoi dito impossivel 8hs antes, acontece: a tropa de choque surpreendea todos!
"Eue outros três estudantes estávamos dormindo naSecretaria da Ocupação do Pinheirinho. A Secretaria éprimeira casa que fica na frente do portão principal daComunidade. Fogos de artificio dão o sinal! Somos acordados,enquanto eu coloco o cobertor na mochila meus amigos se arrumam esaem. Conforme eu passo pela porta da secretária, vejo umaformação com mais ou menos 20 policiais da tropa dechoque, fortemente armados, adentrando a rua principal da comunidade.No lugar do portão de acesso do lugar, que foi violentamentedestruído, estavam cinco homens da tropa de choque. Osmoradores começam a sair de suas casas para entender o queestava acontecendo, já que havia se tornado rotina a entradade um certo número de policiais armados para intimidar eaterrorizar os moradores. Fiquei ali ao lados dos moradores que saiamde sua casas tentando entender o que era aquilo. Com um celular namão, me dirijo aos cinco policiais da tropa e pergunto o queestava acontecendo, a resposta foi reintegração, eupergunto de quem foi a ordem, ”- CPI.” (sic) é a resposta.(Na verdade não houve CPI alguma. Durante a noite do sábado,enquanto a plenária tranquilizava os moradores, na verdade,estava acontecendo na clandestinidade uma reunião com apresença da Ilustríssima juíza, do Prefeito emais uma terceira pessoa não identificada, que decidiramdesumanamente e em prol de seus interesses privados a reintegraçãode posse imediata e a qualquer custo).
Nesse momento, um policial datropa de choque me pergunta se sou moradora, digo que nao, que eraestudante em luta e neste momento, desarmada e sem oferecerresistencia, o celular que estava na minha mão éarremessado para longe e sou "delicadamente" conduzida pelobraço e convidada a me retirar . Quando saio, observo quetodas as ruas que dão acesso ao Pinheirinho estãositiadas pela  tropa de choque. Na medida em que todos ospoliciais me viam saindo de lá, armas eram apontadas paraminha direção enquanto eles gritavam "Fora, fora,sai, sai, sai agora, vai vai!!!!". A força brutal, aameaça, intimidação e covardia eram naturalmenteutilizados, por  homens altamente armados, assassinos doEstado e dispostos a qualquer coisa. Outros dois estudantes queestavam do lado de fora e alguns moradores que tentaram entrar emPinheirinho para encontrar as famílias, resgatar os filhos, etentar reaver, ao menos, seus documentos pessoais, foram brutalmenteimpedidos. Uma moradora idosa, desesperada por seu filho pequenoestar lá dentro, sozinho, foi espancada por policiais querespondiam com cacetes de borracha à sua necessidade de zelarpela integridade física de seus familiares. Todas as ruas aoredor da Ocupação de Pinheirinho foram sitiadas eatacadas. Algumas famílias da vizinhança, com criançaspequenas, acordaram com bombas sendo jogadas dentro de suas casaspara impedir que elas saíssem para ajudar Pinheirinho. Pessoascomeçaram a se aglomerar na tentativa de ter notíciasde familiares que estavam lá dentro, foram todas atacadas pelatropa de choque com balas de borracha e bombas. Armas eram apontadaspara crianças e para a imprensa local. Os nossos gritos "temcriança aqui, tem criança aqui!" nãocausavam o mínimo de sensibilidade em pessoas que se limitavama vender sua humanidade e a cumprir ordens como um simplesinstrumento do monopólio da violência do estado burguês.

Uma das armas que a população dos arredores dacomunidade possuía, era a câmera de vídeo e ocelular. Qualquer um que tentasse registrar a açãoarbitraria e fascista da tropa de choque era violentamente reprimido.Todas as pessoas eram ameaçadas e obrigadas a retornar paradentro de suas casas. Helicópteros pousavam. A cavalariaavançava. Carros da rota e carros blindados com mais e maispoliciais chegavam. Caminhões do corpo de bombeiros tambémestavam lá para prestar a sua contribuição nomassacre de Pinheirinho. Na medida em que o som de tiros e bombasecoava de dentro da comunidade, chegavam as notícias viacelular para os familiares que estavam lá fora, informaçõescruzadas sobre a possibilidade da existência de mortos entre osmoradores que tentavam resistir, já que foram utilizadas pelapolícia armas de fogo com munição letal. Nãohouve tempo para a resistência organizada, os moradores dePinheirinho, desesperados, tentavam resistir como puderam natentativa de proteger suas famílias, seus pertences, e o seudireito legítimo de lutar pela suas necessidades básicasde sobrevivência, e que lhe são negadas pelo estadoburguês. Enquanto isso, a mídia local e nacional cumpriaa sua função de classe, distorcendo informaçõese só noticiando a defesa dos moradores, retratada comodepredação e criminalizada, sem relatar nenhuma dasviolações dos direitos humanos praticadas massivamentepelos policiais. Foram 5hs de resistência extramuros daOcupação de Pinheirinho, as pessoas eram dispersadas eretornavam revoltadas com as notícias da possiblidade de morteentre os moradores e com a ação violenta e falta dehumanidade da tropa de choque. Algumas horas depois alguns moradorescomeçaram a sair de Pinheirinho com o que podiam carregar,informando que suas casas foram lacradas pela polícia. E alimesmo, nas ruas dos bairros ao redor da comunidade esses moradorescomeçaram a se aglomerar na esperança de poder reaverqualquer coisa. A ação da policia foi atenuada pelachegada da grande mídia. A indignação e asensação de impotência foi enorme. A Zona Sulinteira de SJC parou com o estado de sitio. Foi uma manhã depuro horror e desespero, nunca presenciei algo parecido, a falta dehumanidade me embrulhava o estômago. Vidas estavam sendodestruídas em nome do dinheiro e do poder, o exemplo maisconcreto da luta de classes e do extermínio que a burguesia eo estado promovem cotidianamente na invisibilidade das periferias.

Às4hs da tarde, voltando para casa, avisto tratores e caminhõesse dirigindo para a ocupação, e neste momento me douconta que o massacre de Pinheirinho havia apenas começado".

domingo, 22 de janeiro de 2012

ABAIXO A REPRESSÃO DE ALCKMIN E CURY AO PINHEIRINHO!!!


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Big Brother Brasil 2012: estupro de mulheres é sinônimo de amor para a rede Globo de televisão


Por Adriano Favarim e Clarissa Menezes

Conivência e encobertamento de crime pela rede Globo: após exibição de estupro ao vivo no Big Brother Brasil e da emissora tentar mostrar o estupro como algo consentido, Daniel é expulso do programa por ter “infringido as regras do jogo”.

No dia 15 de janeiro de 2012 foi ao ar a maior inovação da rede Globo de televisão: o estupro ao vivo. Circularam pela internet vídeos que mostram o momento em que Daniel entra debaixo do edredom onde Monique se encontra deitada e durante alguns minutos abusa sexualmente da garota, que permanece imóvel, totalmente desacordada. Após as primeiras manifestações de indignação começarem a circular pelas redes sociais, a emissora tenta retirar os vídeos de circulação da web. Na noite de domingo, na apresentação do programa em rede aberta, a edição do programa faz parecer que toda a situação foi consentida, terminando a exibição com a exclamação de um sorridente Pedro Bial: “o amor é lindo!”.

Além de não ter intercedido para impedir que o crime acontecesse, a emissora, sua direção e produção, agora se valem da lógica machista para encobertar com um véu (no caso, um edredom) de ‘amor’, a sujeira nojenta do crime com o qual foram coniventes! Mas a mídia é podre, e os programas de fofoca também quiseram tirar uma ‘casquinha’ do abuso sofrido pela Monique e ‘sensacionalizaram’ aos quatro ventos o “possível” abuso, cada um tentando abocanhar o maior ponto na corrida pelo IBOPE. Frente a todo esse alarde e a indignação crescente nas redes sociais, na noite do dia 16 de janeiro, o mesmo Pedro Bial da "beleza do amor", anunciou a eliminação do Daniel por ter “infringido as regras do jogo” e só! Em apenas dois dias, a Monique foi violentada por Daniel, Pedro Bial, ‘Boninho’, Sonia Abraão, entre outros...

Enquanto a mídia lucra com a mercantilização da violência à mulher e reproduz a ideologia dominante do machismo, milhares de mulheres são estupradas todos os dias por seus pais e padrastros, irmãos, parentes, amigos, namorados, maridos, com a mesma naturalidade que ocorreu no BBB, e guardam para si a violência, em silêncio, porque o machismo é tão naturalizado, que o homem se sente no direito de violentar, e a mulher se sente envergonhada e culpada por ter sido violentada.

O programa de reality show, Big Brother Brasil, que aliás de reality nada tem, é uma verdadeira exibição de opressões. Para dar ao programa um conteúdo menos alheio à realidade e supostamente mais democrático a emissora tem adotado “cotas” e escolhido em suas edições uma ou outra pessoa chamada hoje de “minorias”, como negros e negras, gays e lésbicas, e uma ou outra mulher fora do padrão estético da ditadura da beleza esbelta, ou que seja bissexual. Na “realidade” da rede Globo, as mulheres e homens têm corpos moldados, esbeltos, malhados. Uma “grande” contribuição para a sociedade presta essa emissora, que faz grande alarde midiático em torno de um programa que nada acrescenta à ninguém, e que é pautado em valores burgueses espúrios, como a competição a todo custo, mostrando relações superficiais e falsas entre os participantes, pois tudo não “passa de jogo” no qual todos querem ganhar.

A mulher enquanto objeto a ser o mais moldado e lustrado da prateleira

Dentro de uma sociedade que sobrevive da repressão sexual, da imposição de valores castos, de uma inibição em forma de tabu acerca da sexualidade e de uma moral voltada para a reprodução e manutenção da família patriarcal monogâmica, a mídia tanto se vale desse recalque sexual da sociedade para lucrar em cima da exploração dos corpos femininos, quanto para reproduzir os valores machistas e sexistas que alimentam essa sociedade sexualmente repressora. Não a toa que, dia-a-dia, nos mais diversos programas, a ditadura da beleza é exposta: seja nos ‘reality shows’, nos programas de auditório, nas novelas, nos programas de fofoca e até nas reportagens de telejornais. Em uma parceria inescrupulosa com as indústrias de cosméticos e com a medicina da beleza.

Na mesma medida que essa exploração gera lucros milionários para esses empresários, reproduz a ideologia de que à mulher não pertence o seu corpo, expropria-se da mulher o seu corpo enquanto totalidade e o seu ser enquanto sujeito e a transformam em partes-objetos a serem degustados: uma bunda, um seio, uma vagina, uma boca, uma coxa, um rebolado, etc. Ao mesmo tempo, a mulher perde todo o seu direito de determinação e se torna a eterna Eva de sua desgraça. A mulher, vítima dessa serpente que é o capitalismo – onde alguns poucos empresários burgueses lucram com a apropriação e exploração sexual do corpo feminino – terminam por serem culpadas do abuso que sofrem, na medida que, nessa empreitada lucrativa, esses mesmos empresário burgueses reproduzem a ideologia opressora machista que permite a continuidade dessa exploração! É hora de transmutarmos essa culpa para os veículos da mídia e as indústrias de cosméticos e da ditadura da beleza que nos exibem como objetos e se valem da nossa utilização enquanto corpos violáveis e disponíveis para lucrarem milhões!

Milhares de mulheres já sofreram abusos sexuais. Muitas na infância, pelo pai, padrasto, tios, parentes próximos ou amigos de familiares. A imposição de uma “ditadura da beleza” é parte do nicho de mercado desses grandes monopólios de comunicações e industrias e é alimentado por estes no ideário de um padrão de beleza pautado na juventude eterna regrada à muitas plásticas, cirurgias e cosméticos, bem como na coisificação da mulher desde a sua mais tenra infância, transformando uma menina em uma mulher, não uma mulher-sujeito, mas desde pequena em uma mulher-objeto.

Além da lucratividade, essa prática gera a reprodução ideológica da própria estrutura social construída na base da moral repressora sexual, que além de criarem mulheres para serem frágeis e submissas, criam homens para serem brutos e violentos que só são capazes de garantir sua satisfação sexual na base da força e da possessão do corpo feminino, aqueles que não conseguem cumprir com sua “obrigação social” de possuir uma mulher se sentem no direito de utilizar da sua força física ou de aproveitar determinada situação (quando a mulher está desorientada ou desacordada, seja pelo álcool, seja pela indução de substancias adicionadas sem seu consentimento, conhecidas como o “boa noite cinderela”) ou relação de poder (como abusos de crianças e adolescentes em geral por parte de familiares) para garantir a sua satisfação sexual.

Enfrentar a gigante Globo, as indústrias da beleza e as demais mídias não é tarefa fácil, ainda mais quando esse enfrentamento representa um combate aos pilares que sustentam a manutenção desse sistema social. Não nos espantaria se Monique viesse a público afirmar que foi um ato consentido. Assim como a maioria das mulheres violentadas terminam obrigadas a regressarem de volta às suas casas, caladas, amedrontadas e desmoralizadas.

A luta contra o machismo que é perpetrado diariamente em nossas vidas, desde que nascemos, pela família, pela escola, pela igreja e pela mídia tem que se enfrentar contra a moral sexual que constrói ideologicamente os sujeitos e suas relações. Essa moral propagada e reproduzida, porém, é fruto das necessidades econômicas da sociedade, e hoje, ela emana das bases da sociedade capitalista. Combater seriamente o machismo, o sexismo e a homofobia não é tarefa fácil exatamente porque significa combater tanto o sistema capitalista de produção quanto a sua reprodução moral e de valores.

Nesse sentido não podemos esperar nada dos governos para além de promessas e barganhas de direitos pontuais em troca de acordos políticos. Demonstração disso foi a tímida manifestação da Ministra petista Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas para as Mulheres que solicitou ao Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro que apurasse o caso, enquanto isso, milhares de mulheres continuam sendo abusadas sexualmente e o governo nada faz para atacar o cerne da reprodução dessa lógica social, muito pelo contrário, mantém sua posição contra os mais democráticos direitos da mulher como a legalização ao aborto ou a educação sexual nas escolas em favor do Acordo Brasil-Vaticano pelo ensino religioso! Segundo o jornal O Dia, a polícia foi até o Projac na tarde do dia 16/01 colher depoimento da vítima e do agressor, sendo à noite anunciada por Bial a saída de Daniel por “infringir as regras do programa”. Desde quando a rede Globo possui foro privilegiado? Estupro é crime e devem ser punidos, não somente o Daniel, como a rede Globo, o apresentador, a produção e a direção do programa BBB12 que poderiam ter impedido e não o fizeram, se omitiram, foram coniventes e ainda tentaram transformar o estupro em uma “ linda cena de amor!”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Na cracolândia e na USP: aos indesejáveis um só metodo; O porrete!


Após todo processo de luta desencadeado na Universidade de São Paulo durante o fim do ano, cujo estopim foi a tentativa de prisão de 3 estudantes no dia 27 de outubro, seguida de diversos exemplos do papel repressivo da Pm no campus, como a invasão por 400 policiais que coroaram o projeto da reitoria de avançar na militarização da USP, a PM mostra, mais uma vez, aos que duvidaram, a que veio.

 
Policial ameaça com arma e agride estudante na USP;
Neste dia 9 de janeiro, Nicolas, jovem negro, estudante deCiências da natureza da Usp foi agredido aos tapas e ameaçado com uma pistolapor um destes supostos “policiais preparados” para lidar com um ambiente“comunitário”.

Toda a ação foi filmada -Aqui- e, como era de se esperar,tanto a reação do policial - que aos berros dizia que era “Polícia” e não tinhafeito nada de errado nem temia a corregedoria- quanto a posterior abordagem damídia, em caracterizar Nicolas como um “suposto” estudante, já eram esperadospor aqueles que se enfretaram com exemplos, truculência e repressão deste tipopor mais de 3 meses.

O que está por detrás da abordagem deste jovem negro,“mal-vestido” e de Dread/Rastafari na Usp?

Nicolas, não coincidentemente foi abordado pelo policialque, naquele momento e em geral, seguiu um procedimento da PM, que não éexceção nas divisões de elite dos 400 que invadiram a USP ou dos 100 queentraram na cracolândia, nem nos tão “preparados policiais comunitários”. Estaé a política do racismo e da discriminação entre “normais” e os “indesejáveis”que norteia a Polícia.

A Pm é uma instituição reacionária, autoritária e violenta,filha direta da Ditadura Militar. Nas estrelas presentes em seu brasão de armasde mais de 181 anos, comemoram a repressão a Canudos - levante Popularorganizado em contraposição à ordem vigente-, às greves operárias de 1917 ecomemoram até mesmo o Golpe militar de 1964.
Isto porque seu caráter, a despeito do que dizem osdefensores desta democracia dos ricos é o caráter de um organismo a serviço deuma classe: a dos patrões.
Isso implica que seu principal objetivo é garantir osinteresses, lucros, empresas, locais de estudos e posses destes grandesmagnatas e senhores, por quais vias forem necessárias.

Não é preciso procurar demais. Basta observar o papel quecumprem nas periferias de todas as cidades, nos morros cariocas, nos conflitosno campo, nas greves de trabalhadores em que dissolvem piquetes- o que jáocorreu na USP, em Jirau, com professores, etc-, e, não surpreendentemente, nasUniversidades e cracolândias por todo o país.

Nicolas, um jovem negro e pobre não poderia ter outrodestino que não ser abordado e agredido tanto pela PM, quanto pela reacionáriaguarda universitária, a serviço da reitoria. Este é o método comum em todas asperiferias e, na Usp, uma universidade pensada, organizada e cujo acesso epermanência são somente acessíveis às camadas mais altas da sociedade, com tais“elementos”, só poderia se expressar o racismo corriqueiro da polícia cujasraízes remetem ao escravagismo do império.

O “indesejável” ao se dirigir ao capataz, tal como uma bestaque se dirige ao ser civilizado, deve ser neutralizado e eliminado paragarantir a manutenção da ordem imposta pela casa grande. Esta é a lógica daditadura militar escravagista e é a serviço disto que está a repressão na USPque conta, hoje, com 73 presos e processados políticos e 6 expulsões porlutarem contra tal projeto.

A Reitoria da USP, com seus quadros e monumentos emhomenagem à ditadura militar visa impor um choque de ordem aos “elementosindesejáveis” na USP, tal como o Governo do estado impõe sua ordem aos“indesejáveis” da Cracolândia!
Há alguns meses a reitoria tentou iniciar a construção de umdito “monumento à REVOLUÇÃO de 64”, comemorando a data memorável do golpe daditadura... Igualmente foram veiculados imagens de quadros de “presidentes”reitores da ditadura Militar, como Gama e Silva, nas salas da reitoria... Nãobastassem estes elementos tão emblemáticos, numerosos são os exemplos deataques aos estudantes e trabalhadores na USP.

Demissões, agressões, ameaças com armas de fogo, PM'satacando piquetes de greve de trabalhadores, amordaçando estudantes, etc, sãoimagens que caracterizam a USP no último período, sendo os últimos mesesexemplos cabais disto.

Já está mais do que claro que a presença policial no campusda USP tem um sentido político e repressivo. É uma encomenda especial doGoverno do estado, aplicada pelo carrasco Reitor Rodas, para calar os setoresque questionam um projeto de Universidade racista, elitista - que exclue amaioria da população com seu vestibular, em especial os negros da periferia-, evoltado aos interesses das grandes empresas.
Historicamente, um setor de resistência tem se organizado ecombatido este projeto, no sentido de buscar abrir o debate acerca de queUniversidade precisamos e a serviço de quem. São calados às balas, bombas eprisões, tal como os capatazes escravagistas tratavam suas propriedadesfugitivas.

Paralelamente a isto, Alckmin e o oficialato da Pmprepararam um plano de higienização social maquiado como “revitalização” daregião conhecida como cracolância, cujos objetivos obscuros podem muito bemestar a serviço de uma “limpeza social” pré-olímpiadas as custas da opressão erepressão de todos os moradores da região, vítimas desta miséria de vida quenos impõe.

Por lá, os métodos são bem parecidos. Não faltam balas,tiros, tapas na cara, ofensas e ameaças.
A PM tem estabelecido uma presença ostensiva contando atémesmo com o aparato da tropa de choque e da cavalaria - verdadeiros “capitãesdo mato”, caçadores de escravos modernos- para garantir que as “vias sejamliberadas” e que, pela “dor e sofrimento”, segundo as palavras do próprio“secretário de defesa da cidadania”, possam “superar” sua situação miserável.

As imagens de terror, armas nos rostos, socos e pontapés edenúncias de execuções sumárias por parte da PM também não faltam, assim comoem todas as periferias e nas lutas populares. A justificativa do senso comum edas ditas “autoridades” é que são viciados e um setor “descontrolado” dasociedade.

As razões de tal repressão, sabemos, advém de que aoscapitalistas é necessário esconder estes pobres miseráveis, os quais são aexpressão mais aguda e mais cruel de um princípio do capitalismo: Ou você“vence” na vida e lucra, ou está abandonado a sua própria sorte por ser umperdedor.
Abandonados, não lhes resta nada além das drogas, damiséria, da prostituição e das ruas.
São a expressão concretizada do destino que o capitalismoreserva a toda civilização. O abandono, isolamento e a miséria.
O Estado, num ato de bondade cívica aplaudido por todos osmeios reacionários, vem lhes dar um presente de ano novo e um “incentivo àcivilização” na forma de lacrimogênio.

Pela Usp, o núcleo de consciência Negra - NCN- cujaresistência perdura há vários anos e tenta ser um contraponto à políticasegregacionista e elitista da Instituição e seus dirigentes “máximos”, tem sidoameaçado de perder sua sede e não ter para aonde ir, para, assim, dar lugar aum projeto de “revitalização” das estruturas...que não incluem o único núcleode Negros!!!

Alguma semelhança?
  
A ditadura Militar, abençoada pelo PSDB e pela Reitoria daUSP tem de acabar!
Não é de se estranhar que a Polícia aja desta maneira. Narealidade, a ação repressiva faz parte de um projeto de Universidade- e deestado- que vira as costas para a maioria trabalhadora da sociedade e buscasubmeter os trabalhadores e estudantes de baixa renda e resistentes a estaelitização.
A terceirização, que estabelece trabalhos exaustivos esalários de miséria, com assédio moral, etc; as demissões que continuam demaneira arbitrária; expulsões de alunos; processos e demissõesinconstitucionais; tudo isto é o exemplo de uma estrutura arcairca eretrógrada, cuja manutenção tem a benção de um governo igualmente autoritário eretrógrado como o do PSDB e sua corja, cujas desocupações de sem-teto,repressão a greves de trabalhadores e a movimentos populares são bem conhecidosde toda a população.

A comunidade Universitária, em nenhuma instância, pode sefazer representar de maneira relevante e, sendo assim, cabe a um pequeno grupode seletos iluminados, todos orbitando a figura do REItor decidir o que, quando,onde e de que maneira se organizar, financiar e estabelecer as prioridades daUSP.

De 100 mil membros da USP, 300 tem poder de decisão. Dos 12milhões de cidadãos de São Paulo, o governo do estado - que transfere Bilhõespara grandes empresas e seus negócios-, através de seu vestibular, permite quetenham acesso à USP apenas 9 mil.
Nenhum deles será da Cracolândia, poucos serão negros e daperiferia e os que forem, certamente, sofrerão com falta de condições paramanter seus estudos, falta de moradia e muita repressão quando lutarem por algoneste sentido...

Recentemente, o movimento estudantil da USP tem se colocadoem pé de questionamento, organizando ações e uma greve para garantir a saída daPM do campus tendo avançado no questionamento da estrutura do acesso e de poderna USP.
É necessário avançar na luta por uma Estatuinte que varra daUSP estes dejetos ditatoriais, debata e decida sobre os objetivos, problemas ediretrizes da USP, que precisa estar a serviço dos trabalhadores: a maioria da população.

Igualmente, só um governo da Usp, baseado em conselhos dosestudantes, trabalhadores e professores, na proporção de sua presença nauniversidade, ligados as organizações dos trabalhadores e movimentos popularesserá capaz de organizar uma Universidade não elitista e que se desprenda daLógica de benefício ao mercado e exclusão da massa de baixa renda queverdadeiramente financia a universidade pública.

Por enquanto, nas imediações do belo campus Butantã, dentrodo circo de operações dos magnatas hipócritas do governo, Nicolas, agredido eameaçado com tapas e uma pistola, é levado a crer que os policiais agressoresserão, supostamente, afastados numa manobra hipócrita que visa maquiar overdadeiro sentido “agressor” da repressão; há poucos metros da Universidade,na favela da São Remo, Cícera, trabalhadora terceirizada, assassinada pela Pmcom um tiro na cabeça, não tem tanta sorte.

Enquando na USP, há a agressão e o suposto “afastamento”, nafavela São Remo, há o corpo negro estirado no chão.

Numa, maqueia-se a segregação social que, inusitadamente, écaptada pelas câmeras, noutra, as câmeras e imagens não resistem ao massacrecotidiano e, por lá, a "autoridade" não tem nada a esconder. É só obom e velho "Mocinho e Bandido": De cinza é "mocinho";qualquer tom de negro, é inimigo. Uma dica da ditadura.

Dois lados da mesma moeda. Duas ações da mesma hipocrisia.Uma ação de classe de costas para a outra. A ação da classe dos que queremeliminar as vozes que distoam, as palavras que discordam e os oprimidos queresistem.

NÃO PASSARÃO!


O projeto em xeque


Rodrigo Silva é estudante de filosofia na UFMG e da JUVENTUDE ÁS RUAS. 

O CHE (Complexo Hidroelétrico) de Belo Monte terá uma capacidade de geração de energia em torno de 11.181 MW. Mesmo estando entre as 10 maiores hidroelétricas do mundo, comparativamente, será um dos investimentos em energia menos eficientes, do jeito em que está no projeto original (e é importantíssimo nos lembrarmos dessa ressalva), e custará em torno de 20 a 30 bilhões de reais, segundo estimativas. Sua capacidade média de geração de energia, a energia firme, como é chamada, será de apenas 4.637 MW. Existem outros cálculos, utilizando outras metodologias (metodologia HydroSim), que ainda nos dão uma perspectiva mais desalentadora, calculando apenas 1.172 MW de energia firme, o que seria aproximadamente apenas 10% de sua capacidade. Apesar de ser o projeto mais caro de todos, produzirá pouco mais energia firme, contando a melhor das hipóteses, do que Tucuruí (4.100 MW), e a metade de Itaipu (8.600 MW). Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, produzirão juntas 4.100 MW. Temos que lembrar, voltando ao assunto dos parênteses, que um dos ajustes realizados no seu projeto para viabilizar sua construção, do ponto de vista ambiental, foi desistir da construção de outra barragem (Babaquara), à montante do projeto em curso, que, se construída, aumentaria o espelho d’água da usina de 440 Km² para 1.225 Km², e ai sim, talvez a usina tivesse uma geração maior de energia. Como nos é alertado pelo estudioso do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Philip Fearnside, é comum nestes casos que promessas antigas sejam esquecidas pelo governo em momentos posteriores. Portanto, em um novo momento de “crise energética”, já programada a partir da ineficiência do projeto atual, e “necessidade de progresso”, como o governo denomina sua justificativa para construir esta usina da morte e derramar dinheiro, poderíamos ver sendo construída essa outra barragem, e maiores danos ainda poderão surgir. Boa parte das condicionantes exigidas para a implantação do projeto que está em andamento não foram cumpridas, e muitos danos já são parte do cotidiano de Altamira. A criminalidade da cidade cresceu em mais de 130%, o inchaço populacional castiga a população, que vê seu custo de vida aumentando rapidamente, suas periferias estão crescendo sem condições básicas de infra-estrutura, além da ineficiência dos serviços públicos, como saúde e educação, em atender sua demanda. E porque tudo isso?

“A obra pela obra” ou “do nosso bolso para o deles”

Como é lembrado em um dos artigos do painel de especialistas sobre Belo Monte, quando se tem em vista um empreendimento em energia, temos que analisar para onde vai a energia gerada, e qual é a sua necessidade, e, acrescento, não ficar alardeando um suposto progresso e um desenvolvimento que já é papo velho por estas bandas, às custas do sangue e das vidas dos trabalhadores e da população local. Ao observarmos o CHE de Belo Monte sob este aspecto, vemos que, além de relatórios que apontam que investimentos em eficiência energética nos poupariam dessa usina sangrenta, a obra não atende as necessidades energéticas e produtivas da população e dos trabalhadores, mas sim as necessidades das grandes indústrias do alumínio e do ferro, e, por conseguinte, da grande economia mundial, que vê no nosso estado uma das últimas fronteiras de exploração de matéria-prima. Quanto ao ferro, é importante notarmos que, do modo em que o ferro é produzido e vendido (com baixo valor agregado e direto para a China) não é interessante para o Brasil continuar comercializando-o para o exterior, apesar de seu comércio ser um dos sustentáculos da nossa política econômica. Esse ferro deveria, no mínimo, ser revertido para o crescimento da indústria nacional, se alguém quisesse argumentar pelo dito “progresso”. Aliás, perto da quantidade de ferro que alimenta a indústria mundial e só deixa seqüelas para nós, do que adianta falar em “taxa de mineração” e “reverter os lucros da mineração para o estado”, como argumenta a mídia governista da capital? Quanto ao alumínio, vários países já até desistiram da extração mineral da bauxita, pois além de consumir muita energia e gerar poucos empregos, é uma das indústrias mais poluentes que existem, e, além disso, apesar da sua importante para indústrias tecnológicas que não são prioridade da economia nacional, hoje em dia mais de 85% do alumínio produzido é passível de reciclagem. Se os benefícios fossem revertidos para a criação de indústrias que trouxessem benefícios para a população paraense, gerando empregos e nos suprindo nas demandas materiais de um estado tão pobre quanto o nosso, ainda poderíamos entrar nesse debate. Mas com essas perspectivas, quem quer Belo Monte?

                Belo monte é uma obra, que, além de, no seu objetivo final, servir a uma política econômica que não beneficiará a população em geral em nada, é um verdadeiro atentando contra a dita “soberania nacional”, pois essa política econômica de exportação de commodities é a mesma que garante que o Brasil continue numa posição de semi-colônia da economia mundial em termos de produção, e não a falta de energia, como nos é alegado.

Todos esses argumentos, como compromisso com o desenvolvimento, e garantia de energia para a nação, são apenas falácias sustentadas pela mídia e pelos políticos que defendem a obra, todos comprometidos com os que verdadeiramente serão beneficiados com este empreendimento. Camargo Corrêa, Odebrecht, Andrade Gutierrez e outras empreiteiras, seja através de despachantes ou diretamente, serão as únicas beneficiadas por este empreendimento. Todas essas companhias financiaram a campanha eleitoral de Dilma. Assim como nos EUA a indústria bélica financia campanhas presidenciais e exige retornos, aqui acontece o mesmo com as empreiteiras. Como nos esclarece a campanha “Belo Monte: com meu dinheiro não!”, o BNDES irá financiar 80% do custo da obra, à juros baixíssimos, no que é o maior financiamento da história do banco. Um verdadeiro assalto aos nossos bolsos! E tudo isso a custa da população local e dos trabalhadores do país! Fundos trabalhistas, através do BNDES, irão financiar Belo Monte!

Em Belém, por que nos mobilizarmos? E como?

Em primeiro lugar, o desrespeito e abandono estrutural em que se encontra a população de Altamira, além de que os desrespeitos exercidos contra os trabalhadores da obra não são privilégio de Belo Monte. A precarização do trabalho e o desrespeito a população que não tem condições dignas de moradia têm sido a tônica do suposto “desenvolvimento” que vem sendo propagandeado desde o governo Lula. Lembremos que tanto nas obras do PAC, quanto nas obras para a Copa do Mundo, que são geridas pelos mesmos grupos de empreiteiras, casos de trabalho semi-escravo, péssimas condições de trabalho (como em Jirau, onde os trabalhadores atearam fogo no próprio alojamento em forma de protesto), remoção de moradores locais sem cumprimento das condições prévias são recorrentes em todo esse cenário de “desenvolvimento”, que na verdade é apenas um “boom” de obras, financiado pelo nosso bolso e de objetivos duvidosos. Essas empreiteiras são na realidade agentes do trabalho precário no Brasil atual. Se posicionar e organizar-se contra a construção da usina é um passo importante na auto-organização dos trabalhadores. Nesse momento em que capitalistas do mundo inteiro se preparam para a crise mundial, é importante que os trabalhadores da região e a população em geral se organizem para defendermos o que hoje é uma das últimas fronteiras para a grande economia capitalista mundial, a Amazônia. Hoje, com esta crise estrutural, até nos países mais desenvolvidos são oferecidas misérias à classe trabalhadora. Somente a auto-organização dos trabalhadores poderá superar os problemas da região. Não podemos confiar na classe política tradicional, representada pelos veículos regionais de mídia, que não respeitam a população, desinformando-a, e lucram com a exploração do estado, para esta tarefa. Nos colocarmos contra esse projeto é lutar contra esse modelo econômico que garante que, mesmo com tanto capital circulando, com tantos recursos no Estado, que em Belém, metade da população viva em situação precária. Só a luta contra esse modelo poderá oferecer à população do Pará perspectivas de melhoria nos serviços básicos, na moradia, nas condições de trabalho e na educação. Para que nestas condições possam decidir sobre o dito “desenvolvimento”.

Para se porem ao lado da população e dos trabalhadores, os estudantes e jovens devem empreender tarefas de organização e discussão nos seus locais de estudo, se pondo à serviço da classe trabalhadora. Denunciando a situação, se reunindo nas escolas e faculdades para discutir o assunto, a juventude deve ir às ruas para levantar suas vozes e seus braços contra este modelo que não oferece um futuro para a juventude que não seja ilusório, e na realidade extremamente difícil, não só aqui como em todo o resto do mundo. Devemos combater Belo Monte e junto com ela o projeto de país que vem tocando os governos Lula e Dilma, com suas maquiagens e de fundo, lucros como nunca para os capitalistas, e exploração para os trabalhadores e desrespeito às suas lutas e à população em geral. Para isso devemos mirar com bons olhos, e aprender com o exemplo chileno, aonde uma luta que retomou sua força este ano em manifestações contra a construção de cinco barragens no território da população Mapuche, cresceu e se tornou um movimento massivo e apoiado por diversos setores da população que, ocupando escolas e faculdades pela educação gratuita, nas suas maiores manifestações reuniu mais de 500.000 jovens nas ruas, pondo em xeque não só a agressão ao povo indígena, mas o próprio modelo de desenvolvimento proposto pelo governo chileno e os resquícios da política econômica do período ditatorial.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ABAIXO A INTERVENÇÃO MILITAR DA REITORIA DA USP NO ESPAÇO DOS ESTUDANTES!


Bruno Gilga, estudante de Ciências Sociais da USP

Agora,  na tarde de6a-f., a PM está com 6 viaturas e cerca de 20 policiais, junto à GuardaUniversitária, no Espaço do DCE, retomado pelos estudantes em 2009. Desdeontem, quando "coincidentemente" o espaço virou notícia no Estadão, aPM rondava o espaço dos estudantes, e havia expulsado o acampamento queacontecia ali. Hoje, confiscaram as coisas do DerruBar, espaço socialautoorganizado pelos estudantes, e quiseram fechar o espaço, sem qualquermandato! Dezenas de estudantes se organizaram rapidamente para resistir emantiveram o espaço aberto; até esse momento a PM continua lá.
A reitoria aproveita o período de esvaziamento dauniversidade para atacar a organização dos estudantes e trabalhadores, e nasúltimas semanas já expulsou 8 estudantes por lutarem por mais moradia, tentoudemolir o espaço do Núcleo de Consciência Negra, e agora quer fechar o espaçodos estudantes no DCE Ocupado. Mais uma vez fica claro que a PM - que massacracotidianamente a juventude negra nas favelas, e nesse momento reprime duramenteos moradores de rua no centro da cidade -, não está na USP para protegerninguém, e sim reprimir a organização política de estudantes e trabalhadores egarantir a implementação das medidas do reitor Rodas para aprofundar o caráterelitista e racista da universidade.

FORA PM DA USP!
TOTAL AUTONOMIA DOS ESPAÇOS ESTUDANTIS NA UNIVERSIDADE!
NENHUMA PERSEGUIÇÃO AOS LUTADORES!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Xingu Vive na aliança entre trabalhadores e a juventude combativa!

por Biro (Campinas) e Carol

A Juventude Às Ruas saúda a jovem estudante da ETECAP que nesta primeira semana de dezembro, ao receber premio de Jovem Cientista das mãos da presidente Dilma, realizou um corajoso ato de protesto contra a construção da usina Belo Monte, escrevendo sobre seu próprio corpo: “Xingu Vive”.
Este ato foi um exemplo para todos aqueles que se indignam com a construção desta obra faraônica, que tem gerado muitas polemicas nacionalmente. Esta obra faz parte de um projeto maior iniciado na ditadura militar, com o objetivo de avançar sobre os recursos naturais de nosso país sob o discurso de “desenvolvimento”. O projeto foi retomado com centralidade pelo governo Dilma, seguindo os passos de seu antecessor, Lula, como parte do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), motor do projeto de país lulista que tem por objetivo transformar o Brasil numa grande "potência mundial" às custas de trabalho ultra exploratório e precário dos trabalhadores e da degradação do meio que vivem, tornando-o mais insalubre e miserável, em prol dos lucros bilionários das grandes empresas de construção civil e transnacionais. 
Mesmo a mídia burguesa não esconde que esta obra afetará violentamente as condições ambientais e sociais da região. Além de deixar milhares de casas e terras férteis e florestadas inundadas, destruindo um  ambiente rico em biodiversidade e o meio de sobrevivência de milhares de famílias, o rio abaixo da represa secará, deixando a população indígena e local sem recursos para se alimentar e sobreviver. Estas comunidades têm se organizado contra a construção de Belo Monte e de outras barragens há muitos anos e o movimento é ignorado pelos governos federal e estaduais e entidades federais como IBAMA e FUNAI, que mantem carta branca para as instalações dos canteiros das obras não obstante toda a catástrofe que representará para a população local e regional. Este empreendimento está atraindo milhares de trabalhadores para a região, mas o que os esperam são salários miseráveis e condições péssimas de sobrevivência em meio às obras, o que repercutirá na precarização em outros locais, como indústrias e mineradoras. Este é o desenvolvimento que o capitalismo tem a nos oferecer, em que essa degradação ambiental, cuja exploração dos recursos é feita de forma predatória, é decorrente da exploração de uma classe sobre outra.
Essa exploração vai encontrando seus limites. Tempos atrás acompanhamos um conflito em Jirau, um campo de obras deste mesmo projeto, onde trabalhadores semi-escravizados atearam fogo em seus próprios alojamentos como forma de protesto, tamanho era o grau de exploração que sofriam. Ao longo do ano, vimos também greves e paralisações nos canteiros de obras para a Copa de 2014, obras estas que são parte também do projeto lulista de país. Em Belo Monte não é diferente. Os trabalhadores da construção desta usina já deflagraram inúmeras greves e cortaram importantes rodovias, como a transamazônica. Reivindicam melhores condições de trabalho e denunciam casos absurdos de precarização do trabalho, como distribuição de alimentos estragados e companheiros que adoecem em seus alojamentos. O governo,  junto à burocracia sindical, tem mantido a intransigência absoluta tentando desviar o conflito, demitindo os trabalhadores mais destacados e que participavam das comissões de negociação. Já são mais de 150 demitidos. Além das denuncias de assassinato dos líderes dos trabalhadores, população indígena e ribeirinha, que aumentam a cada dia.
Nesse contexto, nós, a juventude, devemos estar ao lado dos trabalhadores, do povo indigena, e das populações pobres atingidas por esses desastres planejados pela burguesia e o governo, combatendo o projeto de país do governo petista, a exploração da classe trabalhadora nos campos e nas cidades e a perseguição política de centenas de trabalhadores e estudantes, principalmente no Pará, por lutarem contra a construção desta usina. Devemos reivindicar e seguir o exemplo da luta dos estudantes chilenos que, no começo do ano, fizeram manifestações de milhares nas ruas e ocuparam escolas reivindicando a não construção das cinco barragens na região da Patagônia, por todos os problemas que, assim como Belo Monte, originariam no país. Não é pedindo aos governos e depositando neles esperanças que Belo Monte, assim como o Novo Código Florestal, serão barrados, pois o governo é o maior aliado da burguesia e do agronegócio. A luta deve ser independente dos deles e dos empresários, ao lado da juventude trabalhadora nas ruas!
Chega de energia e desenvolvimento sujos de sangue da população, dos trabalhadores e povos indígenas! Convocamos toda a juventude a combater a construção de Belo Monte e o projeto de país do governo, lutando lado a lado com os trabalhadores contra a precarização do trabalho e da vida. Xingú vive, e a juventude gritará até o fim da exploração e opressão do capitalismo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sobre o episódio entre um casal homossexual e o proprietário do Bar Fish



por Adriana Spinelli, Juventude às Ruas - Franca

Muito se falou sobre o episódio entre o casal homossexual e o proprietário do Bar Fish que ocorreu há pouco tempo em Franca. Entre o que foi falado houve, pelo menos, duas versões diferentes. A primeira versão dizia que o casal de rapazes se beijou no Bar e que em seguida foi abordado pelo proprietário que, de maneira grosseira, mandou que os dois se retirassem, isso aos gritos, expondo o casal a constrangimento - essa versão geralmente surgia acompanhada da defesa do casal, julgando homofóbica a atitude do dono do bar. Na segunda que, na maioria das vezes, era precedida de um alerta de que é preciso conhecer o que de fato aconteceu, porque houve, na verdade, mentiras e exageros por parte tanto dos garotos que sofreram o constrangimento quanto de quem levou a história pra frente, o casal estava se agarrando de maneira vulgar no bar, constrangendo os outros clientes, quando o dono do bar se aproximou educadamente para pedir que parassem, ao que eles responderam aos gritos e de maneira agressiva.

Pois bem, é preciso partir do que se tem de fato 1) o casal de garotos estava no bar, 2) o casal se beijou e 3) o proprietário do bar se aproximou para pedir que parassem, isso é consenso nas duas versões. A segunda versão frisa a forma como o dono do bar abordou os dois: educadamente. A ressalva educadamente procura formar a idéia de que é perfeitamente compreensível a atitude do dono do bar frente à postura dos garotos (não seria aceitável se ele fosse mal educado), porque os garotos estavam se agarrando de maneira vulgar. Ora, nada mais natural do que o dono de um bar impedir aquela situação constrangedora, “mesmo se fosse um casal heterossexual não poderiam se agarrar daquela forma em público”, defendem uns, partindo do mesmo princípio. Além disso, alguns clientes se mostraram incomodados com o fato nada normal de um casal gay se beijando em público, também nesse caso, nada mais compreensível do que o dono do bar tomar a atitude de impedir que aquilo continuasse, uma vez que os interesses de seus clientes são seus interesses, nada mais compreensível do que proteger seu negócio, natural.
Natural?

O que deve ser compreendido nessa situação, na verdade, é que o problema não reside nas diferenças entre as duas versões, o problema reside no que elas têm em comum. Nas duas o dono do bar se desloca até os dois garotos e os impede de uma forma ou de outra de continuarem a se beijar no local.
É preciso entender o significado dessa ação. O proprietário se desloca até o casal para pedir/ sugerir/mandar/ implorar/suplicar/exigir/impor que eles parem de se beijar, nesse contexto sua ação assume a qualidade de reprodução ideológica e é aí que reside o problema! É possível, portanto, discutir essa situação partindo dos fatos puros, sem os questionados saltos de qualidade (se ele gritou ou não).

 A violação da heteronormatividade como base do ato vulgar

O segundo elemento conflitante se encontra não na análise factual, mas na análise do discurso, no ponto em que se problematiza a questão da forma como se comportavam os garotos, com atitudes vulgares. Há uma reprodução ideológica, tanto no sentido de opressão a um casal homossexual, mas que também não se perderia caso fosse um casal heterossexual se beijando de maneira vulgar, há uma reprodução ideológica, portanto, de caráter mais profundo: a forma como se encara a sexualidade na sociedade.

Mas há ainda um problema grave nessa análise. A primeira coisa é que nunca ou raramente se ouve falar que um casal heterossexual foi expulso ou impedido de se beijar num local privado por estar se comportando de maneira vulgar, quase todas as vezes, no entanto, em que se ouve falar de um casal homossexual que entrou em conflito em algum lugar por estar se beijando, na maioria esmagadora das vezes em que se presencia uma discussão acerca de fatos como o do jovem casal, toca-se nesse ponto da vulgaridade. Em suma, aceita-se o agente da discriminação (na maioria das vezes o proprietário do local) com a justificativa de que o casal homossexual estaria em declarados atos libidinosos em público e ainda mais, na tentativa de concluir o raciocínio de maneira qualitativa e democrática, os propaladores desse discurso acrescentam que vulgaridade não se aceita de ninguém, NEM MESMO de casais heterossexuais. Estranho isso, estranho em primeiro lugar porque, como já foi dito, quase nunca se ouve falar que um casal heterossexual foi impedido de continuar se beijando porque "passava dos limites", em segundo lugar porque quase sempre é o que acontece no caso dos homossexuais, em terceiro, na articulação desses dois elementos: uma reprodução ideológica chave se aloja nesse discurso, e a compreensão disso é essencial para que se encare de maneira sincera o problema do preconceito – a idéia de que a homossexualidade é coisa de pessoas indecentes, vulgares, safadas ou qualquer adjetivo afim. O que é essencial, é entender porque esse dito "passar dos limites" é visto com tanta repulsa, não quando parte dos casais heterossexuais, com quem  isso não acontece nunca ou raramente.

Não é preciso dizer que esse discurso é perigoso, mas também não é difícil entender porque ele sempre brota nas situações de homofobia. Homossexuais praticam sexo, ou lidam com sua sexualidade de maneira idêntica aos heterossexuais, exploram as zonas erógenas de seus corpos da maneira que melhor lhes aprouver. A boca é uma zona erógena e é uma das únicas que, através do beijo,  podem ser exploradas em público, no entanto, somente por um casal heterossexual – dificilmente qualquer casal hetero ou homossexual se lançaria à aventura de expor em público mais do que o beijo, este é um código social (não que isto seja positivo) - faz parte das práticas cotidianas de um casal heterossexual, porém, explorar uma das únicas zonas erógenas permitidas em publico: a boca, e somente através do beijo, bem como andar de mãos dadas, abraçar-se, encostar um corpo no outro. A "safadeza gay" consiste, na verdade, em violar apenas um dos códigos sociais, a heteronormatividade. Somente isso explica o tal raciocínio que opõe a vulgaridade do casal homoafetivo à educação do proprietário. A educação do proprietário é eleita em detrimento do comportamento vulgar do casal justamente porque não viola nenhum código social, pratica deliberadamente, na verdade, a defesa da propriedade privada. 
 
A defesa da propriedade privada justifica a homofobia ou a repressão sexual desde que as reproduza educadamente, não é de se espantar que essa mesma defesa da propriedade não permita que um casal homossexual se beije, nem mesmo educadamente. Ainda reprodutor dessa mesma ideologia é o adjetivo que se opõe à educação do dono do bar, a vulgaridade, com a ressalva de que vulgaridade não se aceita NEM MESMO de heterossexuais.
 
A repressão sexual na sociedade de classes está a serviço da manutenção da propriedade privada.

O componente conservador na moral burguesa pretende mesmo conservar a propriedade privada, na medida em que corrobora as regras que regulam as relações dentro da família, da sociedade e do Estado. A quebra desse formato, cuja base é ameaçada também por práticas sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, significa a quebra da estrutura que garante o gozo ilimitado da vida material de alguns, acompanhada da privação do gozo da vida material da maioria, mas que precisa, para se manter de pé, da miséria sexual da sociedade como um todo.

Qual a racionalidade existente em sentir-se incomodado ao ver pessoas se beijando deliciosamente em qualquer lugar, a não ser por motivos que se vinculem à defesa da família que tem base moral religiosa e automaticamente da propriedade privada e, portanto, da burguesia e de seu representante, o Estado? São perfeitamente naturais as relações: beijos, abraço e sexo. Quem será que verdadeiramente sente-se ofendido ao esbarrar na rua com um casal se agarrando intensamente no muro, deixando escapar gemidos, e se beijando descontroladamente, ou aviltado ao ver um homem beijando carinhosamente uma mulher na boca, ou ao ver um casal de homens de mãos dadas passando pela rua no fim da tarde, ou um casal de mulheres abraçadinhas cochichando no ouvido, a não ser aqueles cuja estrutura de caráter esteja formada para reforçar a moral da família e de uma sociedade milenarmente patriarcal? Somente isso justifica o fato de alguém se incomodar com terceiros que objetivamente em nada impedirão o livre transcurso de suas vidas.

 É irracional, no entanto, que duas pessoas não possam se beijar onde quer que seja, praticando sexualidade e afeto, saudáveis, práticas das quais compartilha todo o resto da humanidade, ou sua imensa maioria. O que dá ao dono de um bar ou a qualquer pessoa o direito de se sentir incomodado com essa cena? “Não é natural que vocês dois, sendo homens, se beijem numa sociedade heteronormativa, isso incomoda!”.  O que dá a ele esse “direito” é a normatividade sexual da sociedade de classes, sem a qual a mesma não sobreviveria.

 A moral deles e a nossa. O incômodo deles e o nosso!

Pois bem, se for para tratar de regras e exceções o que é que do ponto de vista de quem não tem propriedades, está incorreto? Incomoda que numa sociedade onde a regra é a expropriação da maioria dos produtores um proprietário que é uma exceção e, portanto, um privilegiado, possa defender a sua propriedade privada!

Desse ponto de vista, é perfeitamente compreensível que um indivíduo desses, que não tem propriedade alguma, considere um absurdo presenciar o motorista de um carro importado, cujo nome da marca desconhece e tampouco consegue pronunciar, penetrando a garagem de uma mansão toda adornada de cerca elétrica e alarmes de segurança, quando esse mesmo motorista tem contratada uma empregada doméstica que sobrevive com um salário irrisório em que metade é gasto no pagamento do aluguel de sua casa para a qual ela segue ao final de todos os dias de trabalho duro, a fim de descansar seu corpo, num ônibus lotado, com vários estudantes e trabalhadores, nenhum deles tendo posse nem mesmo de seu assento no ônibus, que, repetindo, tem a liberdade para seguir lotado, com o preço da passagem pela hora da morte. Para essas pessoas que nada tem, nem negócio, nem carro, nem bar, nem propriedade alguma, em nada interfere a livre expressão afetiva ou sexual de um casal, o que interfere na vida dessas pessoas objetivamente é o acúmulo de capital, os monopólios, oligopólios, a concentração de renda e de terras, isso as impede do gozo livre e pleno de suas vidas, nada mais.

Esse raciocínio, desvinculado da ideologia da classe dominante faz parte da lógica da classe trabalhadora, mas é inconcebível na semântica burguesa cujo axioma da propriedade privada, não faz, todavia, nenhum sentido, a não ser como tal e para quem interessa.

Entende-se como natural a atitude de um proprietário de bar de defender sua propriedade privada. E não se entende como natural a livre expressão do afeto e da sexualidade. Porque os corpos de todas as pessoas, além da força de trabalho objetivamente no caso da classe trabalhadora, precisam estar a serviço de quem tem interesses a defender, mesmo ao custo da liberdade sexual dos jovens, principalmente das mulheres, mais ainda, dxs homossexuais, e de todas as pessoas. Nesse sentido se pode constranger a expressão do prazer seja ele qual for, sob o pretexto irracional da defesa da propriedade, aliada à moral burguesa, da qual só se beneficia quem tem um negócio que gera lucro, um bar, o dono de uma mansão com quatro carros na garagem, um padre ou um pastor de igreja.

A questão são os interesses de quem não tem propriedade a defender. Não tem interesses dentro da sociedade capitalista, não cobra dízimo de ninguém ou mais grave ainda, além de tudo isso não se encaixa nos padrões heteronormativos. Que interesse têm esses em podar a expressão de sua própria sexualidade, de seus próprios corpos, o seu prazer, a sua liberdade sendo que não participam dos lucros gerados por essa moral?  Essa ideologia protege os interesses de uma minoria! A sexualidade e sua livre expressão, no entanto, são fruto da própria condição de ser humano, dotado de corpo físico. Corpo esse que irracionalmente, ninguém impede que se esgote de tanto trabalhar, mas que não pode desfrutar de suas expressões de sexualidade, cujo prazer e a realização plena são essenciais para a saúde mental e física.

A repressão sexual como base da ideologia dominante e a serviço da manutenção do status quo

A repressão do sexo e da sexualidade ocupam lugar estratégico na ideologia dominante, está a serviço da classe dominante, está a serviço do capital. Garante a formatação da família, a opressão da mulher, o machismo e, nesse sentido, a manutenção desse estado de coisas. A irracionalidade consiste em que uma pequena parte da sociedade detém os meios de produção, e a maioria da população trabalha gerando mais valia para os proprietários, que tem a favor de si toda a sua ideologia, que justifica a opressão aos homossexuais desde que seja educadamente e que coloca como vergonhosa a expressão da sexualidade e do prazer. Estabelece locais e horários onde se possa transar, expressar afeto, carinhos e carícias. Mas não estabelece horário nem local para a livre expressão da ideologia dominante, que oprime, reprime, machuca e constrange.

Divide, categoriza e escraviza os corpos, estabelece papéis a serem cumpridos. Relega à mulher a posição de frágil, sentimental, comportada, recatada, submissa, subserviente, mãe e cristã em oposição ao homem, macho provedor, viril, praticante incondicional de sexo (desde que com mulheres), separa os heterossexuais - cuja expressão livre do amor jamais será contestada - dos homossexuais, cuja presença sempre incomoda, não por ser diferente, mas por contestar a lógica reprodutiva burguesa, cristã e familiar, um dos pilares da propriedade privada. Divide quais expressões sexuais podem ocorrer em publico, abafa a sexualidade e o prazer, estabelece hora, local e regras pra tudo, exceto para a defesa a qualquer preço da sagrada propriedade privada.

A sociedade capitalista precisa apontar as diferenças como nocivas justamente no ponto em que elas são inócuas, na sexualidade, para assim limpar a cara das diferenças econômicas que, essas sim, provocam sofrimento, são mortais, vulgares e indecentes. Assegura-se que o capital sobreviva e se reproduza sobre corpos e mentes doentes, justamente porque doentes são fracos. A doença consiste em assumir papéis artificiais para sustentar uma pretensa imagem sem a qual, na sociedade burguesa, acredita-se que não se pode viver.

É necessário uma juventude subversiva, questionadora e transformadora. É necessária a construção de uma juventude revolucionária!

Até quando, é a pergunta, a juventude assimilará a condição clandestina de se relacionar entre pessoas, em dupla, do mesmo sexo, e somente escondidos, no escuro, nos porões da sociedade burguesa, enjaulados como bichos perigosos a serem domesticados, reprimidos como se fossem ilegais? Algum ser humano é ilegal? Aceita-se a condição de repressão dos corpos para garantir os direitos de quem? Do dono de um bar? Dos proprietários? Para os jovens estudantes e trabalhadores a lógica burguesa é vazia de sentido, não se justifica.

Estaria esse proprietário interessado em defender os direitos de alguém que não tem posses também? Não há reciprocidade. Ao que parece a maioria de nós continua defendendo os interesses da propriedade privada mesmo não tendo nenhum direito sobre ela. A lógica dos proprietários, no entanto, segue um caminho inverso, querem nos tirar o direito de decidir sobre a única coisa que temos: nossos corpos! Não, nós da juventude às ruas não compreendemos, não consideramos natural e repudiamos a atitude tomada pelo dono do bar, não porque ele foi grosseiro e mal educado, mas mesmo pela sua maneira delicada e educada de maltratar.

Entendemos e reivindicamos, nesse sentido, a atitude de todos os que conscientemente se posicionem e denunciem publicamente situações como essa. Atitude que reflete uma condição objetiva atual de toda a juventude no mundo inteiro.  Uma juventude cansada do moralismo doentio da burguesia, que não está mais disposta a abaixar a cabeça pra preconceito. Juventude não domesticada. Que não abaixa a cabeça pra homofobia! Disposta a tomar pela força os fuzis morais apontadas contra a nossa liberdade! Juventude que investiga as causas e os interesses nefastos da manutenção dessa moral absurda sob a qual padecem nossos corpos e nossas mentes!

ABAIXO A MORAL BURGUESA!
ABAIXO A HOMOFOBIA! ABAIXO O PRECONCEITO!
ABAIXO A PROPRIEDADE PRIVADA!
VIVA A SEXUALIDADE PLENA! VIVA O LIVRE PRAZER!
VIVA A LIBERDADE DOS CORPOS E DAS MENTES!
VIVA A LIBERDADE DE TODOS OS SERES HUMANOS!
 
                        POR UMA JUVENTUDE COMBATIVA, CLASSISTA E REVOLUCIONÁRIA!
                                                                   POR UMA JUVENTUDE ÀS RUAS!